CANTO II.

_Pag. 237. versos 15 e 16._

E que? algum de nós contra o que vive

A questão, se sim ou não se ha de o homem alimentar de substancias

animaes, tem sido muitas vezes, e com oppostas sentenças, debatida por

filosofos, poetas, naturalistas e medicos. A affirmação e a negação

achárão para argumentos ja uso e consenso de povos em todos os tempos,

ja razões intrinsecas tiradas de nossa propria conveniencia. He assunto

que requeria larga escritura, e em que a qualquer seria facil dissertar

eruditamente. Voar-lhe-hei pelas summidades.

Aquella vaga tradição, que em toda a parte permanece, de uma primitiva

idade do mundo innocente e felicissima, entre as couzas de que reza,

aponta sempre o não se comer de animal algum, senão só de frutas, hervas,

leite e mel. De outro modo se não podião sustentar, conforme parece

pelo ancianíssimo Genesis, os moradores do Paraizo, não só homens,

porem todos os viventes. Quadrava o preceito e toava o uso pelo menos

á humana natureza, que ainda agora, se a bem espreitarmos na infancia,

ou antes de alterada por contrarios habitos, se afflige e revolve com

o aspéto do sangue e morte. Verdade he, que depois da queda de nossos

primeiros pais, nem o Testamento velho nem o novo, tornão a prohibir as

carnes; mas toques da mesma nativa compaixão para com os animaes não

lhes faltão, dos quaes pelo menos se deduz por bom discurso, que se os

tivermos de comer, ainda ahi nos devemos haver com a possivel mansidão,

poupando cruezas escuzadas, como são, e se costuma, atormenta-los na

agonia por lhes refinar o sabor, caçar, montear e pescar por passatempo

e pelo mero gôsto de malfazer. Lê-se nos Proverbios, segundo as versão

dos Setenta: _Justus miseretur animas jumentorum suorum; viscera autem

impiorum crudelia._—O que justo fôr ha de se apiedar da condição dos seus

brutos; mas as entranhas dos impios não se apiedão da nenhuma couza.—No

Exodo: _Non coques hædum in lacte matris suæ._—Não cozas o cabrito no

leite de sua mãi.—He dito para ser ruminado, pelo mimoso do afféto que

recende. No Deuteronomio: _Si ambulans per viam, in arbore vel in terra

nidum avis inveneris, et matrem pullis vel ovis desuper incubantem, non

tenebis eam cum filiis sed abire palicris, ut bene sit tibi, et longo

vivas tempore._—Se o acaso te deparar no caminho, quer em arvore quer no

chão, um ninho de ave, e a mãi estiver a agazalhar os filhos ou os ovos,

não a tomes com os filhos, senão que em boa hora a deixes ir, para que

boa estrêa te venha, e vivas largos annos.—

Entre os Santos Padres, que são os depositarios e dispenseiros do

espirito christão, alguma couza se podéra citar que autorizasse este

genero de piedade. Sabida he a de que usou S. Anselmo, uma vez para

com uma lebre, outra para com um passarinho. Tertulliano se maravilha

de que entre christãos, os haja que se accommodem a ser carniceiros:

_nescio an dolendum an erubescendumn sit_;—não sei, diz elle, se mais he

para se haver lástima, se vergonha. S. João Chrisosthomo escreva, que

se não podia ser santo sem uma estremada suavidade de affétos, e muita

vehemencia de bem querer, não só aos nossos, mas ainda aos estranhos, em

tanta maneira que até aos brutos animaes abranja essa mansidão. (_Homil.

29. na Epist. ad Rom._) E dizia bem, que nas vidas de não poucos santos

resplandecem as provas. S. Francisco de Assiz resgatava os cordeiros

que hião para o córte, pagava e soltava as redadas dos peixes e os

viveiros das aves. Mas não apontemos mais, por não enjoar filosofos,

digo filosofos de nossa terra, dos que nos assoalhão filosofia de torna

viagem, porque os lá de fóra ja deixarão muito para traz a impiedade.

Não he porem necessario ser christão, senão que basta ser homem,

para repartir com os brutos do thesouro da charidade, de que muitos

d’elles usão a seu modo, não só para com os seus, mas para comnosco.

Sendo assim que onde os não maltratão, são elles de indole muito mais

benigna: em Inglaterra, segundo se diz, nem ha cão que ladre, nem besta

que escoucinhe: em não sei que ilha dezerta, acharão os primeiros

descobridores, em aportando, (segundo encontrei na Escolha de Viagens

por John Adams) serem tão cortezes as aves de que toda era chêa, que

não fogião dos novos hospedes, antes os festejavão e se deixavão pôr a

mão; semelhantemente ao que da ilha das Garças aponta João de Barros

_Dec. 1 Liv. 1 Cap. 7_, aonde “como não erão traquejadas de gente (as

garças e outras aves), ás mãos tomarão (os marinheiros de Nuno Tristão)

tanta quantidade d’ellas, que ficou por refresco ao navio.” Dos leões he

corrente entre os naturalistas não perseguirem, mas esquivarem-se dos

perseguidores, embrenhando-se cada vez mais pelos seus sertões adentro,

sendo alias mui leves de domesticar, e folgando de acompanhar, como

rafeiros innocentes, a trôco de qualquer esmola de pão, por largo espaço

de leguas. Muitas são em toda a parte, mormente em Africa, as serpentes,

que namoradas do bom gazalhado, trocão seus matos pelas pouzadas humanas,

e n’ellas se hão como boas comadres da familia. O cavallo do Arabe he o

contubernal e primeiro amigo de seu dono: um bom Arabe na morte do seu

cavallo deveria de se expressar pouco mais ou menos como Millevoye o

suppoem na Elegia. Muitos prezos tem logrado domesticar aranhas e ratos,

até o ponto de, no meio das asperezas de um segredo, se poderem esquecer

por muitas horas do seu desamparo, crueldades e injustiças humanas. No

páteo da rezidencia parochial de S. Mamede da Castanheira do Vouga,

todos os dias a horas certas viamos acudir ao almoço e cêa que ás nossas

pombas desparriamos, todos os passarinhos da vizinhança, que ja traziamos

tão correntes, que nos vinhão comer aos pés, por saberem (porque os

brutinhos sabem muito mais do que nós outros cuidâmos) que n’aquella

cazinha da solidão moravão amigos seus, e nunca terem ouvido tiro, nem

enxergado rede no pequeno arredor do templo e passaes solitarios.[16] Se

a tudo isto e a muitos outros exemplos se lançar conta, alguma verdade se

achará no affirmarem poetas, que no discaír da idade de oiro, ao mesmo

tempo que se os homens corromperão degenerando em crueis, se forão as

feras tornando bravias e desabridas.

Em todos os tempos, e até por fóra e mui longe d’esta religião charidosa,

houve quem bem entendesse como entes nossos conterraneos n’este

orbe, irmãos nossos em viver, sentir, padecer e acabar, com sangue e

coração como nós, com amor, prazeres e filhos como nós, bebendo como

nós no immenso vaso do pai commum o mesmo ar, a mesma luz, as mesmas

aguas, e comendo comnosco á mesma mesa do universal banquete, poderião

quando muito servir-nos de pasto; mas fóra d’ahi, qualquer injúria

que se lhes accrescentasse, seria hortorosa profanação e violação da

natureza. Plutarcho e Quintiliano referem, que os Athenienses castigarão

severamente algumas sevicias commettidas contra animaes. O Alcorão

espalhou por todos os povos, que largamente senhorea, muita d’esta

benignidade: raro Mahometano deixará de matar a fome ao cão de seu

inimigo. Na China passa esta beneficencia muito adeante. Que no-lo diga

em seu estilo chão o nosso Fernão Mendes, ou talvez o Jesuita que em seu

nome, e por um modo tão rijo de crer, compilou tantas e tão preciosas

noticias do Oriente, mui desacreditadas em tempo, ja hoje em parte mui

abonadas de verdadeiras. Padre ou marinheiro, diz assim: (falla de uma

feira que no rio de Batampina, em caminho de Nanquim para Pequim, se faz

com mais da duas mil ruas de barcaças, nas quaes ha para vender tudo a

que no mundo se pode pôr nome.) “Ha tambem outras embarcações em que os

homens trazem grande soma de gayolas com passarinhos viuos e tangendo com

instrumentos musicos dizem em voz alta á gente que os ouve, que libertem

aquelles cativos que são criaturas de Deos, a que muita gente acede a

lhes dar esmola com que resgata daquelles cativos os que cada um quer e

os lança logo a avoar, e toda a gente dando hũa grande grita lhe diz,

_pichau pitanel catão vocaxi_, que quer dizer, _dize lá a Deos como cá

o servimos_. Ha outros homens que noutras embarcações trazem grandes

panellas cheyas de agoa, em que trazem muitos peixinhos viuos que tomão

nos rios nũas redes de malha muyto miudas, tambem pela mesma maneira

vem bradando que libertem aquelles cativos por seruiço de Deos que são

innocentes que nunca peccarão, a que tambem a gente dando sua esmola,

comprão daquelles peixinhos os que querem e os tornão logo a lançar no

rio, dizendo, _vayte embora, e lá dize de mym este bem que te fiz por

seruiço de Deos_. E estas embarcações em que estas cousas se trazem a

vender não se hão de contar por menos soma que de cento e duzentas para

cima.”

