O assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos,
tanto que o cadaver appareceu, no _Bêco dos Namorados_, com dez
punhaladas no peito.
Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade á patria, e
contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os
delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o
matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais
plausivelmente, que o padre acabára ás mãos dos vingadores do arcebispo
Sebastião de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delação
do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes
com approvação, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmão da manceba
do clerigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram n'ella a
menina que, dous annos antes, desapparecera de casa de sua familia
honesta e abastada.
Instaurou-se a devassa.
O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na
corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho
deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira
respeito á esposa do escrivão do civel da corte, illucidava cabalmente a
morte do padre Luiz.
No entanto, o escrivão do civel da corte continuava a exercer o seu
officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os
seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não succedeu o mesmo com Ruy
Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da
mulher teúda e manteúda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por
suspeito do homicidio.
Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandára suspender a
devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de
Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga,
havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.
Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy
Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo
que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, appareceu
na côrte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaçada por este
novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o
mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas
voltas, divulgadas por toda a cidade.
Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia
quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo.
O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que
lhe prestára nos passos anteriores á sua acclamação, principalmente nos
tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viçosa, já
pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mór
marquez de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução
das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite
por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a
circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente,
não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.
Perguntara o rei ao marquez de Gouvêa, quando se viu forçado a dar
satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que
sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que
o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso,
nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver
domestico:
--Mas vivem com apparencia de bem casados...--observou maliciosamente
o rei.
--Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real
senhor!--disse o marquez.--Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram
nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora.
Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade;
porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas
publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez
unica em que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava
em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas
que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher,
irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um
opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe.
Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe
sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este
argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu
ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter
enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre
ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver
amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas
ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que
despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e
riqueza...
--Tenho ouvido dizer que é muito formosa...--atalhou o rei.
--Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade
viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais
selecta de bellas damas!
--E o seu procedimento?
--Apparentemente bom--respondeu o mordomo-mór sorrindo--Digo
apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa
o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de
meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas
avezinhas innocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram pennas
das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que
ellas se guardem de perder a plumagem.
--Assim parece--assentiu o rei--Seja como for, Domingos Leite andaria
melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia
da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram
já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque
bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras
do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos
matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre,
como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra
de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é,
desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos
de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os
posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com
outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade,
não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão
porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite.
Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e
passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a
morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar
meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez
ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o
serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja
salvar o cumplice. O julgamento de Domingos Leite correrá os seus
tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.
O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao
rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem
dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão
carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com
todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.
Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a
delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se
era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro,
que ia em começo.
O rei respondeu:
--É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa,
infalivelmente.
O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão
ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas
arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco
d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a
lamina do algoz em 1759.
Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu
gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a
fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.
Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.
--Agradeço a sua magestade--disse elle--a permissão de levar commigo o
homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me
furto ás penas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta
para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha
filha--unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo
precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me
sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de
saudades d'aquella creancinha...
--Eu olharei por ella--consolou o marquez--Se não vier tão depressa
quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua
filha, logo que ella esteja creada.
--Não mande, sr. marquez...--acudiu Domingos Leite.
--Que não mande?! Porque não?..
--Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com
minha filha...
--Pois vm.ce não é rico?
--Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex.ª me dava.
N'este momento deixei de ser o escrivão do civel da côrte e o secretario
do mordomo-mór. Sou um assassino sem patria. Verdade é que meu pae, o
cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e
descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda
trabalha: mas eu não sei se elle enviará a um filho apregoado assassino
o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas
supplicas...
--Mas...--atalhou o marquez--O sr. Leite, desde que casou, tem parte no
grande patrimonio de...
--De Maria Isabel?--acudiu com vehemente repugnancia o
secretario--D'essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu
desdouro. E quando eu pensava que a minha honra havia de sahir depurada
d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre,
afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto á desgraça de
perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: não terei de
hora ávante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada
independencia. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr.
marquez. Aqui mesmo, se v. ex.ª me permitte, escreverei a meu pae, a fim
de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas
mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso
que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha
consciencia não perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os
encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.
O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira
escrevia, parando a cada palavra a penna, á espera que as palpebras
embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o
extremoso pai:
--Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não
posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a
v. ex.ª buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte
de angústia, sr. marquez! Eu queria que ella me não esquecesse; e, a não
ser v. ex.ª, quem lhe fallará de seu pai!..
--Vá com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes,
e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vêl-o
hoje á noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do
seu velho e inutil amigo.
Debalde o esperou.