N'este convenio a superioridade estava do lado de D. Urraca, que era de

direito soberana da terra governada per D. Tareja, e que esquecia injurias

e offensas gravissimas. A viuva de D. Henrique teve de reconhecer a

supremacia da irmã, e nas côrtes reunidas em 1115 em Oviedo assignou como

infanta em seu nome e de seus filhos.

A ausencia dos barões portuguezes; a falta de menção de que Tareja os

representava n'aquella assembléa, e por elles fazia preito á irmã, indicam

qual era já então o espirito dos portuguezes, e quão graves as

circumstancias a que D. Tareja se via forçada a obedecer.

Esta submissão pessoal não durou muito. Na primeira discordia entre D.

Urraca e os fidalgos de Galliza, D. Tareja declarou-se em favor d'estes e

aggrediu vivamente a irmã. N'essa luta ganharam os portuguezes a posse de

uma grande parte dos districtos de Tuy e Orense, que conservaram bastante

tempo.

Os combates incessantes no norte foram interrompidos em 1116 pelos arabes

do sul, que tomaram Miranda para lá do Mondego, passaram este rio,

appossaram-se do castello de Santa Eulalia junto a Montemór, e no verão do

anno seguinte vieram durante vinte dias atacar Coimbra, onde estava D.

Tareja. A infanta dos portuguezes, como estão lhe chamavam, soube defender

a cidade de modo que os arabes levantaram o cerco.

Á necessidade de resistir ás invasões dos infieis correspondia sempre menor

arrogancia na manifestação dos sentimentos de independencia para com a

rainha de Leão. A supremacia de D. Urraca era tão pouco contestada que o

arcebispo de Braga D. Paio, irmão do Lidador e dos Mendes da Maia, que

tanto fizeram depois pela liberdade d'esta terra, pediu em 1121 á soberana

de Leão e de Castella a confirmação do couto da cidade archiepiscopal.

As duas irmãs eram inimigas. A paz entre ellas podia ser dictada por

motivos politicos; do coração não vinha. Os designios de D. Tareja e dos

seus subditos eram manifestos. A necessidade de sujeitar Portugal não

esquecia a D. Urraca. D'ahi resultou a guerra de 1121 na qual a rainha de

Leão atravessou o Minho, chegou até ás margens do Douro, obrigou D. Tareja

a encerrar-se no castello de Lanhoso, e ali a foi cercar.

D'esta penosa situação pôde saír sem grande esforço, graças ás intrigas que

se urdiam em segredo na propria comitiva de D. Urraca. Tratava-se de

proclamar o principe de Galliza, filho d'esta rainha e de seu primeiro

marido o conde Raymundo, e n'este empenho andavam os senhores de Galliza, o

bispo de Compostella, e todos quantos se diziam cansados das discordias

continuas entre D. Urraca e seu segundo marido Affonso de Aragão, bem como

os que detestavam o conde Pedro de Lara, poderoso amante da soberana de

Leão.

D. Tareja fôra sempre ligada com esta parcialidade, como D. Henrique o fôra

com Raymundo no intento da reciproca independencia, e se ficasse

prisioneira da irmã, perder-se-ía um alliado importante para a execução dos

planos contra D. Urraca. Soberanos e potentados estrangeiros, parentes da

casa de Borgonha entravam na conspiração contra a esposa de Affonso de

Aragão.

Fernando Peres de Trava, antigo official do prelado de Compostella, parente

e amigo dos primeiros fidalgos de Galliza, era amante de D. Tareja, e

governava por mercê sua o Porto e Coimbra. As relações d'este fidalgo na

côrte de D. Urraca só podiam ser favoraveis á mulher que elle amava.

D'este conjuncto de circumstancias, e talvez de outras que ignorâmos,

nasceu a paz, na qual D. Tareja conservou as terras de Galliza, cuja posse

havia dado causa á guerra, e obteve varias terras e aldeias nos districtos

de Samora, Toro, Salamanca, Avila, Valhadolid e Toledo, como tenencia da

irmã.

A quem a viuva de D. Henrique deveu estas vantagens, apesar das victorias

de D. Urraca, póde conjecturar-se pelos successos posteriores. A Galliza

dentro em pouco revoltou-se contra a rainha de Leão, e D. Tareja sem tomar

activamente parte nas contendas que se seguiram até março de 1126 em que

morreu a irmã, protegeu os revoltosos por todos os modos ao seu alcance,

conseguindo conservar os territorios que possuia na Galliza, segundo o

tratado de paz de 1121.