Na India são n’esta virtude extremosissimos. Alguns viajantes tanto

encarecem a couza, que chegão a affirmar haverem por lá, ainda no seculo

passado, hospitaes para as mais asquerosas sevandijas, como piolhos,

pulgas e persovejos.

Pôsto que tudo quanto até aqui tenho trazido, possa parecer uma diversão

do principal propozito, não o he, por quanto d’estes misericordiosos

affétos he que se tem em parte derivado a abstinencia de carnes,

observada por muitas pessoas, communidades, seitas e povos: em parte

digo, porque em outros diversos fundamentos tem tambem estribado, como

veremos.

E pois que a ultima que tocámos foi a India, a ella tornemos, levando por

explorador e lingua, não algum estrangeiro, de que outros se contentão

mais, mas um patricio nosso, dos varios que para tal officio se podérão

tomar: he Duarte Barbosa, e diz:

“Ha neste regno (de Guzarate) outra sorte de Gentios, que chamaom

Bramanes, estes nom comem carne, nem pescado, nem nenhũa cousa que

mora, nem mataom, nem menos querem uer matar, por asy lho defender sua

idolatria; e guardaom isto em tamanho estremo que he cousa espantosa,

porque muytas uezes acontece leuarem-lhe hos Mouros bichos, e pasarinhos

uiuos, e fazerem que hos querem matar perante eles, e estes Bramanes lhos

compraom e resgataom, dando-lhe por eles muyto mais do que ualem, por

lhe saluarem has uidas, e soltalos. Se tambem El Rey, ou ho gouernador

da tera, tem algũu homem, porculpas que cometese, julgado ha morte;

ajuntamse eles, e compramno ha justiça, se lho quer uender, pera que nom

mora; e tambem algũus Mouros pedintes, quando querem auer esmola destes,

tomaom muy grandes pedras, e daom com elas emsima dos ombros e barigas,

como que se querem matar perante eles, e porque ho nom façaom, lhe daom

muytas esmolas, e que se uaom em pas; outros trazem faquas, e daom-se

cõelas cutiladas pelos braços e pernas, e pera se nom matarem lhes daom

muytas esmolas; outros lhe uem has portas ha querer lhe degolar ratos e

cobras, ha hos quaes eles daom muyto dinheiro por ho nom fazerem, e desta

maneira saom dos Mouros muy apreciados: estes Bramanes se achaom no

caminho algũu golpe de formiguas, aredam-se buscando por honde pasem sem

bas pisarem. E em suas casas de dia çeaom; de dia nem de noyte acendem

candea, per caso de algũs mosquitos nom irem morer no lume da candea; e

se todauia tem grande necesidade de acenderem de noyte, tem hũa alenterna

de papel ou de pano agomado, pera cousa nenhũa uiua poder ir morer dentro

no fogo; se estes criaom muytos piolhos, nom hos mataom, e quando hos

muyto aqueixaom mandaom chamar hũs homeins que antre eles uiuem, que

tambem saom gentios, e eles hos haom por de santa uida, e saom come

irmytães, uiuendo em muyta abstinença por reuerencia dos seus Deoses;

estes hos cataom, e quantos piolhos lhe tiraom poemnos em suas cabeças,

e hos criaom com suas carnes, em que dizem fazerem muy grande seruiço ha

seu Idolo, e asy guardaom hũus e outros com muyta temperança ha ley de

nom matarem: estes Gentios saom muy delicados e temperados em seu comer;

seus manjares saom leites, manteiga, açuquar, e aros, e muytas conseruas

de diuersas maneiras; seruem-se muyto de cousas de fruyta e ortaliça, e

deruas de campo pera seus manjares; honde quer que uiuem tem muytas ortas

e pomares.”

Na _Historia de Mysore_, lê-se que em Bengala, quando a violencia da fome

a devastou em 1774, consumindo-lhe obra de trez milhões d’almas, forão

em muito grande numero os Indios que antes quizerão deixar-se morrer á

mingoa, do que acabar comsigo comer carne de animaes.

Frequente e antigo he na India este antojo, e tão notorio, que não ha

porque afogar o discurso com mais exemplos. Bem podia proceder isso em

parte da vegetavel abundancia e espantosa cultura d’aquellas terras,

e de alguma especial compleição do clima, ou natureza ou costumes

dos moradores, ou algumas outras circunstancias, segundo as quaes os

corpos se dessem melhor com os pastos leves e frugaes: viria depois a

religião consagrar por dogmas seus os conselhos da higiene, como com

vinho, toucinho e abluções aconteceo em muito oriente á conta da lepra:

para melhor incutir o preceito, cerca-lo-hia de fabulas amigas da

imaginação do vulgo, como a encarnação dos Deozes em corpos de brutos, e

a transmigração das almas humanas por differentes sortes de viventes até

parar na vacca; materias estas de que as historias e perigrinações fazem

larga menção. Dos Indios podérão tomar por mão a crença os Egipcios, os

quaes, sendo moradores de solo não menos liberal, devião tambem perdoar

grandemente aos animaes, em quem reverenciavão suas Divindades, ou

santuarios ambulantes que d’ellas forão: e confirma-me na suspeita a

conveniencia, que ja de alguem deverá ter sido notada, do boi Apis do

Egito com a vacca ainda hoje sagrada dos Indios. Do Egito provavelmente

trouxe Pithagoras para a Italia, em tempos de Numa ou Servio Tullio, a

sua metempsícosa com a defensão do uso das carnes. Não pegou a invenção,

se não foi em alguns escolares fanaticos de tamanho mestre; e nem

filosofos pelo tempo adeante a sustentarão, nem poetas se valerão d’ella,

afóra Ovidio nas metamorfoses, e só como narrador; e mais não deixava de

ser fecunda e bem assombrada crença para poesias. Não pegou, porque não

vinha propria á indole do solo ou ao temperamento dos Italos, ou, o que

he mais certo, porque encontrava os antiquissimos usos de umas gentes,

que primeiro tinhão sido pastoras e depois guerreiras.

Na Ilha da Palma, acharão os nossos, quando descobrião, conquistavão e

amansavão aquelle archipelago, (senhorio traspassado depois em Castella,

mas padrão glorioso do nosso Infante D. Henrique) serem mantimento dos

moradores hervas, leite e mel.—Com este particular exemplo me acóde a

memoria, mas alguns outros semelhantes de outras ilhas me parece ter

achado pelas historias, de que me não ficou nem fiz a lembrança preciza.

Com a propagação da fé christã renasceo religiosa a abstinencia na

Europa, por motivo não de brandura, mas de mortificação. Apparecerão

Ordens numerosas de religiosos, primeiro só de homens, logo tambem

de mulheres, que renunciando todos os carnaes deleites para melhor

apurarem os do espirito, tomando o exemplo dos primitivos eremitas que

se abastavão com as hervas, raizes, frutas silvestres, e aguas dos

montes, não só cortarão pelas demazias na quantidade do sustento, não só

o estreitarão com regra de jejuns, mas em varios de seus institutos o

expurgarão de todo animal terrestre ou volatil, não consentindo, quando

muito, senão em algum marisco secco e fraco, para regalo das festas. E he

para notar como ainda os mais rígidos observantes logravão saude inteira

e robusta, e chegavão ao ultimo fio da velhice: _mens sana in corpore

sano_.

Annos ha que me recordo de ter achado em uma Gazeta de Lisboa, estar-se

creando em Manchester uma seita, que por filosofica defendia tomar

qualquer sustento animal. Era noticia de Gazeta, não affirmarei que

tivesse pé, e se o teve, não sei em que parou.

Ja que estamos com Inglezes, fallemos de Franklin. Este homem, a quem a

probidade e o juizo fizerão filosofo e liberal, e não a devassidão e o

estouvamento, tendo lido, di-lo elle, o livro em que Tryon recommenda

a dieta vegetal, determinou-se em a observar. Pô-lo por obra, e

limitando-se em arroz e batatas, e ás vezes ainda em menos, como passas,

bolaxa ou pão, com uma gota de agua, não só forrou do seu salario (era

ainda então compositor de imprensa) com que poder comprar livros, mas

do seu tempo acerescentou para estudos o que as refeições e digestões

lhe podérão consumir: fez progressos proporcionados á clareza de ideas e

fortaleza de percepção, que são o fruto da temperança no comer e beber.

Seguio constante por algum tempo, não pouco, até que chega á ilha de

Block, assiste a uma pesca, revolvem-se-lhe nas entranhas as maximas do

seu Tryon, dá por genero de assassinio aquelle matar viventes, que nem

tinhão feito nem erão capazes de fazer o mínimo mal. Poem-se os mortos ao

lume, recende o guizado; o filosofo no seu tempo gostára apaixonadamente

de peixe; entra pelo nariz a tentação, estremece a filosofia, e em boa

hora lhe acode com uma bulla de composição, lembrando-lhe como ao abrir e

limpar d’aquelles peixes, lhes víra dentro do buxo outros peixinhos mais

pequenos. “Pois que he isto, diz elle entre si, se vós uns a outros vos

comeis, porque não hei de eu tambem comer-vos a vós?” N’essa hora e com

esta palavra se lhe quebrou o fadario; o que muito bem prova, acrescenta

o bom homem, sermos nós _animaes racionaes_, sabendo, como sabemos, achar

pretextos plausiveis para quanto nos póde dar gôsto.

