A estrella d'alva

(CONTO MARITIMO DO SECULO XVI)

N'isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde

se não vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma

amarelidão, e trespassamento de manifesta dôr, e sobejo receio que a

chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em algumas

palavras lastimosas, signal certo da lembrança, que ainda n'aquelle

derradeiro ponto não faltava dos orphãos e pequenos filhos, das

amadas e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes que cá

deixavam, etc.

_Hist. tragico-maritima_, t. I, p. 55.

O sol esmaltava as côres limpidas do horisonte com uns cambiantes de

purpura e de azul, cujo cariz incompleto e vago reflecte a melancolia

suave em que a alma se concentra n'essa hora fugitiva da tarde. O

horisonte fechava-se lentamente, como o véo de um templo que se cerra.

As virações travéssas da noite volitavam encrespando a face trémula das

aguas, que lhes respondiam ás caricias inquietas, confidenciando com um

murmurio sonoroso e confuso. O galeão soberbo da India singrava

ufano, buscando em prôa a terra querida da patria; levado nas azas das

monções propicias, a vela branca desfraldada aos ventos, tinha o garbo

da garça altaneira que se libra vaidosa por sobre as ondas, que ella vae

roçando de leve. A flamula ondulante, hasteada no tope do mastro de

mezena, serpeava nos áres como em adeus silencioso ás ribas odoriferas

do Oriente, a despedida ao paiz dos sonhos e das maravilhas. A natureza

como que se absorvera nos encantos d'esta hora; havia um segredo intimo

em cada toada perdida d'este concerto do declinar do dia.

Longo tempo um mancebo encostado á amurada do navio, com os olhos fitos

na corrente das vagas, permanecêra absorto n'um scismar incessante, como

quem atava na mente as apparencias de um sonho mentido, como quem

procurava alentar a ultima esperança que prende á vida, e que é como a

hera das ruinas. Conhecia-se-lhe na respiração comprimida no peito, que

offegava de cansaço, o esforço acintoso com que procurava afastar da

lembrança um sentimento funesto.

A pallidez retincta nas faces cavadas pelas insomnias longas e

afflictivas, era a expressão dos pensamentos tenebrosos, confusos,

incoherentes, que vinham povoar-lhe a anciedade das vigilias. Quem o

visse sentiria uma dôr egual áquella, uma vontade irresistivel de

entornar-lhe em sua alma o balsamo das consolações, com a prodigalidade

do affecto com que a moça desenvolta de Magdala vinha derramar aos pés

do divino Mestre os perfumes inebriantes da sua urna de alabastro.

Quem o visse na mudez expressiva d'aquelle desalento, no desamparo e

soledade de todas as alegrias da vida, sentia-se levado para elle, como

por um condão fascinador, que ás vezes possuem certos olhares que

ninguem póde fitar e de que se tem medo. A brisa fresca da noite, que

soprava do poente, como trazendo-lhe o presagio do ocaso de suas

esperanças, vinha volatilisar a lagrima timida e ingenua que tremeluzia

viva na pupilla scintilante.

A este tempo appareceu sobre o convés do galeão alteroso um outro vulto,

todo armado contra a rajada asperrima da noite, que se ia cerrando:

--Ainda aqui, Fernão Ximenez? embebido n'esse longo scismar em que o

passado se te affigura doloroso e feio? Para que foges de teu irmão? Bem

vês que eu procuro distrair-te d'essa agonia lenta que te vae minando a

essencia debil da vida, d'esse espasmo da atonia que produz em ti a

mudez do sepulchro. O que tens tu em uma vida de criança, innocente,

sempre desprevenida, para que o occultes a teu irmão, ao amigo que

soffre com o teu soffrimento, e que exulta com as tuas alegrias? Uma

ave, quando é levada para um paiz distante, longe do ninho que lhe ouviu

balbuciar os primeiros trillos de amor, quando lhe falta a bafagem

tepida das auras em que se espanejava contente, desfallece á mingua,

prisioneira, ralada pela saudade pungitiva que lhe amofina o sêr. Tu,

pelo contrario, á medida que os aromas quasi imperceptiveis da terra

abençoada da patria nos vêm dar força para affrontar as tormentas

escuras, as cerrações e os cabos perigosos, perdes o animo ante uma dôr

imaginaria, e deixas-te apossar de uma ancia, que um instante só de

reflexão tranquilisaria. Vamos, serena o teu espirito; seja-te o meu

coração o porto almejado onde encontres abrigo. Que receias pois? temes

encontral-a na volta desposada, nos braços de outro? Conta-me a verdade

toda; amas?

