II

José Estevão nasceu em 1809. Antes dos vinte annos tinha entrado na

politica. Aos desoito batia-se com as armas na mão, e, vencido,

emigrava.

Nos combates a que, moço generoso, corria inflamado em esperanças de

dias venturosos para a sua patria, encontrava-a sob o dominio espiritual

da França. As nossas revoltas e aspirações eram reflexo do que se

passava em França. Reflexo frouxo, alterado, produzindo frequentes

distorções do modelo abstrusas até á caricatura, fazendo degenerar por

vezes largos gestos divinos de gigantes em esgares de anões impotentes,

mas reflexo authentico em todo o caso, constantemente derivado d'aquella

mesma luz e, em maré de fortuna, valha a verdade, reproduzindo-a com um

brilho igual ou superior ao do fóco d'origem, aliás deslumbrante.

Tenhamos sempre este facto em lembrança. É capital.

Reconheceu-o José Estevão, em 1840, claramente, quando, no primeiro

discurso do Porto Pireu, fallou da «França que sempre aqui se nos

inculca por modelo»; e lembrava que «a esse grande arsenal da legislação

franceza vão de continuo os nossos estadistas buscar os exemplos e as

theorias governamentaes». E, poucos dias depois, no segundo discurso do

Porto Pireu, respondendo a Almeida Garrett, insistia na influencia da

França sobre o pensamento e proceder dos nossos homens publicos. «Estão

no Pireu», disse, «os que no seculo XVIII mandam vir de França por

atacado quintaes e quintaes de discursos do abbade Maury e d'outros e

que, ensopando estas insossas comidas com molho de Guizot e

Rover-Collard, expõem á venda como eguaria exquisita a chanfana da

soberania da razão, da supremacia legal das capacidades, julgando que a

grosseira cosinha doutrinaria, que com seus pasteis tanto tem arruinado

a saúde dos povos e reis, ainda póde satisfazer o delicado paladar das

nações, acostumadas aos apetitosos guisados da soberania popular, da

igualdade e da justiça.»

Julgou porém legitima essa influencia, embora na passagem citada

precedentemente a indicasse mais para castigar a fraude, o commercio de

mercadorias avariadas que a astucia nem sempre desinteressada dos

contrabandistas ia buscar além dos Piryneus, do que para ostentar o

fulgor do ouro de lei que de lá importavamos. Em 1858,--desoito annos

mais tarde, note-se, e a distancia entre as duas datas d'affirmações

identicas póde esclarecer-nos sobre a persistencia do facto a que são

allusivas, em 1858, discursando no parlamento sobre o triste incidente

da barca franceza _Charles et George_, sob o pungir d'aggravos fundos e

não poupando á França a accusação dos seus erros, observava, calma e

nobremente, com aquelle espirito de justiça que jámais o desamparou, sem

se perturbar pela agudeza da dôr, que «a França, se não foi a primeira

iniciadora da liberdade na Europa, póde dizer-se que foi quem primeiro a

ensinou em escola publica na mesma Europa, porque a pôz em linguagem

vulgar, porque a sujeitou á apreciação de todos os povos, porque a

adaptou a costumes com os quaes se assemelham os costumes da maior parte

das nações europêas.»

Eis as fontes em que bebiamos o pensamento da nossa politica, as boas e

as más, as salutares e as maleficas. N'essas palavras d'apostolo e de

soldado, bem medidas e ponderadas, encontraremos a revelação bastante da

proveniencia das correntes em que fluctuavamos, da attracção da sua

limpidez e tambem, miseria humana! da vasa que traziam suspensa e por

momentos a escurecia.

José Estevão · 第 10 / 23 题