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*INDICE CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS DA HISTORIA DO BRASIL
DESDE SEU DESCOBRIMENTO EM 1500 ATÉ 1849*
SEGUIDO DE UM SUCCINTO ESBOÇO DO ESTADO DO PAIZ AO FINDAR O ANNO DE 1849
O. D. C.
AO ILLM. E EXM. SNR. CONSELHEIRO
AGOSTINHO MARQUES PERDIGÃO MALHEIRO
Dignissimo Membro do Supremo Tribunal de Justiça do Imperio,
Fidalgo Cavalleiro da Casa Imperial, Commendador da Ordem de Christo,
Membro honorario do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, &c. &c. &c.
POR SEU FILHO
AGOSTINHO MARQUES PERDIGÃO MALHEIRO
Bacharel em Letras pelo Collegio de Pedro II, e Doutor em Sciencias
Juridicas e Sociaes pela Academia de S. Paulo.
RIO DE JANEIRO
TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO DE PAULA BRITO
Praça da Constituição N. 64.
1850.
*A MEU PAI.*
Dignai-vos acceitar a exigua offerta que em pública e solemne prova de
minha eterna e sincera gratidão ouso fazer-vos.
Tudo vos devo, a vida, a educação, a posição que ora tenho na sociedade.
E vós não ignoraes os sacrificios que essa educação vos tem custado.
Acceitando a insignificante offerenda que vos faço, permitti que com o
vosso nome eu a ampare e resguarde, assim como vós me amparastes desde a
infancia até a actualidade.
A producção que vêdes constitue as primicias da seára que com tanto zelo
fizestes cultivar. Mais um titulo para vos ser ella exclusivamente
offerecida.
Não possuo cabedaes, além da educação que me déstes; della procurei
colher um fructo que vos offertasse em signal de meu reconhecimento.
Eil-o; acceitai-o e protegei-o, que eu serei feliz.
Respeitoso beija as vossas mãos
Vosso filho e amigo
Dr. _Agostinho Marques Perdigão Malheiro_.
*AO LEITOR.*
Em o _Jornal do Commercio_ de 13 do fevereiro do anno proximo passado,
fizemos publicar o seguinte:
ATLAS CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS DA HISTORIA DO BRASIL
DESDE 1500 ATÉ 1848, INCLUSIVE.
«Tal he a primeira producção que pretendemos dar ao prélo... A obra
constará de sete mappas:--No 1.^o se acharão os factos mais
memoraveis da historia do Brazil no seculo dezeseis; no 2.^o, os do
seculo dezesete; no 3.^o, os do seculo dezoito. Os quatro ultimos
darão os do seculo dezenove na ordem seguinte:--o 1.^o, desde 1800
a 1822; o 2.^o, desde 1822 a 1831; o 3.^o, desde 1831 a 1840; e o
4.^o, desde 1840 a 1848.
«Foi este o systema mais claro e succinto que excogitámos de
escrever a historia com algum proveito para os que a lerem; porque
d'este modo o leitor terá diante dos olhos em um só quadro a
narração historica dos factos que mais avultam e sobresahem, e que
não devem ser ignorados de Brasileiro algum, sobretudo d'aquelles
que se consagrão á vida litteraria, politica, &c.
«A base do nosso methodo de escrever he, como se vê, a _divisão
chronologica_ em seculos. Assim dividimos a historia do Brazil em
quatro seculos:--A dos tres primeiros, isto he, dos seculos
dezeseis, dezesete, e dezoito, pôde ser escripta cada uma em um só
mappa; de maneira que no 1.^o mappa o leitor tem debaixo dos olhos
o que de mais notavel se passou no seculo dezeseis; do mesmo modo
no 2.^o mappa o do seculo dezesete; e no 3.^o, o do seculo dezoito.
«Mas para o seculo dezenove, não sendo possivel escrever todos os
factos em um só mappa, foi indispensavel fazer divisões. Para esta
subdivisão tomámos por base as _épocas historicas_. Assim,
comprehendendo os quatro ultimos mappas a historia desde 1800 a
1848, o 1.^o começa em 1800 e termina em meiados de 1822; o 2.^o
começa em 7 de Setembro de 1822 (época gloriosa da proclamação da
Independencia, em virtude da qual o Brasil se constituio Imperio
livre sob o governo de seu magnanimo fundador o Senhor D. Pedro I),
e termina em 7 de Abril de 1831 (época em que teve lugar a
abdicação, findando d'este modo o governo do primeiro Imperador); o
3.^o começa no mesmo dia 7 de Abril (época em que pela abdicação
ficou o Brasil sob o governo de uma regencia em nome do segundo
Imperador), e termina em 23 de Julho de 1840 (época em que pela
proclamação da maioridade do mesmo Senhor cessou a Regencia); o
4.^o, finalmente, começa em 23 de Julho de 1840 (época em que
começou o governo do segundo Imperador o Senhor D. Pedro II), e
termina em 31 de Dezembro de 1848.
«Por esta exposição vê-se quanto tempo e trabalho deve
necessariamente ter consumido uma obra d'estas. E com effeito, não
nos temos poupado a fadigas para apresentar ao publico uma
producção a mais exacta possivel, já a respeito dos factos em si,
já a respeito das causas que lhes derão origem, e resultados dos
mesmos factos, já finalmente a respeito da época e lugar em que se
elles passarão; porque não he bastante saber que tal facto existio:
he preciso, não só remontar á philosophia da historia, isto he,
indagar a razão da existencia do facto, suas causas, sua ligação
com os que o precederam, bem como suas consequencias; mas tambem
classifical-o competentemente em relação ao tempo e ao lugar, isto
he, torna-se indispensavel o auxilio da Geographia e da
Chronologia, duas irmãs gemeas e inseparaveis da Historia.
«Sem estas condições, inutil he o conhecimento abstracto dos factos
historicos por mais importantes e interessantes que sejão; bem como
sem a Philosophia e Critica, he caminhar com pouca segurança na
investigação das verdades historicas.
«Temos empregado todas as nossas forças para satisfazer o melhor
possivel a esta nossa intenção; e para isso havemos revolvido as
obras dos melhores historiadores, as collecções de leis, os
documentos authenticos, os roteiros e viagens, os periodicos
litterarios, a Arte de verificar as datas; emfim, um sem numero de
obras, sem as quaes impossivel he dar um só passo em hum trabalho
d'esta natureza. E quem se tiver dado ao estudo da historia
concordará em tudo quanto hemos dito.