Algumas palavras do sr. Alexandre Herculano explicarão, melhor de que nós o

poderiamos fazer, as causas d'esta inconstancia politica da infanta dos

portuguezes. «Cada um dos personagens que figurava n'aquelle drama, diz o

nosso illustre historiador, quer principes, quer senhores só pensava em

tirar das desgraças publicas a maior vantagem possivel. As allianças

faziam-se, e desfaziam-se rapidamente; porque nenhuma sinceridade havia no

procedimento dos individuos. Os interesses particulares dos nobres e

prelados cruzavam-se com as questões politicas, o modificavam-nas

diversamente.» As acções de D. Tareja devem ser apreciadas n'este sentido.

Ella obedecia á tradicção conjugal da independencia, ao proprio sentimento

de liberdade, e ás tendencias e espirito dos barões e homens de armas de

Portugal.

As qualidades incontestaveis de D. Tareja fizeram-a geralmente respeitada,

tanto nas terras que governava, como em toda a peninsula hespanhola e mesmo

nos paizes afastados. O papa mais do que uma vez a tratára como rainha,

qualificação que só era legal ou de costume dar-se ás filhas legitimas dos

reis, e ella propria tomou este titulo nos documentos publicos,

promiscuamente com o de filha de D. Affonso, ou de infanta dos portuguezes.

Portugal começou tambem cerca de 1117 a ser designado como reino,

manifestação nominal de independencia, anterior á elevação da dynastia

real. Antes que o principe fosse independente no exercicio da soberania, já

a opinião geral attribuia ao territorio essa qualidade, Portugal era reino

sem ter ainda escolhido rei. O povo livre não podia tardar em proclamar um

chefe que sustentando as ambições patrioticas dos portuguezes, acabasse com

a supremacia politica do rei de Leão.

D. Urraca morreu em 1126, e seu filho Affonso VII fez tregoas com D.

Tareja. Duraram pouco, porque ella recusou sugeitar-se ás obrigações da

tenencia dos territorios que recebera em 1121. Na nova campanha Portugal

não pôde esquivar-se a reconhecer a suzerania de Leão, e perdeu as terras

de que pertendia o dominio absoluto.

D. Affonso Henriques foi durante esta guerra cercado pelo filho de D.

Urraca em Guimarães, onde estava talvez já quasi revoltado contra a mãe, e

para que o cerco fosse levantado, teve de prometter a seu primo Affonso

VII, que lhe faria preito e homenagem das terras de Portugal.

Egas Moniz, poderoso fidalgo de Entre Douro e Minho, e aio do principe

portuguez, ficou por fiador da palavra de Affonso Henriques; e o rei de

Leão aceitando a fiança do mais honrado cavalleiro d'aquelles tempos,

levantou o cerco, e retirou-se de Guimarães.

A palavra do joven principe não foi cumprida. Fosse que o animo de D.

Affonso Henriques repugnasse a começar a vida politica pelo reconhecimento

da supremacia estrangeira, ou fosse que os proceres do reino obrigassem o

infante a faltar ás promessas de Guimarães, e a sacrificar a propria honra

á independencia de Portugal, é certo que o filho de D. Tareja não cumpriu

os ajustes do aio.

Então Egas Moniz reuniu a sua familia, e partiu com ella para a côrte de D.

Affonso VII, não a fazer-lhe o preito que Affonso Henriques recusára, mas

de corda ao pescoço e descalço, a prostrar-se aos pés do rei de Leão, e a

offerecer-lhe o proprio sangue, o da mulher, e o dos filhos, para lavar a

nodoa que a falta de cumprimento da palavra dada lançava na reputação de um

cavalleiro.

Tão primorosa lealdade maravilhou a côrte, e captivou o animo de Affonso

VII. O fidalgo portuguez voltou em liberdade para o reino, e o soberano de

Leão declarou illibada a honra de Egas Moniz. Depois que os ossos do aio de

D. Affonso Henriques, foram repousar no mosteiro de Paço de Sousa,

pozeram-lhe no tumulo, em esculturas grosseiras, a representação d'esta

gloriosa façanha, que ali se vê ainda hoje servindo de eloquentissimo

epitaphio ás cinzas do velho fidalgo de Riba-Douro.

