VII

Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora

pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da

Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.

O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e

maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto

que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe

espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria

Isabel Traga-malhas.

Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um

beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia

na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi

pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de

estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.

No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus

haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons

quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura

já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia

de S. Mamede, no _Bêco dos Namorados_,--nome gracioso que desdizia da

immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas,

por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das

extremidades no _Terreirinho do Ximenes_, local azado para amantes

clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das

Ave-Marias.

Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da

Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz

fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por

aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o

seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse

mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa

longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á

hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo

tendeiro a moça inquilina do _Bêco dos Namorados_.

Meia hora antes de elle entrar no _Terreirinho do Ximenes_,

precederam-no n'aquella paragem, desembocando das _Pedras Negras_[2]

dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e

sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar

qual d'elles projectasse a sombra do outro.

--Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado--disse Roque da Cunha a

Domingos Leite--A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto

mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados,

torno a dizer-t'o... Até logo.

Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao

collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais

comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada

traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda

immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que

nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem

desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias

de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou

infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe

a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos

inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com

que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal

amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na

consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe

horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem,

cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe

negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto

com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de

alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar ás mãos de um ébrio

furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o

ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a

aproximação da victima.

N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um

grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do

_Bêco dos Namorados_. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da

Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu

confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto

colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos

cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes,

resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.

Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço

contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que

pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima

estrugiam gritos _á-d'el-rei_.

A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára,

foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e

quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado

de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.

--O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!--murmurou Roque da Cunha--Olha

do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar,

que a barregan não se cala...

Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços,

esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.

--Não vais?!--disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava

da face direita--Tu és covarde ou sandeu, homem?

--Podemos ir que elle está morto...--respondeu tiritando Domingos Leite.

--Podemos ir que elle está morto?--replicou sorrindo--Cá te avirás com o

padre, se ressuscitar--volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a

calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás

Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.

Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto

boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem

cortar veia importante.

O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho

hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao _Beco dos

Namorados_, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um

cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse

na figura; porém, ajunctou elle:

--O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo,

poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a

fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a

certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que

fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde

tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais

depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é

cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não

brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem

era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão

do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes

que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse

matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da

Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real

capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te

andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da

consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu,

em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu

systema de ensinar raparigas?

--Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...--acudiu

gravemente Domingos Leite Pereira--Eu sou um homem triste como todos os

desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha

felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu

desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu

quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se

acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador.

Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a

dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco

vale.

--Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco--respondeu Roque da

Cunha--Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou

doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois,

trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim,

mandando-me da estalagem do hespanhol do _Largo do Forno_ umas empadas

de gallinha, e do armazem dos _Sete Cotovêlos_ algumas botijas do de

Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando

souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.

Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas

analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite

Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser

ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte

esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado;

e, chorando como nunca chorára, disse entre si:

--Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes

serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe,

que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora

da minha partida... para este inferno em que estou penando!

Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao

quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia

deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama,

agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o

rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou

n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.

O Regicida · 第 17 / 57 题