«Por conseguinte, si, apezar disto, o nosso trabalho contiver
defeitos e lacunas (o que irremediavelmente ha de acontecer, pois
que não ha cousa alguma, por mais bem elaborada, que sáia perfeita
das mãos de um ente por sua natureza imperfeito, qual o homem),
desde já declaramos sujeitar-nos ás observações da _boa critica_,
d'essa que procura esclarecer os factos, apresentar a verdade, e
não obscurecel-os para d'est'arte trazer a confusão e illudir as
gerações futuras; e protestamos tomal-as na devida consideração, ou
para correcção nossa e melhor instrucção, ou para as combatermos,
caso tenhamos fundamento em persistir na opinião por nós seguida na
mencionada obra.
«Nós não nos contentamos unicamente com exarar os factos; damos
tambem a razão de sua existencia, isto he, as causas que os
originárão, e bem assim os seus resultados ou consequencias. De
espaço em espaço, em breves parenthesis, damos noticia do estado do
Brazil em differentes épocas, para assim ir o leitor seguindo a
marcha progressiva ou regressiva do paiz nos differentes tempos.
Alêm d'isso, offerecemos tambem entre parenthesis muitas
observações, quer a respeito dos factos, quer das pessoas que
n'elles representárão, quer das suas causas e tempo em que se
passárão; porque, havendo muita cousa controversa, indispensavel
era dar o fundamento do nosso dizer. Por fim terminará a obra com
um mui breve e succinto esboço do estado do Brazil ao findar o anno
de 1848.
«Eis em poucas palavras o plano da obra que pela primeira vez
tencionamos submetter ao juizo publico; a qual, pela exposição que
temos feito, se conhece não ser huma _Historia Geral do Brazil_
(para o que serião necessarios muitos volumes), mas tão sómente dos
factos mais notaveis d'ella nas épocas indicadas, desde o seu
descobrimento.»
A obra que actualmente temos a honra de dar á luz publica he _no fundo_
a mesma que haviamos promettido no annuncio acima transcripto, si bem
que modificada no _titulo_ e na _fórma_.
O systema que haviamos adoptado para sua publicação era imitativo do de
Le Sage, cuja superior vantagem não soffre contestação para aquelles que
preferem a solidez e a realidade á superficialidade acobertada com
pomposas expressões.
Já grande parte se achava typographicamente composta, quando
circumstancias imprevistas, sobretudo a de não se achar em uma só parte
d'esta grande Capital o papel cartonado proprio para semelhante genero
de impressão, e não querermos demorar indefinidamente a publicação
promettida, á espera que viesse da Europa o papel que se mandasse
buscar, fizerão-nos de accordo com o Impressor destruir tudo quanto
estava feito, e dar _nova fórma e novo titulo_.
Eis porque fizemos publicar a obra na fórma ordinaria, desprezando a dos
mappas (que haviamos promettido), e substituimos o titulo pelo que ora
tem de _Indice Chronologico, etc_.
Sirvão portanto estas considerações de publica satisfação de huma falta
absolutamente involuntaria, que muito nos têm magoado e desgostado, como
he facil comprehender.
Em compensação encontrará o leitor, alêm do promettido, mais a historia
do anno passado (1849), e o estado do Brazil ao findar esse anno e
entrar o em que nos achamos de 1850.
E, como graves factos se hão passado até o meiado do corrente anno (data
em que isto escrevemos), para satisfazermos a curiosidade do leitor, que
quizer hir acompanhando a marcha successiva dos acontecimentos notaveis
de nossa Historia Contemporanea, aqui os apresentamos em mui succinta
exposição.
Nas relações internas:--A sentidissima morte do Principe Imperial o
Senhor D. Pedro Affonso (10 de Janeiro); a pacificação de Pernambuco
pela dissolução das forças insurgentes acoutadas nas mattas
d'Agua-Preta; as questões suscitadas em consequencia de recusarem alguns
Chefes acceitar as amnistias condicionaes que lhes forão concedidas; a
peste por quasí todo o littoral do Brazil, denominada _febre amarella_,
e que fez milhares de victimas; o procedimento do Barão de Jacuhy e sua
briosa pertinacia em continuar no seu intento contra a Banda Oriental,
até que se dissolverão voluntariamente suas forças, e elle se apresentou
em Porto-Alegre; a sancção e publicação do Codigo Commercial Brazileiro,
que será dado á execução de 1.^o de Janeiro do anno proximo futuro em
diante; a agitação dos espiritos por causa dos factos praticados pelo
Cruzeiro Inglez, as discussões pela imprensa e na tribuna parlamentar a
que elles tem dado lugar (Junho e Julho): eis os factos que mais
avultão.
Nas relações externas:--As complicações em que nos achamos no Sul do
Imperio pelos factos do Barão de Jacuhy, haver este transposto o
Quarahim, e em territorio estrangeiro praticado actos de guerra; as
reclamações ao Gabinete de Paris e ao Governador de Cayenna sobre o
apparecimento de navios e forças Francezas no lago Amapá no N. do
Imperio; as repetidas affrontas e insultos que temos soffrido da
Grã-Bretanha, a qual tem continuado a abusar com o seu despotismo e
insolencia proverbiaes, desprezando todos os principios sagrados do
Direito Internacional, escarnecido do nosso pavilhão, affrontado todos
os Poderes do Estado, e violado impunemente os nossos direitos
soberanos, a honra e dignidade nacional: eis os factos mais salientes.
A maior questão da actualidade é por sem duvida a de nossas relações com
a Inglaterra.
O Cruzeiro Inglez acha-se autorizado pelo Governo da Grã-Bretanha, a
cuja testa se acha Lord Palmerston, para percorrer os nossos mares
territoriaes, entrar nos nossos portos, e em qualquer parte que seja
proceder á _vizita e busca_ nos navios mercantes que lhe parecer,
_aprizional-os_, e remettel-os para Santa Helena, ou _incendiar_ ou
_metter a pique_!
Elle o tem feito; e mais ainda!
E isto em contravenção de todos os principios, em contravenção da
Convenção de 1826, em contravenção mesmo do famoso bill de 8 de Agosto
de 1845!
E qual a causa? A continuação do trafico de Africanos, existir em vigor
o Art. 1.^o do Tratado de 23 de Novembro de 1826, e se ter o Governo do
Brazil, desde que cessarão em 1845 os Tratados que estabelecião o modo
de realisar esse solemne compromisso, recusado sempre chegar a hum
accordo com a Grã-Bretanha a tal respeito.
Huma duzia de traficantes (que pela maior parte não são Brazileiros),
insaciaveis de ouro, embora seja elle adquirido pelos meios mais
infames, vís e criminosos, tem-nos feito passar pelos vexames que ora
nos opprimem, pela vergonha e ignominia de nos vermos assim atrozmente
injuriados e offendidos no que ha de mais melindroso, em quanto elles
folgão e riem no meio do lodaçal de suas riquezas adquiridas pelo
_trafico_, pela destruição da liberdade dos Africanos, pela venda de
carne humana! E o que mais enche de indignação he que muitos d'elles são
cobertos de condecorações e honras (que só devião brilhar em peitos
respeitadores das leis naturaes, divinas e humanas); e rodeados de
prestigio na sociedade pela influencia do seu ouro!
