—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha casa um raio!... Deus...
não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo
quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de
meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando
a cova!... Quando ha sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a
morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o
meu unico filho varão. Resisti ainda. Depois vi cahir o Senhor D. Miguel
do throno á miseria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora...
agora... esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres infortunios
passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou a meu lado um dos seus
apostolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da
religião. Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão do
convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou tres noutes á cabeceira
do meu leito, quando enviuvei. Elle tinha experimentado a minha dôr,
porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua
mulher...
—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.
—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois o marido de
Peregrina é filho d’aquelle predestinado, a quem eu recorro ainda nas
minhas angustias?
—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance do Senhor o socego
de v. ex.ª
—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha magua! Ainda não
fiz senão carpir-me; porém o sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a
natureza da minha dor... Que motivo o traz a esta casa?
—O seu infortunio, sr. Ruy.
—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a noticia? Foi sua mulher
que o mandou saber a atroz verdade? É certo, é horrivelmente certo que
essa desgraçada fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em procural-a
com o infame raptor se tem baldado!
—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou Ladislau.
Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de Ladislau, e exclamou:
—Que diz?! em sua casa? com elle?
—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão não se agasalham
amantes fugitivos, salvo se elles forem tão desgraçados que não tenham
pão nem tecto. Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em casa
do vigario está Casimiro Bettancourt.
—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em
sua casa o roubador de minha filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem
elle deve tudo o que é?!
—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente
responder a v. ex.ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas,
persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque
a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me a vir para
que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo
arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua
casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, desgraçados
pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o
sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia
tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, á sua propria
consciencia, e ao que deve ao sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na
situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina
nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados da virtude
do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam
desquites de serem ou procurarem ser virtuosos...
—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?
—Implorar a v. ex.ª consentimento...
—Para se casarem?
—Sim, senhor.
—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou o fidalgo com
os olhos afuzilando ira e gestos descompostos.
—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico remedio de tal desgraça.
—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo rijamente com o punho
fechado sobre a meza.—Repito: seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa
nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e quem são os parentes
d’esse ninguem que roubou minha filha. Não lhe disse elle que Casimiro é
sobrinho d’um carpinteiro?
—Sim, senhor, disse.
—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento do sobrinho do
carpinteiro com a filha de Ruy de Nellas? Responda!... Que pena eu
tenho que, em lugar do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me
respondia!...
—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a sr.ª D. Christina...
—Diga, diga!
—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais honrada que na situação
em que se acha agora.
—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito grande favor casar-me
com a filha!?
—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa; não vim aqui offender
v. ex.ª.
—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou o fidalgo,
sorrindo á palavra _amigo_) é que eu admitta em minha casa os noivos?
—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é a certeza de que v. ex.ª
lhe levará a bem que elle os case, embora o seu consentimento não seja
escripto.
—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de eu o fazer sahir da
igreja, e metter em processo!
—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu Ladislau com
os olhos humidos de lagrimas de desanimação—Que ha de ella fazer?
—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer lá, é o que eu quero.
A elle hei de perseguil-o até ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra,
e impontal-o para as Pedras-negras.
Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si, dizendo com grande
impeto de pranto:
—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria, n’este ponto, o
bom christão a v. ex.ª? Eu creio, senhor, que meu pai diria: «Perdão, e
misericordia. A neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita
pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai putativo do
Redemptor dos homens.»
—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de Nellas, cujas convicções, no
tocante ao casamento da Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo
acreditava que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha oração infusa,
e, em seus extasis, se erguia sobre a terra quatro covados; acreditava
que S. Thiago e S. Jorge vieram em pessoa combater e vencer pelos
portuguezes; acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião era
por ora cousa duvidosa, porém o casamento da filha dos reis de Israel com
um carpinteiro custava-lhe a tragar!
—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de Nellas, e proseguiu:—Seu
pai, se aqui estivesse, iria sem que eu lh’o pedisse, procurar essa
mulher perdida, e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e
obrigando-a a ver bem a sua vergonha para que nunca mais se amostrasse a
olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, de certo me não viria dizer que
premiasse a desobediencia de minha filha, e a petulancia do farropilha,
que m’a roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem duvida
nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo seria as outras minhas
filhas fugirem-me com os miseraveis que as seduzissem! Se a religião
mandasse ou aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos de
pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado! Não, senhor! frei
Braz Militão não podia, de modo nenhum, ser o patrono de tamanho crime!