Outro autor muito afamado de nossos dias, Raynal, era igualmente sobrio.

A Senhora Marqueza d’Alorna, que muitas vezes o teve a jantar, me contou,

que nunca o víra comer mais que algumas poucas hervas e fruta, nem beber

senão agua. Era, observava ella, como um conviva das Ninfas, custando a

crer como com aquellas refeições de idillio se podessem sustentar tantos

nervos d’alma e de pensamento.

Se depois de autores de livros se póde citar quem não sabe ler, em Grada,

lugarejo da Bairrada, vivia um moço que eu conheci, o qual nunca provára

vacca. Perguntado a causa, não era religião, nem filosofia, nem tedio

natural, mas effeito de um vehementissimo e entranhado amor que tinha

aos bois, com quem se creára, com quem vivia, lavrava, e dormia paredes

meias. Rústico era, e sem o cuidar discorria e fallava como o Sabio de

Cheronea, quando dizia, que por tudo quanto o mundo tinha, não venderia

nunca o boi que em seu serviço envelhecêra.

Afóra os monges, filosofos e amigos dos bois, ha ainda uma grande quantia

de homens, puro comedores de vegetaes em quasi todo o anno: são os

moradores das serras e aldêas pobres, a quem a estreiteza de sua fortuna

mal dá licença para chegarem á carne por entrudo e paschoa, e poucas

mais vezes e só escassissimamente, ao pescado, vizita mui rara em terras

mesquinhas do sertão. De choupanas sei eu, e quasi de inteiros lugares,

pelas abas da Serra do Caramulo, onde oito annos vivi, que de pouco mais

se sustentão que do pão de centeio e milho, batatas e alguns legumes: e

estes asperissimos banquetes, em que até pelo demais fallece o agro vinho

verde de seus montes, trazem-os comtudo mais rijos e sãos no trabalho,

do que as grandes ucharias aos mimosos das cidades.

Acabarei estes exemplos com o que melhor conheço, que he o meu. Quando

eu compuz estes versos da _Festa de Maio_, era como ja no Ante-Prologo

disse, todo Gessnérico: trazia a alma toda a nadar no coração empapado

com os mais brandos affétos do mundo, como rosa a boiar em vaso de leite:

amava as plantas e tratava com ellas como com entes sensitivos; todos

os entes sensitivos amava-os como amigos e companheiros: tinha fantasia

pronta, que muito ajuda em todo o genero de bem querer; esta me revelava

de contínuo e me ataviava de suas fabulas e côres a particular vida e

cheíssimo mundo de cada inséto; e porque esse seu mundo e vida dizia

tanto com o meu, e o commum de seus substanciaes interesses com o commum

dos substanciaes interesses dos homens, acontecia que imaginando-me ora

grilo, ora passaro, ora borboleta, tinha aprendido uma perfeita, e se

dizè-lo posso, egoista charidade para com todos elles. Ouvi debater a

questão do uso das carnes: as razões affirmativas podião ter mais fôrça,

mas as negativas dizião com o meu gôsto; he meia persuasão; caírão-me

tão bem, que logo me dei, se não por convencido, por persuadido: e como

persuadido e convencido escrevi os versos, que por isso aos indifferentes

se de contrária sentença, devem parecer, como em verdade são, sobejos,

exagerados e declamatorios.

Era o escrito fruto de minha opinião; mas esta, como accontece, se

roborou por elle, e até tal ponto se confirmou, que do que até alí não

passára de poetica theoria, instituí fazer prática minha em toda a vida,

renunciando qualquer genero de alimento animal. Por duas vias se fazia de

mal o tenta-lo, ja porque em couza tão excetuada do geral não deixarias

de caír estranhezas e zombarias, ja porque tanta sobriedade entre quem

a não usava, era genero de martirio continuamente renovado. Mas contra

estes dois contrastes prevalecião outros dois argumentos: primeiro, minha

consciencia, que repugnava banquetes de sangue: segundo, o presuposto em

que estava, de que as faculdades da alma se havião de adelgaçar e crescer

onde o corpo fosse favorecido da parcimonia. Metti-me Pithagorico aos

vinte e trez d’Agosto do anno de 1822, tendo sido gastos os mezes, que

desde a feitura do poema decorrerão até esse, em acabar de me resolver e

aparelhar para tão grande façanha; e permaneci na observancia do voto até

vinte e trez d’Agosto do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em lugar de

professar, despedi-me. Tive minhas razões; e ainda que pouco se me havia

de dar agora do que se podesse dizer ácerca de um indivíduo, que n’esse

tempo tinha o nome que eu hoje tenho, e do qual, segundo as theorias dos

medicos, não conservo hoje uma só particula, sendo eu um, vivo e junto;

elle outro, morto e disperso por todo esse mundo: todavia, porque ainda

temos commum um leve som, que he o nome, quero lançar pontualmente na

balança do juizo dos meus leitores os seus porques; e bons ou máos, forão

estes.—Primeiro: que a abstinencia de uma só pessoa não poupava uma unica

existencia de animal. Segundo: que era presunção ridicula o desquitar-se

um sujeito, por alguns argumentos, de uma opinião e uso quasi universal,

sendo assim que todos os homens, guerreando-se entre si por crenças

religiosas, por sisthemas filosoficos, por principios de política e

sciencias, por modas e gostos, todos se conformavão no comer das carnes.

Terceiro: que realmente era obstinação o desconhecer como a natureza nos

não aparelhára só para comer e digerir vegetaes. Quarto: estar-nos ella

dando nos proprios animaes, que uns de outros se sustentão, uma prova

de ser menos escrupulosa do que Pithagoras e a poesia. Quinto: que ella

propria os multiplica á proporção do que uns a outros devem tragar.

Sexto: que se ella faz com que cada passada, cada pedra que movemos, cada

gota de agua que engolimos, cada fruto ou folha que aproveitamos, cada

sôpro que inspiramos ou expiramos, cada movimento emfim que fazemos,

ainda dos mais indispensaveis para a vida, a destrua a milhões e milhões

de entes conhecidos, e a numero talvez ainda maior de desconhecidos,

não ha porque nos tenha a grande peccado, o aumentar-mos por nosso

bem a lista com mais algumas unidades. Setimo: que o adelgaçamento e

crescimento de minhas faculdades intelletuaes que eu esperára d’aquella

mais leve nutrição, não só se não tinha verificado, mas antes o contrário

succedêra, pôsto que de diversas causas podésse pender o successo:

e por muito tempo me ficou o costume de, quando via versos fracos e

desengraçados, dizer: Devião estes de ser compostos por quem não comia

senão hervas. Outavo, ultimo, e não leve motivo: que ainda que pouco dado

ás delicias da gula, o cheiro e presença de melhores iguarias do que as

minhas, de dia em dia me tentava mais, e quando succedia achar-me entre

gente alegre e em mesa de festa, as ondas de tentação, que eu forcejava

dissimular o melhor que podia, crescião e redobravão com os motejos dos

circunstantes, que bem poderião ter sal, mas não que adubasse as minhas

insôssas hervas.

De todos os varios antecedentes deduzo, que sem embargo das objeções,

autoridades e exemplos, o uso das carnes se ha de ter por licito, e por

dithirambico o que lá fica no texto: mas que fóra do caso de necessidade

ou clara utilidade, e alem do ponto em que essa necessidade ou utilidade

pararem, toda a sevicia contra viventes he immoral, injusta, insensata, e

digna de muito grande castigo.

E tanto isto assim he, que, porque todo o carniceiro de officio contrahe

na alma e nos modos alguma couza de cruento e de tigre, em muitas partes

se tem por infame. Em Portugal, nenhum mechanico honrado e de conta

acceitaria um tal para sogro ou genro, ainda com grosso cabedal de

renda; nem de boca plebea pode saír mais afrontosa injúria que o nome

de magarefe. Em Inglaterra não os admittem jurados em causa crime. Na

principal ilha das Canarias encontrárão seus descobridores, que os

naturaes, com viverem á lei de sua rudeza silvestre, “havião por couza

mui torpe esfolar alguem gado, e n’este mister de magarefes lhes servião

os cativos que tomavão; e quando lhe estes falecião, buscavão homens dos

mais baixos do povo para este officio, os quaes vivião apartados da outra

gente e não os communicavão em aquelle mister” (_Barr. Dec. 1. L. 1. C.

12._)—Bem hajão os inglezes, que formão sociedades para proteger animaes,

e abençoado seja o inglez Deputado Martin, que para lhes fazer bem, se

arrosta com os escarneos dos praguentos. Bem hajão os allemães, que em

seus campos não perdoão multa municipal aos que, no levar rezes pelos

caminhos, as atravessão deante de si na albardadura, ou tolhidamente as

apinhoão dentro em carros. E bem haja a nossa Camara, quando conseguir

desterrar o escandalo do afrontoso trato que nossos carreiros dão a seus

bois, como ja desterrou a atroz e immoral matança dos porcos perante os

olhos do povo.

