Portugal era ainda, no começo do reinado de D. José I, o que a França
principiara a ser desde o reinado de Luiz XV.
D. Pedro II e D. João V, fascinados pelo brilho deslumbrante e pelo
apparato tumultuoso da côrte de Luiz XIV, fizeram d'este rei absoluto,
libertino e folgazão, considerado, naquelle tempo e pelo partido
retrogrado e fanatico, o prototypo da realeza absoluta, o seu
aperfeiçoado modelo.
Um, seguindo a sua politica e imitando o seu exemplo, lançou ao
esquecimento as fórmas da antiga _monarchia representativa_; reprimindo
a nobreza e o clero, sem libertar o povo, preparou o _absolutismo_.
O outro, animado de um espirito romanesco, dotado de uma imaginação
ardente, dominado por uma piedade exagerada, ou especulando com uma
calculada hypocrisia, imitou Luiz XIV nas suas vaidades, invejou-lhe a
pompa e o esplendor da sua côrte, satisfez os mais puerís caprichos e as
mais levianas phantasias, nada sacrificou ao bem do povo, enriquecendo a
curia romana, esfalcou o thesouro publico, enfraqueceu a agricultura e
as artes, enervou o espirito e a actividade nacional, numa palavra--o
rei fanatico... fanatisou o povo!