Basta. Ao Governo cumpre fazer-nos sahir da gravissima situação em que
nos achamos, do modo que mais condigno fôr com os nossos interesses,
direitos e honra.
Rio de Janeiro, 14 de Julho de 1850.
O Autor.
*TITULO I.*
*SECULO XVI.*
1500.
Reinando em Portugal El-Rei D. Manoel, parte de Lisboa huma esquadrilha
sob o commando de _Pedro Alvares Cabral_ com destino á India, cujo
caminho pelo Cabo Tormentorio ou de Boa-Esperança havia sido descoberto
por Bartholomeo Dias e Vasco da Gama; porém obrigado a descambar para O.
afim de desviar-se das cóstas, é acossado pelos ventos e impellido cada
vez mais para este rumo. Entregue assim á mercê da Providencia, avista
elle terras da America Meridional em _22 de Abril_. (Muito divergem os
Historiadores sobre o dia do descobrimento do Brasil; porém a opinião
mais geralmente seguida, ao menos até certa época, foi a de _Ozorio_,
_Barros_, e outros que assignalão a este acontecimento o dia _24 de
Abril_, fundados talvez na relação de um piloto que vinha nesta
expedição e por isso testemunha ocular. Nós porém assignalamos o dia 22,
fundados na carta que a D. Manoel escreveo _Pedro Vaz de Caminha_, que
vinha na expedição como Escrivão da armada, testemunha ocular, e digna
de todo o conceito; carta que se vê publicada pelo P. Ayres do Cazal na
sua insigne--_Corographia Brasilica_,--e mais accuradamente
nas--_Noticias Ultramarinas Tom. 4.^o_ Além disto temos em nosso apoio
as autoridades mui valiosas do mesmo _Cazal, de Varnaghen, de Fr.
Francisco de S. Luiz_ no seu _Indice Chronologico_ e de outros
Escriptores. Accresce que os proprios Autores que opinão ter sido o dia
24, nos ministrão armas para nos confirmarmos nesta nossa opinião:
porque o mencionado piloto assevera ter sido o descobrimento na _Quarta
feira_ do oitavario de Pascoa, que he exactamente o mesmo que diz
Caminha na carta citada. Estando pois concordes huma e outra testemunha
ocular no dia da semana, alguma se engana no dia do mez. E com effeito,
tendo sido neste anno o dia de Pascoa em _19 de Abril_ (V. _Taboa
Chronologica_ da _Arte de verificar as datas_), _Quarta feira_ do
oitavario não podia ser senão 22, como com toda a razão diz Caminha, e
não 24 como menos exactamente affirma o piloto referido).--Ao primeiro
monte avistado dérão o nome de _monte Pascoal_ e á terra _Terra da Vera
Cruz_ (que depois chamárão _de Santa Cruz_, e mais tarde
_Brasil_).--Desembarca _Pedro Alvares Cabral_ no lugar denominado mais
tarde _Porto seguro_. No dia _1.^o de Maio_ planta a Cruz com o padrão
das Armas de Portugal em signal de solemne posse do paiz para a Corôa
Portugueza. Depois de despachar para Lisboa o Capitão Gaspar de Lemos a
dar parte a El-Rei da inesperada e felicissima descoberta, faz-se de
véla para o Cabo de Boa-Esperança e India seu primeiro destino.
1501.
Ao mando de _Gonçalo Coelho_ chega ao _Brasil_ a primeira expedição
Portugueza para explorar as costas das novas terras. (N'esta expedição,
segundo alguns escriptores, veio tambem o celebre _Americo Vespucio_ em
serviço de Portugal. E outros, como seja _Fr. Francisco de S. Luiz_ no
seu _Indice Chronologico_, dão a entender que esta expedição foi
commandada por Americo, o qual não só percorreo toda a costa do _Brasil_
até o Prata, como chegou á Patagonia: porém, a darmos crédito ás cartas
do próprio Americo, lá temos nas _Noticias Ultramarinas, Tom. 2.^o_, a
sua 1.^a carta, da qual se deprehende que não era elle o Capitão da
expedição).
1503.
Segunda expedição é enviada ao Brasil ás ordens de _Christovão Jacques_.
(Alguns Escriptores dizem ter sido ás ordens de _Fernão de Noronha_,
primeiro Donatario da ilha do mesmo nome). Descobre elle a Bahia de
_Todos os Santos_ (segundo _Fr. Francisco de S. Luiz_ na obra já citada,
foi esta bahia descoberta por _Americo Vespucio_ em huma segunda
expedição que fez por mandado do Rei); e funda huma Colonia em
_Vera-Cruz_. Depois desta expedição começa a ser levado á Europa o páo
_brasil_, donde veio a denominação que ora tem o paiz. (Segundo alguns
Escriptores, _Christovão Jacques_ explorando as costas foi plantando
padrões nos lugares mais apropriados; porém, segundo outros, cabe este
feito a Martim Affonso de Sousa).
1510.
Dá á costa na Bahia de _Todos os Santos_ hum navio Portuguez. A maior
parte da tripulação e passageiros morreo ou no naufragio ou ás mãos dos
Indigenas. _Diogo Alvares Corrêa_ porém consegue a sua salvação e até
fazer-se respeitado e amado desses póvos anthropophagos por ter podido
salvar comsigo huma arma de fogo, com a qual ajudou-os a debellar e
vencer os seus formidaveis inimigos. Denominarão-o por isso o
_Caramurú_, que quer dizer o _homem de fogo_.
1515.
_João Dias Solis_ ao serviço da Hespanha percorre a costa do _Brasil_
desde o Cabo de Santo Agostinho até o Rio da Prata, ao qual deo o seu
nome (e, posto que este rio tivesse perdido o nome de Solis para receber
o de Prata, comtudo ainda hoje ha o rio de Solis que nelle desagua, e
que conserva immortal o nome deste illustre navegante). N'esta viagem
descobre elle a Bahia de _Nictherohy_, depois chamada do _Rio de
Janeiro_. (É grave questão quem tenha sido o descobridor desta Bahia, si
_Americo Vespucio_, si _Gonçalo Coelho_, si _Solis_, si _Magalhães_ e
_Falleiro_, ou si _Martim Affonso_. Alguns AA. até querem que tivesse
sido em 1501. (V. Pizarro, _Memorias do Rio de Janeiro_; e Varnaghen,
_Notas ao Roteiro de Pero Lopes_)). Esta expedição deo lugar a questões
de limites e a reclamações entre Portugal e Hespanha, sobretudo á vista
da celebre decisão do Papa Alexandre 6.^o. O Imperador Carlos 5.^o,
então Rei de Hespanha, attendeo a todas as reclamações, e até punio os
implicados em semelhante expedição como quebrantadores da paz entre os
dous Reinos.
