Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos e mais desfrequentados
caminhos. Ninguem déra noticia dos fugitivos, excepto um guardador de
cabras, o qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor, vestido
á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, e depois os vira entrar
á estrada de Trancoso. Estas novas quem as colheu foi o José-pastor, o
velhaco! Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, sem que
ninguem lhe encommendasse a fabula. O que elle queria era attrahir as
pesquizas para o lado opposto de S. Julião da Serra. Serviçal até alli!
Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados mais pimpões
se abalaram para Trancoso armados até aos dentes, Ruy de Nellas foi
procurado por sujeito desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e
interrogado sobre quem era, disse:
—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da Serra.
—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira?
—Sim, senhor.
—Como está elle!
—Doente de cama.
—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?
—É minha mulher.
—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella casára bem.
—Estimo-a muito, que é digna d’isso.
—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...
—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...
—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de
ver o marido da nossa Peregrina... _Satisfação_, digo eu!... Vão por cá
muitissimas afflicções, senhor... como é a sua graça?