--Se com vinte annos apenas haverá quem não tenha sentido ainda esse

desvario divino, que acorda de subito em nós todas as potencias da alma,

que rasga brilhante a manhã de um eden terreal, dando realidade á vida,

e que a um tempo vibra o estertor e o cicio horrivel dos que se

confrangem no barathro do desespero que elle gera! Eu amo, sim. É um

amor que tem purpureado de risos todas as horas que me absorvo a pensar

n'ella. Para mim é o resumo de todas as bellezas do mundo. Onde a vista

depára uma apparição grandiosa, deslumbrante, ahi sinto uma

reminiscencia d'ella; ás vezes procuro em vão formar na mente o composto

do semblante engraçado, quero tel-a presente pela imaginação á minha

idolatria; mas a phantasia não póde reunir em uma mesma auréola de

encantos tudo quanto ha de mais puro no céo e na terra. Eu estou doido.

É o frenesim d'este amor que me enlouquece. Eu não a vejo, nem sei

mesmo já se existe, mas sinto-a como a essencia de um licor suavissimo e

volatil, que inebria a distancia os sentidos. Ella fluctua-me pairando

ante a vista, como um nevoeiro da madrugada que se esvaece nos áres ao

romper da claridade, e de que o sol faz realçar a alvura esplendente.

Ella nunca me disse que me amava. Quando só em pensamentos a escuto, a

dizer-me segredos intraduziveis, parece-me a bayadera indiana

requebrando-se flascida, com uma morbidez encantadora, a voltear

brandamente ás vibrações remotas das gandharvas, instrumentistas do

paraizo. Eu vôo na mesma ondulação de harmonia, e sonho um goso

indefinivel, que me exacerba mais as angustias cruciantes, quando

desperto á realidade. Eu não sei mesmo se me ama. Costumado a brincar

desde criança, unindo as nossas orações infantis em noites de tormenta,

quando seu pae andava sobre as aguas, esta confiança torna impossivel o

mysterio, que alimenta todo o amor.

--«Aldonça! repetiu desapercebidamente Gaspar Ximenez;--a mesma, a que

me torna aguerrido, audaz para affrontar estas regiões nos términos do

mundo; a que jurou um dia ser minha e me prometteu a mão de esposa, que

eu beijei e apertei tremulo, convulsivo!

Fernão Ximenez comprehendeu estas palavras. Foram como um clarão subito,

que lampeja e cega. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua, sem as

lagrimas poderem rebentar. Era incrivel o que se passava em sua alma. A

colera, a alegria, a contrariedade das aspirações mais ardentes da vida,

o desinteresse sublime de um coração generoso debatendo-se tudo

n'aquella alma deserta de esperança! Gaspar Ximenez continuou, como

delirando:

--Amas tambem Aldonça? Como ella é meiga e docil! É a rola innocente do

sacrificio. Ella ha de querer a tua felicidade. O que eu disse era uma

loucura. Amo-a como irmã apenas; ama-a tambem, mais do que eu, e será tua.

Ao ouvir estas palavras, proferidas com uma accentuação dolorosa, por

uma abnegação quasi impossivel, Fernão Ximenez não poude represar mais

tempo as lagrimas, que lhe rebentavam ferventes dos olhos. Os soluços

entercortaram-lhe a voz. Elle jurára dar-lhe tambem um dia a maior prova

de dedicação.

A este tempo, ouviu-se um berro do gageiro gritando da gávea:

--Mestre Fernão Mendonça, um negrume espesso se alcança no horisonte,

que levamos, pois que a não ser a cerração do cabo, mais me parece

presagio de tormenta.

O mar começava já a cavar-se. O piloto mandou logo ferrar o traquete,

cassar a escota á bijarrona, e que o homem de quarto amurasse mais para

sotavento, antes que a borrasca rebentasse de chofre. Instantes depois a

marinhagem tripulava afanosa sobre o convés; a noite estendera pela

amplidão dos mares o seu manto gélido de sombras, como um sudario de

morte. O vento frigido sibilava na enxarcia; parecia uma serpente

escamosa quando assovia na floresta intrincavel. A orchestra da procella

rompia sonorosa e esplendida, como a retrata Virgilio n'um incomparavel

hemistichio.

--Por San-Thiago, disse Fernão Ximenez, saindo da mudez do espanto em

que o deixára a longanimidade do irmão;--adivinhava-o o diabo do

gageiro, pois já as ondas guidam os castellos de prôa, e lambem a ponta

do gorupés. Diabo! que se tivesse mando no timão amurava mais para

sota-vento, e talvez que escapassemos á furia da tormenta.

Continuava o ennovellar das vagas como grandes cordilheiras sacudidas

por um vulcão subterreo. Instantes depois, o moço descia para o porão, e

as marés gigantes em vagalhões, salvavam o baixel. Soltos,

desencontrados dos quatro pontos, os ventos cáem de estouro sobre o galeão.

--Que San-Thiago, o bom apostolo das Hespanhas, seja comnosco, murmurou

o homem do leme, ao apagar-lhe uma maré a luzinha da bitácula. Que o bom

Jesus dos mareantes nos ampare n'esta tribulação, Ave Maria!