Quero rematar com uma reflexão, que ja acima podéra ter cabido, mas que

por dezejar da-la por conselho, e pô-la onde melhor se recommendasse,

muito de industria deixei para o fecho. Vai o dito a pais e educadores,

a quem toca. Nada importa mais, do que affazer cedo os meninos a uma

grande suavidade de costumes: assim foi creado o bom Montaigne. Se os

eu tivesse, parece-me que tambem assim os crearia, e bem bons frutos

lhes havia de colher na minha velhice. Primeiro que tudo, parece-me que

me conformaria com Rousseau em os não alimentar desde o leite senão com

vegetaes, por entender como elle, serem estes mais accommodados a suas

naturezas, e mais proprios para fisicamente os suavizar e humanar. Mas

não quero agora averiguar isto que pertence a medicos; outro he o meu

alvo. Não consentíra jamais que presenceassem espetaculos de atrocidades

ou injustiça; e quando a minha má estrella lhos presentasse, procuraria

afea-los com boas razões, mais de affétos e lagrimas que de raciocinios.

As urbanas corridas de touros e as aldeanas festas de alanceamento de

pombos, frangos e patos, como couzas antiquissimas e nacional feição,

as respeito; mas não levára la os meus tenrinhos, que são mui branda

cera para qualquer bom ou máo cunho. Se de alguem lhes fosse insinuada a

correntissima abusão de nossos provincianos, de que em casa que devasta

ou maltrata os ninhos do seu beirado, tudo vai para traz e de fôrça se ha

de aguardar por enterramento, calára-me, porque acho razão a Fontenelle

em dizer, que se na mão tivesse fechadas todas as verdades do mundo, Deos

o defendesse de a abrir.

_Magnànima menzogna, or quando è il vero_

_Si bello, che si possa a te preporre?_

Dar-lhes-hia, da Historia natural poetizada, tanta luz, quanta bastasse

para levarem grande interesse nos fados de cada individuozinho que

respira: um raio de tal luz póde bastar para pôr fim a muita dureza que

provenha de cegueira. Conheci e tratei com um parocho de fóra da terra,

que desgostoso de que uma sua fregueza, rapariga nova, não pozesse reparo

em maltratar animaes, a chamou brandamente, explicou-lhe como tudo

que era nascido devia ter algum entendimento, capacidade para dores e

prazeres, parentes, amigos e affeições. Com isto só a fez outra, e tão

outra desde essa hora, que onde depois se lhe fazia de mister dar morte

a uma pomba ou gallinha, ainda que em seu páteo não forão creadas, ja o

coração se lhe confrangia, tremião-lhe os pulsos, e chegada á execução,

não corria mais sangue da ferida, que mal acertava, do que lagrimas de

seus olhos.—De mim mesmo me parece agora, que se escrevi os versos a que

me refiro, e em commenta-los me alargo tanto, e uma e outra couza de tão

boa mente, de tudo deve ter sido raiz a creação, em tudo excellente e

n’esta parte bem empregada, que meu pai se esmerou em dar a todos seus

filhos.

Outra couza fizera eu principalmente; era commetter-lhes o trato e

tutela de alguns animaes caseiros, a quem podessem chamar seus. N’este

exercicio aprenderião a ser observadores, vigilantes, serviçaes; tomarião

com o gôsto da propriedade o amor do trabalho, havendo-se ja por algum

modo como pais de familias; costumar-se-hião a acautelar, previnir e

amar; tomarião para toda a vida o geito de amparar fracos e desvalidos,

e de não ver um qualquer indivíduo, sem logo compor na imaginação a

historia completa do seu viver, do seu padecer, do seu precizar.

Da efficacia de tal methodo, e tão simples, e tão formoso, tenho eu uma

muito amavel prova de minhas portas a dentro. Uma mulher, toda boa, toda

extremosa, tomou unicamente a peito o vingar-me da natureza; cerca-me

de contínuo, como um anjo, de amor e de luz; empresta-me olhos para eu

ver o mundo e as obras dos seculos; tira deante dos meus passos todos

os espinhos no caminho da vida; inventa-me um encantamento novo para

cada minuto; diz-me e faz-me entender como a verdadeira felicidade se

não compoem de grandes pedaços, mas sim de atomozinhos que de longe se

não podem perceber; repete-me e persuade-me que nasci para as Musas

e para o amor, e não para a política, nem para os odios, serve-me,

vela-me e defende-me como a filho, ama-me como a esposo, zela o meu nome

como o de irmão; lançou a sua vida na minha vida, o seu pensamento no

meu pensamento; existe pelo meu amor, morreria se lhe elle faltasse.

Quem lhe ensinou tão generosa, tão nova benevolencia? quem lhe deo

tantos segredos de fazer feliz? as suas aves e pombas, a sua amiga, e

alguns livros, unica sociedade da cella, onde desde seus annos verdes a

Providencia ma estava guardando e aperfeiçoando[17].

_Pag. 243. verso 18 e seguintes_

O mesmo coração, dezejos, gostos,

Que tem nossas mortaes no peito occultos,

Tem as Ninfas tambem &c.

Por estes versos começa uma torrente caudal de couzas vãs e doidas ácerca

das mulheres, e relações dos dois sexos, que ora mais, ora menos turva,

se vai alongando até pag. 254. A pezar de se devolver por leito de quasi

proza, e por entre margens para meu gôsto mal assombradas, bom seria que

por ellas nos podéramos ir detendo a pescar, e a examinar algumas das

couzas mais graúdas que vão na chêa: serião questões apraziveis de ociosa

filosofia, mas prometti no prologo despreza-las; perdoar-lhes-hemos,

deixa-las ir seu caminho. Passem a seu salvo as regras de namorar á

antiga; a arte não de amar mas de enredar e colher, como o são quantas

com titulo de amar se tem escrito; a poligamia, menos de Mahometano do

que de Tupinamba; o divorcio e ulteriores nupcias dos divorciados e

divorciadas; a botecuda nudez dos sexos &c. La se avenhão como poderem

todas essas puerilidades com seus inimigos, que se de minha Musa

nascêrão, muito ha que eu e ella as desherdámos. O meu ponto agora he

assentar boas pazes para sempre com as damas. Todas minhas Obras, não

só esta, _Cartas de Echo_, _Amor e Melancolia_, _Noite do Castello_,

_Ciumes do Bardo_, me devem ter perante ellas representado cavalleiro

descortez de desleal poesia. Tempo he de mudar de cores, abjurar o erro,

e para merecer o perdão, que ellas de puro boas concedem antes de pedido,

romper lanças em favor de sua fama, não só contra inimigos, se os podem

ter, mas contra mim proprio, pelas ter aggravado. He uma Nota estreita

arena para tão singular duello: mas embora, que para outro dia e campo

desafiado fica o eu mancebo desatinado e altivo d’outro tempo por mim

grave, reflexivo e respeitoso; o eu versejador por mim pensador; o eu

academico e solteiro por mim cazado e recolhido: emfim por mim conhecedor

do terreno do combate o eu ignorante d’elle, a cuja face ja n’esta hora

arremésso a luva, e lhe digo “Mentiste, e mercê de Deos e de minha Dama,

provar-to-hei.” Mas pois que he forçado ficar para outro dia a pendencia,

aqui não farei mais do que um pouco ensaiar-me para ella, campeando

soltamente e esgremindo nos ares.

Nenhuma couza tem sido mais experimentada no mundo e mais vezes definida

que o amor, nenhuma ha tão mal e imperfeitamente comprehendida como o

amor. Fallo do amor dos homens, unico de que os homens podem fallar: o

das mulheres he ainda mais incomprehensivel, e certamente muito mais

espantoso, quando verdadeiro. O que pretende dar regras de amar, como

alguns outros fizerão antes de mim, e como eu proprio supponho que

pretendi, assemelha-se ao astronomo, que tendo endoidecido á força de

ter velado as noites a observar os astros, presumisse, riscando órbitas

com o lapis, constrangê-los a segui-las: as esferas e os affétos saem do

nada ao sôpro de Deos, resplandecem com a sua luz propria e misteriosa,

vão-se ora afastando ora aproximando de seus centros pelo caminho que

sua natureza lhes ordena, eclipsão-se na hora prescrita, desappareceráõ

quando Deos fôr servido; sem que em tudo isso haja querer, escolha,

presciencia, ou conhecimento de nossa parte. Amamos uma mulher, e certa

mulher; porque temos de a amar; porque he necessidade sua e nossa que

a amemos; amamo-la pelo modo que a natureza quer e não outro, não he

uma acção mas uma paixão: se a premião o premio he gratuito, se a punem

he injusto o castigo, porque não recáem sôbre um effeito de eleição.

