Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de Bettancourt. A faisca
electrica de enthusiasmo, recebida nos lances do tribunal, conflagrou
animos juvenis, em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa;
por maneira que, as duas familias levavam um prestito de centenares de
mancebos, urrando vivas á academia, e morras aos futricas e aos soldados.
Casimiro parou algumas vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a
cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas vozes, a pedirem
sangue e vingança?
—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta rapaziada não
tem quem a governe!? Pobres pais e mãis!
Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, que vinham
chorando de medrosos da vozeria, Mafalda nos braços do avô, e o filho de
Ladislau nos do padre João.
Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento que a
turba desattendia, clamando sempre vingança, e pedindo ao academico que
tomasse o commando dos estudantes para vingar a morte do valente que o
defendera a elle.
Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, pacificando
os animos, ou enganando-os para mais azado lanço. A custo, porém se
dispersaram, comprommettidos a reunirem-se no sahimento de Guilherme Lira.
Aquietou-se a rua.
O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes os braços em
volta do pescoço. Alegremente conversou, ora queixando-se de não o terem
muitas vezes importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes em
dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.
—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos para Pinhel, que tu
não tens necessidade de ser official com tanto trabalho. A legitima de
tua mulher vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto eu
viver, estareis em casa, sem dispender do vosso. É preciso pagarem se
as dividas de dinheiro, que as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é
um grande moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João sei eu
bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas telhas, e ha de vir a ser
bispo, se a virtude é qualidade para ser bispo. Em quanto á cachorra da
Peregrina, esta, se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que
está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? Talvez pensem
que se eu quizesse dar madrasta á minha Christina, andaria muito tempo
a farejar nas boas familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro,
deixa-te de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta os cazeiros
da nossa casa, melhora-me os bens livres quanto pudéres, bemfeitorias e
mais bemfeitorias nos prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que
possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos fidalgos. São
uns lacaios todos, desde o morgado até D. Alexandre, e a minha Guiomar lá
se fez com elles, que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos!
Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não jantam? O contentamento
é boa iguaria; mas vejam sempre se me guizam o contentamento com umas
batatas e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, e eu o
resto.
Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, visto que em casa
ninguem atinava a saber onde estavam as panelas.
Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:
—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o succedido. Tenho vontade
de a vêr; não queria morrer sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos:
era um lyrio de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha não
póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... Bella vantagem,
não tem duvida!... Talvez a convide a vir passar comnosco em Pinhel
alguma temporada; mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado que
a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada por tudo que tem um
nome grande na aristocracia e na politica. Será ella constitucional?
Isso lá me custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella herde
as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados em dinheiro, que os
vinculos foram a quem tocaram. Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem
filhos.
Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até que chegou Ladislau
com dous moços carregados de vitualhas. Á excepção de Ruy de Nellas, os
convivas debicaram levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente
no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se a repartir o prato
entre os pequenos. Não parecia ser a satisfação da alma que lhe tornava
fastidioso o alimento; pelo contrario, revia-lhe o semblante uma
extraordinaria melancholia.
É que o moço via diante de si continuamente a imagem de Guilherme,
que, vinte e quatro horas antes, tinha dito a Christina: «Ámanhã já
v. ex.ª janta em casa com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua
mágoa para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres estavam, e
perdoavelmente esquecidos do commensal do dia anterior, áquella hora
amortalhado!
Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, e ir buscar sua
vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle anno era o segundo já
perdido. Entrou-se da certeza que a desgraça lhe atravancava o caminho
das sciencias. Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da
mathematica, e ia desatar-se para sempre e saudosissimo dos seus livros,
das suas oito horas de estudo, da sua banqueta de pinho pintada, e de
toda aquella pobreza limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em
jaspes, mognos, razes e ouro.
O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, entrar no goso das
honras da illustre familia, ostentar a benemerencia da sua probidade,
regendo a avultada casa, vingar-se assim pacificamente dos de Miranda,
nenhum d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal o
dizer que Bettancourt mais se queria refugiar no casal de Villa Cova com
sua mulher e filha, e antes de melhor rosto acceitaria o seu prato á
meza de Ladislau? Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava em
Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó meus amigos, a minha
dôr inconsolavel será deixar-vos. Eu hei de fugir sempre para as vossas
serras, em quanto tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e
minha mulher nos dias de desamparo!»
—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia o fidalgo.
—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se hoje um
meu amigo.
—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; comtudo, cada coisa tem
seu logar. Conversa com a gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu
me não persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.
Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:
—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. Eu poderia esperar
muitas melhorias á minha sorte, que ainda hontem era desgraçadissima
no dizer do mundo; porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão,
tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se eu...
