«Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades tão

desprezadas pelos seus filhos, que iniciaram a renovação economica da

Europa (e por sinal que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa

tragica); foram eles que organizaram a fábrica e traçaram a via férrea,

que deificaram a maquina a vapor e os teares mecanicos, e tudo isso

fizeram não só com uma percepção clarissima dos fins e meios e

consequencias, mas com uma fé e um entusiasmo que a prodigalidade de

invenções e as maravilhas da industria da nossa era jámais encontraram

em igual grau entre os contemporaneos. Não tiveram nem sombra de

educação scientifica; nas suas escolas, as declinações dos verbos e

nomes tinham uma importancia suprema sobre as quatro operações

aritmeticas. Não foi isso, porêm, impedimento a que calculassem com

precisão e justeza, quando isso se lhes tornou necessario. Meu pai,

latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo

classicismo, não deixou por essa qualidade de ser um comerciante

previdente, habil e seguro e um belo administrador das instituições

economicas em que serviu. Deu boas provas disso. Pois em matéria de

literatura dessa especialidade não cansou a vista, quando aliás muito

costumava lêr. No seu espolio, entre algumas centenas de volumes,

sómente um peregrino «codigo comercial», ali perdido, lembrava o

comerciante.

«É que a gente do seu tempo tinha uma concepção muito diferente das

necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje

a julgamos; parecia-lhe que era questão de simples bom senso, a que todo

o homem medianamente educado póde chegar, e muita ferramenta e metralha

que nós supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da

oficina. Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as

oficinas lhe ofereciam, segundo as relações de conveniencia ou

inconveniencia que lhes encontrasse com os muitos e variadissimos

elementos sociais que iam tocar.

«Para êste ultimo papel se destinava. E, como êle era uma coisa

essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de

referencia de todos os progressos e invenções, o ensino das humanidades

lhe bastava, o conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre

confiando em que o melhor mestre da vida era a experiencia e da

experiencia rezavam abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.

«Não direi que a gente saída das escolas classicas pensasse isto tão

nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em

pratica, o que foi sem dúvida muito melhor e mais útil. Da sua utilidade

colhemos nós os frutos, nós que, cheios de prosapia, emendamos,

corrigimos e em grande parte abandonamos por supérfluo o ensino dos

nossos pais--esse mesmo ensino que foi tanto ou tão pouco mesquinho,

estreito e infecundo que deu de si uma transformação politica como a

Revolução Francêsa, uma revolução literaria como o romantismo, e uma

revolução industrial como a fábrica moderna.

«O que todos nós poderemos verificar passando os olhos pela

correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, é

o primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao

feitor em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles

que hoje usa muitas vezes um professor dirigindo-se ao reitor da sua

universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as

autoridades e a exposição de suas narrações e reflexões são pedra

talhada e polida, duma finura de arestas em que não ha linha tremida ou

apagada; as ambiguidades, as confusões, os pleonasmos, a arrastada

negligencia de quem não sabe ao certo o que diz, eram provavelmente

pecados tão graves que um fino instinto adquirido no correr dos séculos

os evitara sem mais esforço. Escrevia-se bem; escrevia-se com clareza.

«Adivinha-se a resposta da «sciencia». Virá clamar que o importante é

saber, não é dizer. Cheira-lhe a rapé, a alfazema, a côrte e a convento

esse cuidado na expressão. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vão.

Mas outros pretenderão que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer,

nem por isso deixa de ser certo que para bem dizer é necessario pensar

bem, e emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a

melhor ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o

corrigimos, acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de

logica que afinal o alteram profundamente e subvertem.

«Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas

glórias, eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas

prosas perante o falar correntio e limpido dêsses velhotes fradêscos que

em duas linhas sabiam dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra

forma se podia traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e

desejando repeti-lo, e convencido dos seus beneficios, não sei que haja

modo de o reproduzir sem beber das mesmas aguas que o criaram.

«Sómente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando

chegarmos á fonte já lá encontramos uma multidão. Tudo o anuncia.

