Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos
n'um dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na
impaciencia de uma grande festa. Era o dia de um _Auto de Fé_ em
Hespanha, uma solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava
a coroação dos reis, o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua
maioridade; era o grande drama judiciario da velha jurisprudencia
theocratica revestido dos horrores do symbolo, mesclado de sangue
derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A procissão vinha
coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de risos do
rapazio que tudo parodía. Por todas as janellas negrejavam cabeças,
donzellas engraçadas, contentes, distraidas com a festividade
apparatosa. Á frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam
a lenha para a fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac
caminhava para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas
extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o
bolsão inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os
penitenciados vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco,
descalços, cobertos de um sambenito, com um chapeu afunilado, com
figuras cabalisticas, diabos, labaredas e caveiras pintadas.
A multidão pavida e credula, sentia aquella grande contradição do
coração humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e
lhe arrancavam lagrimas de compaixão. Chegados proximo do estrado real,
o Inquisidor geral veiu receber o juramento da extirpação das heresias.
Os brandões crepitavam nas mãos dos condemnados; tornavam mais lugubre o
momento. Depois viu-se levantar uma figura macilenta, a cabeça encoberta
no capuz, cruzadas as mãos sobre o peito em que tinha repousado um
crucifixo, o mesmo que um dia apresentára diante dos reis catholicos
Fernando e Izabel, dizendo-lhes que--o vendessem por trinta dinheiros,
já que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus. Era o
prégador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas,
representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os
terrores das penas do inferno. A multidão estava suspensa ante as
vociferações sangrentas do dominicano.
--Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que
estava attento) não o conheces?
O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:
--Ah, és tu, Diego Ortis? Bem o conheço pela fama de seu nome. É Pedro
de Arbués.
E não te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um
hypocrita e assassino?
--Assassino?
--Sim! Bem o devêras saber, porque é a ti a quem compete a vingança.
Elle pretendeu por todos os meios desposar Hernanda, tua irmã.
Lembras-te? Era rico, e teu pae desejava com todas as veras d'alma este
enlace. A infeliz menina resistiu sempre, até que se viu obrigada a
professar em um mosteiro, abandonada da familia. Não é verdade isto?
Ferido no orgulho, elle metteu-se a padre, disfarçou-se debaixo da
cugula monastica e fez-se seu Director espiritual. Matou-a lentamente
com jejuns e macerações, com a lembrança continua da tentação e da
condemnação eterna. Pobre Hernanda! o mundo disse que morrera como uma
santa; Deus sabe que desesperos profundos lhe abalaram a vida, e quantas
vezes, no intimo da alma oppressa, não amaldiçoou a hora do seu nascimento!
--E como sabes isso?
--Como o sei? Eu digo-te só que a vingança não dorme. Tambem tenho um
legado de sangue a cumprir. Era meu irmão o apaixonado, o eleito de
Hernanda. Se ha nada mais santo do que um amor que nos acompanha desde a
infancia. Alonso Ortis, doestado pelo rival audacioso, bateu-se
generosamente e caiu ferido, morto á traição. Já comprehendes tudo.
--Inferno! Para que me disseste essas cousas aqui, entre esta gente?
Sinto a convulsão da raiva que prostra, a sêde de sangue que me atira
para elle. Hernanda! a desgraçada, a silenciosa, a timida, que tudo
soffreu e nunca soube queixar-se! Eu quero trocar todas as tuas dores
por um prazer egoista de vingança. Fala-me, Diego Ortis; o que queres de
mim?
--Quero prudencia! Eu tenho esperado dia e noite, por toda a parte, e
nunca o tenho encontrado! nunca esta mão deixou de repousar sobre o
punhal, e ainda me parece que não é chegado o momento.
A este tempo o frade estava na peroração do discurso; a turba batia nas
faces, consternada, por terra. Os dois vultos permaneciam de pé,
insensiveis. O prégador desceu do pulpito e vinha acercando-se d'elles
com um olhar ameaçador, para reprehendel-os da insólita irreverencia. O
joven fidalgo precipitou os planos de vingança, e arremetteu com um
punhal no ár: apesar do impeto com que foi brandido resvalou sobre o
habito que encobria debaixo uma armadura cerrada.
Ergueu-se um susurro repentino. Era impossivel a salvação; com a ancia
do desespero Diego Ortis descarregou-lhe promptamente sobre o craneo
tonsurado a sua espada de cavalleiro. O povo alarmou-se e ia a
precipitar-se sobre os facinoras; recuou de horror diante da
impassibilidade dos dois. A estatura corpulenta do padre tomou as
proporções de um Goliath, derrubado, banhado de sangue negro, a massa
encephalica derramando-se pelas soturas fracturadas do craneo. Fazia
horror.
N'aquelle mesmo dia os dois assassinos foram penitenciados;
interrompeu-se a missa, e a procissão proseguiu levando-os para o
_Quemadero_, onde, com os demais, foram devorados pelas chammas.
Seguiram-se as pesquizas, as vexações e os sequestros; com os seus
processos tenebrosos a Inquisição lançou a rede por sobre muitas
familias. A Hespanha era, como se disse, uma grande fogueira. Mas como
ha uma antithese fatal na natureza humana, manifestada muitas vezes, a
cada instante da vida, na transição instantanea do sublime ao ridiculo,
Roma parodiou tambem esta scena sanguinolenta do drama tetrico de
Torquemada na farça jocosa da canonisação do frade prégador, que ainda
hoje se venera nos altares e de quem resa a folhinha com o nome de S.
Pedro de Arbués.
_Ora pro nobis._