Depois dos inesperados transes e provações, a que ás vezes a alma
resiste para novos desastres, Lope de Vega fugiu ás tempestades da
vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a contricção
e a poesia no mysticismo radiante das effusões lyricas com que
desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia
á terra e se deixava tocar pela dor, tinha então o encanto da sua prole,
dos filhos que estremecia. Como se não lembrava elle, com pesar e
saudade indelevel, do seu pequenino Carlos, côr de lirio e de rosa,
quando vinha acariciar-lhe a alma com umas palavras de ternura infantil,
quando o via pular de contente ao vir o dia, como uma antilope nos
prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio entrecortado que lhe
pareciam um vaticinio encantador! Pobre criança, ainda coberto do
orvalho matinal, de te expandires á bafagem perfumada da nova aurora,
quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres
transplantado no céo.
O poeta buscava consolação na poesia; era ella que o cercava de uma
aureola de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a
imaginação que o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de
duas arvores, dez florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde
casualmente cantavam os rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam
a fonte, que gemia e adormecia seus pesares. Contenta-se de pouco a
natureza; elle não trocava este canto da terra nem pelo monte Hybla, nem
pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos jardins suspensos de
Semiramis, como elle proprio confessa; porque a phantasia creadora
reveste-o de todas as graças de um paraiso sonhado, mostra-lhe columnas
brancas de marmore com inscripções gloriosas, fontes que jorram e se
despenham em borbotões de perolas e aljofres, lagos profundos e limpidos
sulcados por canôas que desfraldam as vélas como cysne voluptuoso que
deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de arvores soberbas
similhando os gigantes da terra, a vinha entrançada aos platanos,
dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros que
se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na
relva macia, que tapeta o recinto... É um sonho de poeta na sua
soledade. Que tem que seja uma ficção esta magnifica paizagem? Elle
sente as emoções que lhe traz o retiro que fórma, e para onde se refugia.
Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze
annos, deixou-o para seguir a expedição contra os hollandezes e os
turcos. Uma catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperança;
a náo em que partira havia soçobrado.
Restava-lhe só junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e
enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os,
pedindo que os corrigisse; ella reunia ás graças do corpo, a harmonia da
plastica com um sentimento delicado, uma penetração viva e lucida. O
poeta recebêra todas as consolações do céo n'aquella filha; era a
sua creação mais perfeita, a admiração dos poetas do seu tempo, era todo
o seu orgulho.
Marcella começou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta
que esmorece. Nem uma palavra só de queixume; a mesma abstracção sempre!
Os labios pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os
olhos languidos um disco roxo de maceração, ennublava-lhe o semblante a
preoccupação de uma dôr, que não sabia confessar. Quando Lope a chamou
para de junto a si, e a estreitou nos braços beijando aquella flor da
mocidade que o Senhor fizera brotar de suas ruinas, sentiu uma
dilaceração interior, ao ver uma lagrima pura, candida, ingenua,
resvalar-lhe na face em que a dôr empanava o viço infantil:
--Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e
inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de
felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda?
era n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular _Remedio na
desdita_: «Deus te proteja, e te faça ditosa, postoque teus dotes o não
consintam, principalmente se fôres herdeira do meu destino.» A coróa de
gloria que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a
poesia me ha ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma,
vás pisando a mesma via dolorosa. Ergue-te d'essa prostração do
desalento em que te deixas cair! Conta-me o que assim vem perturbar
teus pensamentos tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem
rejuvenescer? Eu não sei como amparal-a, interrogal-a, sem que esta
planta mimosa languesça como a sensitiva. Menina, moça, ignorando a
vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia o amor em sonhos ao seu mundo
de aspirações infindas? Ella inclina-se sobre meu hombro e chora. Como
posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanças que não tenho e que de ha
muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabeça; deixa-me vêr-te,
beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige
tanto. Pobre creança, ella cada vez me estreita mais a si.
--Oh meu pae! eu não sei o que me faz tão cedo aborrecer as galas, as
seducções do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio,
intransitavel. A alma sente um vacuo que ninguem pode encher. É o
christianismo que me faz germinar no espirito este sentimento vago, uma
sêde d'esse goso sem limites da visão beatifica, uma aspiração, um
desejo ardente de regressar á eterna patria, de me confundir nos córos
archangelicos, ao som do trissagio perenne. A natureza por mais
esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos, o céo mais
admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espaço aberto,
causam-me o desgosto que havia sentir Moysés do alto da montanha vendo
ao longe a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto
enleada n'este encanto divino da contemplação interior, torna-se-me
mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de lagrimas,
quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me
déste é a prisão em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella é a
escrava da Escriptura que vaga á mingua de uma gôta de agoa no dezerto:
ella tem diante de si um abysmo, que precisa transpôr sem o fitar. Eu
senti em sonho este hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino.