1519.
Entrão na Bahia do Rio de Janeiro os celebres Portuguezes _Fernando de
Magalhães_, e _Ruy Falleiro_, então ao serviço de Hespanha, os quaes se
destinavão a fazer o primeiro giro á roda do globo (13 de Dezembro).
Partem ao depois para o seu destino; e Magalhães dá o seu nome ao
estreito que communica o Atlantico ao Pacifico no S. da America entre a
Patagonia e Terra-do-Fogo.
1521.
Morre El-Rei D. Manoel (13 de Dezembro).--Durante o seu reinado toda a
attenção estava absorvida pela India, cujas riquezas já de muito erão
conhecidas na Europa; de sorte que, não merecendo cuidado o Brasil,
apenas se enviarão a povoar e colonisar o paiz degradados, criminosos,
prostitutas emfim a escória da sociedade. Taes forão por muito tempo os
primeiros colonos!
1521.
Sóbe ao throno D. João III, filho e successor de D. Manoel.--Melhor
informado que seu Pae, e por isso muito esperando das novas terras na
America, leva este Rei sua attenção para as colonias em geral, e muito
especialmente para o Brasil.
1526.
Para obstar a qualquer tentativa dos estrangeiros no Brasil parte huma
esquadra ao mando de _Christovão Jacques_. Com effeito, chegando este á
Bahia de Todos os Santos encontra e mette a pique dous navios Francezes
que poucos dias antes ahi havião entrado. Parte depois para o Norte, e
funda nas costas de Pernambuco a primeira feitoria Portugueza,
denominada _Itamaracá_.
1530.
Tendo-se os Francezes estabelecido na feitoria de Itamaracá, por elles
occupada, envia El-Rei _Duarte Coelho Pereira_ que os expulsa, e
transfere a feitoria para _Iguaraçú_, poucas milhas distante da
primeira.--Tendo-se tambem sabido que os Hespanhóes se achavão
estabelecidos no Rio da Prata, e temendo El-Rei que elles se quizessem
estender pelas terras do Brasil envia uma armada ás ordens de _Martim
Affonso de Sousa_ (3 de Dezembro).
1531.
El-Rei divide o Brasil em Capitanias hereditarias; as quaes distribue
por pessoas benemeritas por seus serviços com a obrigação de povoal-as
afim de obstar ás invasões estrangeiras, e aos ataques dos
Indigenas.--Martim Affonso de Sousa, primeiro Donatario, chega a
Pernambuco e dirige-se para o sul: entra na Bahia de Nicterohy ou Rio de
Janeiro a 30 de Abril (posto que alguns Escriptores dizem ter sido ao
1.^o de Janeiro de 1532, e outros ao 1.^o de Janeiro de 1531. Nós porém
seguimos neste ponto o _Diario da Navegação_ de Pero Lopes, onde se pode
ver a observação que faz Varnaghen a esta questão): corre ao S., e chega
até o Rio da Prata. Não encontrando pela costa estabelecimento algum
Hespanhol ou estrangeiro, faz-se de volta á sua Capitania.
1532.
Entra Martim Affonso na Bahia de _S. Vicente_ na Capitania do mesmo nome
(22 de Janeiro), e ahi funda elle a primeira povoação de alguma
importancia no Brasil, que denomina _S. Vicente_. (Outros escriptores
dizem ter Martim Affonso entrado no porto de _Santos_ e depois disto
fundado ao S. desta Bahia a colonia de S. Vicente. Porém abandonando
esta opinião por menos bem fundada, seguimos inteiramente a relação de
Pero Lopes, já tantas vezes citada). Brilhante foi a sua administração.
Por meio de _João Ramalho_ conseguio a alliança do celebre Indio
_Tebyriçá_; e em paz com os Indigenas, só cuidou na prosperidade da
colonia, introduzio as criações muares, a canna de assucar, etc.
1534.
_Pero Lopes de Sousa_, irmão de Martim Affonso, tendo obtido a Capitania
de _S. Amaro_ encravada na de S. Vicente, consegue fundar huma pequena
colonia, não sem bastante resistencia dos Indigenas.--A _Pero de Goes_
coube a Capitania da _Parahyba do Sul_; e tendo della tomado posse neste
anno, vê-se obrigado a abandonal-a dentro em pouco tempo.--A _Vasco
Fernandes Coutinho_ coube a Capitania do _Espirito Santo_: consegue
estabelecer-se nas immediações do lugar onde desembarcou Cabral, e
aldêar os Indios Tupininquins ahi existentes.--A _Jorge de Figueiredo
Corrêa_ foi dada a Capitania dos _Ilhéos_; e a _Pero do Campo Toyrinho_
a de _Porto-Seguro_. Ambas estas Capitanias florecerão dentro em pouco
tempo, chegando até a de Porto-Seguro a exportar grande quantidade de
assucar.
1535.
Tendo sido dada a _Duarte Coelho Pereira_ a Capitania de _Pernambuco_,
chega elle ao seu destino, trazendo em sua companhia grande numero de
familias: e depois de expellir os temiveis Cahetés, lança os fundamentos
da cidade de Olinda. Na expulsão dos Cahetés muito o auxiliárão os
Indios _Tabyra_, _Hagybe_ (braço de ferro), e _Piragyhe_ (braço de
peixe).--Ao celebre historiador _João de Barros_ fôra dada a Capitania
do _Maranhão_. Porém não lhe sendo possivel tratar immediatamente de
povoar e colonisar a Capitania, cedeo-a em favor de _Luiz de Mello_, ao
qual succede a desgraça de naufragar nos baixios do Maranhão.--A
_Francisco Pereira Coutinho_ coube a Capitania da _Bahia de Todos os
Santos_; e chega a seu destino neste anno. (Afóra as 9 capitanias que
temos mencionado, devemos ás minuciosissimas investigações do Sr.
Varnaghen o conhecimento de mais 3, cujos Donatarios foram Ayres da
Cunha, Fernão Alvares de Almada, e Antonio Cardoso de Barros, perfazendo
assim o numero de 12, em que diz Barros fôra dividido o Brasil).
1535--1548.
