Rachel Varnhagen, insigne allemã, esposa do grande escriptor do seu
appellido, escrevendo a Frederico de Gentz, dizia: «Tres grandes cousas
me horrorisam n'este mundo: 1.ª uma manada de touros bravos; 2.ª a
plebe; 3.ª a demencia.»
A demencia é mais triste que horrorosa. Os que a padecem, se soubessem a
compaixão que inspiram, seriam ainda mais desgraçados,--se desgraçados
são os que não tem a consciencia de o serem.
D. Domingos de Magalhães, o arcebispo de Mitylene, morreu, quando a fome
voluntaria o acabou de matar. Não houve razões de amigos e de theologos
que o movessem a tomar um pouco de alimento. Não dava explicação, sequer
insensata, da sua rigorosa abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos,
se nos depara tal qual luz, consoante ella se póde desferir das
profundas trevas.
Diz assim um capitulo intitulado _O Impassivel_:
«A impassibilidade ha de ser a futura condição do homem santo que seria
semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e degenerada é a séde da
dôr e da molestia, porque a sua sorte e futuro destino será a maxima
degeneração do ente, ou a regeneração e renovação do servo, que o Senhor
creou, e collocou no paraiso.
«Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convém decifrar e
resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau não morre, e que a
sua sorte é a morte eterna: a questão está só na dicção e na phrase; é
uma amphibologia ou questão de palavras. O homem mau não aceita a morte
voluntaria para expiar a pena do peccado; e, como resiste ao decreto da
divina misericordia e graça, não morre para resuscitar, não se regenera,
perverte-se e corrompe-se cada vez mais.
«O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno, perde o
maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo ouro, e
corôa-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o diuturno da
penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser um martyrio, ou
um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes. O homem mau tenta
conservar o fumo, que o asphyxia no inferno, não se mata nem resuscita,
perverte-se e degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.
«O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver da
galvanisação eterna; o segundo homem perde-se no exilio, aonde morrem
todos os que o preferem á patria, e renuncia-o ás suas saudades, amor e
realeza.
«O homem mau tem duas degenerações: a primeira materialisou-o, a segunda
ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas esperanças,
promessas, e de toda a gloria, fraternidade e bemaventurança eterna.
«A regeneração faz o homem impassivel, e opéra muitas vezes em vida os
seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de exaltar e
acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade santa ha de
seguir até ao fim dos seculos e das gerações e conquistar pela divina
misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos.
«O homem santo será impassivel, sem dôr e sem temor, superior á
natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagará o seu tributo á morte
por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais
solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os sacrificios que podem
exagerar e exaltar a virtude do homem.
«Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade; os
authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos, ousam
asseverar que a dôr e a fome, a morte e as tribulações são consequencias
necessarias da natureza humana por ser limitada, contingente, e
passageira: se dissessem, que são consequencias immediatas da natureza
degenerada, e penas propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original,
diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactidão, com logica e
coherencia de principios.
«Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce
na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo em geral mui prudente e
avisado.
«S. João Baptista não bebia vinho nem cerveja, comia mel silvestre; o
Stylita comia um bocado de pão só aos domingos, e permanecia sempre
fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna de dia e de noite, de
verão e de inverno, annos e lustres por divino milagre.
«S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia diariamente só o
que a ave do agouro podia trazer no bico, era um bolo do céo: os
exemplos são innumeraveis: todos provam que a humanidade santa ha de
conseguir no paraiso até o fim a impassibilidade da dôr e da fome;
porque no céo não se come: os maus soffrerão lazeira e esuria no
inferno, porque o mundo está condemnado ao fogo e á perdição.