O Amado erra pelas brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu não me posso
elevar até Deus, o _Deus absconditus_, pela intelligencia, como os
doutores; deixae que a alma vulgar e humilde, desconhecendo essa vereda
intrincada, caminhe conduzida pela intensidade do seu desejo á eterna
fonte suprema do bem. Eu quero professar em um mosteiro, seguir a regra
da penitencia austera, voltar para a arca santa, como a pomba do
diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escuridão de uma
cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.
--Marcella! para que vaes tornar assim a minha solidão mais dolorosa?
Teu irmão, perdi-o ainda tão criança! Eras só tu que me restavas no
mundo. Sem ti, de que serve a vida que levo devorada pelas recordações
do passado. Eu perdi uma esposa, que asserenava em meu coração as
tempestades do amor. Tinha em ti meu unico refrigerio, e desamparas-me
quando me vejo mais só! Pobre filha! Terá ella vergonha do mundo? do
seu nascimento illegitimo? Que provação tão dura e repentina me estava
reservada em castigo de uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos
braços do divino Esposo: elle só póde dar-te a grinalda immarcessivel,
servir-te com uma legião de anjos. És o ultimo ramo virente que o
destino arranca de um tronco carcomido pelos annos. Vae, vae.--E
apertou-a nos braços a chorar como uma criança.
Tempo depois, a engraçada filha do maior e mais fecundo poeta de
Hespanha entrou para o convento das Carmelitas descalças, em Madrid.
Lope de Vega descreve esse abandono do mundo com expressões sentidissimas:
«Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em
casar-se, e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.
«E eu, que sabia quanto é prudente deixar amadurecer um tal pensamento,
porque ha decisões que provêm de causas accidentaes, fiz minhas excusas,
esperando sempre não contrariar seus desejos, se elles se fundassem na
verdade de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se,
determinei-me dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo
é bello, é rico, é sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae é nada
menos do que todo poderoso. Eu juro que por parte de sua mãe é de sangue
real, e que ella é tão boa, que não ha attractivos, nem virtudes que não
possua. É uma mãe tão cheia de graça, que pelas suas mãos Deus a
dispensa ao mundo. Ella é juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.»
A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Então, o poeta viu
sua filha n'esse dia com uma graça, uma belleza, uma perfeição
inexcedivel, que a alegria fazia realçar sobre os dons da natureza, que
o contentamento animava de vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a
nos seus braços carinhosos. O amor divino transfigura-se sempre na
infancia. Myriades de luzes, damascos e brocados enfeitavam o aposento
nupcial.
«Marcella,--continua o poeta--as faces coloridas como duas rosas, e os
labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus
que separava duas existencias.
«Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocação; e por um ultimo
adeus de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e
prazeres.
«Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella
estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.
«O céo fechou a porta ao meu coração cheio de amor paternal;
arrebatava-me a melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar
n'esta multidão de espectadores. Tornámos á egreja; a desposada deixara
seus habitos de festa, os enfeites, para envolver-se no burel grosseiro.
Suas tranças foram cortadas, porque, como as outras virgens que povoavam
o côro, ella não devia ter para ser bella, mais do que a sua belleza.»
Sente-se n'estas palavras do poeta a dôr do coração de um pae, a quem
todo o sentimento e uncção religiosa não podem consolar. Verga diante
d'essa agonia, resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o coração
virginal de Marcella palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e
professou.
«Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descalça; o corpo
andava occulto em uma vestimenta humilde; só os olhos eram a expressão
de sua alma. Oh bemaventurado desengano das cousas da terra!--exclama o
poeta na solidão do seu amor.--Esta virgem tão bella, tão casta, tão
pura, consagrou a Deus os seus dezesete annos!»
Estes desgostos da vida foram-o levando á sepultura; Lope de Vega
succumbiu no auge da admiração. O seu funeral foi imponentissimo, como o
de Miguel Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o
cortejo passar pelo convento das Trinitarias descalças. No momento em
que o préstito parou diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as
grades avaras um semblante macerado por uma dôr lenta. Era Marcella
chorando a morte do pae, talvez pungida pelo abandono em que o tinha
deixado. Instantes depois, sumiu-se na escuridão da cella, e ninguem
soube o que a levara na candura dos dezesete annos a abandonar seu pae
na desconfortada velhice.