O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, que se arqueia
sobre a casa de Villa Cova, foi saudado com o agitar de dous lenços
brancos. O moço, segundo convenção feita, apeou, cortou uma haste de
castanheiro, arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de cima da
cavalgadura, deu-se pressa na descida.
Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se aos braços de
Peregrina, e foram ambas ajoelhar diante do oratorio. Como a alegria as
não deixava exprimir palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com
Deus.
Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as duas senhoras,
arrebatadas como se a boa nova igualmente as deliciasse ambas, correram a
ouvir a confirmação do que disséra a bandeira branca.
—É certo?—exclamou Christina.
—É certo, minha senhora.
—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou ella.
—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o criado já.
—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a nova. E meu pai está bom? e
minhas irmãs?
—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, como tem bom coração,
Deus o socegará.
Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, entre risonho e
lagrimoso, gosava o não menor quinhão de sua alegria.
Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua para sahirem ao ingreme
e despedrado caminho da igreja.
Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, no viso da serra
interposta, e lobrigaram um vulto.
—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É meu marido!
Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e murmurou:
—Que dizes, Christina?
—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.
E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, foi cingir com o
peito o sereno Ladislau, que ficara segurando as redeas da egua.
—Meu salvador!—exclamou o moço.
—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que amam!—disse Ladislau e
ajuntou logo:
—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.
—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, que está ao fundo
da serra, e eu, com licença d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa
de Villa Cova.
—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.
—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, Casimiro.
—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará ao braço de seu marido,
minha senhora.
Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua para ella saltar ao
albardão.
Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o
vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando
do peito, quanto pôde, a voz, gritou:
—Cá vamos todos.
E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o
vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo
dia seguinte.
E subiu a ladeira até encontrar o grupo.
—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao
cunhado.
—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.
E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os
successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era
generoso dizerem-lh’os.
Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario
sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os
contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos.
Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em
seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes:
—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias e para as provações.
Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao
outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas
de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e
fortaleza. Deus os tenha de sua mão.
Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa
Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o
segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros
creados.
A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor
que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente
foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a
louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o
com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta
que o não deixou sentir a sua felicidade.
Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o
vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia.
Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as
tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das
flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o
peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com
amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se
não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar
estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna.
—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber
espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus!
Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer,
tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a
fim de se conversarem cousas muito importantes.
E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns
altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para
darem testemunho de um feito d’outras eras.
—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario,
logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um
castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas.
Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:
—Porque não has de ser tu?
—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu.
—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse—o sr.
Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para
vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser
póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e
arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me
affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros
dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que
empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando
assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr
cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos
abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os
braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio,
estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas.
—É verdade—disse Casimiro.
—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser
militar.
—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é
má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora.
—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em
Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu
offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em
qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me
pagar o adiantamento que fôr preciso.
—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo.
—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o
consentimento; mas não dá dote.
—O dote de minha mãi...—tornou ella.
—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de
sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o
sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua
independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá
para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança?
—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz
intima que eu poderei desempenhar-me.
—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.
—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou o vigario.—O principal
estimulo que o sr. Casimiro leva para o seu engrandecimento é querer
mostrar a seu sôgro que se fez homem.
—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro, abraçando o marido de
Peregrina, a qual já estava chorando, quer fosse a proxima ausencia de
Christina, quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a enternecesse a
lagrimas.
Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos com destino a
Coimbra. Ao despedirem-se, como Ladislau levasse á mala de Casimiro o
dinheiro contado para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu
dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que seu tio lhe dera.
Mestre Antonio, que fôra assistir á despedida do sobrinho, resistiu ás
instancias de Ladislau, não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua
liberalidade ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho uns brincos
de ouro, que elle chamava _cabaças_, os quaes tinham sido de sua mulher.
Liberalidade dissemos; e, com tudo, o valor real do presente orçava
por dezeseis tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria,
e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer a sublime rudeza
do coração do operario! Dera a sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás
escondidas, enchugar as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de
sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo das montanhas, direi;
do povo, que ainda não sahiu á praça vociferando que é rei porque é povo.
Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que usava em casa de
seu pai, e adornou-se com os modestos, que lhe dera o artista; depois,
voltando-se a Peregrina, disse-lhe:
—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da amiga que vai subsistir
dos teus beneficios? E, tomando-lhe a cabeça contra o seio, obrigou-a
suavemente a receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces.
—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora e amiga vai mais
enfeitada com a dadiva do pobre.
Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo vigario, irmã, Ladislau
e Brazia. Mestre Antonio não houve rasões que o demovessem de ir a pé ao
lado de Christina, até ao Porto.
Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de Pena verde, encontraram
um feitor da casa de Ruy de Nellas, acompanhando duas cargas de bahus.
O feitor, pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia
cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina porém, que se
não julgava despresivel, perguntou ao seu antigo creado d’onde vinham
aquelles bahus.
—Do Porto—disse breve e seccamente o conductor.
—Que levam?
—O enxoval da sr.ª morgada.
—Pois a mana Guiomar casa?
—Casa á vontade de seu pai—tornou o feitor, carregando de censura as
palavras, e collocando-se de esguelha.
Casimiro Bettancourt, que presenceara o dialogo, desceu ao pateo da
estalagem, onde estava o feitor; travou-lhe das lapelas da jaqueta, e
disse:
—Olha de frente para a filha de teu amo, e responde-lhe.
—Já respondi—disse o homem um pouquinho inquieto da segurança da sua
pessoa.
Casimiro perguntou á sobresaltada senhora o que queria ella saber do seu
creado.
—Nada...—balbuciou Christina, temerosa do resultado.
—Descobre-te—disse elle ao creado.
O feitor tirou o chapéu com as mãos ambas.
—Diz áquella senhora com quem casa tua ama, e responde ao mais que ella
te perguntar.
—Casa com o sr. D. Sueiro, de Miranda, que a foi pedir, e tambem ia pedir
a sr.ª D. Christina para o sr. D. Alexandre.
—Deixa-o, deixa-o!—disse Christina.
—Levas as duas orelhas—ajuntou Casimiro, largando-o—porque és creado do
sr. Ruy de Nellas. Tu consideras menos a filha de teu amo do que eu os
seus lacaios.
E, tornando ao quarto de Christina, disse-lhe risonho:
—Que excellente casamento te fiz perder!...