—Não me dês sempre _excellencia_, Casimiro; chama-me alguma vez pai, se
queres que eu te chame filho.
Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando o maior quinhão do
contentamento d’aquella adopção paternal, abraçou-se ao pescoço do velho,
e acariciou-o infantilmente.
Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.
—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.
—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.
Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou a piedade do amigo.
Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o compadre. O vigario
ficou em companhia de Ruy e das senhoras.
Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da escada, disse-lhe em
modelação supplicante:
—E se houver desordem?...
—Eu farei que haja paz, minha filha.
—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?
—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, Christina, não
appareças assim diante de teu pai, que me accusará de duro para ti. Bem
sabes que sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.
Sahiram.
Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As alas negras moviam-se
vagarosas, tristes e com os olhos em terra. Ao lampejar das tochas
rebrilhavam muitas lagrimas.
Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, diziam: era
um engano. Guilherme morrera, suicidando-se. É verdade que, no correr de
quatro annos, mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa aos
academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes respeitavam a batina,
porque Guilherme Lira vestia uma. Sobravam razões de gratidão áquelle
desgraçado; mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já valentia;
fôra um ir metter o peito ás espingardas que o abocavam.
Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro sahiu de entre a
multidão que rodeava a sepultura, e lançou sobre o cadaver a primeira pá
de terra. Depois cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos
da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:
—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo que deixou mãi
n’este mundo; n’isto parou o grande alento d’onde os infortunios da vida
desviaram as torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo do
bem, se melhores condições da mocidade o não houvessem saturado de odio
contra o mundo. Eu sei a historia d’esta existencia perdida, senhores.
Este moço era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; achou-se
vasio de amor; e repletou-se de peçonha e odio. Cansou-lhe a coragem
para a resignação; sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega,
sêde voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação nem sempre
venceu o instincto do céu com que fôra dotado este moço. Aquelle homem
teve tantos amigos, tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de
mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se não vissem: eu hei
de choral-as longo tempo... Vós sabeis que as portas do carcere se me
abriram hoje, porque esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença de
centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora cruz, vos juro que
acceitaria a minha prisão perpetua em troca da vida d’este homem, que era
vosso, assim como tinha sido meu defensor...»
—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de estudantes, que agitavam
os gorros, e as tochas.
Espectaculo para terror era aquelle em volta de um cadaver!
E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:
—Vingança!
Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:
—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas mãis, em nome das cans
do velho pai, que espera amparar-se em vosso braço! em nome de vossas
irmãs que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das almas candidas
que vos sorriem ao coração dias de maior felicidade! Paz vos peço eu,
meus amigos, apontando-vos este moço que está por aquelles labios frios
contando o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se
um homem da estrada, onde ha espinhos, para tomar pela estrada onde ha
abysmos. Que util lição, que excellente preceptor não está sendo este
cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.
Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai o amargor das
lagrimas que verterá cada uma das santas do amor, se um de vós cahir
n’aquell’outra sepultura. Consenti que eu falle n’este instante pelo
brado de todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de vós
pedem: «Paz, meu filho!»
Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração alta do immoto
auditorio. Retirou-se elle da margem da cova, e caminhou triste por entre
a multidão, que deixára pender o braço sobre a arma escondida sob a capa.
D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, e o silencio d’aquella
sepultura estendeu-se pela face da cidade.
Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, o sogro, o
vigario e Peregrina.
—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.
—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse o vigario.
—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de os lastimar—respondeu
Casimiro, dando o braço ao sogro, cuja sensibilidade lhe quebrantava as
forças.
Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram as senhoras os aprestos
para a jornada no dia immediato á tarde. O velho futurava o rompimento de
alguma revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro, e a
fortuita desgraça de ser empenhado pela honra a coadjuvar o partido dos
estudantes.
* * * * *
A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado,
despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac,
no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito
da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece
que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia
castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça
nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e
rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta,
e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos
visinhos, e bradavam-lhe:
—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do
sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura.
O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados
em obscenidades de alcouce.
De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito
ensopado no proprio vomito.
Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o
rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto
entre as mãos, e chorou.
Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.
O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a
prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que
has de ser desgraçado, meu filho.»
—Porque?—perguntava elle.
—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje
escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o
coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo,
serás honrado!
E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as palavras de sua
mãi!... Era o seu anjo da guarda que as recebera então, e agora lh’as
offerecia á memoria, como lenimento unico d’aquella funda ulcera do
descredito, desgraça, e infamia.
Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de Coimbra, foi caminho de
Lisboa, d’ahi pediu sua legitima a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte
e tres annos que foi, e não voltou.