D. Sueiro acrescentou:

—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma vez... Estou a ver

quando o tio Ruy de Nellas recebe o genro em casa. Já lhe baptisou o

filho, e, escrevendo a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O

tio Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.

* * * * *

Foi para Coimbra D. Alexandre.

Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. Avisou-o de

Villa-Cova. Christina exultou; mas, seis dias depois, recebeu novo

aviso: o sicario partira aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas

informações deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, industriado

por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho á casa dos Alarcões, e lá

ficára servo de lavoura.

D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com estupido ardil: já se

lhe não dava que se lhe imputasse a morte de Casimiro; e, para desviar

suspeitas de braço estranho, escondia o matador em casa.

Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos escusos da casa. Os

frequentadores dos jantares de D. Alexandre guardavam delicada reserva

ácerca da desgraça do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez por

outra, dizia:

—Tenho sêde de sangue!

Ou, bebendo até cahir, exclamava:

—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra de vinte gerações de

fidalgos de solar conhecido!

Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito Guilherme Lira.

Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos seis annos

subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu á famigerada «Sociedade

da Manta»[5]. Era o pau mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal

inimigo de poltrões.

Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel ao covarde; se

fosse odio, tel-o-ia desorelhado.

Observou Guilherme Lira que em casa do visinho D. Alexandre estava um

homem de cara sinistra, o qual se escondia no escuro da casa assim

que nas janellas fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o,

accendendo o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando com aquelle

especial geito das féras humanas, vesadas ao tracto da taverna, da feira,

e da encruzilhada.

Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. Depois do

facto da ponte, estando elle com o seu bando de bravos na Calçada, viu

Casimiro, que vinha com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do

furriel, e disse, com os olhos em Christina:

—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.

E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:

—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, que te queria entregar o

macête da minha loja!

Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e modestamente a

mão.

Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil

visinho traçava a morte de Casimiro.

Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe:

—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu

te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer.

—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a

besta-féra.

—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses

mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te

quero roubar tempo.

Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro

academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção.

Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o

assassino, sob o disfarce de estudante.

A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes

estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o

alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do

mano e pasmava da demora.

Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do

Arco, que faz a extrema da _Couraça dos Apostolos_, onde morava Casimiro,

e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o

disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou

remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro

estudava até duas horas da manhã.

As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as com estrondo seria

derrancar o plano.

Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á janella, e desfechar-lhe

um tiro.

Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica havia de

reprovar o covardissimo feito.

Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.

Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em sete noutes

successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. Queria elle egoistamente

para si a cabal satisfação de castigar os miseraveis, sem incommodo do

estudante. A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á espera

de lhes comprehender o intento, e cahir sobre elles no momento de o

praticarem.

Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta catastrophe, como se

vida de pai, irmão, ou amada corressem perigo!

Sublime doido! Sympathica loucura!

O Bem e o Mal: Romance · 第 34 / 54 题