A tempestade recrudescia surda á voz do pobre homem de quarto, que não

sabia já o rumo que levava. Pouco depois, as ondas envolveram-n'o no seu

marulho, e o sorveram no pelago insondavel.

Sem governo, o galeão altivo, cruzando-se sobre duas ondas que

rebentaram sobre elle, estremeceu como aluido pelo cavername e costado;

o mastro grande, gemendo sobre si, estalou, e sumiu-se na corrente das

aguas. Por instantes ninguem respirou. Só o capitão Fernão de Mendonça,

conhecendo que o temporal amainara, gritou com intrepidez:

--Salta arriba!

A tempestade amançara consideravelmente; via-se espelhado em todos os

semblantes um sorriso de esperança, illuminado ao clarão diaphano do

santelmo, que reluzia no tope dos mastros.

--Salvé! salvé, oh Corpo Santo!--gritaram todos possuidos de um regosijo

expansivo.

--Podemos agora contar com a bonança,--disse a voz animadora do padre

capellão,--que o sacro fogo de Santelmo se nos mostra risonho e

mensageiro de paz. Oxalá que sem mais desgraças possamos dizer como o

malaventurado soldado das Indias, o bom Luiz de Camões:

Vi nos ceus claramente o lume vivo,

Que a maritima gente tem por santo,

Em tempo de tormenta e vento esquivo,

De tempestade escura e triste pranto.

--Mestre Fernão de Mendonça!--interrompeu o gageiro,--o galeão tem um

enorme rombo na prôa, e d'aqui a meia hora estaremos todos no fundo, se

vos não apraz lançar esta lancha ao mar.--E foi-se cantarolando

aquellas trovas do _Auto da barca do Inferno_, do popular Gil Vicente:

Á barca, á barca, boa gente,

Que que queremos dar a vela;

Chegar a ella, chegar a ella.

O tom frio com que dissera a ruim nova fazia julgal-o filho da rajada,

como se cria nas incarnações da mythologia grega. Ouvida a falla do

capitão, foram saltando todos para o batel. Pouco depois a náo soberba

da India começara a afundar-se. Ao vêl-a sumir-se, o padre capellão

lançou-lhe a benção, e proferiu uns versiculos da oração dos mortos. A

mudez tornava mais sublimes estes instantes. Era como na morte de um

heroe, que baqueia ferido no auge da luta. As lagrimas borbotavam dos

olhos dos velhos mareantes ao perderem para sempre aquelle companheiro

das refregas. O batel não podia com a tripulação toda; o mar estava

brazeiro e a cada momento entrava-lhe pela borda.

Assim foram andando á mercê das correntes, sem que transluzisse no

horisonte escuro um clarão de esperança. O ranger dos remos fazia

lembrar de hora em hora o estertor de uma vehemente agonia. O mar e a

fome infundiam n'alma o tedio da vida.

O mar continuava roleiro. A este tempo uma onda encapellada rebentou

quase de choque sobre o batel. Era preciso alijar para alivial-o. O

capitão deitou sortes, para vêr os que iriam ao mar. Caiu a sorte sobre

o intrepido gageiro. Pero Gutterrez, um velho marinheiro, atirou-se de

livre vontade. Fernão Ximenez parecia de tal modo embebido na dor funda

que alentava n'alma, que não sabia o que se passava em volta de si. A

sorte fatidica caira tambem sobre o irmão. Despertou da abstracção

dolorosa, ao abraço fraterno extremo. Repentinamente comprehendeu tudo

com a lucidez de que o espirito se apossa nos momentos solemnes da vida.

Deteve-o um instante:

--Uma vez sacrificaste ao meu amor todas as tuas esperanças! É bem que o

reconheça; agora estimo a vida só para dal-a por ti.--E desprendeu-se

dos braços do irmão, com a resolução do desespero, e arrojou-se á voragem.

Gaspar Ximenez permaneceu attonito, interdito ante o estranho heroismo.

O sol ia já alto, o céo tornava-se limpido e sereno, o horisonte

abria-se immenso, como a expansão de um pensamento de alegria. Depois de

haverem remado bastante ainda, descobriram-n'o a distancia seguindo

extenuado o batel. A energia sublime do seu heroismo e dedicação

commovera todos os corações. Quizeram unanimes recebel-o, estava já sem

forças, quasi immovel. O amor fraternal resplandecera com espanto. Os

membros regelados começaram de novo a sentir vida com a reacção do calor.

O mar ia amansando progressivamente, e antes do cair da noite viram

com pasmo e alegria doida alvejar uma vela. Saudaram-na com a celeuma do

regosijo. Quando passados dias chegaram a beijar a terra de seus paes,

Fernão Ximenez foi professar, cumprir o voto n'um mosteiro, para não

tornar o amor do irmão impossivel.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 16 / 48 题