—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau com os olhos já
enchutos, e um tom de voz, que denotava outra condição de espirito.
—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que me fuja; mas já e
depressa, quando não a justiça fila-o.
—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento, nem Casimiro
fugirá sem ella.
—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da Serra!
—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram homens de braço armado,
excepto os francezes, que incendiaram as casas por não encontrarem
alguem. As nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei a
filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a. Ella fiou-se em
mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a. A não poder vêl-a esposa
do homem que ama, não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu
destino, bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria uma perfidia.
Volto, pois, com o coração de lucto, e direi a meu cunhado que v. ex.ª
lhe prohibe remediar a desventura da sr.ª D. Christina.
—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se eu consentisse no casamento,
que se seguia? Minha filha voltava a Pinhel com o marido?
—Não, senhor.
—Pois então?
—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.
—Mas quem os sustenta, depois?
—Serei eu, se elles quizerem.
—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás sopas da...
Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu a phrase:
—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher tanto se considera ainda
uma creada de v. ex.ª que recebe como a maior das honras ter á sua meza a
sr.ª D. Christina, e servil-a como creada.
—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me, que a minha dôr faz-me mau;
que eu não o sou, meu amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a
á minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me arrependi, e queria
não me arrepender nunca. Faça o sr. com que ella resolva Christina a
esquecer esse homem, e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo venha a
gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a tire do convento. É o maior
serviço, que podem fazer-lhe, dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia
de Portugal: que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu não lhe faço
mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.
—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª D. Christina, nem eu a
minha mulher. Em fim, sr. Ruy, ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei
sua filha ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro
Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com lagrimas, pedi com
razões: tudo se mallogrou. Agora se meu cunhado os não quer ou não póde
casar, sigam sua vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam
que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem, é por que esta infeliz
menina tem um pai, que antes a quer assim.» É o que farei e direi, sr.
Ruy de Nellas; mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á
alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos e mãos erguidas,
ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que dê consentimento para que sua filha
seja honesta!
Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado.
O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de Ladislau, vira, como
em sombra, fr. Braz Militão. Ha segredos de Deus; porém, bem póde ser que
o caso, a dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, Ruy de
Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua postura humilde, e disse:
—Valha-me Deus!
Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o salão, emquanto o moço
arquejante lhe estava como bebendo a resposta dos beiços convulsivos.
A final, parou o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e,
sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:
—Casem! mas que eu os não veja mais!
E sentou-se, prostrado.
—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se com alvoroço tal
de alegria que a sua vontade era distancear-se depressa, receoso do
arrependimento.
Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia dando de si um feito
vil!
Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço tinha sahido, e
esporeava a galope desapoderado a mula, estrada fóra.
Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero tinha ido para
Trancoso. Era seu intento envial-os a S. Julião da Serra, infractores da
palavra de seu amo.
N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: o cavalleiro era D.
Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o
seu lacaio.
Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é uma fortuna, nascera
primeiro que seus irmãos, na maior casa d’aquelles contornos de Miranda.
Barbedos e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, com o genero
humano. Estas duas familias, em franqueza intima e modesta, diziam que
o primeiro sangue de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era um
regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela fundação dos reinados
de Leão e Castella.
Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar a filha morgada com D.
Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára, com intervenção da parentella.
Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, e eil-o vem a
ponto de estorvar que o sogro se deshonre, violando a palavra dada, com
desdouros dos reis de Leão e Castella, seus avós.
Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou pelas primas.
Entraram cinco meninas meia hora depois.
—E a prima Christina?—perguntou elle.
—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda Portugal—tartamudeou Ruy.
—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a mão da prima Guiomar para
mim, sou encarregado de pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre.
—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as meninas encararam-se
mutuamente.
—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo um gemido rouco.
E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de jantar.
D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade, tinha visto sua
prima na feira de Vizeu, um anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons
officios de sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera Christina
senão termos agradecidos á escolha, posto que incondescendentes. Assim
mesmo, D. Alexandre de Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro,
porém, tomou a peito levar a noiva ao irmão.
Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta historia.