(DA 1.ª EDIÇÃO)
_Meu caro editor_
Disse-me que esperava um prologo, para começar a publicação dos
_Contos_; lembrou-me escrever-lhe um capitulo de esthetica sobre esta
fórma litteraria. O publico não gosta de abstracções. Por minha vontade
desistia do promettido; limito-me porém a algumas considerações historicas.
A fórma do _conto_ é de origem oriental. As fabulas de Bidpaï foram o
primeiro ensaio para fazer sentir uma moralidade abstracta por meio de
uma ficção interessante. É pelo seculo XII que esta creação do genio do
oriente apparece na Europa, imitada na _Disciplina clericalis_ de Moysés
Sephardi, conhecido depois da sua conversão ao christianismo com o nome
de Petrus Alphonsus. A _Disciplina clericalis_, escripta em latim
barbaro, para ensino dos clerigos, compõe-se de trinta e sete contos e
apophtegmas, que o auctor imagina dados por um arabe a seu filho na hora
da agonia. A popularidade do livro foi dispondo os animos para a cultura
d'esta fórma litteraria.
O _Conde de Lucanor_ de D. João Manuel, algumas das ficções do _Gesta
Romanorum_, o _Decameron_ de Boccacio, os _Contos de Cantorbery_,
resentem-se bastante do livro do judeu convertido da Huesca.
Uma creação do genio celtico e germanico é o mundo feérico; elaborada
lentamente na phantasia popular, animada n'esses typos de Melusina,
Morgane e Urgante, dos trovadores da Edade média, cantada depois nos
galanteios de Boiardo e Ariosto, Spencer e Shakespeare, tornou-se o
divertimento infantil dos _Contes bleus_, os contos de fadas, colligidos
nas _Notte piacevoli_ de Straparole, publicadas no seculo XVI, e no
_Pentamerone_ de Giambattista Basile em 1637.
O conto é a fórma litteraria da lenda. Boccacio no _Decameron_,
n'aquellas transições instantaneas do ridiculo ao pathetico, revela uma
face profunda da historia, o estado dos espiritos na terrivel peste de
1358. A imaginação era tão perigosa como o contagio; a distracção
calculada, o prazer egoista dos jardins de Pampinea, a indifferença, o
scepticismo que se desenvolve nas grandes calamidades, só podiam
suspendel-a na exageração do terror. Nos contos da Edade média ha uma
mistura de devoção e desenvoltura; no _Heptameron_ da rainha de Navarra,
as aventuras cavalleirosas, as intrigas de amor, os padres e monges
seduzindo as noviças, entretecem-se com reflexões moraes, e de _quelque
léçon de la sainte Ecriture_. É a mesma antithese fatal que parodia a
exaltação religiosa nos ritos grotescos da egreja. A Edade média
retratou-se em todas as suas creações, mesmo nos _fabliaux_ e no conto.
O conto é a passagem do fabulario para a linguagem da prosa, ingenua,
rude, de uma franqueza maliciosa muitas vezes, e desenvolta. O conto era
uma situação inventada para aproveitar um dito feliz, um repente
engenhoso dos serões das côrtes e dos castellos; nasceu d'aquelle genio
primitivo, com que Froissart narrava a historia.
Demogeot, na sua _Historia da Litteratura franceza_, considera os contos
do seculo XVI como alheios ao desenvolvimento intellectual; é uma
affirmação menos verdadeira por absoluta. A actividade d'este periodo, a
fecundidade e originalidade verdadeiramente cahoticas reproduzem-se em
Rabelais, o creador de _Gargantua_ e _Pantagruel_.