Felizes os que forem na frente.»

II

Isto escrevi ha seis anos[14], e, se agora tenho a indiscrição de o

desenterrar, não é para fazer registo, em meu beneficio, de

antecipações, mas sómente para lembrar como vinha de longe aquela

corrente de reacção contra o desvario do ensino meramente scientifico,

da qual nas minhas breves tarefas de jornalista fui um passageiro e

modestissimo interprete. Quanto então dizia não era meu; era do tempo.

Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento, esclarecido e animado

por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente revelado no

conflicto das nações armadas e em guerra sangrenta, representando a

Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gráu maravilhoso de cultura e

organisação scientifica, significando a França, com os povos que lhe

estão aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por

insuficiente e ineficaz para realisar as aspirações modernas da

civilização, e resultando da oposição destas duas correntes a

necessidade de escolha e reforma dos principios fundamentais da

educação.

Um artigo magnifico, publicado no _Times_ em fevereiro de 1917 e

assinado por _Um oficial ferido_, põe em termos de perfeita clareza, que

convém registar, esta dualidade em conflicto.

São desse artigo estes periodos que vou transcrever:

«A guerra pôs em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as

inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil

homens, inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:--O

que é que na atitude alemã perante a vida ha que no-la torna

intoleravel? Porque é que nós sentimos que a causa da França e da

Inglaterra é a causa da humanidade?

«Isto preguntam, e, se são francêses ou inglêses, (latinos ou

latinisados, diremos nós), respondem que o que é intoleravel na

Alemanha, o que pretere as multiplices excelencias do seu saber e

espirito publico, é que ha nela qualquer cousa que grava sinais de morte

naquilo que ela toca; qualquer cousa que é a antitese da

individualidade, das aspirações pessoais e esforço e sacrificio

espontaneo; um espirito que organisa os homens mas não os inspira, que

os cultiva mas não os ama, que faz um estado poderoso mas não faz uma

democracia nem uma igreja, e que, emquanto os pecados caracteristicos da

França e da Inglaterra são os dos homens, fraqueza, paixão e leviandade,

os pecados caracteristicos da Prussia, como ela é hoje, são os do

demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do coração, e o desprezo

pelo que é digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza humana...

Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra é apenas um

episodio, não é meramente entre o nosso país (a Inglaterra) e qualquer

cousa tão instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as

exigencias permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o

que tornou perigoso o espirito germanico é que ele não é alheio mas

horrivelmente identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o

espirito do imperialismo germanico é com demasiada frequencia o espirito

do industrialismo inglês e americano, com todo o seu culto do poder como

um fim só por si, com os seus padrões materiais grosseiros, a sua

subordinação da personalidade ao maquinismo, o seu culto de uma

organisação complicada e mortal para a alma; e o materialismo, que na

Prussia se revela na adoração do poder do estado, revela-se na

Inglaterra na adoração do poder do dinheiro.

«Não é mais nobre este ultimo, é mais ignobil, porque é menos

desinteressado que o primeiro. Não é tão violento, é mais maliciosamente

corrupto, e, pelo que respeita á massa do genero humano, quase

igualmente tiranico. Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de

cobiça mercantil, o espirito do materialismo é um só, e é um só tambem o

espirito que lhe resiste.»

«E, se nós sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a

conservação e desenvolvimento da liberdade espiritual, são dignos de

sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que são dignos de

sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da

personalidade mais claramente estão envolvidos, e onde o que os ameaça é

mais evidentemente obra de motivos materialistas, é a esfera da

educação.

«A educação oferece, todavia, uma especie de _experimentum crucis_, uma

conjuntura na qual se podem pôr em prova as causas pelas quais afirmamos

ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser

julgados, não pela correspondencia diplomatica que a precedeu, não pelos

esforços que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilização

que dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, não só

sobre o inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos

quais alega ter combatido.