Tendo sido mal succedido Luiz de Mello na Capitania do Maranhão, é João
de Barros reintegrado nos seus direitos a essa Capitania. Faz elle uma
sociedade com _Fernão Alvares de Andrade_, e _Ayres da Cunha_ para a
colonisação da Capitania. Sahe com effeito huma expedição ao mando de
Ayres da Cunha; porém teve nos mesmos baixios do Maranhão o mesmo
desastroso fim de Luiz de Mello (1536).--Tambem na sua Capitania he
infeliz Francisco Pereira Coutinho, mas por culpa sua. E com effeito, em
lugar de tratar brandamente os Indios e de procurar sua amizade e
alliança, fez-lhes guerra de exterminio, chegando até a apossar-se
dolosamente de Diogo Alvares Corrêa o _Caramurú_. A famosa _Paraguassú_,
esposa de Caramurú, excita os Tupinambás á vingança, e obriga Coutinho a
fugir. Feita porém a paz, voltava este á Bahia, quando huma furiosa
tempestade o fez naufragar em Itaparíca (1548). Os que escaparão do
naufragio morrerão ás mãos dos Indigenas; entre elles o proprio
Coutinho: só forão poupados Caramurú, e sua comitiva.
1549.
Tendo sido dada aos Donatarios illimitada jurisdição civil e criminal
sobre as suas respectivas Capitanias, concedendo-se-lhes até impor a
pena de morte, mesmo ás pessoas de mór qualidade; e provindo d'ahi
innumeros males porque o abuso dos Senhores Donatarios ia-se tornando
intoleravel, a anarchia reinava, os colonos erão opprimidos, os Indios
barbaramente perseguidos; indispensavel era que o Brasil fosse governado
por huma autoridade superior que servisse de centro commum, á que todos
obedecessem. Assim creou El-Rei D. João III, melhor instruido pela
propria experiencia, o cargo de _Governador Geral do Brasil_, que
confiou a _Thomé de Sousa_. A 28 de Março chega este á Bahia, trazendo
em sua companhia os primeiros Jezuitas que pizarão no Brasil. Coadjuvado
por Caramurú consegue estabelecer-se na Bahia, e funda a cidade de _S.
Salvador_, séde do Governo.
1552.
Chega á Bahia o primeiro Bispo do Brasil _D. Pedro Fernandes Sardinha_;
o qual consegue apaziguar por algum tempo as desavenças entre o Clero e
os Jezuitas.
1553.
Thomé de Sousa retira-se e he substituido no Governo Geral por _Duarte
da Costa_. Com o novo Governador vierão alguns Jezuitas, entre os quaes
o famoso _José Anchietta_, denominado o _Apostolo do Novo Mundo_. Já com
Thomé de Sousa viera _Manoel da Nobrega_. A estes dous Padres he o
Brasil devedor de muitos e mui relevantes serviços.
1554.
Reconhecendo o Governador Geral vistas ambiciosas nos Jezuitas,
nega-lhes o seu apoio. Estes retirão-se para o Sul, e fundão junto ás
planicies de Piratininga huma povoação, e o Collegio de S. Paulo, donde
veio o nome á cidade e provincia hoje assim chamadas.
1555.
O desejo de conquista, e a ambição de riquezas levão estrangeiros a
tentarem expedições á America. _Nicolau Durand Villegaignon_, sob o
falso pretexto de fazer propagar o Calvinismo, protegido pelo Almirante
Gaspar de Coligny, chega com huma expedição Franceza á bahia de
Nictherohy, e construe no centro della sobre huma pequena ilha hum forte
que denominou--_de Coligny_--(ou _Villegaignon_).
1557.
Morre El-Rei D. João III. (11 de Junho). Fica na minoridade D.
Sebastião, neto e successor do Rei.
1557.
He Regente do Reino a Rainha _Catharina d'Austria_.
1558.
Chega ao Brasil o Governador Geral _Mem de Sá_.
1560.
_Mem de Sá_ expelle os Francezes do forte--Coligny. Estes fogem para o
continente, onde se tornão mais fortes com o auxilio dos
Tamoios.--Visita o Governador a Capitania de S. Vicente, e deixa a sua
prosperidade confiada aos PP. Manoel da Nobrega, e José Anchietta,
ordenando ao mesmo tempo que se transferisse para S. Paulo o
estabelecimento de Santo André.--Vê-se Mem de Sá obrigado a voltar a S.
Salvador para reprimir os attaques dos Aymorés que incommodavão e
assolavão as Capitanias dos Ilheos e Porto-Seguro: com effeito elle os
derrota.
1562.
A Rainha entrega a Regencia ao Cardeal _D. Henrique_.
1564.
Os _Tamoyos_, senhores de todo o territorio entre Rio de Janeiro e S.
Vicente, formão com outros Indios huma temivel liga contra os
Portuguezes e dirigem-se ousadamente a attacar a nova povoação de S.
Paulo. Porém os Jezuitas ajudados pelo celebre Indio _Tebyriçá_ (depois
do baptismo _Martim Affonso_) salvão-a e repellem os Indigenas.--Tambem
a Capitania do Espirito Santo era muito incommodada pelos Indios; e já
havia perecido Fernão de Sá filho do Governador, mandado por seu Pai a
debellar os selvagens.--Continuando cada vez mais terrivel a guerra
feita pelos Indios, os PP. Manoel da Nobrega e José Anchietta, depois de
passarem milhares de perigos obtem a paz dos Tamoyos (foi por esta
occasião que José Anchietta compoz em latim e reteve de memoria o
celebre poema da _Virgem_).--Chega á Bahia _Estacio de Sá_, sobrinho do
Governador, enviado pela Côrte a expulsar definitivamente os Francezes.
1565--1567.
Em Março de 1565 desembarca Estacio de Sá junto ao monte _Pão-d'Assucar_
no Rio de Janeiro. Depois de longa resistencia dos Francezes, ajudado
pelo Governador seu Tio, pelos PP. Nobrega e Anchietta, e pelo Indio
_Ararigboia_, consegue expellir definitivamente os invasores depois de
lhes tomar o forte _Uraçumiri_ (1567): porém não poude colher os louros
da victoria por expirar poucos dias depois, de huma gloriosa ferida que
recebera.--Os Francezes sahindo do Rio de Janeiro tentão apossar-se de
Pernambuco; porém são com denodo repellidos pelo Governador da
Capitania.
1568.
He acclamado Rei D. Sebastião (20 de Janeiro), tendo apenas 14 annos de
idade.--_Salvador Corrêa de Sá e Benavides_, que muito se distinguira na
expulsão dos Francezes, é nomeado Governador do Rio de Janeiro, e lança
os fundamentos da Cidade de _S. Sebastião_ na margem occidental da bahia
(é hoje a Capital do Imperio), cujo plano já fôra traçado por Mem de
Sá.--Auxiliado pelo celebre Ararigboia (ou _Martim Affonso de Sousa_,
que não devemos confundir com Tebyriçá) repelle os Francezes e Tamoyos
que tinhão vindo attacal-o inopinadamente para se vingarem da derrota
antecedente.
1572.