Estes feitos heroicos só se manifestam nas epochas em que as nações estão

dispostas para commettimentos generosos e sublimes, porque do conjuncto das

virtudes particulares é que se fórma o caracter geral da nação.

Nos tempos de abatimento e de decadencia nacional, não se encontram taes

exemplos, e se apparecem excepcionalmente, provocam a escarneo, em vez de

conseguirem louvor e admiração. Nação, cujos proceres tinham sentimentos

tão elevados, era digna de ser livre, e por isso o foi.

A nobre acção de D. Egas Moniz foi praticada durante o anno de 1127, tempo

em que D. Tareja tinha já perdido no animo dos portuguezes a influencia que

soubera conquistar. A que fôra sempre varonil na governação do estado, não

pôde evitar as tentações da fraqueza humana, e o seu coração de mulher

deixou-se captivar do conde Fernando Peres de Trava, da nobre familia de

Galliza, á qual fôra confiada por D. Urraca a tutella de Affonso VII.

O conde, amante e valido, intervinha nos negocios publicos. Nenhum acto

indicára que essa intervenção fosse desleal, nem a politica de D. Tareja se

desviára do caminho traçado pelo conde D. Henrique; mas os portuguezes eram

já ciosos da sua independencia, e avessos a toda a influencia estrangeira.

O filho de D. Tareja, que se creára com fidalgos portuguezes, e que devia

ter a peito a honra e bom nome da sua casa, odiava o conde de Trava, e

preparava-se para lhe destruir o poder, embora para isso fosse necessario

arrancar á propria mãe o governo do reino. Com effeito a rainha D. Tareja

teve de abandonar o poder em 1128, em virtude de acontecimentos em que seu

filho tomou a mais energica iniciativa.

A viuva do conde D. Henrique contribuiu vigorosamente para facilitar a

independencia de Portugal. Teve qualidades politicas de grande quilate, e

os effeitos d'essas virtudes chegaram até á nossa idade. Das fraquezas da

sua vida particular só ella foi victima; fraquezas que eram vulgares

n'aquella epocha, e que infelizmente nem raras foram nos seculos

posteriores.

A historia não levou em conta a D. Tareja nem a fragilidade da natureza

humana, nem os costumes do seculo em que ella viveu, nem a expiação

infligida por seu proprio filho, privando-a do governo e prendendo-a, nem o

abandono em que morreu, malquista d'aquelles, a cujas vantagens consagrára

a vida, e em favor de quem soubera tirar partido até dos proprios erros. D.

Tareja morreu no 1.^o de novembro de 1130 e repousa em Braga, junto ás

cinzas de seu marido.

A historia foi ingrata. Não o sejamos nós. Abençoemos a memoria da soberana

que ajudou a crear-nos para sermos independentes e livres, e perdoemos-lhe

esses desvios. As idades futuras terão de nos perdoar outros bem mais

criminosos, e que nem sempre poderão desculpar-se com tão gloriosas

compensações.

VI

D. AFFONSO HENRIQUES

Affonso Henriques tinha quatorze annos, quando no domingo de Pentecostes do

anno de 1125 se armou cavalleiro na cathedral de Samora, terra que

pertencia então ao reino de Portugal por cessão da rainha D. Urraca.

O modo pelo qual esta cerimonia fôra disposta, indicava de sobejo as

intenções do principe, mesmo no caso em que este acto se não pudesse julgar

senão imitação exacta do que, em dia igual do anno anterior, praticára em

Compostella seu primo Affonso VII.

As armas com que devia armar-se o joven filho do conde Henrique tinham sido

collocadas sobre o altar de S. Salvador na cathedral de Samora. Antes que

começasse a festa do Espirito Santo, o moço Affonso Henriques entrou na

igreja, caminhou para o altar, tomou as armas, e cingiu-as elle proprio

para não conceder a pessoa alguma a supremacia de lhe ter conferido o grau

de cavalleiro.

Dos velhos guerreiros de seu pae havia muitos que mereciam esta honra.

Seguido d'elles entrou no templo convidando-os a assistir áquelle acto

solemne, e a serem testemunhas da firmeza do principe, destinado a

commanda-los; porém mostrou-lhes desde logo a energica vontade de não

depender senão de si proprio.

