Fragmentos de uma Elegia polaca

--«E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avança

deslumbrante de belleza e sem vestigios de morte a minha dilecta

Polonia.--Ella pára sobre os umbraes da Sião promettida a todos os

povos, e--d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se ás

nações reunidas muito longe, lá em baixo, nos términos do espaço.

«A mim, a mim, oh vós, raças fraternas! A ultima lucta do derradeiro

combate terminou;--os embustes das traições e das mentiras terrestres

estão destruidos.--Subi commigo para o reino da paz.»--E o côro das

nações lhe responde: «Benção e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que

tenhamos todas soffrido,--tu supportaste mais tormentos que nenhuma de

nós,--Pela enormidade das injustiças accumuladas sobre ti, conservavas

constantemente o inimigo debaixo do raio de Deus!--No transe do

martyrio, tiravas de teu coração uma vida mais energica que a dos teus

oppressores,--e pelo teu sacrificio nos salvaste.--Benção e gloria a ti,

oh Polonia!»

Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha mãe

ou de algum antepassado sáe do tumulo, e chega até mim para me fallar do

futuro.--Eis que a este ruido mysterioso, visões estranhas me

apparecem.--O canto de triumpho soltando-se do peito de milhões de

homens, resôa em derredor.--Os vencedores passam em phalanges

innumeraveis,--eu vejo as brancas, resplandecentes figuras das irmãs e

dos irmãos libertados da escravidão;--a centelha da immortalidade faisca

de todas as frontes.--Mesmo sem azas, elles vogam no ár, como se

fossem alados; sem corôas brilham como se fossem coroados.--E eu mesmo

prosigo no meio de todos, e me sinto em uma especie de céo desconhecido,

antecipado.

E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse já

sobre o tumulo da Polonia! E não havia senão eu, eu cadaver, que faltava

entre os resuscitados! Oh, através d'estas grades e d'estes muros que me

fecham como as taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se

expande ao longe, transpondo o tempo e o espaço!--Sim, eu vejo: além,

por toda a parte myriades de estrellas e flores;--o mundo regenerado

celebra suas nupcias com a joven liberdade!--Na aresta dos Alpes, no

cimo dos Carpathos, o céo resplandece com os raios da mesma aurora,--e

todos os povos unidos, confundidos, parecem formar um só oceano, por

sobre o qual é levado o espirito de Deus[1].»

Á medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos

_Cantares_, comparada á torre que olha para o occidente, parecia

suspensa; o semblante com a graça diaphana de um seraphim. N'aquella

elevação surprehendente, a commoção embaraçou-lhe a voz; não pôde

fallar; ficou hirta, livida, como na concentração violenta do extasis.

Era o genio da Polonia incarnado em uma mulher que soffria. Hedwige

ficou silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe

roxearam os pulsos. Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar

commigo a mesma sorte, sorriu-se, com a expressão divina da alegria

dolorosa e da resignação.

Dias depois leram-nos a sentença. Doze annos de desterro e trabalhos na

Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em

silencio; ella fazia um esforço inaudito para não vergar com as dores

excessivas; não queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi

então que me convenci de que o homem é o lobo do homem; peior ainda que

o lobo cerval, porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos

inflijam as sevicias do corpo, torturam-nos o espirito, insultando os

sentimentos mais recatados e santos que nos dão coragem nos desalentos

da vida.

Partimos todos na carroça dos desterrados, um _kibitka_ peior que o

tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do

inverno eram cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avançar; depois,

vieram amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a pé; a

desolação dos steppes, por onde passavamos, despertava-nos não sei que

sympathia, talvez porque eram uma similhança visivel do abandono e

ruinas em que estavam nossas almas.

Hedwige, delicada e fragil não podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco

a pouco; a lividez do sepulchro no semblante desbotado! Parecia-me a

flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As pancadas do _knut_,

um látego formado de tiras de couro crú e rosetas de ferro, com que a

verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as forças. Eu não sei

que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti n'esse

instante, porque o coração do homem nunca soffreu tanto, para descobrir

uma expressão para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a

olhar para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansaço; esgotára o

ultimo esforço. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha

a fechar-se asperrima, atroz; eu não podia sequer lembrar-me que o corpo

da minha amada ia ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem já sem

forças. Pedi para leval-a aos meus hombros.

Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para

sentir ainda agonias mais violentas que a morte.

--«Oh! antes me deixasses sepultada na solidão dos steppes, exposta ás

aves nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!»--Disse-me

ella a abraçar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que

chegámos ás minas da Siberia.

Os meus companheiros do infortunio não os tornei mais a ver; Hedwige foi

condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. Não soube

mais d'ella. A mim, enfiaram-me um capote de feltro e desceram-me

por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueirão escuro; á

medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas.

Então, vi na obscuridade profunda a luz baça e mortiça das lampadas de

segurança, e uma multidão de homens escaveirados, magros; era uma cidade

de mumias. Era aquella a minha habitação para doze annos de existencia.

Admirava-me de ver alli crianças; filhos dos desgraçados obreiros,

rachiticos, enfezados, não conheciam a luz do mundo, a vida resumia-se

no trabalho insano. As dores que supportava haviam-me embotado o

sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez do assombro.

Ás vezes uma lembrança longiqua de Hedwige e de minha mãe, a quem não

pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda

vivia; mas não podia alliviar-me com as lagrimas.

Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. Não sei

que esperança me prendia á vida, para que me não despedaçasse contra as

rochas que ia arrancando. Estava já acostumado á obscuridade. Um dia

começou a lembrança de Hedwige a occupar-me a imaginação. Seria uma

saudade viva? algum presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim

n'esse instante? Julgava-a já morta, criança e debil como era. Sem

Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se a visse ainda uma vez

morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto os que se dizem

meus similhantes me fizeram soffrer.

Era uma loucura esta idéa. E continuavamos silenciosos a romper a mina

lobrega e funda. Começámos a sentir um écco surdo; eram os trabalhadores

de outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais

afan, na direcção d'onde vinham os sons abafados.

Encontrámo-nos dias depois. Que alegrias, que abraços intimos entre

aquelles socios da desgraça. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o

meu desejo era o presentimento. «Já te esqueceste de mim?» Senti um

abraço sem vigor; fitei nas sombras o vulto, que me fallava e me

estreitava a si. Era ella, livida, desconhecida, com a magreza da

consumpção; o mercurio penetrára-lhe a parte esponjosa dos ossos. Tive

horror do ente que amava, era só a compaixão que me prendia a ella.

--«Lembras-te das palavras de Simeão quando na apresentação do templo

viu o Messias em seus braços? Hoje digo-te o mesmo, Karl; já posso morrer.»

E eu continuei a viver para vêr prolongados a miseria e os flagicios

incriveis, que me cercavam. Já não tinha o amor, que alimentava as horas

da minha solidão. Hedwige tinha-me expirado nos braços; soltára a alma

candida, acrysolada nas tribulações, no ultimo beijo, que recebeu de

mim. D'ahi por diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu

não vivia, vegetava como o lichen no fundo de uma caverna escura. A

imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis

prolongara-me a existencia vegetativa.

Lembrava-me minha mãe. Se a tornaria a vêr ainda! Estaria ella já no

sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta

do captiveiro? Sem successos, nem distracções, que me preoccupassem a

vida, cada momento parecia-me um seculo de desesperação. Estes doze

annos foram uma outra existencia. Quando voltei á patria julguei um

renascimento; mas tornava a apparecer á luz do mundo para mais provações

e dôres, porque minha mãe estava morta; a patria, o que ainda me fazia

palpitar o coração com vida, vejo-a esquecida, inerte sob o jugo

prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta, porque é a unica

pessoa, que me resta no mundo, e só me prende á vida o juramento, que

fiz de immolal-a no altar da patria.--_Karl_.»

O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que

Mickiewich, o auctor do _Banquete de Walenrood_. Só depois de morto é

que se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A

liberdade da Polonia fôra o unico ideal da sua inspiração; é ella sempre

que transluz nas maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos

_Psalmos do Futuro_, no _Iridion_ na _Comedia Infernal_ e na _Tentação_,

a que anda ligado este facto que narrámos.

[1] Strophes XIX, XX, XXI do poema _O Ultimo_, do conde

Sigismundo Krasinski.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 24 / 48 题