Mãi!
Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das scenas descriptas no
anterior capitulo, chegou á porta da hospedaria, chamada do _Paço do
Conde_, uma carruagem, tirada por duas parelhas. Abertas as portas, apeou
uma senhora, dando a mão a um padre velho que descera primeiro, e logo
a creada. O padre, respondendo á pergunta do creado do hotel, disse que
a senhora condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e voltou a
receber as ordens de s. ex.ª
—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi o julgamento de um
academico chamado Casimiro de Bettancourt.
O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa á senhora condessa o
julgamento do academico, chamado Casimiro de Bettancourt? Pois será para
assistir á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!»
Volveu o padre, dizendo:
—É uma historia interessante, que parece novella, a tal do academico,
senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser
julgado o reu, e forçosamente condemnado, appareceu a declaração d’outro
academico, que mataram antes de hontem, confessando-se o matador. Em
consequencia do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade.
—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa ajoelhando.
O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem estupefacta: nenhum
ousava tugir um monossyllabo.
Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a pedir ao dono do
hotel a bondade de fallar com ella por alguns minutos.
O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa.
Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes á soltura
de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições
que o academico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle,
que o amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: e n’uma
especie de apostilla á narrativa contou a esquecida circumstancia de
ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do
estudante.
—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente a condessa.
—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vêl-o para se dizer:
«aquelle é um fidalgo dos antigos tempos!»
—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?
—Sei, minha senhora.
—De manhã tem a bondade de me guiar a casa d’elle?
—Pois não, senhora condessa?
O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa,
apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da
estrada real de 1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada os
passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas d’uma janella.
Certo fôra que a condessa nem sequer encostára a face ás almofadas do
leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e
ver se rompia a alva.
Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a creada para lhe dar do
bahú outros vestidos e ornatos.
Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de viuva opulenta:
modestia elegante, pompa meio velada pela côr escura do estofo.
O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi á
antecamara receber as ordens da condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que
tomaria uma chavena de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de sua
reverendissima.
Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demonio da
maledicencia lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle
comsigo, que a condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem ver
que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, e vai destruir
o bom nome que está gosando?? Mas não!—monologou elle, tornando sobre
si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou
saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, e o modelo das viuvas
honradas.
Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão e o estalajadeiro.
Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos Apostolos.
—É aqui—disse o guia.
—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me.
Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta do topo. O capellão
seguiu-a, gemendo.
Abriu uma creada a porta.
—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa.
Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam almoçando, e
noticiou que era uma senhora ricamente vestida a perguntar pelo sr. Ruy
de Nellas.
—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo.
—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que entre—disse Casimiro.
Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava á entrada, dizendo:
—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já conheci a voz do mano Ruy.
Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou de braços abertos,
e bocca tambem aberta.
A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:
—Parece que o mano duvida...
Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que não devia duvidar... Tu
tens vinte e cinco annos, Eugenia! Estás como te vi sahir de Pinhel!
—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, Ruy!... Pois eu
dir-te-hei que estás bastante alcançado. A vida de provincia é menos
salutar do que dizem as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e
dá-me uma chavena do teu café.
—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me convencer bem
de que estou acordado! Quem é aquelle senhor?...
—É o meu capellão.
—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se.
—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a condessa.
—É esta, aqui tens a minha Christina.
A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.
—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o.
Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a cabeça.
—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a condessa apertando-lhe
a mão.
E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.
—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do meu coração: aquella é a
minha Peregrina, e aquelle o meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José
Ferreira da Rochousa, nosso caseiro?
—Lembro.
—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro, que alli vês, é
Ladislau, marido de Peregrina.
—E estas duas creancinhas?
—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e unica de Christina, a
outra é filha de Ladislau.
A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava os olhos a
Bettancourt, unico da comitiva, que ficára de pé, no intento de servir a
hospeda, e dar a sua cadeira ao capellão.
—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, o meu orgulho,
a minha gloria, o meu Casimiro sem mancha de culpa, com a sua honra
illibada! Não foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus veio
mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como isso foi...
—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na hospedaria.
—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas munida, talvez, de
cartas para alcançares a absolvição de teu sobrinho em Coimbra?
—Não, Ruy—tartamudeou a condessa.
—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, sem saberes a
decisão do julgamento?!
—Dizes bem, Ruy... foi um palpite...
—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação! Agora vais
comnosco para Pinhel, não é assim?
—Irei. E hoje janto comvosco.
—Isso estava sabido!... pois então?!
A condessa disse a padre Francisco:
—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão, que eu passo aqui o
dia. Queira dar esta parte á creada.
Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo de Casimiro, que era
a parte mais alegre e arejada da casa.
—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro a condessa—É a
primeira vez na minha vida que digo isto!
Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa de Eugenia, e fez
um gesto compassivo, e outro que significára: «Não lembremos o que lá
vai.»
Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras disse respeitosamente:
—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!... Em volta da
riqueza, da formosura, e de um nome distincto costumam reunir-se muitos
amigos... ou, pelo menos, muitos que o parecem...
A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e disse:
—Lastima-me, não é verdade?
—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... não quiz dizer que
lastimava v. ex.ª... Quaesquer que tenham sido suas magoas, a sua elevada
posição não consente que eu me condôa...
—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla aqui em magoas, nem dó, nem
lastimas! Este meu Casimiro tem uma propensão para discursos tristes, que
nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que elle disse á beira da
sepultura do Guilherme, ia arrancar ao fundo do coração as lagrimas de
quem nunca tivesse chorado!
—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou Casimiro.
—E deve ter chorado muito!—disse ella.
—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, ou muito forte. A
mim as grandes angustias levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado
por cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer minha filha,
e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de uma ave, a quem mataram os
filhos no ninho. Isto será deformidade de organisação; mas dureza de alma
não é, minha senhora... Meditando na minha indole, vim a considerar que
para mim o incentivo das lagrimas é uma certa poesia funebre e maviosa,
sensação que eu não sei d’outro modo definir; ao passo que as desditas
positivas, cerradas e suffocantes regelam-me a alma.
—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu o fidalgo.
—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa.
—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou incorrigivel e tenho
contagio. Aqui está a minha Christina absorvida tambem na sua meditação...
—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com alegria nas tuas tristezas
passadas, meu Casimiro.
—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem no presente,
descubram o futuro, e não me afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver
que a minha Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras muito, menina!
O teu gosto eram sombras de arvores, fontes, ver o céu de noute... Aqui
estou eu tambem a fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o
Casimiro que a sua scisma é pegadiça!...
—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu genro, que o passado te
aborreça...
—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas grandemente com elle!...
—Porque não!?
—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro.
—Isso quando se diz, faz-se.
—O quê, senhora condessa?
—Disse que me beijava as mãos... então... beije.
Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, que lhe apertou
vertiginosamente a d’elle.
Este visivel estremecimento impressionou Christina e Peregrina, que se
encararam de um modo que podia ser duvidar do bom senso da condessa.
—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira sentar-se ao meu
lado. Meu mano já me disse que o sr. era filho de um militar, que morreu
no cêrco do Porto.
—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.
—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu?
—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez. Estava eu no collegio dos
Nobres, quando elle morreu.
—Sabe em que anno nasceu?
—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai.
—Escriptos por elle mesmo?
—Sim, minha senhora.
—Dá-me licença que os veja?
—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira de meu pai...
A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega ancia, a carteira, que
folheou.
—Onde é?—disse ella convulsiva.
—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe a pagina, que a
condessa leu:
_Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. Foi baptisado em S.
Domingos de Santarem aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde
sahiu em 1820..._
A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante da nota. Fechou a
carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. Depois, pregou os olhos no
rosto de Casimiro, e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que
muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e uma explosão de
lagrimas em que a luz da vista parecia innevoar-se.
—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro.
E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a mão de Bettancourt,
ergueu-se de impeto e disse-lhe:
—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta d’agua.
—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é abafada... Abram todas as
janellas... Queres tu descer ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos
todos.
—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...
—Costumam dar-te estes accessos, mana?
—Costumam...
Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez se lhe tingiu de
escarlate febril o rosto.
—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado.
—Que cuidas?!—perguntou Ladislau...
—Esperemos.
A condessa affastou das fontes os cabellos empastados de suor, e disse
cortando as palavras de suspensões, que pareciam o abafar de mão estranha
na garganta:
—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até...
—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do major.
—E depois...
—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo de parentes pobres.
—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio perguntando se existia um
filho do major Duarte Bettancourt?
—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E quem se interessava
em saber se eu existia?
—Quem?...
—Sim, minha senhora.
—Era eu.
—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro.
—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo.
A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e disse:
—Com o fim de saber se existia... meu filho!
Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito, empedrada na invasão
da lava fulminante. Uns a outros, com olhos pavidos, pareciam pedir o
claro sentido d’aquellas palavras.
Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios á expedição
do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo umas allucinações de ebrio.
Dos olhos de sua mãi afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam
de lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros, ha só o
termo «estupefacção» que os descreva. A condessa oscillava outra vez
assoberbada pela commoção nervosa; já se não sustinha, com as mãos
apoiadas nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços como a
pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e n’elle inclinou a face,
exclamando:
—Meu filho!...
Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas, levando as mãos ás fontes.
Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras, sem segura
consciencia do que faziam, foram amparar a condessa. O vigario pôz
as mãos em attitude de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito
contemplando o grupo.
De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou o rosto pallido
da condessa, beijou-a na fronte e disse:
—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, e havia de encontral-a!...
Então, chorou, a torrentes!
Se não chorasse enlouquecia.