«Se, como nós pretendemos, a causa da Inglaterra é a causa de todas as

mais altas possibilidades do espirito humano, então teremos de perpetuar

essa mesma causa em as nossas instituições sociais, cujo caracter

depende do caracter da educação que dermos aos nossos filhos e filhas.»

Uma calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar á nossa consciencia para

que é que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dér, esclarecida

pela mais cruel das experiencias, dependerão os fins e processos dessa

criação.

O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educação

impetuosamente scientifica, é que a vida imporia mais pelo que pensamos

e sentimos, pelo repouso ou pela inquietação do nosso espirito, do que

pelo que dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa acção

apreende e pelo que a nossa inteligencia alcança. É isto o que de todo

temos trazido esquecido, naquela sujeição dos homens ás cousas que foi a

paixão cega da educação scientifica moderna e da especie de cultura que

ela produziu; e foi por muito evidente se haver tornado esta

subalternisação dos valores morais perante as conquistas materiais que

M.me Montessori, com uma penetração profetica, muito antes que a guerra

o manifestasse pelas suas angustias, julgou que «o homem que tão

maravilhosamente transforma o seu ambiente e curva o universo á sua

vontade, não conseguiu transformar-se a si mesmo.»

Nem se imagine que este modo de vêr é o preconceito tradicional do

latino e seus derivados e afins, todos impregnados de aspirações de

nobreza e heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a

propria existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Além

do Reno, onde a força criou o seu imperio e o administrou e acrescentou

em menoscabo de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e

enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o

filosofo cuja elevação de espirito e profundeza de inteligencia são de

apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixões de

patriotismo que o possam perturbar, não nega a falencia da utopia

materialista. Discorrendo sobre _as experiencias da guerra e as

exigencias do futuro_, confessou que a guerra revelou um predominio

geral de egoismo, falsidade e cobiça entre todas as nações nela

interessadas, mais largamente disseminado do que até aqui se suspeitára.

Em seu conceito, a crença na bondade fundamental da humanidade recebeu

golpes profundos. A Alemanha orgulhava-se do seu trabalho, mas este

orgulho do trabalho, organisação e educação carecia talvez de cousas

fundamentais da vida que ele preteriu; em vez de cultivar essas cousas

mais profundas e imponderaveis, o alemão acrescentou ás ambições do

trabalho as cobiças do prazer. Os desejos do corpo tomaram o logar dos

desejos do espirito, e é essencial para uma nação a cultura do senso

responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um sentimento que a

habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o ilusorio,

entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez. «Não

hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeição do trabalho, mais

pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo

que de humanidade nele houver.» Quereria vêr a nação mais ardente no

apreço daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais nação

alguma póde ser verdadeiramente grande, sem os quais nação alguma pode

cumprir a sua missão no mundo.

O desprezo a que chegaram esses «altos e grandes valores da alma», que

são a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o

sentimos nas relações quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da

guerra, embora de uma eloquencia suprema, era desnecessaria para

reconhecer a miseria moral a que haviamos baixado; no comercio moral das

sociedades ha muito se acumulavam os sinais de depressão. Visitassemos

nós um liceu ou uma universidade, preguntassemos pelas suas aspirações

aos rapazes que lá andassem, e este queria ser engenheiro, aquele queria

ser medico, aqueloutro advogado, e ainda alguem preferiria ser

comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos contos de reis e a

isso referiam o valor da carreira. Nem um só nos responderia que a sua

ambição era viver de pouco, honestamente, engrandecendo o espirito e

servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela «classe de

homens», de que Platão falou, onde disse que «é pequena, rara por sua

natureza e o produto de uma educação ideal aquela classe de homens que

voltam a face firmemente para a moderação, quando sentem uma necessidade

ou um desejo, que são sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga

fortuna, que preferem os lucros moderados aos grandes.» Mais uma vez

podiamos dizer com o filosofo grego que «a massa do genero humano é

exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no

desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito

moderado.» Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos

de achar, que estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que,

«para sermos ricos, queria não que acrescentassemos as riquezas mas que

diminuissemos as necessidades»; e muito menos tinhamos possibilidades de

descobrir quem estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho

e a preguntar «que utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo

inteiro se perdeu a alma.» (S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da

terra constituiram-se em finalidade humana; não distinguindo mais o que

se deve aos bens do mundo e o que devemos ás pessoas, as pessoas

mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do mundo, em vez de

serem morada da beleza divina e do seu culto. A educação toda se

enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de

captar as cousas ou de possuir as almas.