Ama-se uma mulher, repito, sem o procurar, sem o cuidar, sem arbitrio, a

despeito da razão, da vontade e dos votos, como á rosa, como á lua, como

á harmonia, como aos sabores dos frutos deliciosos. Para ellas se vai

como os rios dos montes para os valles, como a chamma para o ceo, como

a pedra do ar para a terra, como o menino para os peitos da ama, como o

coração para o prazer. N’estas occasioẽs todo em nós he extraordinario,

e se o posso dizer, sobre-natural: sentimo-nos fôrças que não possuiamos

para querer, seguir, abraçar e reter: o pensamento se torna infinito,

porque o objéto que procurâmos, como uma metade nossa que nos foge,

nos apparece infinito. Por dentro d’aquellas graças fisicas, de que

os sentidos se namorão, imagina-se um mundo estranho e illimitado de

perfeições, de que se namora a alma: ahi se dezeja tudo quanto he capaz

de embellezar a vida; o dezejo he logo esperança, a esperança certeza,

a certeza delirio, e novamente dezejos; e quem porá limites a dezejos,

a delirios, a esperanças? O abrangimento do infinito da Divindade em um

corpo humano não he misterio que o amor não saiba muito bem entender. He

aqui o lugar de confessar que a este sobre-humano conceito, que da mulher

amada se faz, mil vezes corresponde plenissima realidade.

Por mais que a natureza se aprimore em modelar, tornear, corar, amaciar,

brunir, bafejar e endeozar o fisico da mulher, as suas graças, o seu

merito, o seu ser de mulher não são esses dotes, sujeitos ao tempo e

dependentes de um ar, assim como nas flores não são mel as pétalas

vistosas e coradas, o cheiro suave e attrátivo, que o sol e o vento

attenuão e desbaratão. Diz-se que as feiticeiras tem o seu encantamento

em um novêlo; o novêlo do feitiço das mulheres está no seu coração e no

seu espirito, que n’ellas he tambem coração. O coração da mulher não

mora descançadamente reclinado no peito como o nosso, por toda sua alma

esvoaça perdido de amor, gemendo de amor, como uma ave mãi e feliz por

todos os ramos de um bosque de primavera: sente-se-lhe o frémito das

azas, ouve-se-lhe a harmonia em tudo quanto diz, em tudo quanto cala,

no que faz como no que deixa de fazer, no que pensa, recorda ou espera,

nas lagrimas e no riso, no enfado e no contentamento, na vigilia e no

sono. O coração lhe está á porta interior de cada sentido recebendo as

impressões; para elle e por elle veẽm, para elle e por elle ouvem, para

elle e por elle presencêão a natureza, communicão com ella e comnosco. Um

sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso

deveo ser formada.

Este afféto, esta doçura, esta, quero eu dizê-lo, feminidade da mulher

são de tão alta natureza, tão estremes de liga, tão independentes do fim

mesmo para que a providencia a destinou, que me parece ainda despojada de

sentidos, poderia amar vehementemente como os espiritos angelicos. Que

será quando os sentidos confluem, para atear com sua materia inflammavel

este fogo celeste? ¿quando a Vestal, afrontando todo o futuro, deixa

apagar no altar da Deoza de sua infancia a luz virginal que velou por

tantos dias e noites? ¿quando na turbação insólita d’estas trevas

desconhecidas, se entregou toda e com todo seu futuro ao ente que a

implorou como Divindade, e que ella sabe e sente em si tornará feliz

por cima de todas as felicidades? ¿quando uma vez encetou prazeres,

cujo maior encanto para ella se da-los recebendo-os, e não os receber

sem ao mesmo tempo consummar mais de um doloroso sacrificio? Oh então

he o amar do amar! o afféto, que ja em profundeza não podia crescer,

cresce em superficie, e trasborda todo e para toda a parte, como um

perfume abundante; então he que sem voz pronunciou o _sempre_; que sentio

apertar-se-lhe nas entranhas a indissolubilidade do consorcio, porque o

amor de fantasia se fez realidade, de dezejo destino, de suspiro occulto

gloria; a tudo tem ja direito porque ja deo tudo, não póde dezejar ser

de outrem porque a outrem não teria tanto que dar. E he esta a grande

differença da mulher ao homem, e do amor ao amor: o d’ella tem um abono

e côr de eternidade, o nosso um elemento e uma côr de tempo. Podéra

ser emblema do nosso, uma náo alterosa e possante, surta em uma bahia

aprazivel, mercadejando e folgando com a terra, empavezando ufania

de flammulas e galhardetes, aferrada ao fundo do mar com uma unha de

ferro, mas podendo de uma hora para outra arranca-la ou picar a amarra,

desfraldar as velas que sempre estão prestes, e vogar atravez de todas

as ondas, por cima de todos os abismos, a mercadejar e folgar no extremo

opposto do mundo: emquanto a feminil affeição, como barquinha contente e

desambiciosa, feita para os ocios de sua enseada, coroada a pôpa ora de

flores abertas ora de esperançosos verdes, sem deitar nenhuma ancora, não

foge nunca d’entre aquellas margens conhecidas; por entre ellas vai e vem

avoejando de contínuo, levando e trazendo sempre commodos e alegrias, sem

curar que de sua barra em fóra haja outros mares, n’esses mares outras

bahias; delicia-se na sua, onde tudo a festeja e saúda por seu nome, onde

se entende com todos os ventos, todos os refugios conhece para o dia

da tempestade. O amor do homem, com os sentidos satisfeitos muita vez

se satisfaz e adormece; como o frizão dos Jogos Olímpicos, que chegado

apoz violenta carreira a tocar na meta, surdo até ás vozes da gloria que

esporeou, se estirava para repouzar ou para morrer. O amor da mulher,

satisfeitos os sentidos, se restaura, resurge mais puro e extremoso,

mais vivaz e promettedor; semelhante ás plantas, quando desfallecidas

nos afrontamentos do verão se dessedentão com a chuva de uma nuvem que

passsou, e viçosas reverdecem para embalsamar os ares de seu valle.

Uma de muitas razões que para esta differença podem concorrer, he que

n’essa hora adquirio a mulher direitos, o homem contrahio obrigações; as

obrigações pezão, os direitos agradão, as obrigações limitão e apoucão,

os direitos accrescentão e engrandecem. Trocarão-se os papeis na scena,

o seguidor esquiva-se, a perseguida segue. O amor do homem he só amor,

o amor da mulher he amor e amizade: elle, porque pertence ao mundo, á

gloria e a tantas outras paixões, só tem meio coração, meia vontade,

meio tempo para dar á sua companheira; esta, separada do mundo pelo

mesmo mundo e pela natureza, por isso mesmo mais raramente accessivel a

outras paixões, dá ao seu amigo todo o coração, toda a vontade e toda

a vida; dar-lhe-hia se podesse mais vida, e mais coração, mas não mais

vontade: com elle, por elle, e para elle existe, na propria ausencia o

tem presente; e quando cessa de abraça-lo, he para se gozar de o ter

abraçado, e cuidar como logo o abraçará de novo, e volverá a ser d’elle

amado, fazendo-o feliz.

Tal he o theor da natureza: tem excéções e numerosas. Corações ha de

homens, que sem ser effeminados, não desdirião n’um peito feminino;

e corações de mulheres, que talvez bem nascidos e bem fadados, mas

torcidos depois pela educação, quebrados pela sociedade, corrutos pelos

exemplos, merecem as satiras, demaziadamente geraes, com que os autores

de sua degeneração todos os dias lhe poem ferrete: mas essas, mais

infelizes do que culpadas, os desgraçados que as pintem e condenem, eu

pinto a mulher amante, a mulher perfeita, a mulher mulher, a mulher

como a concebi, como a conheço, como a adoro. Foi esta a que Deos fez e

temperou de poesia e harmonia lá na origem do mundo, quando vio que não

era bom que o homem vivesse só. Esta he a que depois de nos dar a vida,

no-la suaviza e apura; no-la multiplica em entes novos; no-la adoça nos

momentos derradeiros; nos ama ainda, quando ja não somos; dá seus beijos

amorosos a uma pedra, porque do nosso nome lhe conserva uma letra; e

consummando o seu destino de amar, felicitar, sacrificar-se, ajoelhada na

terra, nos vizita no mundo das sombras; estreitando o seu commercio com

os ceos que a esperão, para nós só os invoca, e depois de no-los ter dado

em amostra no tempo á fôrça de amor, á fôrça de amor no-los grangêa na

eternidade.

Custa a crer como um ente, que he metade da nossa especie, que das duas

he a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas couzas nosso igual

para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir

ainda mais, que se tem defeitos de nós os recebe, e nos dá em troca,

sem o cuidar, tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer

como um talento, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel,

pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao

fim dos seculos, alvo e emprego das críticas mais desabridas, e mais

grosseiras calúnias. Divindade extraordinaria, a quem seus proprios

ministros e sacrificadores insultão adorando-a, e que de cima de seu

altar, fragil mas eterno, inalteravel em sua mansidão, derrama sôbre bons

e máos a felicidade! Que a filosofia as injuriasse não espantára. La

Bruyere foi cruel para com ellas, Larochefoucault furioso, nenhum d’elles

justo, nem sequer francez: a filosofia não anda sem os filosofos, e todos

sabem como os dados a esse triste officio, são pelo demais almas seccas

e incapazes de avaliar branduras, entendimentos sem olhos de imaginação,

unicos proprios para julgar da verdadeira belleza; homens emfim

eremiticos, rusticos e ignorantes no meio da sociedade; e para remate de

suspeição, ja alongados pelo inverno da vida: da-se á filosofia o que as

mulheres ja não querem.

