Rebello da Silva, na sua _Historia de Portugal_, reportou-se a um
documento que o snr. Ferdinand Denis encontrára na bibliotheca real de
Paris, relativo á historia dos motins sequentes á perda de D. Sebastião,
e publicára no _Portugal pittoresco_.
O nosso historiador não trasladou o documento, com quanto fosse
importante. E ajuizadamente procedeu; porque, sendo elle versão do
portuguez, difficil senão impossivel seria revertel-o á fórma original.
Poderia Rebello da Silva pedir o fiel traslado d'esse papel, incluso no
codice n.º 10:241, e dal-o no corpo da sua historia, como testemunho das
velhas regalias populares nas crises grandes de Portugal; mas dependendo
isso de esmeros, pausas e minudencias que se descasam da indole
peninsular, o documento ficou desconhecido, apesar da traducção do
historiador francez.
E, não obstante correr ahi uma versão miserrima do _Portugal
pittoresco_, o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso,
porque não tem, no torneio e na phrase, algum vestigio do dizer
portuguez de 1579.
E, todavia, não posso já duvidar que Martim Fernandes, sapateiro, e
Antonio Pires, oleiro, no 1.º de junho de 1579, estando os fidalgos
reunidos na igreja do Carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei D.
Henrique, entraram ruidosamente na assembléa, e proromperam pedindo que
lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo de Lisboa.
E não duvido, porque sei o que foi a liberdade portugueza até que D.
João IV começou de a jarretar á feição do seu genio despota, e porque
tenho presente o discurso do mestre sapateiro, escripto ainda no mesmo
papel onde lh'o deram para o decorar.
E como é bem cabido mostrar o original em face do retraduzido no
_Portugal pittoresco_, sob palavra do snr. Ferdinand Denis, aqui os
defronto, e ponho como advertencia aos que aceitam, sem critica, a
historia que nos vem de torna-viagem.