Esta solemnidade foi um preparativo para acabar com a influencia do conde

de Trava. Com effeito tres annos depois de armado cavalleiro, Affonso

Henriques declarou guerra a sua mãe, ajudado do arcebispo D. Paio e de seus

irmãos, de Mendes Ermigio, de Garcia Soares e de Sancho Nunes que depois

foi seu cunhado, e primeiro senhor de Barboza.

D. Tareja quiz resistir. Alguns portuguezes seguiram o seu partido; porém a

maior parte das suas forças eram gallegos da parcialidade e dependencia do

conde de Trava, fracos defensores contra o principio da nacionalidade e da

independencia de que o jovem principe se declarára campeão. Os partidarios

de D. Tareja foram derrotados no campo de S. Mamede perto de Guimarães, e a

viuva do conde Henrique caíu prisioneira em poder do filho.

A nacionalidade portugueza era já então tão vigorosamente distincta que os

gallegos do exercito de D. Tareja eram chamados nas chronicas

contemporaneas _indignos estrangeiros_, apesar de que a identidade de

linguagem, de costumes, de religião e de raça entre os habitantes de

Galliza e os de Entre Douro e Minho, devesse contribuir para que

portuguezes e gallegos se reputassem mutuamente irmãos. Esta notavel

antipathia, inexplicavel á primeira vista, era um dos mais importantes

resultados da politica do conde Henrique e de D. Tareja.

Mas a independencia de Portugal não estava segura; nem proclamada sequer. O

rei de Leão era moço, poderoso e valente. Affonso Henriques nem titulo

tinha para designar o poder que de facto exercia. Conde não queria elle

chamar-se. Infante era um titulo commum aos filhos de estirpe real, e posto

que Portugal se intitulasse reino, o nome de rei não o podia o principe

tomar impunemente em face de um contendor como Affonso VII.

Dizem os historiadores que D. Affonso Henriques era agil nos exercicios do

corpo, dextro no manejo das armas, bom cavalleiro, bem apessoado de corpo e

de gentil presença, intelligente, discreto, e dotado de singular

eloquencia. Eram grandes estas qualidades, mas os deveres que o principe

tinha a cumprir, careciam do concurso efficaz de todas ellas.

A independencia de Portugal, preparada de tão longa mão pela tenacidade e

astucia dos paes de Affonso Henriques, havia de trazer comsigo guerras

amiudadas com o rei de Leão, e os arabes não eram menos temiveis no sul do

reino. Poucos mancebos tiveram aos dezesete annos tão pesados encargos

sobre os hombros!

Affonso Henriques não esperou que o atacassem. Impetuoso, como o pedia a

sua idade, e a indole de uma nação tão moça como elle, entrou por Galliza

em 1130, e começou a guerra contra os leonezes, talvez para recuperar os

territorios que ali possuíra sua mãe.

N'esta entrada ninguem lhe resistiu, porém voltando a Galliza foi derrotado

por Fernando Peres e Rodrigo Vela. Affonso Henriques não desanimou com o

desastre, e pela terceira vez levou a guerra ao paiz visinho: Affonso VII

veiu em pessoa com um exercito numeroso obstar ás correrias do primo, e

tomou Celmes que os portuguezes tinham fortificado. Ali acabou esta

campanha no anno de 1134.

Affonso VII estava então no maior auge do poder. A fortuna era-lhe propicia

em toda a Hespanha. Affonso de Aragão seu padrasto já não existia; o conde

de Barcelona, e o rei de Navarra reconheciam a suzerania de Leão; a

Castella era sua igualmente; o emir de Roda submettêra-se espontaneamente.

Alem dos Pyreneos os condes de Tolosa e outros senhores prezavam-se de

serem vassallos de D. Affonso. Só uma pequena provincia cercada do lado do

meio dia pelos arabes, recusava aceitar de bom grado a preponderancia

leoneza, e um moço de dezesete annos, chefe d'essa provincia, ousava entrar

de mão armada pelas terras de tão vasta e poderosa monarchia!

Este nobre exemplo de coragem mostra bem quanto póde a energia de alma, e a

força de vontade, ainda em combate contra forças muito superiores. Nenhum

povo teve mais numerosas occasiões de confirmar esta verdade, e nenhum

outro as aproveitou com mais efficacia do que o nosso.

Para defender os proprios lares até as creanças são valentes, e tão forte é

cada qual em sua casa para o arrancarem d'ella depois de morto, dizia o

marquez de Pombal a um embaixador de Hespanha, são necessarios quatro

homens[3].