A poesia não tem sido menos descomedida: a poesia, que d’ellas e para

ellas nasceo, cujas Divindades forão com razão pelos antigos fabuladas em

fórma feminil, como as Graças, como os Genios de tudo quanto ha amavel na

natureza, a poesia, a seu máo grado, lhes tem sido rebelde todas quantas

vezes os poetas, por de sobejo amantes e zelosos, precizárão desabafar

desgraças verdadeiras ou fantásticas: a lira acostumada a lhes entoar

seraficamente não louvores senão hinos, resoou execrações, ás quaes

respondêrão numerosos echos; porque onde o numero dos ingratos e indignos

era grande, não podia o dos maltratados e queixosos ser pequeno: e d’ahi

nascêrão essas civis guerras da literatura a favor e contra o sexo,

guerras batalhadas nas salas e saráos, nos passeios em romagens, nas

merendas das comadres e nas academias, desde o Japão até Portugal, desde

os serões da arca diluviana até os nossos dias, em que o amor cedeo á

política, e as questões das mulheres ás questões dos ministerios: _Factus

est repente de cœlo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementer_....

Ahi vinha ja querendo-se intrometter o meu demonio meridiano: ápage!

Para as grandes pelejas de que fallava, se despejárão todos os arsenaes

da mística theologia, da methafísica, da historia sagrada e profana, das

fabulas e anecdotas, da fisiologia e novellas. Ficou largamente juncado o

campo de cadaveres em folio, em quarto, em outavo, em doze, em dezeseis,

em trinta e dois, em sessenta e quatro; de pergaminho, de marroquim, de

seda, de taboa, de papelão, de carneira, de papel: defuntos quasi todos

sem amenta, e cujos nomes, se os houvesse de compilar, encherião maior

livro do que este. Depois do derramamento de tantos rios de tinta, ainda

pende a mesma questão; ainda até ao fim do mundo se tem de trazer para

ella couzas que pareção novas; e as cinzas de Lucrecia, Dido, Phryne,

Sapho, Aspasia, Arria, Cornelia, Osmia, Heloiza; Christina, Catharina,

Maria Thereza; as cinzas das que habitárão cazaes, harens, palacios,

mosteiros; as cinzas de Ninivitas, Gomorritas, Babilonicas, Espartanas,

Atticas, Romanas, Africanas, Botecudas, Amazonas bellicosas, Indicas

Bailladeiras, Viuvas Indostanicas, continuárão a ser revolvidas, pizadas

e adoradas por modos sempre differentes, e quasi sempre cegamente, até

á consummação dos seculos. A mulher fisica principia a ser conhecida, a

mulher intellétual sê-lo-ha, a mulher moral he o infinito.

A mocidade, quadra da vida em que reinão os mais encontrados ventos, em

obras a maior vassalla e tributária do sexo, he, fallando, escrevendo,

e talvez pensando, a sua maior detrátora. Uma conversação de mancebos,

embora amantes, não se detem senão em rebaixar o merito das mulheres:

nascidos os disséreis das pedras de Deucalião e criados ás tetas das

lobas. Qual pode ser a causa d’esta mais que montezinha ferocidade?

Será inveja á superioridade modesta? será despeito de vencidos? não;

essas vitorias, e ainda essas superioridades em virtudes, que não são

as distintivas do nosso sexo, facilmente se perdoão. He a causa o mesmo

natural instinto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando

entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareção as derrotas

do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios

accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas.

Facil he carecer das loucuras da idade que ja não temos, ou que ainda

não temos; blazona-se d’isso, mas não he virtude: carecer porem dos

vicios proprios dos nossos annos seria virtude, mas tão rara he, que o

despossui-la deve merecer vénia dos sizudos. Era eu em toda a fôrça de

minha adolescencia, quando entre coetâneos e a seu contento, cantava em

meus versos destinados os fracos e imperfeições de algumas mulheres,

como fracos e imperfeições de todas ou da maior parte. Da falsidade

que n’isso havia me corro, mas muito mais do pouco delicado tom do meu

cantar, porque se me figura agora delito ainda muito mais grave, do

que attribuir-lhes defeitos, o pintar-lhos inamavelmente: a graça he

o seu primeiro mérito, injuria-las graciosamente ainda não he de todo

injuria-las. De muita nuvem se desaffronta, e de mui grande carga respira

um coração confessando suas culpas, mormente quando pelas confessar

se torna a entrar absolto e regenerado na estima e benevolencia das

dominadoras do mundo: quasi se folga, como me está succedendo, de ter

tido a culpa, para merecer a vénia e saborear a reconciliação.

Transfuga dos arraiaes dos levantados, ás trincheiras d’ellas me

recolho, não só com as armas com que as guerriei, para as defender, mas

com uma bandeira para chamamento e reunião de outros. Ressuscitaria,

se podesse, para o meu novo campo todos os bem nascidos espiritos das

idades cavalleiras e cortezes, para procurarmos salvar da ultima ruina

o feminil imperio, que de dia para dia vai sendo entrado, talado e

engolido da Política; fero monstro em que tão mal assenta feminino! E se

o conseguissemos, se os moços que deixárão os affétos pelos debates, as

sociedades pelos _clubs_, os versos e cartas apaixonadas pelos jornaes

frios e praguentos, quizessem volver a seu natural officio de amar, de

agradar e divertir-se, ¡como se não amaciaria esta bruteza quasi, cínica

de nosso tempo illuminado, em que se não sabe ler! A propria Liberdade

lucraria, porque os seus nervos e verdadeiros espiritos vitaes não são

outros senão as virtudes e as bondades: ¿e quem como as mulheres, nos

poderia ainda attrair da praça onde se briga, odêa e persegue, para a

casa onde se quer bem e se folga, para a cosa onde até á ultima velhice

nos educâmos, para a casa onde de bondades e virtudes nos dão ellas a

todos os momentos exemplos vivos e formosissimos? _Tellus, et domus, et

placens uxor!_ Oh se eu podesse mostrar este meu pensamento, como me

está florejando na alma! dizer com palavras a mulher como a sei no meu

coração!... mas feminina he a mão com que escrevo, ¿como dezenharia ella

o seu retrato?

_Pag. 261._

FIM DA FESTA DE MAIO.

Se o fim de qualquer obra he a sua coroa, custará a achar obra tão mal

coroada como esta _Primavera_. Dos quatro Poemas he a _Festa de Maio_

o ínfimo, não contribuindo pouco para isso o seu estirado comprimento:

e da _Festa de Maio_ a ínfima parte he sem nenhuma dúvida a segunda e

última. Boa e mui fertil era a idea primitiva, na qual, mas só na qual,

mui casualmente me encontrára com o allemão Gerstenberg no dithirambo

que traz titulo _Chipre_. Desenvolveo elle a sua, pôsto que em prosa,

como poeta mui valente: derramei eu, e enfraqueci a minha em pobrissimos

versos (era tempo que na maior parte dos dias compunha trezentos e mais)

que bem podérão, sem detrimento de pensamentos, ser reduzidos ao terço

do seu numero. Ja poderei parecer importuno com tanto repetir confissão

das minhas faltas; mas antes isso, do que se diga que eu as córo ou

tapo, ou com tantos annos ainda não caí em as conhecer cabalmente. Quem

a este meu cortar pelas proprias roupas chamasse affétação, muito se

enganára comigo: censuro-me, não para atalhar alhêas censuras; menos

para provocar defezas aos que sempre folgão, quer em bem quer em mal,

de encontrar as opiniões dos que escrevem; mas censuro-me e em todas

minhas couzas marco seu preço, para que os agora principiantes lá ao

deante se não queixem de mim, como eu podéra agora queixar-me de outros,

com cujos livros me criei. Consciencia e Verdade, ainda em mesquinhas

letras, devem de ser escrupulosamente servidas: tem uma e outra alguma

couza de tão divinas, que por mais dolorosos sacrificios que de nós

lhes façamos, no-los pagão com íntima satisfação. Certo he que fazendo

o que eu faço, se corre perigo de vir a um grande dissabor, como he,

depois de sinceramente confessados os defeitos, saírem os nescios na

arte de criticar, e que nunca uma só linha escrevêrão, aproveitarem-se

cobardemente de taes revelações, vozea-las como descobrimentos seus, e

vingando-se de sua propria esterilidade, triunfar miseravelmente dos

descuidos, sem nenhuma menção das boas partes. Ja isso por mim passou

depois que dissertei ácerca da invenção da _Noite do Castello_. Onde tal

se escreveo, quem o escreveo, e como o escreveo não o direi, que não

quero em livros meus andar carreando dementes para a posteridade, se he

que meus livros tem de la chegar, como cá chegárão alguns bem ruins dos

tempos atraz. E a final, que valem semelhantes pregoẽs e taes pregoeiros,

comparados com as suas duas maiores inimigas que são a verdade e a

consciencia? podéra accrescentar a vergonha. Em meu conceito nada. Por

tanto sigão elles por seu caminho, onde se afogão em lodo, e todos lhes

cospem na face; e eu, que nem sequer os tenho em assaz de conta para os

odiar, continue o dar documentos do unico merito de que me prézo, que he

a candura. Para dar culto á Verdade e á Consciencia, não sacrificarei

alhêas famas, que me não pertencem, mas pela minha rasgarei afoito:

far-lhes-hei de meu sujeito intellétual, o que de seus corpos diz Fernão

Mendes que fazião la em Tinagoogoo certos penitentes, que em procissões

públicas se hião espedaçando ante os carros triunfaes dos seus idolos,

e por fim se arremessavão por deante das rodas, para serem talhados e

esmagados: _a que toda a gente_, como refere o bom perigrino, _com uma

grande grita dezia: pachiloo a furão; que quer dizer: a minha alma com a

tua. E decendo logo de cima do carro um sacerdote ... se chegava áquelles

bemaventurados ou malaventurados ... e ajuntando os pedaços e as cabeças

... os mostravão ao povo de cima do mais alto sobrado do carro onde hia

o idolo, dezendo n’um tom muito sentido:_ “_Rogai peccadores todos a

Deos, que vos faça dignos de serdes santos como este que agora morreo em

sacrificio de cheiro suave._”

FIM.