«Estas verdades são dogmaticas; os herejes negam todos os milagres do
divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar de nós: quando
chegar o tempo da maxima profanação humana, o fiel regenerado beijará a
mão que o sacrificar pelo martyrio, e desejará com elevada ambição
receber pessoalmente a sua corôa em vez da outorga na communhão e na sua
geral misericordia; o que se coroar pelos seus esforços, e pelo odio da
tyrannia será mais ditoso e mais laureado: a morte é uma pena para o que
recusa pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor
divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade: o
martyrio é uma virtude de communhão, as suas provas serão cada vez mais
faceis e mais suaves para os santos pela união com Deus. No paraiso será
um sonho e um devaneio, um magnetismo e uma transmigração voluntaria.
«A impassibilidade, a virgindade, a geração espiritual, o desejo e o
voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspirações da abstinencia e da
penitencia hão de ser frequentes e geraes, admiraveis e sobrehumanas na
divina providencia do paraiso: convém persuadir estes desejos e
esforços, para que ninguem desanime, ou recuse a reconquista da
perfeição e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito, ou
aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem.
«Eu tomei rapé com excesso por espaço de vinte annos, por conselho de
medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixão, quando principiei em
Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao Santissimo Sacramento
no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito; era eu só para o exaltar,
não tinha acolyto, nem ministro, dizia missa diaria, adorava duas vezes
por dia com treze luzes de cera sendo uma só de azeite, rezava o officio
divino, escrevia, trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de
vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da
divina magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e
por isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis
para dezesete mezes de continua e incessante adoração, sem uma falta, e
deixei o uso do rapé por decencia e reverencia até o dia de hoje sem
quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.
«Minha mãi mandou pôr á minha disposição um bote de rapé no anno de
1860, em Villa Pouca, aonde eu já não adorava, nem podia dizer missa: o
rapé esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca mais abri o bote e
padeci grandes dôres de dentes, que me determinaram a extrahir alguns a
ferro; quando fui ao Porto offereceram-me rapé, eu não aceitei.
«Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e até lauta;
jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe e guisados, e
todos os appetites que a boa mesa offerece: eu não procurava os seus
regalos, mas não repellia nenhum dos permittidos: agora faço penitencia,
e não como carne nem peixe ha mais de oito annos. Em 1860 comi carne
algum tempo em pequena quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe até
agora: passei mais de um anno só com um quartilho de leite por dia e com
menos de quarenta reis de pão, e com um arratel de assucar chegava para
treze dias até dezeseis.
«Nunca fui apaixonado do vinho, mas não o repellia inteiramente; agora
não bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por dia menos de
40 reis de pão, jejuo tres dias por semana, ás quartas, sextas e
sabbados, e ha mais de tres annos ainda não faltei a esta disciplina de
jejum nem nos dias de jornada.
«Nos outros dias tomo um café com leite, um vintem de pão, e uma quarta
de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha sopa que consta de
uma dóse de arroz com manteiga, ou com azeite segundo o dia; um arratel
chega para cinco dias, e ás vezes para seis: á noite como um bocado de
brôa ou de pão.
«E com esta disciplina e regular dieta trabalho, rezo, escrevo e medito
ha muitos annos sem descançar nem um dia e sem interromper o trabalho,
que executo de joelhos por divino milagre, ha quantos annos?
«As obras escriptas respondem por nós: muitos dias de inverno principiei
a trabalhar ás duas horas da noite, e continuei a minha tarefa até ás
duas horas dos seguintes, empregando mais de dezoito horas no afão da
escriptura. Escrevo e rezo sempre de joelhos, e sustento-me n'esta
reverente posição por mais de doze horas, dias e mezes successivos
haverá um lustro, por estar na divina presença.
«A impassibilidade é o presagio do paraiso. Lucifer e a sua maldita
confusão e degeneração ha de receber a honra da morte e todas as dôres
que causou á humanidade com o peccado original por haver seduzido nossos
paes no paraiso das delicias.
«Nenhum peccado ficará sem pena eterna, nenhuma dôr ha de extinguir-se
ou aniquilar-se, perder-se, ou evaporar-se: o que é causa da causa é
causa de todos os effeitos e consequencias.