Affonso VII reuniu côrtes em Leão no anno de 1135 e n'ellas foi proclamado

imperador. O moço Affonso Henriques, em vez de ir prestar homenagem ao

poder do primo tratou de alliar-se com D. Garcia rei de Navarra, e

accordou-se com alguns fidalgos de Castella, ambiciosos ou descontentes de

D. Affonso VII. Firmadas estas allianças, principiou de novo a guerra com

assignaladas victorias.

Os arabes entretanto tomaram Leiria; porém Affonso Henriques correu a

reconquistar aquella cidade, e em pouco tempo voltou a continuar a guerra

em Galliza onde o imperador viera em pessoa, como quem sabia que homem era

o principe portuguez, e quanto valiam os cavalleiros e homens de armas, que

o seguiam.

Os dois principes avistaram-se em Tuy no dia 4 de julho de 1137, e ali

fizeram pazes, talvez porque as correrias dos arabes no sul traziam

inquieto o animo de D. Affonso Henriques, cuja actividade se voltou então

para a guerra contra os infieis, indo ataca-los no territorio alem do Tejo.

N'esta paz de Tuy o filho de D. Tareja reconheceu a supremacia feudal do

rei de Leão, acto cujos effeitos na ordem politica do reino portuguez não

foram importantes. Cento e cincoenta portuguezes assignaram com D. Affonso

Henriques este preito e homenagem ao imperador.

A guerra contra os arabes foi favoravel ao filho do conde D. Henrique, e da

victoria alcançada em Ourique no dia 25 de julho de 1139 chegou a noticia

ao nosso tempo, acrescentada com exagerações e milagres. A imaginação

patriotica e religiosa de alguns historiadores quiz dar assim maior relevo

a esse feito de armas.

Singular erro de gente sizuda e zelosa pelo bem da sua patria! De que serve

alterar a historia, e inventar apparições e milagres, quando se trata de

referir acções para as quaes é sufficiente o esforço humano?

Justo é que todos creiam na protecção divina, sem a qual não ha verdadeira

prosperidade sobre a terra; mas não cuidemos por isso que a força do nosso

braço é inutil, que a nossa energia moral é nulla, e que Deus ha de

intervir directa e pessoalmente nos negocios mundanos a regular os

interesses dos conquistadores, das dynastias e dos povos.

Confiemos no poder de Deus e no triumpho da justiça e da verdade; porém não

abusemos do nome da divindade, embora seja para excitar sentimentos

virtuosos e dignos. As pias fraudes não fortificam o sentimento religioso,

antes o abalam e destroem.

Da guerra contra os infieis voltou em breve Affonso Henriques á antiga

pendencia com os leonezes, commandados outra vez em pessoa pelo imperador.

O chefe de um dos corpos do exercito de Affonso VII, depois de ver

derrotados os que o seguiam, caíu prisioneiro dos portuguezes, e a final o

grosso dos dois exercitos avistou-se perto de Val de Vez. Ali na planicie

que separava os portuguezes e os leonezes havia todos os dias combates

parciaes, e em um d'esses Affonso Furtado, irmão natural do imperador, e

outros fidalgos foram vencidos e prisioneiros.

Emquanto estes successos se passavam, o arcebispo de Braga negociava as

pazes entre os dois primos co-irmãos, dos quaes nenhum ousava arriscar a

fortuna da sua causa em uma batalha decisiva. D'esta vez ou porque a

infelicidade de Affonso Furtado commovesse o imperador ou por outras causas

politicas de maior alcance, foi Affonso VII quem solicitou a intervenção do

arcebispo portuguez, que a final conseguiu trazer a termos de concordia os

dois netos de Affonso VI.

Affonso Henriques dizia-se então infante, mas desde 1113 intitulava-se

tambem principe dos portuguezes. Esta denominação de principe do povo em

vez de principe do territorio, já usada por D. Tareja e renovada nos nossos

tempos em França para designar aquelles que por eleição popular e não por

direito hereditario incontestavel sobem ao throno, foi talvez n'aquella

epocha um meio de satisfazer os desejos de independencia dos portuguezes,

sem contestar absolutamente o direito soberano da corôa de Leão. Na terra

para a qual a energia nacional ganhára o titulo de reino, o nome de

principe dos portuguezes era de indubitavel legitimidade.