Chega á Bahia o Governador Geral Luiz de Brito de Almeida; porém não
logra muito tempo o governo geral do Brasil, porque a Metropole julgou
conveniente dividir o Brasil em 2 governos geraes. Assim as Capitanias
do N. até o Rio Belmonte estavão sujeitas a hum Governador Geral com sua
séde na Bahia; as do Sul desde esse Rio até o Prata obedecião a outro
Governador Geral com sua séde no Rio de Janeiro: os Governadores erão
totalmente independentes hum do outro. Luiz de Brito ficou com o governo
do N.; e o do S. foi confiado ao Doutor Antonio Salema.--Por esta épocha
tem lugar a grande emigração dos Tupinambás para o centro do paiz, os
quaes provavelmente chegárão até o Amazonas.
1573.
_Sebastião Fernandes Toyrinho_ sahe de Porto-Seguro; e subindo o Rio
Doce em busca de minas de metaes preciosos, descobre grande parte do
territorio hoje occupado pela Provincia de Minas-Geraes.
1576.
He o Brasil de novo reduzido ao governo de hum só Governador Geral com
sua séde na Bahia. He elle confiado a Luiz de Brito.
1578.
Diogo Lourenço da Veiga vem substituir Luiz de Brito no Governo
Geral.--Por ordem sua vai João Tavares estabelecer-se na Parahyba do
Norte ou Itamaracá, que fôra abandonada pelo seu primeiro
Donatario.--Neste mesmo anno El-Rei D. Sebastião querendo vingar os
revezes e affrontas dos Portuguezes em Africa, ávido de gloria militar,
desejoso de combater os infieis, e mais que tudo incitado por vís
aduladores e pelos Jezuitas, parte para Africa: onde perde a vida com a
flôr do exercito na sempre terrivel e memoravel batalha de Alcaçarquivir
(4 de Agosto).--He acclamado Rei o Cardeal Infante D. Henrique.
1580.
Depois de hum reinado de 16 mezes fallece o Cardeal Rei (31 de Janeiro):
e deixa a corôa do Reino entregue a disputas entre varios pretendentes.
Entre estes se distinguião D. Antonio, Prior do Crato, a Duqueza de
Bragança, e Philippe II. de Castella--D. Antonio já havia sido escolhido
e coroado, quando entra em Portugal hum exercito Hespanhol ao mando do
Duque d'Alva.--Em consequencia da invasão he Philippe II. de Castella
reconhecido Rei de Portugal pelas Côrtes reunidas em Thomar.--O Brasil
segue portanto a sorte da Metropole, e passa ao dominio
Hespanhol.--Neste mesmo anno o Governador Geral Diogo Lourenço da Veiga,
achando-se prestes a morrer, entrega o governo ao Senado da Camara da
Bahia e ao Ouvidor Geral Cosme Rangel de Macedo: foi este o governo
interino até a chegada do novo Governador Geral.
1582.
Chega á Bahia, e toma posse do governo geral Manoel Telles Barreto.
1583.
Rompe a guerra entre Philippe II. e Izabel de Inglaterra: a formidavel
esquadra Hespanhola denominada _Invencivel_ é destroçada por hum furioso
temporal.
1585.
Envolvido o Brasil na guerra entre Hespanha e Inglaterra, apparece em
Santos na capitania de S. Vicente a primeira expedição Ingleza dirigida
por _Eduardo Fanton_; o qual retira-se depois de hum combate com huma
esquadrilha Hespanhola que se achava á entrada da barra.--Por este mesmo
tempo _Roberto Dias_ descendente do celebre Caramurú, tendo feito
viagens ao interior do Brasil e recolhido immensa quantidade de prata,
vai offerecer-se a Philippe II. para revelar-lhe o segredo da existencia
das minas deste metal, obtendo em recompensa o titulo de Marquez das
Minas. Sendo-lhe isto negado, morre sem descobrir o segredo.
1588.
Nova expedição Ingleza, commandada por _Roberto Withrington_ chega á
Bahia: e, depois de assolar o Reconcavo, não podendo tomar a cidade,
faz-se de vela.
1590.
Christovão de Barros, Governador interino do Brazil, recebe ordem para
repellir os Indios que infestavão as povoações de Itapicurú e
Villa-Real.--Lanção-se os fundamentos da cidade de _S. Christovão_ na
foz do rio Cotindiba.
1591.
Huma esquadrilha Ingleza ao mando do pirata _Thomaz Cavendish_ attaca a
villa de Santos na capitania de S. Vicente. Os habitantes,
aproveitando-se da embriaguez dos invasores e das trevas fogem para o
interior levando o que poderão salvar. Cavendish faz-se á vela, depois
de lançar fogo á povoação de S. Vicente. Querendo attacar o Espirito
Santo he repellido com grande perda, e obrigado a voltar á Europa: morre
na viagem.
1593.
Outra expedição Ingleza ás ordens de _Jayme de Lancaster_ attaca Olinda.
O forte he tomado e a cidade saqueada. Lancaster volta á Inglaterra
levando comsigo immensas riquezas.
1598.
Morre Philippe II. de Castella, e I. de Portugal (_13 de
Setembro_).--Sobe ao throno Philippe III. de Castella, e II. de
Portugal.
1599.
O Governador Geral D. Francisco de Sousa bate os Pitagoares e construe
hum forte na foz do Rio Grande do Norte, deixando por commandante
Jeronymo de Albuquerque Coelho.--Lanção-se os fundamentos da Cidade _do
Natal_.
*TITULO II.*
*SECULO XVII.*
1603.
Chega á Bahia o governador Geral D. Diogo Botelho (outros dizem Pedro
Botelho) a substituir D. Francisco de Sousa. Botelho é infeliz no seu
Governo; faz guerra barbara e deshumana aos Indios, e até calca aos pés
as salutares e justas leis de Hespanha ácerca da liberdade dos
desgraçados Indigenas. Comtudo consegue-se a paz com os temiveis Aymorés
pelos esforços verdadeiramente christãos do colono _Alvares_ e do
Jesuita _Domingos Rodrigues_.
1612.
Chega ao Maranhão uma expedição Franceza ao mando de _Augusto de La
Ravardière_ afim de tornar permanente hum pequeno estabelecimento ou
colonia Franceza que ha 18 annos tinha ahi sido fundada.
1614.
_Jeronimo de Albuquerque Coelho_ parte com uma expedição a expellir os
Francezes do Maranhão. Ajudado por _Alexandre de Moura_ bate-os na
batalha de _Guaxendúba_. Mas suspendem-se as hostilidades.
1615.
Rôta a convenção de Guaxendúba, são completamente batidos os Francezes,
e obrigados a abandonar o Maranhão, retirando-se na mesma esquadra de La
Ravardière. Jeronimo de Albuquerque Coelho recebe em galardão a nomeação
de Capitão-Mór do Maranhão.
