laboriosa empreza de fundar a independencia de Portugal e de dar a esta
terra uma dynastia propria, e representada por um principe nascido entre o
Minho e o Douro, creado entre os portuguezes, e experimentado nas lides da
guerra, já combatendo pela liberdade dos seus contra os leonezes, já
varrendo do solo nacional as phalanges dos arabes.
A investidura religiosa da dignidade de rei, foi a ultima recompensa dos
trabalhos e perseverança de D. Affonso em executar a idéa do conde D.
Henrique e de D. Tareja, e em satisfazer as gloriosas ambições dos
portuguezes. Seis annos depois falleceu em Coimbra, aos 6 de dezembro de
1185, tendo governado quarenta e cinco annos como rei, e doze como principe
e infante.
Deixou numerosa posteridade da rainha Mafalda sua mulher, filha de Amadeu
II, conde de Mauriana e de Saboia, chefe d'aquella grande familia de
heroes, cuja gloria a Europa inteira respeita ainda hoje em Victor Manuel
II, valente rei da Sardenha, e libertador da Italia.
A narração dos feitos de D. Affonso Henriques não pertence a este livro
senão na parte que respeita á fundação da monarchia. A conquista de Lisboa,
de Santarem, de Leiria e de outras terras importantes, a fundação dos
mosteiros de Alcobaça, de Tarouca, de Santa Cruz de Coimbra e de S. Vicente
de Fóra, a edificação da cathedral de Lisboa, e o desastre de Badajoz em
que Affonso Henriques ficou prisioneiro do rei leonez, terão o seu devido
logar em outro livro d'esta collecção, assim como todos os acontecimentos
importantes do seu reinado.
Depois de tantos seculos, o nome de D. Affonso Henriques é ainda
pronunciado com respeito pelo povo portuguez, reconhecido á memoria do
soberano que, a despeito de adversarios tão poderosos, fundou a
independencia de Portugal. «Sem a menor sombra de vaidade nacional, diz o
sr. Alexandre Herculano, parece-nos ser licito dizer, que o esforço e
constancia dos portuguezes e do seu principe n'esta conjunctura é um dos
mais bellos exemplos d'aquella energia moral, de que tão rica era a idade
media, e a troco da qual a Europa moderna tem ido comprando a brandura do
trato entre os homens, e os commodos da civilisação.[4]
VII
A MONARCHIA
A historia da fundação da monarchia portugueza está concluida. D. Affonso
VII reconheceu a qualidade real na pessoa do primo. O papa Lucio II aceitou
o feudo da terra portugueza para a Santa Sé, e Alexandre III sagrou a
realeza de D. Affonso Henriques em nome de Deus, de cujo poder os
jurisconsultos e theologos derivavam então directamente toda a especie de
auctoridade.
Esta empreza de separar da monarchia de Leão e de Castella o novo reino de
Portugal póde dizer-se, que foi um dos feitos mais extraordinarios do
seculo XII, não só em relação ao poder e esforço dos dois imperadores que
successivamente occuparam o throno hespanhol, mas principalmente pelo modo
com que se houve em tão delicado assumpto o conde D. Henrique, e depois
d'elle a sua energica viuva, e seu corajoso filho.
A rapidez com que em menos de meio seculo surgiu a nacionalidade
portugueza, dotada de attributos e qualidades que logo separaram, e
distinguiram os portuguezes dos gallegos e dos leonezes, a dexteridade com
que a viuva e o filho do conde borgonhez souberam vencer todos os
obstaculos, e fazer com que insensivelmente fossem legitimadas pelos
proprios adversarios as pretensões mais contrarias aos direitos da corôa de
Leão, e finalmente a coragem com que lutaram nos campos de batalha contra a
rainha D. Urraca e contra seu filho, são na verdade admiraveis, mesmo
attribuindo ás discordias de Affonso de Aragão e de sua mulher a facilidade
venturosa, com que tão ousados commettimentos se executaram!
