Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora
pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da
Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.
O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e
maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto
que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe
espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria
Isabel Traga-malhas.
Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um
beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia
na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi
pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de
estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.
No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus
haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons
quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura
já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia
de S. Mamede, no _Bêco dos Namorados_,--nome gracioso que desdizia da
immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas,
por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das
extremidades no _Terreirinho do Ximenes_, local azado para amantes
clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das
Ave-Marias.
Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da
Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz
fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por
aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o
seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse
mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa
longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á
hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo
tendeiro a moça inquilina do _Bêco dos Namorados_.
Meia hora antes de elle entrar no _Terreirinho do Ximenes_,
precederam-no n'aquella paragem, desembocando das _Pedras Negras_[2]
dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e
sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar
qual d'elles projectasse a sombra do outro.
--Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado--disse Roque da Cunha a
Domingos Leite--A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto
mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados,
torno a dizer-t'o... Até logo.
Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao
collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais
comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada
traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda
immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que
nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem
desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias
de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou
infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe
a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos
inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com
que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal
amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na
consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe
horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem,
cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe
negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto
com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de
alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar ás mãos de um ébrio
furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o
ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a
aproximação da victima.
N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um
grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do
_Bêco dos Namorados_. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da
Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu
confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto
colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos
cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes,
resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.
Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço
contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que
pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima
estrugiam gritos _á-d'el-rei_.
A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára,
foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e
quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado
de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.
--O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!--murmurou Roque da Cunha--Olha
do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar,
que a barregan não se cala...
Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços,
esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.
--Não vais?!--disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava
da face direita--Tu és covarde ou sandeu, homem?
--Podemos ir que elle está morto...--respondeu tiritando Domingos Leite.
--Podemos ir que elle está morto?--replicou sorrindo--Cá te avirás com o
padre, se ressuscitar--volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a
calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás
Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.
Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto
boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem
cortar veia importante.
O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho
hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao _Beco dos
Namorados_, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um
cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse
na figura; porém, ajunctou elle:
--O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo,
poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a
fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a
certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que
fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde
tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais
depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é
cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não
brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem
era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão
do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes
que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse
matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da
Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real
capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te
andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da
consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu,
em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu
systema de ensinar raparigas?
--Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...--acudiu
gravemente Domingos Leite Pereira--Eu sou um homem triste como todos os
desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha
felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu
desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu
quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se
acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador.
Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a
dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco
vale.
--Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco--respondeu Roque da
Cunha--Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou
doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois,
trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim,
mandando-me da estalagem do hespanhol do _Largo do Forno_ umas empadas
de gallinha, e do armazem dos _Sete Cotovêlos_ algumas botijas do de
Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando
souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.
Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas
analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite
Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser
ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte
esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado;
e, chorando como nunca chorára, disse entre si:
--Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes
serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe,
que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora
da minha partida... para este inferno em que estou penando!
Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao
quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia
deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama,
agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o
rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou
n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.