MAIS PRIMAVERA.

ADVERTENCIA.

Os trez seguintes Artigos vem, _mutatis mutandis_, trasladados da _Guarda

Avançada_, Jornal campeão da CARTA e da RAINHA, como todos os d’esse

tempo, sem excétuar um unico; Jornal exagerado, e muitas vezes injusto

sem querer, como o serão sempre os redigidos por almas novas e ardentes,

sinceras e poeticas, inexpertas e temerarias, que presumem que uma

revolução póde realizar os filantrópicos sonhos de um solitario; Jornal

emfim de que eu fui collaborador, quando vivia para a política, ainda que

não da política, e do qual perante minha consciencia me recordo com pezar

mas sem peijo, porque talvez fez males e grandes males, não aspirando

senão ao bem. Tanto he verdade, que só a moderação he capaz de dar frutos

abençoados! Relêa-se o meu Prologo do _Tributo Portuguez_. Aqui não quero

accrescentar mais nada sobre materias, sim importantissimas, mas que eu

ja dou todas por um malmequerzinho dos campos. — Sáem pois os Artigos

substancialmente os mesmos. Pena será, se passado agora tanto tempo

depois de escritos, os que por la estão espectadores das couzas públicas

os acharem muito mais applicaveis aos presentes dias; e ainda maior

lástima, se para o deante não vierem a perder boa parte de sua verdade.

Remato com o louvor, que no Prologo deixei promettido, de meu mestre e

amigo o Snr. Antonio Ribeiro dos Santos: fragmento copiado do _Num. 2_ do

_Jornal dos Amigos das Letras_. Se a alguem parecer que não cáe este sob

o titulo de _Primavera_, paciencia; recebão-no como Nota, agazalhem-no

como filho de gratidão. Para mim recende elle muita primavera de

puericia, e de um jardim das Musas.

MARÇO

(PRINCÍPIO DA PRIMAVERA)

Eis aqui os primeiros dias da graciosa estação. Das flores lhe chamárão

os poetas; melhor podérão chamar-lhe flor do anno. A terra, como viuva

ainda verde que se enfeita para novas bodas, a terra pelo sol repassada

de amorosa quentura, vendo-o volver a afaga-la, depois de lhe haver por

tanto tempo fugido, arrêa-se de todas suas galas, esperançosa sorrí por

entre a sua grinalda florída, embebe-se em perfumes, acerca-se de musicas

voluptuosas, e suspira brandamente dentro nos arvoredos recem vestidos,

nos valles alcatifados, pelas margens dos rios outra vez serenos. Com

razão foi a Primavera consagrada dos antigos ás Musas e Graças: com razão

se escolhião as suas vésperas para o Pontifice Maximo accender o novo

fogo, que devia durar todo o anno: com razão os pais de nossa lingua

derão a esta parte do anno um nome feminino, e os pintores apparencias

de formosa moça; emquanto Estio, Outono e Inverno pela aspereza, pela

fôrça, pela gravidade, pertencião a outro sexo. Cada fonte se aliza em

um espelho; cada pedra se veste em assento aveludado; cada haste nua se

desaperta n’um ramalhete: tornão-se os bosques outras tantas republicas

populosas, cujos cidadãos, livres como as virações, voão, cantão,

brincão, acaricião-se, desposão-se, educão a sua prole bafejada do ceo,

e parecem não respirar senão o prazer da independencia, da ternura e da

melodia. A natureza revoca á vida innumeraveis especies de animaes de que

o Inverno só continha o germen; ás outras infunde, como aos passaros,

um contentamento, uma ligeireza, uma attráção, que o Inverno lhes havia

roubado ou amortecido. Do ceo chove fecundidade sôbre tudo que he vivo;

e tudo o que he vivo sáe trajado de festa, e por toda a parte encontra

mesa que Deos lhe assoalha, carregada de sua abundancia com luxo,

magnificencia e formusura.

A humana especie não podia em tão geral favor ser esquecida, antes foi

o seu quinhão de todos o mais largo. O amor, que para nós não tem uma

estação exclusiva, n’esta entretanto se nos desenvolve com recrescida

atividade: he porque o proprio ar, empregnado de elementos vitaes, nos

está coando aos peitos uma extraordinaria energia: he porque tudo em

de redor exemplos são que nos cativão: he porque o alvoroço e festa do

universo convidão o coração a gozar: he porque ao florir da rosa dos

jardins, muita e muita rosa esmorecida se reanima nas faces da belleza:

he porque a voz da mulher então sáe, não sei como, ainda mais doce; e

tanto ellas mesmas sem o saber o sentem, que em toda a parte em que as

horas e circunstancias do seu canto não andão assentadas nas tarifas da

moda, insensivelmente se achão a cantar, e este novo attrátivo parece

n’ellas uma necessidade, como he nas aves da primavera. Dir-se-hia que

a natureza nos manda as flores nos dias em que o amor nos instiga a

offerecê-las.

Mas os feitiços da Primavera não se limitão nos da recreação e amor.

Um medico vos dirá que he ella a estação da saude; um sabio a do vigor

mental; um navegante a do princípio de confiança nos seus mares: o

artífice a saúda como a que abre a porta a longos dias; o pastor como a

mãi da abundancia; o agrícola vê as esperanças do anno desparzidas por

suas terras, por suas vinhas, por seus pomares. Ah! só os homens das

cidades, tristemente condenados á fadiga e ao luxo, quasi não encontrão a

primavera no seu anno! Para esses reduz-se a mais algumas horas de luz,

e a uma pouca mais serenidade em um ceo sem horizontes. Se ao menos se

podesse esta serenidade reflétir nas nossas almas!... mas os redemoinhos

das novidades, os raios das intrigas ambiciosas, o frio do desalento

e carregadas nuvens ao longe esterilizão tudo, e se uma ou outra flor

de esperança nos desabrocha a medo, lá está logo a reflexão, filha do

conhecimento dos homens, que a faz com um sôpro desapparecer. O anno dos

nossos destinos teve um inverno bem longo e rigoroso: n’elle sulcámos

a terra para semear liberdade e ventura, adubámo-la com o nosso sangue

e corpos de nossos irmãos, regámo-la com o nosso suor e lágrimas; e

agora que nós e nossos filhos esperavamos ao menos a florescencia que

nos augurasse frutos para o futuro, a Deos approuve de outro modo, e uma

torrente de iniquidades, que não quer parar, continúa a assolar a terra

de nossos avós.

ABRIL

Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade;

consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das

Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das

últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e

bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados

uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia

imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume

o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não

houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de

haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de

Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se

lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado

nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das

agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão

entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte.

As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me

o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a

ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que

de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos

mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu

lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos

serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do

nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós

beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos

um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar

algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre

a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei

com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será

ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos

amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio,

e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades

soterradas, antes que de todo se desfação em pó.

MAIO.

He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens

se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas

que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo

sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e

rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as

noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da

natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem

sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia.

Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por

um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos

tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas

pela imaginação, animadas pelo amor.

Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a

insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao

signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis

aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando

a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos

artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas

saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de

gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos,

e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão

carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá

não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (_Juvenes_) o mez

de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro

havia consagrado o Maio aos velhos (_Majores_), porque feroz como era,

Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos

por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no

primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de

varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados

da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos

me parecem ter d’ahi recebido origem.

Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e

chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos

com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos,

e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e

para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando

taes palavras—_com estas favas me resgato a mim e aos meus_:—o que por

nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro

que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes,

batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa,

por nove vezes repetia—_Sahi, ó manes paternos_.—Eis provavelmente

d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens

rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem

castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação

do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão

lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de

mãos em mãos, ainda conserva a sua valia.

Outros costumes de Maio tem o nosso Portugal, a que folgáramos que

alguem escavasse e descobrisse a raiz, sendo certo que na historia a

devem ter. O Maio pequenino, que seguido de todas as crianças do bairro,

corre enfeitado de flores, as ruas da cidade, ao som de um cantar antigo

e uniforme; aquellas mimosas Maias tão arraiadas e donosas, que á orla

dos caminhos se encontrão comprimentando os passageiros; aquell’outro

estilo, ja talvez hoje passado, de se deitarem n’um mesmo leito um casal

de creanças innocentes, para se lhes cantar em roda um como epithalamio,

ou trova de suas bodas; os descantes amorosos dados com a viola n’esta

occasião pelos aldeões ás suas escolhidas; não provirá tudo isto de

alguma ja perdida lembrança de cultos da Deoza Maia? E a usança de

ornar com flores Maias as portas e interior das casas, não será reflexo

distante dos festejos Romanos á Deoza Bona?