Todavia a malicia de D. Henrique, a flexibilidade astuciosa e a energia de
D. Tareja, e o animo ousado de D. Affonso Henriques valeriam pouco--já o
dissemos--se n'aquellas lutas entre os soberanos christãos de Hespanha, os
portuguezes se decidissem parte em favor de uns, e parte em favor de
outros.
Felizmente o desejo da independencia nacional não só abafou qualquer outro
sentimento de parcialidade, mas até resistiu aos rogos, convites e
promessas, com que de certo amiudadas vezes tentaria a rainha D. Urraca,
seu segundo marido rei de Aragão ou o principe Affonso Raymundes de
Galliza, attrahir á sua causa os barões e prelados portuguezes, senão o
proprio povo.
Não queremos diminuir de modo algum a gloria dos principes, em cujo nome se
lançaram as bases da independencia de Portugal. Oxalá que podessemos honrar
sempre a memoria de todos os principes, como nos é grato faze-lo ácerca dos
fundadores da nossa nacionalidade! Ganharia com isso o principio monarchico
a que temos affeição. Mas n'este caso fôra injustiça negar que, sem a
constancia e lealdade dos portuguezes, a causa da nossa liberdade não
chegaria a obter tão assinalado triumpho.
Os nossos progenitores quizeram que esta terra fosse independente do rei de
Leão, e perseveraram n'esse pensamento apesar de grandes contrariedades e
revezes. Seguiram o conde D. Henrique no começo d'esta nobre tentativa, e
foram sempre dedicados e leaes áquelle principe, á sua mulher, e a seu
filho.
A rudeza dos tempos, o desenvolvimento das paixões, e a barbaridade dos
costumes, tornavam então raros estes exemplos que hoje poderiam ser
resultado de simples bom senso, quando o não fossem de grandes virtudes
politicas.
Os barões portuguezes do duodecimo seculo não eram melhores do que os
demais senhores christãos de Hespanha ou dos outros paizes, mas nas
discordias civis, com que frequentes vezes ensanguentaram a terra
portugueza, o principio da independencia nacional nunca deixou de ser
acatado por todas as parcialidades.
Esse era então o alvo das cogitações geraes, o enlevo de todos os animos, e
o incentivo dos feitos mais generosos. Honra a esses nobres senhores pelo
que praticaram em beneficio da patria, e pelo virtuoso exemplo que deram!
Os prelados portuguezes tambem contribuiram para amparar a nossa
nacionalidade nascente, e para facilitar a realisação da independencia
nacional. Pelas mãos d'elles desceram sobre o primeiro rei portuguez as
bençãos do ceo; e a mediação dos prelados, evitando combates
sanguinolentos, e concertando pazes entre os belligerantes, desviou grandes
males, e fez ao novo reino assignalados serviços.
O povo esse deu vida e fazenda, como dá sempre generosamente para sustentar
as causas que tem por nacionaes. Na fronteira do norte combateu contra
leonezes e gallegos; no sul pelejou contra os arabes, e ás vezes no
regresso á sua pobre casa já a não encontrou, que lh'a tinham destruido os
inimigos com alguma das continuas correrias, em que levavam a ferro e fogo
as povoações pacificas e inermes.
Outras vezes, onde cuidava refazer-se das fadigas e gastos da guerra, teve
que abandonar o pouco, que lhe restára, á cubiçosa exigencia do senhor
feudal. E assim mesmo nunca descreu da possibilidade da independencia, nem
faltou ao principe com o auxilio do seu braço!
Em todos os tempos, e em todas as circumstancias o povo portuguez foi
sempre o mesmo! Nunca este bom povo attentou na quantidade dos adversarios,
nem hesitou perante o poder d'elles! Era modelo de virtudes civicas ha sete
seculos. Ainda hoje o é. Indomavel na guerra, era na paz de condição branda
e submissa, de direcção facil, e de fidelidade heroica em ambos os casos. É
o mesmo agora.
A nossa independencia foi obra da cooperação unanime de todos os
portuguezes. Felicitemo-nos d'esta admiravel concordia, e reconheçamos no
começo da nossa existencia politica os effeitos de um vigor popular, que a
historia não teve de mencionar com frequencia ácerca de outros povos. A
virilidade nacional era já tão forte na precoce juventude d'este povo, que
mais impellia do que acompanhava os principes que a conjuncção dos tempos
preparára para chefes da nação.
