Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos de Christina,
retomando ao seio a filha, que seu pai e irmãs tinham beijado. Casimiro,
homem não estranho a vanglorias, que parecem ser condição das indoles
arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua filha acariciada
pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas verduras dos dezoito annos,
sinceramente invejava. Ó barro humano!
Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, e esperava que o
anno decorrido esfriasse a vingança de D. Alexandre, estando elle de mais
a mais como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era tambem
este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, ainda assim, dizia
contrariando:
—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; é a unica força, a
energia tenebrosa, que lhes deu a natureza.
No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com maior familia, o pobre
grangeador do futuro. Doia-lhe ter de augmentar suas despezas, sahidas
todas dos celleiros de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto coração
de Ladislau entender em pacificar o espirito do seu amigo, fazendo-lhe
sentir que escassamente lhe emprestava uma parte das sobras de suas
colheitas. E santamente mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto grande,
era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, e urgentes ao consummo e
vestir de sua familia. O que elle estava dispendendo era dinheiro antigo,
que encontrára, ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do armario de
pau santo, em que seus tios padres iam annumerando algumas moedas, muitas
menos que as derramadas pela pobreza.
Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe sua legitima
materna. Casimiro, antes que ella expendesse o seu pensamento, atalhou-a
n’estes termos:
—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro metade do seu
estipendio de cada dia.
Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.
Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, observando-lhe
que era crueldade obrigal-o a faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy
de Nellas que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de vida.
Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram em Coimbra,
repetiram-lhe as calumnias divulgadas, fingindo não acredital-as. O mais
sincero e rude ousou dizer-lhe:
—Déste um mau passo em fugir.
—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia em Coimbra,
chamou-me, e eu fui.
—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.
—Nunca fui desafiado.
—Como não foste!?
—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria a proposta.
Não jogo friamente a vida, que é de minha mulher e de minha filha, contra
a vida de D. Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida do
mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem provará a sua honra,
batendo-se com victoria, nem o vencido terei em conta de deshonrado. O
duello póde significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria de
um infame, nunca.
—Mas decididamente não fugiste ao duello?
—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt molestado.
—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso de tua dignidade.
A academia acreditou em D. Alexandre e nos propagadores do boato.
Appareceram homens a dizerem que tinham sido agentes do desafio.
—Mentiram.
—Mas a mentira vingou.
—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e achei-me forte na minha
consciencia.
—Mas a opinião publica...—voltou o academico, espicaçando, em nome da
opinião publica, o animo impenetravel do marido e pai.
—Que queres que eu diga á opinião publica?
—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.
—Não desço.
—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?
—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em constituir a academia
meu juiz? Além de que, meu amigo, eu venho estudar. Falta-me o tempo
para o util: como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade
publica? Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e elles julguem-me a
seu sabor.
—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha missão de amigo.
* * * * *
Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias em Miranda,
soubera que D. Alexandre sahira para Coimbra, e o desertor ficára. A nova
agradou a Casimiro, receioso dos sustos da senhora.
Recomeçou o academico os estudos do segundo anno com fervor. Sabia que
seus mesmos condiscipulos o detrahiam, lamentando, como usam lamentar
inimigos, a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do botequim
da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado de varios modos, todos
estupidos; que a malquerença faz timbre em ser estupida, quando não póde
ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. O pai extremoso
abroquellava-se com a filhinha, e dizia á esposa:
—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, minha amiga. Infamam-me
lá fóra; mas diz-me tu, filha, que eu sou digno de ti.
N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, vindos da Quinta das
Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.
D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos estudantes nas
guardas da ponte. Ao perpassar Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu
aquelle grunhido peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade,
em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o amigo na _trossa_.
D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes no momento em que
persuadem-se não o serem, disse:
—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação e baixeza d’alma.
Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma timida! Voltou-se
contra o parente, e respondeu:
—É muito infame!
—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente o braço.
D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, indifferentes ao
conflicto, disseram-se:
—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que deixa assim insultar a
mulher! Comprehendam lá a decantada historia do botequim!
Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido por seus
dialogos com Casimiro. O marido de Christina aproximou-se d’elle e
disse-lhe:
—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha mulher, que eu volto já.
—Não!—exclamou Christina.
—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa nunca lhe vira.
E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento na serenidade do
passo.
Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:
—É elle que vem!
O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara a receber o aggressor.
Não era isso. O mêdo pesa como chumbo na região abdominal. Foi o gravame
do mêdo que mecanicamente o desceu.
Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e com a direita levou-lhe
a cabeça a aresta da guarda.
Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces instinctivos da
defeza, o aggressor abarcou-o pela cintura, no proposito de o despejar
ao Mondego. Acudiram-lhe muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o
furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou com impetuosa
furia, e viu Christina, que punha as mãos supplicantes. Descurvou os
dedos da garganta do estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar
quieto, com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar que o
sujeito acabava de abraçar um amigo!
Grande parte da academia parecia andar envergonhada depois d’este
successo. Os detraidores, chamados por algum amigo de Bettancourt, a
dizerem ácerca do facto, corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os
suppliciava.
O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, seguiu-lhe os
passos a casa, abraçou-o com transporte, e exclamou:
—Tu és um grande homem!
—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu Casimiro.
—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.
—Que eu sou um assassino.
—Um bravo! um modêlo de dignidade.
—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas de creancinhas.
Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo viril para aggredir o
insultador, estava agora chorando sobre as faixas da filhinha. Casimiro
aconchegou-a de si e murmurou:
—Então? que é isso, filha?
—Tremo pela tua vida, Casimiro!
—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto por D. Alexandre, nem por
assassinos de sua paga.
O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na cama uns quinze dias:
parece que o granito lhe entrou dentro obra de meia pollegada, sendo que
em tal cabeça nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada a brecha,
metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente foi para casa.
Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube que chegara a
Miranda D. Alexandre de Aguilar, de cujo infortunio na ponte já estava
informado por carta de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a
vigilancia sobre o scelerado.