Não, não era a moderação platonica, nem a nobreza romana, nem o

desprendimento, o que iamos buscar ás escolas. As vitorias alemãs de

1870, corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente,

lançaram o mundo, a exemplo da Alemanha, na superstição ignominiosa e

aviltante da riqueza, da força e da cobiça.

Assistimos agora á demonstração tremenda da inanidade dessa ambição.

Vinha, porêm, de longe a desconfiança, e até a aversão, da cegueira da

brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e

cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de

tal modo agravava, não direi já a tradição humanitaria, mas sobretudo o

nosso modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento

e progressos, enxameiam as lembranças da primeira hora, quando Mathew

Arnold--e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno

espirito--escrevia, em 1871, que «o imperio alemão seria apenas um

despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar,

barbaro apesar das suas escolas e universidades.»

E vinha de longe a ameaça da preterição da civilização de qualidade pela

civilização de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse

extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da França e que

teve neste mundo o nome de J. Joubert!

Em 1809, apreciando uma _Memoria sobre a Instrução Publica na Holanda_,

já ele afoitamente exprimia apreensões que hoje se tornaram caso julgado

por uma experiencia rematada em demonstrações dolorosissimamente

irrefragaveis. «Aquela boa gente» que havia escrito a _Memoria_, dizia

então esse notabilissimo pensador francês, «pensava que o fim da

educação literaria é e deve ser, não tornar o espirito mais belo, o

gosto mais puro, a percepção mais justa, a lingua mais adornada, a alma

mais delicada e a memoria mais feliz, mas sómente dar ao espirito «um

maior numero de aptidões para toda a especie de conhecimentos.» Choravam

o estado do seu país a este respeito: «Os estudos das matematicas, da

fisica, da historia natural andavam ali muito desprezados. Os

_auditorios_ em que estas sciencias se ensinavam, eram pouco

frequentados, mesmo quase desertos, em alguns logares. Disso coravam, e

«não é isso, diziam, «o que o estado actual das luzes e da sociedade

exige.» Para se porem pois de nivel com o estado actual das luzes e da

sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, não encontrando nunca

as suas razões no interior das cousas, porque têm o espirito pouco

penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim têm olhos,

desejariam eles que se ensinasse tudo á mocidade, mesmo á infancia, para

a tornar capaz de saber tudo.»[15]

O conflicto das diversas aspirações da educação, sentiam-no aproximar-se

os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza

do espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de

aptidões tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das

cousas, sabemo-lo nós agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo

cultivado com esmero e consciencia durante cincoenta anos e terminando

por dar ao mundo o espectaculo de todas as desolações de uma

brutalidade, no fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e

contente na sua soberba, a negação altiva do helenismo e do cristianismo

que fundaram a civilização, foram o seu leite e são o seu sustento, a

sua substancia.

Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da

sensibilidade, eu, que não posso gabar-me de haver sido _educado_ no

latinismo, porque não é educação que se tome em conta a arrastada e

desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui

_nascido_ no latinismo, o que para a constituição psicologica sobrepuja

a educação, não escapei ás apreensões de M. Arnold relativamente ao

germanismo tumido de sciencia e tão minguado de humanidade. Em 1888,

algum demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas

notas: «Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas

mãos de uma vontade; só ela a move. A graça e a elegancia, a vivacidade

e o riso foram banidos; o povo vai taciturno e lento.» «A Alemanha, que

Berlim nos mostra, afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a força

em um corpo informe. Toda a sua alma cristalisou nesta aspiração--ser

forte, invencivel.» «Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de

mãos dadas com o genio militar, alcançaram emfim dar-lhe uma rara força.

Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilização, ou

simplesmente uma gloria efemera, saida da coincidencia das aptidões de

um povo com as necessidades do momento historico? A Revolução Francesa,

iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuais, simultaneamente

deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e impotencia

politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao pólo oposto.

Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas instituições

derivadas da Revolução, só os nossos filhos poderão saber o que é um

país educado na admiração da força. Todas as profecias serão prematuras,

embora vagamente pressintamos que a civilização é mais alguma cousa do

que a força.»

Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porêm,

toda a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilização tem de ser

mais alguma cousa do que a força, e de que, por maior força de remexer a

terra e dominar os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspiração

e atraiçoou-a, se com a força não coincidiu o desenvolvimento moral do

homem e das sociedades, naquelas bases de amor, respeito, liberdade,

desprendimento e generosidade que o genio greco-latino concebeu e fundou

de uma vez para sempre. Guiados pelo passado e alvoroçados pelo

presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou hesitação, onde e como

aquela aspiração de outrora rediviva ha-de realisar-se, por que meios

hão-de criar-se e educar-se os homens que a hão-de servir e manter em

corpo e acção.

Entre a educação classica e a aspiração da dignidade sobrelevando a pura

aspiração da força, ha uma relação intima e imediata. Aquele mesmo

Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria da Alemanha,

prevalecendo «apesar das suas escolas e universidades», esse,

distinguindo entre o estudo das letras, que «é o estudo da acção da

força humana, da actividade e da liberdade humana», e o estudo da

natureza, «que é o estudo das forças não-humanas, da restricção e da

passividade humana», julgou que «o fim e cargo da instrucção... é

habilitar o homem a _conhecer-se a si e ao mundo_.»

Imagino mesmo que só isto a que vagamente chamamos letras, e que afinal

compreende toda a filosofia e toda a moral e estetica, imagino que só

isto demandará cultura e é rigorosamente objecto de educação. A outra

educação, a que na essencia é aprendizagem scientifica, essa, como a

sciencia importa de ordinario alteração da condição material das cousas,

depressa entra na categoria do facto quotidiano, e desse modo, por

efeito de contacto e presença fisica, se torna de conhecimento

inevitavel. As leis e progressos da fisica, da quimica e de toda a

mecanica correlativa são faceis de conhecer desde que têm como resultado

imediato e patente o para-raios, a maquina a vapor e o telegrafo e o

telefone e os submarinos e os aeroplanos e toda a infinita mudança

correlativa ou afim. São cousas que se vêem e não podem deixar de ser

vistas e consideradas pelo seu volume e pressão continua. Os estados da

alma é que não são assim palpaveis; a mais pequena obra de arte demanda,

para ser compreendida e sentida, uma susceptibilidade fisica e mental

que, a não ser em aptidões de excepção, só por educação, só por uma

insinuação persistente e adequada se alcança. E daí a diversissima

natureza do ensino scientifico e da educação classica, senão o facto

capital que faz que a educação seja propriamente aquela cultura

literaria, moral e estetica que constitue a aspiração classica. O resto,

com o rotulo espaventoso de sciencia, será porventura questão de

conhecimento e ensino a acrescentar á educação, que é uma só, onde as

exigencias profissionais o exigirem.

Ora nós por demais estudamos a natureza e os modos e termos de a

sujeitar e aproveitar em beneficio da força, e simultaneamente, e por

demais tambem, desaprendemos as letras e os modos e termos de as

converter em instrumento do conhecimento e disciplina da nossa alma.

Entre agonias o verificamos. O desengano é profundo. E, ao senti-lo e na

ansia de rehaver o perdido, de pronto a logica nas sugere os meios de

resgate e nos manda voltar aquela antiga e segura estrada pela qual a

Renascença caminhou, confundindo com boas razões em um só estudo o

Humanismo, a cultura do homem, e a antiguidade classica, na qual essa

cultura atingira uma beleza sem precedentes.

Do que o fogo não queima · 第 4 / 5 段