Á fundação da monarchia seguiram-se guerras incessantes com os infieis,
dessidencias com Castella, alterações civis de grande momento entre os
primeiros do reino, alguns governos fracos, e muitas occasiões de
engrandecimento e de gloria seguidas de tristes desastres e de funestos
azares, dos quaes alguns pertencem á nossa idade. A força dos animos
populares conservou-se intacta. Os portuguezes mostraram-se no Bussaco, na
Roliça e no Vimeiro, como outr'ora em Montes Claros, em Aljubarrota, e em
Val de Vez ou em Ourique.
O progresso social melhorou os nossos costumes, e alterou o modo da nossa
existencia, mas não enfraqueceu o caracter nacional, que já tinha resistido
a outras transformações anteriores. A civilisação não pára no seu fecundo e
incessante trabalho, porém onde encontra uma nacionalidade forte,
respeita-a, e sabe emprega-la utilmente.
As nacionalidades que não vivem da energia do caracter popular ou que não
souberam remoçar-se a tempo, caminham para a morte. As outras não, porque
volveram a ser jovens, e começam agora a viver de novo. Aquellas
dissolvem-se de podridão, e corrompem as outras. Estas são instrumentos de
progresso, e como elementos da harmonia universal contribuem para o
complemento dos fins da creação.
Sejamos nós assim.
Entremos na confraternidade universal dos povos, mas não queimemos por isso
a nossa boa casa, porque em nenhuma outra estaremos tanto á vontade como
n'esta que nossos passados fizeram, amassando com o proprio sangue o barro
de que lhe levantaram os muros. Amemos os hespanhoes. São nossos irmãos,
mas juremos a nós mesmos ficar portuguezes, como no-lo estão pedindo a
honra e o interesse.
Vergonha seria que n'este reino fossem mais patriotas os principes do que o
povo, e que ninguem sentisse nas veias o sangue dos barões e homens de
armas de D. Affonso I. Do fundo do seu tumulo de Santa Cruz, estão os ossos
venerandos do nosso primeiro rei animando os portuguezes a sustentar a
nobre empreza, em que elle lidou até á morte, e pela qual tantos milhares
de filhos d'esta terra tem perecido heroicamente.
Quem ousaria renunciar a esta herança gloriosissima? Ninguem.
A nossa nacionalidade tem poderosas rasões de existencia, e não póde
depender, senão momentaneamente, do capricho de um conquistador ou das
combinações de um estadista. Nenhum d'elles poderá contra este reino mais
do que em favor nosso ha de valer sempre o caracter firme do povo, o
desenvolvimento da civilisação, e a seriedade circumspecta do nosso
procedimento politico.
Esses dotes são os alliados mais fieis e poderosos do povo portuguez. Com
elles, e só com elles, se salvou nas crises difficeis. D'elles depende
tambem no presente e no futuro.
Se por qualquer circumstancia infeliz vierem a faltar-nos essas qualidades
na hora do perigo, ainda encontraremos na herança paterna um dever
glorioso:
Acabar com honra, escrevendo com o nosso sangue a derradeira pagina da
historia portugueza.
INDICE
Dedicatoria
Palavras necessarias
Introducção--I
O reino de Leão--II
A terra portucalense--III
O conde borgonhez--IV
Governo de D. Tareja--V
D. Affonso Henriques--VI
A monarchia--VII
* * * * *
NOTAS
[1] Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque morto de bala na batalha de
Torres Vedras nos fins do anno de 1846.
[2] Autor de um poema intitulado _Viriato Tragico_.
[3] Este dito do marquez de Pombal é citado pelo sr. Rebello da Silva
em um excelente artigo publicado na Epocha e intitulado _A ultima
corrida de toiros em Salvaterra_.
[4] Hist. de Port. tom. I liv. II pag. 306.
NOTAS DE TRANSCRIÇÃO
[NT] No original o autor colocou o nome de Fernando onde deveria estar
Affonso