Depois da paz de Val de Vez o filho de D. Tareja aceitou o titulo de rei, e

começou a usar d'esta designação, e quando em 1143 os dois primos renovaram

e confirmaram em Samora os ajustes de Val de Vez, Affonso VII reconheceu a

realeza de Affonso I de Portugal.

Este reconhecimento não era absoluto. Affonso VII, como imperador de toda a

Hespanha, não lhe importava que o chefe dos portuguezes se chamasse rei,

comtanto que se confessasse seu vassallo. É de crer que este ponto delicado

fosse discutido nas conferencias de Samora, e que os mediadores andassem

buscando um meio de conciliar os caracteres altivos e duros dos dois

soberanos.

O certo é que Affonso I de Portugal recebeu do primo a investidura da

cidade de Astorga, e pôde assim dizer-se vassallo do rei de Leão sem

comprometter a independencia e a liberdade do novo reino, nem ferir a

susceptibilidade dos portuguezes. O rei de Portugal ficou livre quanto o

podia ficar perante o imperador das Hespanhas; o senhor de Astorga, esse

reconheceu por soberano quem lhe dera aquella possessão.

Affonso I conhecia o primo, e sabia que taes pazes, fundadas em arbitrios

mais subtis que positivos, não podiam ser duradouras. A sua clara

intelligencia, e o conhecimento dos negocios da sua epocha, ensinavam-lhe

que só havia um poder que os reis e os povos respeitavam, e que nenhuma

instituição era estavel sem a protecção e benção d'esse poder supremo.

Tratou pois de assegurar por meio da crença religiosa a realeza de que fôra

recentemente investido.

Fez n'esse mesmo anno homenagem do reino ao pontifice nas mãos do cardeal

Guido, e prometteu pagar á santa sé de Roma quatro onças de oiro cada anno,

dar cem _aureos_ por uma só vez, e reconhecer-se vassallo de S. Pedro

e do papa; sujeição nominal bem mais commoda do que o preito ao imperador.

Pela sua parte o pontifice devia obrigar-se a ajudar o rei portuguez em

tudo quanto podesse interessar o reino, e a não reconhecer em Portugal

nenhuma supremacia secular ou ecclesiastica que não fosse a de Roma. A

dadiva de mil _morabitinos_ completava as vantagens offerecidas por D.

Affonso I á Santa Sé.

Esta proposta era dirigida ao papa Innocencio II, porém foi Lucio II quem

respondeu ao rei de Portugal nos principios de maio de 1144. A resposta não

era facil, porque o summo pontifice não podia resolver este negocio, sem

renunciar á suzerania de um reino ou á amizade de um dos soberanos mais

poderosos do mundo.

Lucio II soube conciliar estas difficuldades aceitando todas as propostas

de D. Affonso, mas não lhe dando senão o titulo de duque de Portugal. A

independencia do solo portuguez ficava assim reconhecida pelo pontifice; e

o reino acceito como feudo da Santa Sé, embora o papa evitasse dar-lhe esse

nome. A confirmação do titulo de rei na pessoa de Affonso I não podia

tardar muito, até porque o proprio Affonso VII reconhecêra em Samora a

legitimidade d'essa designação.

As consequencias d'estes actos começaram a manifestar-se logo. Todos os

principes e fidalgos da peninsula hespanhola acompanharam Affonso VI á

conquista de Almeria. D. Affonso I de Portugal não foi, e conjectura-se que

essa ausencia do principe portuguez em um feito de armas contra os infieis,

não tivera outra causa que não fosse o desejo de oppor ás requisições do

primo a nova situação independente, em que o feudo á Santa Sé collocára os

portuguezes e o seu rei.

Affonso I aceitou de bom grado o arbitrio de Roma, contente de conseguir o

cumprimento da missão legada por seus paes, embora tivesse de caminhar como

elles passo a passo, e por veredas tortuosas, que todavia levavam ao ponto

a que desejava chegar.

Finalmente no anno de 1179 o pontifice Alexandre III confirmou clara e

abertamente o titulo de rei na pessoa do valente filho do conde D.

Henrique, mediante o pagamento annual de dois marcos de oiro em

substituição das quatro onças do mesmo metal, anteriormente promettidas a

Innocencio II.

A fundação da monarchia portugueza narração anti-iberica · 第 2 / 3 段