«A crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-os,
tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro: a actual das seitas
vendeu-me para me occultar a minha genealogia e direito, e obrigou-me a
seguir o estado ecclesiastico para me castrar: os seus vicios foram mais
impios do que os antigos, e converteram-se contra os insanos.
«Eu seguia o estado ecclesiastico com amor, e aprendi a defender o meu
direito na época propria e quando convinha: sou mal por ser do paraiso.
«Toda a minha vida é um milagre diuturno: os monstros jámais poderam
privar-me da existencia; as suas conspirações são incessantes, geraes,
concentradas, diabolicas e perfidas.
«No dia dez estava para escrever a bulla quinta e não sabia sobre que
havia de legislar: abri ao acaso o sagrado concilio de Trento, sahiu a
sessão vigesima segunda que falla em legados apostolicos, que é o
objecto da referida bulla.
«No dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis, e inclui
por engano só seis folhas, e chegaram e não cresceu o papel: no dia nove
metti as sete folhas, e aconteceu o mesmo milagre: todas as leis e
bullas são originaes sem borrão, ou copia.
«Deixo o soberano titulo no alto da folha; no dia nove aconteceu ficar
em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou imperfeição
do papel, e foi razão para que não crescesse, nem faltasse.
«Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma é negra, e
escrevo o «Impassivel» com esta: no dia nove escrevi com as quatro
pennas; duas estavam já refugadas, duas eram novas, duas appareceram a
um canto: eu já mandei procurar mais pennas mas não apparecem á venda:
escrevo, com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes, e com
dous vintens de tinta ha mais de meio anno, e quebrou o vidro, aliás
seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta está em um
pires de porcelana que serve de tinteiro; eu só tenho dous pires, e duas
chavenas.
«No tempo da usurpação de D. Miguel uma senhora chamada Rosa deu-me a
effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um homem affeiçoado á
tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma veronica da Santissima Virgem
Immaculada em Lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu
dei-a em Villa Pouca a uma senhora chamada Rosa.
«Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra, a
supposta infanta D. Isabel Maria, a qual não me pagou a visita; uma irmã
de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e não a visitei.
«Fiz algumas visitas á supposta imperatriz do Brazil, falsa duqueza de
Bragança a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa;
a cruel jámais ousou levantar os olhos para nós: quem pagará ou
satisfará estas dividas de amor e de reverencia?
«Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma femea em Santa
Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro; tenho duas vassouras, fui
servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas
mulatas, uma em Villa Pouca, irmã do burro cruel, outra nos banhos do
lugar de Carção ou de Arcozelo: fui servido por duas criadas filhas da
viuva, uma de Montenegrelo, outra de Chaves, aquella deu-me um
guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta, e dei um lenço de sêda á
criada de Montenegrelo: já bati em duas, uma fugiu e não levou.
«Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a oração da
manhã: hoje repetiu o mesmo mysterio.
«José Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a dez annos
de degredo um energumeno que dizia missa e prégava sem ter ordens, e
denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha Guilherme commetteu
em Roma: n'aquelle tempo não havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui
o antipapa, e declarei energumenos todos os seus tonsurados: o falso
padre gerou todos os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os
herejes amnistiaram o nefando, não podem absolver os traficantes.
«O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas Necessidades, e
uma em Mafra, são dous paços reaes, outra no paço das escolas, da
universidade são dous paços de escolas: porque Mafra é escola militar:
esteve commigo duas vezes na academia de Lisboa, no collegio dos Nobres,
e no convento da academia, são duas academias, ou mais: uma em Coimbra
outra em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das
sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza d'esta
categoria em relação ás escólas do exercito, duas em Lisboa e duas fóra
de Lisboa.
«São cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos paços
da universidade como provedor da misericórdia; elle mandou-me um recado
á misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo provedor.
«O dualismo é uma graça; a perfidia é uma abominação e um horror.»