—Pois sim, disse ella muito de riso e mimo, mas se tornas a assustar-me,
arrependo-me de não ter respondido ás cartas do idiota Alexandrinho...
que vamos encontrar em Coimbra... Não sabes que elle está em Coimbra?
—Sabia, e então? Dar-se-ha caso que a vergontea ostro-goda me queira
cahir sobre as costas? É preciso temer os Vito Alarcões!... Deus nos
defenda!
Festejou ella muito os tregeitos de medo comico com que Casimiro
abrenunciou o rival temeroso, e não pensaram mais n’isso.
Tomou o estudante uma casa menos de modesta, fóra de portas em Santo
Antonio dos Olivaes. Em redor da casa fechava-se o arvoredo de alamos,
platanos e choupos. A mobilia era rigorosamente academica: as conhecidas
cadeiras como inventadas para descadeirar os occupantes; a meza de pinho
pintado de verde; a tarima de espaldar de taboado com silvas de flores
amarellas, imaginarias, e superiores ás mais inventivas das florestas
americanas. Tudo isto, porém, e o restante, que pouco mais era, limpo,
repintado, e lustroso alegrava a casinha. Depois era no mez de abril,
o abril de Coimbra, regorgeado de aves, arrelvado de boninas, copado
de sombras, e harmonioso de murmurios. E, depois, o amor, a paz, o
descanço de tamanhas batalhas, aformosentavam a vivenda de Santo Antonio
dos Olivaes, o amor, por sobre tudo, alindava, encantava, e vestia da
innocencia e das alfaias do eden aquelle silencioso abrigo de duas almas
fugidas ao mundo, e recolhidas em si e em Deus.
Principiou Casimiro a recordar os seus passados estudos, emquanto corria
aquelle anno lectivo, para no immediato se matricular. Raras vezes ia
á cidade dar conta ao leccionista dos seus estudos preparatorios. Como
o tempo lhe sobejava, lia ou ouvia ler Christina, que dava aos livros
unicamente as horas feriadas das suas occupações domesticas. Raro dia,
deixavam de escrever algumas linhas a Ladislau e Peregrina, dizendo
aquelles nadas que são um nunca findar entre pessoas que se presam.
Desceram, uma tarde de junho, ao Mondego, e subiram á beira da margem
esquerda. Paravam a intervallos para ouvirem o rumoroso suspirar da
folhagem, e o soido da limpha sobre que os salgueiros se dobravam a
remirar-se no espelho limpido.
Christina inclinou a face ao seio de seu esposo, e murmurou tão de leve,
que parecia afinar a voz pelo som d’aquellas harpas eolias da ramagem:
—Como somos felizes, ó Casimiro!...
—E eu cuidava que não havia felicidade n’este mundo! disse elle,
comprimindo-lhe a face com a mão tremente de meiguice.
—Como não ha de havel-a para os que amam o Senhor, e não fazem mal ao seu
semelhante!
—Eu devia esperar este bem, Christina; porque fui muito desgraçado... Não
fui?
—Eras... mas, desde que eu te amei...
—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que eu me vi pobre,
desvalido, sem pai, sem mãi... Que palavra, Christina!... MÃI!... Nunca
os meus labios proferiram esta palavra no seio de uma mulher! Nunca, nem
na minha desamparada orphandade, correu para mim uma mulher chamando-me
filho!... Como pude eu ser privado das caricias de minha mãi!? Como pôde
ella abandonar-me, e esquecer-me!? Porque não disse meu pai se ella era
morta?!...
—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não quero!... Vem cá!
Olha, Casimiro, eu chamo-te filho, filho de minha alma, do meu coração!
Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares, eu te consolarei,
com um carinho, que as mãis não sabem. Defender-te-hei com mais coragem
que ella. Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho. Se Deus
me der filhos, heide amal-os menos que a ti, meu amado esposo!... Vês-me
tu a mim triste por ter deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai
aborrecia-me e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor de ti, Casimiro,
por amor de eu te querer dar esta felicidade...
—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não me lembres
o que soffreste, que eu cuidarei que me argues de ingrato. Olha que a
minha tristeza é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai, e os
seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi, que nunca vi; são uns
desejos, que parecem vaticinio de que hei de ainda encontral-a. Vê tu
que loucura, que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade
do céu que me fazem scismar assim... As pessoas, que têm a sua alegria
circumscripta ao curto espaço da sua casa, não devem vir meditar nos
lugares em que o espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza
está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo, e doe-se
da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave pelo azul do céu fóra, e
dizer: «onde irás tu?» É desejo de romper esta rêde de ferro que nos
cerca, rasgar os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo irei
com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E a devanear n’isto,
accordam-se na alma todos os enlevos e saudades... Então vejo a sombra de
minha mãi e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso é o
meu accordar, porque te encontro, ó anjo da minha vida!...
E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as lagrimas, exclamando:
—É assim que minha mãi devia chorar, quando me lançou de si!...
—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu coração, filho!