1616.
Jeronimo de Albuquerque faz partir para o Amazonas _Francisco Caldeira
de Castello-Branco_; o qual lançou os fundamentos da cidade de Belém, e
construio hum forte.--Por este tempo tentão os Hollandezes
estabelecer-se ao S. do Amazonas; porém não o conseguem e são
repellidos.
1621.
Morre Philippe III. (_31 de Março_).--Sóbe ao throno Philippe IV. de
Hespanha, e III. de Portugal.--Grandes feitos vão agora ter lugar, e
occupar nossa attenção.
1622.
Chega ao Brazil o Governador Geral Diogo de Mendonça Furtado.
1623.
O caracter de Philippe II. já havia feito revoltarem-se as suas
possessões da Hollanda. E a guerra feita então á Hespanha foi de grave
prejuizo a Portugal e ao Brazil. Felizmente trégoas se havião alcançado
por 10 annos desde 1609 reinando já Philippe III.--Porém, estando a
expirar semelhante trégoa, e achando-se forte a Hollanda com as suas
conquistas na India e com a existencia da celebre Companhia das Indias,
foi proposta e resolvida a conquista do Brazil. Em consequencia huma
esquadra de 60 vélas he neste anno armada para semelhante conquista.
_Jacob Villekens_, _Pedro Haynes_, _Hans Vandort_ e _Adrião Patrid_
sahem á testa da expedição.
1624.
O governo de Madrid julga conveniente separar o Pará e Maranhão do resto
do Brasil: assim o faz, constituindo-os hum estado independente do resto
do paiz, e sujeito a hum Governador Geral com obediencia unicamente á
côrte.--Apparece na Bahia a esquadra Hollandeza, que toma quasi sem
resistencia a cidade. Tal era o estado de fraqueza a que o Brazil tinha
sido reduzido pela côrte de Hespanha! _Vandort_ fica na Bahia como
Governador. _Villekens_ parte para a Europa. _Haynes_ vae attacar o
Espirito Sancto. E _Adrião Patrid_ sahe a conquistar Loanda na Costa
d'Africa.--Tendo sido aprisionado contra a estipulação e todas as leis
do direito e da honra o Governador Mendonça de Furtado, e remettido para
bordo da náo Almirante inimiga, devia succeder-lhe no governo Mathias de
Albuquerque que a este tempo se achava em Pernambuco. Porém, como as
circunstancias urgião, é eleito Governador e General em chefe o Bispo
_D. Marcos Teixeira_; o qual faz de novo cobrar animo aos Portuguezes e
os leva a expellir os conquistadores.
1625.
Chega á Bahia _Francisco Nunes Marinho_ enviado por Mathias de
Albuquerque a tomar o commando do exercito, que não assentava bem em hum
Ministro da Religião.--Ao mesmo tempo chega _D. Fradique de Toledo
d'Eça_, Marquez de Valdueza (_28 de Março_) enviado por Hespanha.--E
reunidos os exforços de ambos, sitião a cidade e obrigão o inimigo a
capitular. Vandort morreo em hum combate.--Restaurada a Bahia, toma
posse do governo geral D. Francisco Rolim de Moura.
1627.
Haynes fôra repellido do Espirito Sancto.--E Patrid, tendo sido mal
succedido na conquista d'Africa, volta á Bahia: porém he obrigado a
retirar-se; e na volta para a Europa apodera-se dos galeões Hespanhóes
que do Mexico ião carregados de riquezas.--Diogo Luiz de Oliveira
substitue Rolim de Moura no governo geral do Brasil.
1629.
A Côrte de Madrid, avisada de que os Hollandezes perseverantes na
conquista do Brasil levavam suas vistas para a Capitania de Pernambuco,
ordena a Mathias de Albuquerque que vá fazer face aos inimigos e
repellil-os. Chega elle a Pernambuco com mui diminuta força (_19 de
Outubro_).
1630.
Apparece a esquadra Hollandeza, onde vinha o General inimigo _Theodoro
Vandemburg_.--Occupa este o Recife e Olinda.--Distingue-se _João
Fernandes Vieira_ na defeza do forte S. Jorge com só 37 guerreiros
contra 4000, até que capitula honrozamente.--Mathias de Albuquerque
volta do interior; e depois de fortificar-se, ajudado pelo Indio
_Camarão_, limita-se á defensiva.
1631.
Uma esquadra Hollandeza ao mando de _Adrião Patrid_ chega ao Brasil
trazendo soccorros aos de Pernambuco: assim como huma Hespanhóla
commandada pelo Almirante _D. Antonio Oquendo_ em auxilio do paiz. As
duas esquadras encontrão-se nos mares da Bahia, onde travão formidavel
combate. Patrid, obrigado ou a morrer ou a entregar-se, prefere a morte;
e envolvido no estandarte da Hollanda lança-se ao mar heroicamente,
proferindo estas palavras:--_O Oceano he o tumulo digno de hum Almirante
Batavo_.--Da esquadra Hespanhola he destacado o _Conde Bagnolo_ para
Pernambuco; o qual chega ao seu destino e reune-se a Mathias
d'Albuquerque.--Julgando os Hollandezes ser muito maior, do que
realmente era, o reforço chegado aos Portuguezes, lanção fogo a Olinda,
e concentrão-se no Recife (_23 de Novembro_).
1632.
Tentão os Hollandezes tomar a Parahyba, o Rio Grande do Norte, e outros
pontos; não o conseguem.--Porém, felizmente para elles, o pardo
_Domingos Calabar_ leva-lhes com sua pessoa a victoria. A ilha de
Itamaracá cahe em poder do inimigo.
1633.
Chega a Pernambuco com grandes reforços o General inimigo _Lourenço
Reimbach_, que vem substituir Vandemburg.--Mathias de Albuquerque bate o
novo General, que he morto e substituido por _Sigismundo de Schopp_.
1634.
Sigismundo ajudado pelo infame Calabar, apodera-se da cidade do Natal, e
de outras povoações. De sorte que nesta época o inimigo occupava
Pernambuco, Parahyba, e Rio Grande do Norte.
1635.
Resolve Mathias de Albuquerque emigrar para o interior de Pernambuco. Ao
passar por _Porto-Calvo_, por hum ardil de _Sebastião do Souto_, então
prisioneiro do inimigo, bate a pequena força que se achava de guarnição,
e toma a villa. Porém, depois de arrazar as fortificações e de ter feito
executar o traidor Calabar, vendo que no estado em que se achavão as
tropas e falto de recursos não podia conservar-se em Pernambuco, emigra
para as Alagôas: outros fogem para a Bahia, Rio de Janeiro, e para o
interior da propria capitania.--Tendo Mathias sido chamado á Europa,
desembarca nas Alagoas (_25 de Novembro_) _D. Luiz di Roxa y Borgia_,
nomeado General das forças em Pernambuco. Com elle veio tambem o novo
Governador Geral _Pedro da Silva_, que substitue Oliveira, igualmente
chamado á Europa.--Borgia parte para Pernambuco, deixando nas Alagoas
huma força ás ordens do Conde Bagnolo.