A Renascença com as ficções gregas e romanas desnaturara o conto. No
seculo XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria
amaneirada. As attenções tinham refluido sobre os trabalhos
philosophicos; ficaram as creações imaginativas em poder das
Gamberville, de Scudery, de La Calprenède e quejandos, que as alongaram
fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por essas séries indefinidas
de volumes da _Polexandra_, _Caritea_, _Cytherca_, _Cassandra_,
_Pharemundo_, _Ibraim ou o illustre Bassa_, _Artamene ou o grande
Cyrus_, _Clelia e Almahide_. Os heroes apaixonados são Anacreonte
conversando em amaveis versos, Bruto e Lucrecia, Horacio Cocles e
Clelia, movidos pelos interesses da sociedade moderna; a magestade
escultural da antiguidade e da historia em presença das pequeninas
intrigas amatorias tocára o cumulo do ridiculo!
O movimento, a convulsão philosophica do seculo XVIII apparece tambem no
romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o _Gil Blas_
é a synthese das observações profundas; o abbade Prevost analysa as
paixões n'uma lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos
que scintillam dos que se embatem e se destroem. _Manon Lescaut_ é uma
das verdades eternas do sentimento humano, a contradição do que mais se
aspira e idealisa, a vontade negando-se, mobilisando-se nos multiplices
desejos que tumultuam na alma. Voltaire philosopha tambem nos seus
_Contos_. Diderot, sobretudo, a intelligencia mais robusta do seu tempo,
mathematico, artista creador pela reflexão e inspiração, reduz ao
interesse do conto, á peripecia da acção as verdades mais abstractas. Na
assombrosa maravilha de arte, o _Neveu de Rameau_, mostra a maldade
disfarçada em virtude pelas conveniencias; todos nos horrorisamos ao vêr
alli o nosso retrato; sentiamos aquillo, mas não tinhamos a
coragem, a abnegação para dizel-o. O sobrinho de Rameau mostra-se
infame, ao passo que é sublime de razão, porque diz tudo o que pensa.
Vê-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulição todos os processos
intellectuaes. Na _Religiosa_, Diderot evoca as dores cruciantes e
desconhecidas, soffridas nas trevas por um coração ingenuo, que é o
ludibrio do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade
brutal. Este conto por si é uma revolução latente. A analyse
delicadissima dos pequenos sentimentos que formam a grande lucta na alma
da _Religiosa_ não é inferior ao quadro do quietismo de Michelet no
processo da Cadière, e excede por muitas vezes a profundidade com que
Manzoni no _Promessi Sposi_ retrata as agonias da desgraçada Genoveva no
convento de Monza.
Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser
individual; o romance é o desenvolvimento de uma these da vida na
sociedade. Richardson é a admiração de Diderot; Goëthe descobre Diderot
á Allemanha, traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os
sentimentos do amor e o dever no _Werther_ e chega pela arte á conclusão
logica do suicidio.
Hoffmann, o caricaturista das paixões, de uma individualidade
extravagante, nas creações abstractas d'aquella imaginação de
hypocondriaco deixa-lhes o incompleto do maravilhoso; mais tarde os
editores dão aos seus contos o nome de _phantasticos_. Nos Contos de
Hoffmann ha uma série de observações psychologicas, de impressões
instinctivas que supprem a falta de imaginação; os seus contos são o
diagnostico de uma alma doente. É o lado que os torna apreciaveis,
apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada dá
fórma. Os Contos de Edgar Poë, a imaginação mais extraordinaria da
America, têm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos
que constituem a acção; tocam ás vezes a alta metaphysica. Tendo de
transigir com as materialidades da vida, na esterilidade da indigencia
pede a inspiração ao alcool; elle sente a excitação lucida que lhe
dá a força espantosa da invenção, mas conhece já em si a tremulencia,
que é a decomposição inevitavel, e exclama no meio da fadiga--_Não ha
peior inimigo do que o alcool!_ Edgar Poë é a força da imaginação e do
ideal supplantada pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e
orgulhosa do seu caracter industrial; nos seus Contos ha a allucinação
prophetica da doudice.
A fórma do conto é estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo
a lume este pequeno trabalho, só nos inspira a boa vontade de
corresponder ao movimento que observamos lá fóra. Que mais teriamos a
dizer de um livro simples que lhe não desnaturasse a intenção.
Coimbra, 8 de março de 1865.