1636.
Morre Borgia em hum combate, e succede-lhe Bagnolo no commando geral das
tropas.--Os Hollandezes são muito incommodados pelas correrías do Indio
Camarão, e do preto _Henrique Dias_.--Tem lugar a 2.^a emigração dos
habitantes de Pernambuco, conduzida por Camarão: Bagnolo porém
conserva-se em Pernambuco.
1637.
Chegão ao Brazil novas tropas Hollandezas ao mando do Principe _Mauricio
de Nassau_ (_23 de Janeiro_). O primeiro intento do novo General foi
tomar Porto-Calvo, onde se achava Bagnolo. Renhido combate tem lugar
entre 4000 Portuguezes e 10000 Hollandezes, no qual se distinguem
Camarão, sua mulher _D. Clara_, e Henrique Dias. Bagnolo desampára
cobardemente Porto-Calvo, e retira-se em direcção ás Alagôas; todos os
habitantes o acompanhão, ficando unicamente huma pequena guarnição que
se defende heroicamente, até que capitúla o mais honrozamente possivel.
Mauricio persegue Bagnolo nas Alagôas, e obriga-o a retirar-se para
Sergipe: volta depois a cuidar na colonia. Envia soccorros a Sigismundo
para expellir de Sergipe o Conde Bagnolo; o qual, sendo disto avisado,
toma o partido de emigrar para a Bahia apezar da repugnancia do
Governador Pedro da Silva. Sigismundo ataca e devasta Sergipe.--Ao mesmo
tempo os Indios do Ceará convidão Mauricio a apoderar-se desta Provincia
expellindo os Portuguezes: elle o aceita e é feliz.--Neste mesmo anno
sahe huma esquadrilha de 47 canôas ás ordens de _Pedro Teixeira_ para
reconhecer o Amazonas (_28 de Outubro_). (Já em 1540 havia Orellana
descido pelo Amazonas, sendo assim o primeiro Europêu que o navegou).
1638.
Mauricio, tendo sido mal succedido na sua tentativa de conquista dos
Ilhéos, resolve-se a pôr em execução o seu projecto de conquistar a
Bahia. Com effeito ahi apparece com grande esquadra (_14 de Abril_).
Sitia a cidade; porém soffre perda consideravel no ataque das
trincheiras, no qual tambem nós entre outros Officiaes perdemos o famoso
Sebastião do Souto, que tantos serviços havia prestado nesta guerra. O
Conde Bagnolo, já então na Bahia, bate Mauricio, e obriga-o a retirar-se
para Pernambuco.--Neste anno chega a Quito a expedição de Pedro Teixeira
e Bento Rodrigues de Oliveira, tendo subido pelo Amazonas e alguns de
seus confluentes.
1639.
Em _Janeiro_ chega á Bahia numa grande esquadra Hespanhola destinada a
restaurar Pernambuco, e todos os outros pontos do Brazil em poder do
inimigo.--Chega a Belém, já de volta de Quito, a expedição de Pedro
Teixeira (_12 de Dezembro_).
1640.
Com grandes exforços e muitos sacrificios consegue-se reunir tropa no
Rio Grande do Norte sob os chefes Camarão, Henrique Dias, _Barbalho_ e
_Vidal_; os quaes voão em auxilio da Bahia.--Chega á Bahia e toma posse
o novo Governador Geral D. Jorge Mascarenhas, Marquez de Montalvão,
condecorado com o titulo de _Vice-Rei_ do Brazil.--Em S. Paulo os
Procuradores de todas as Villas e Camaras (por accordo de _13 de Julho_)
expulsão da Capitania os Jezuitas.--Nova época se prepara para o Brazil.
A tyrannia de _Olivarez_, Ministro do Rei, a de _Miguel de
Vasconcellos_, Vice-Rei de Portugal, e a oppressão em que vivião os
povos excitão o desejo de liberdade e independencia. Assassinado Miguel
de Vasconcellos em Lisboa, sacode Portugal o jugo ferreo de Hespanha
(_1.^o de Dezembro_).--He acclamado Rei o Duque de Bragança D. João IV.
1641.
Chegando ao Brazil tão grata noticia, entra de novo no dominio
Portuguez, á excepção do territorio occupado pelos Hollandezes.--O
Vice-Rei Montalvão é injustamente preso por suspeito e enviado para
Lisboa, onde é mui bem acolhido pelo Rei. Governa o Brazil huma _Junta
Provisoria_, composta de 3 membros.--Conclue-se na Europa huma trégoa de
10 annos entre Portugal e Hollanda; porém, como ella não devia ser
publicada senão hum anno depois de ratificada, o Principe Nassau
conquista, já durante a trégoa, a ilha de Maranhão e Sergipe.
1642.
Os Hespanhóes desejando conservar S. Vicente á corôa de Hespanha (ou
antes, querendo os Vicentistas constituir-se em Estado Independente,
como com melhor fundamento opinão alguns Escriptores) tentão acclamar
Rei _Amador Bueno da Ribeira_. Este porém nobre e heroicamente recusa
tal offerta; e retirando-se ao Mosteiro dos Benedictinos afim de pôr em
segurança sua pessoa consegue acclamar e fazer reconhecer como legitimo
soberano D. João IV. Em consequencia S. Vicente manda prestar juramento
de fidelidade ao Rei.--Chega ao Brazil o novo Governador Geral Antonio
Telles da Silva.--Publica-se a trégoa entre Hollanda e Portugal: cessão
as hostilidades no Brazil, e Mauricio cuida unicamente na prosperidade
da colonia.
1643.
Á sombra da paz florecia e prosperava rapidamente a colonia Hollandeza
sob o governo sabio do Principe Mauricio, quando suspeitas mal fundadas
o fazem chamar á Europa. Entrega portanto o governo ao _Grão-Conselho_
do Recife, composto de tres cidadãos; e faz-se á vela para Hollanda (_22
de Maio_).--A sua ausencia, a fraqueza e má administração do novo
Governo trazem a decadencia da colonia, e excitão nos Portuguezes o
desejo de liberdade. _Antonio Moniz Barreto_ (ou _Barreiros_, segundo
outros) no Maranhão dá o signal, sacodindo o jugo estrangeiro: o Ceará o
imita. Feliz incentivo para os de Pernambuco!
1645.