A religião, que para si tomou ornato de tantas joias ao Paganismo, não

se desdenhou tambem de perfilhar este mez. Em muitas freguezias, pelas

nossas provincias do norte, o bom Parocho vai benzer no princípio de Maio

a bandeja de rosas que entre os devotos se distribuem e se commungão,

porque esta flor abençoada traz felicidade.—Vem depois aquellas tão

esperançosas, tão cantadas e tão sabidas Ladainhas de Maio.—Hoje os

camponezes de França vão plantar o seu Maio á porta das pessoas honradas

da sua freguezia: os Inglezes renovão de certo modo as antigas _Vigilias

de Venus_: os Gregos, como se os seus poetas d’outro tempo os inspirassem

ainda, e a era das Elegias tornasse a reviver, vão descantar amores e

pendurar grinaldas aos umbraes das suas inclinações: e os moradores de

Roma, segundo nos foi dito por quem lá foi a essa terra de saudades,

ainda agora se reunem na fonte de Egeria a respirar as delicias da

natureza, debaixo d’aquelle ceo de tanto amor, que não a pensar em Numa e

na grandeza antiga dos Romanos, de que a elles só veio em herança a terra

coberta de muitas ruinas.

¿Para que servem todas estas memorias, nos estão perguntando os

insaciaveis de Politica? e nós não lhes sabemos responder senão que

a nós estes pensamentos nos fazem muito bem, e que aos amigos de

passatempos innocentes se não ha de prohibir o que a ninguem faz mal.

Deixai-nos ser algum dia do anno semi-pagãos. São as superstições da

Politica ambiciosa as que empecem á felicidade, mas estes graciosos

prejuisos de nossos pais a nenhuma couza do mundo danão. E de mais,

se havemos de dizer toda a verdade, a fé, que a estes pobres erros

acompanha, costuma trazer comsigo muita piedade religiosa, e n’ella

alguma doçura moral, que nem sempre vai por onde vai a desenganada

Filosofia. Ditoso d’aquelle engenho que podesse trazer outra vez ao

mundo a innocencia que nos lá ficou no paiz das fabulas! mas interromper

um sonho de poesia quando se julga que a felicidade vem apoz os nossos

passos, voltarmo-nos, como Orfeo, para a abraçar, e vermo-la fugir e

desapparecer n’um ai, e um mundo de realidades dolorosas estender-se

immenso deante de nós, oh! isto he muito triste!

_ÁCERCA DA PESSOA DO Sr. Antonio Ribeiro dos Santos._

Pôsto que o escrever de Varão tão conhecido dentro e fóra d’este

Reino, qual foi o Sr. Antonio Ribeiro dos Santos, já possa a muitos

parecer escusado, o deixar de o fazer, mais que seja por alto, nem

a opportunidade da occasião mo consente, nem menos mo consentiria o

gôsto, que sempre do refrescar essas memorias me resulta; por quanto na

primavera de minha vida, e primeira manhã de minha poesia, foi que a boa

de minha fortuna me deu conhecer este Nestor de nossa Literatura, que

já então, ao cabo da sua longa e proveitosa carreira, ornado de muitos

méritos de sciencias e virtudes, respeitado e apontado de longe, pouzava

sereno e magestoso, aguardando pela sua hora, á beira da eternidade.

Que fosse nascido nas terras do Douro, d’onde lhe prouve tomar nome

de Elpino Duriense; que fizesse com bons mestres seus estudos; que se

tornasse, lendo na Universidade de Coimbra, um de seus mais lustrosos

luminares; que na Igreja e no Estado occupasse mui subidos empregos; que

fosse o amigo e centro de quantos bons engenhos em seu tempo florecerão,

não faltará quem o escreva entre seus outros muitos louvores. Tão

pouco me deterei dispartindo entre a Jurisprudencia, a Historia, as

Antiguidades, a Literatura, e a Poesia o opulentissimo cathalogo de suas

Obras, cuja maxima, e por ventura optima parte, ainda até agora não viu

a luz. Não hão de ser mãos tão debeis como as minhas as que revolvão

tamanhos trofeos, nem em tão pequeno espaço como este coubéra retratar

completo Homem que abrangeu duas idades, bem fazendo-lhes mutuamente a

uma pela outra; anticipando em meio do seculo passado o gôsto, o apuro,

a filosofia d’este nosso; transplantando para o presente o estudo, a

boa fé, o saber do passado; e legando ao futuro thesouros que andou

desencantando das antiguidades remotissimas. Menos arremessados são meus

dezejos, e mais seguros, que só quero levar meus leitores a com este bom

velho encetarem conhecimento.

Corre a primavera do anno de 1814 ou 15, que eu certo o não sei. A

morada de Elpino, que em um dos mais desafrontados altos de Lisboa está

formosamente situada, longe do bolicio, como bem cabia á sua indole

pacifica e genio estudioso, he um templo de Musas, religiosamente vedado

aos olhos e vozes de profanos, isto he dos máos e ignorantes, unicos

de todos os entes para quem sua porta e animo não erão hospedeiros.

Por aquellas salas, gravemente ataviadas á laia dos nossos antigos, de

sedas e arrazes, alcatifas, tremós, espaldares e soberbos quadros dos

mais perigrinos pintores, reina o silencio, e uma lembrança dos antigos

e abundosos tempos de nossos avós, que tanto conforma com os nobres e

portuguezes pensamentos de suas poesias, as quaes se raras vezes voão

sublimes, nunca, nem por sombras, desmentem da boa moral e sã filosofia.

Aqui o bom Elpino nos recebe cordialmente, a meus irmãos e a mim; os

filhos do seu amigo são seus amigos, os estudiosos das Musas portuguezas

e romanas são os seus amores. O ancião, que ainda entre sabios podéra

ser ouvido como oraculo, remoça-se conversando com meninos, apouca-se

para que o melhor comprehendão, orna-lhes a moral e o estudo com quantas

flores sabe; do centro da gloria lhes ensina por onde se abre o caminho

que para lá conduz; e pelo grande espirito e persuasão com que falla,

talvez consegue crear algumas vehementes vocações literarias. Outras

vezes nos convida para a bibliotheca, suas delicias, e nos acompanha

com a alegria na boca. Os seus olhos, como que ao fim de tanto lêr ja

quizessem descançar para sempre, não lhe alumião o caminho; e semilhante

áquelle grande Bardo Ossian, a quem velho e cego, piedosa conduzia a

moça Malvina para os logares usados de sua inspiração, no hombro de uma

menina, sua afilhada e leitora, segurava o bom de Elpino uma das mãos,

emquanto com a outra arrimada a um bordão, palpava o caminho, e se

ajudava em seu quebrado andar.

Era a bibliotheca o íntimo retiro d’este ermitão do Parnaso, fugida para

longe das casas, pôsto que tão quietas, e frescamente assentada em meio

de muitas sombras, verduras e aromas de seu jardim, hortas e pomares.

Grandissima cópia de livros, longamente procurados e custosamente juntos,

e entre os quaes se estremavão no numero e riqueza os Gregos, os Romanos,

e os antigos Portuguezes, alí estavão juntos, entre o susurro estudioso

das ramas e os cantares descuidosos dos passaros. Um Apollo de marmore

com a sua lira em punho, parecia estar-se mui bem cabido e contente no

meio d’aquelle seu alcaçar, cercado de tantos seus cultores, servido por

tão venerando Sacerdote. Lembranças são estas que trago colhidas de minha

infancia, e que transplanto para aqui, por não querer que se percão.

Áquelle Homem, n’aquellas tardes, e debaixo d’aquelle této, devo a grande

veneração que ainda hoje consagro aos meus livros latinos, não poucos

dos quaes mos deu elle proprio; e tocados de suas mãos poeticas, me

inspirão ainda agora poesia e virtude, até cerrados, e n’elles confio que

me hajão de servir de pranchas, com que n’este pélago de freneticas e

descompostas innovações, me não deixe, como tantos que mais valião do que

eu, totalmente sossobrar. Nos seus ouvidos indulgentes lançava não só as

primicias dos meus versos, mas ainda as traças e esperanças de obras que

borbulhavão de uma seiba virgem de quatorze annos. Escutava elle tudo com

desvellada benevolencia, umas vezes apontando-me melhores caminhos ou

mais faceis, outras desviando-me de commettimentos maiores que meus annos

e forças; agora revelando-me regras, logo insinuando-mas com exemplos,

com que sempre fiel e muito a ponto lhe acudia a memoria. Não he verdade

que ha em tudo isto um não sei que, por onde o que o pratíca não póde

menos ser de um grande homem? Oxalá meus esforços melhor houvessem

respondido a suas diligencias, ou me não houvesse elle desamparado no

começo da carreira, para a qual apenas me aparelhou! Sim, porque embora

me hajão a vaidade, a gratidão péde que eu publique, foi este Pontifice

das Musas que me iniciou no seu culto, e no seu paternal enthusiasmo

me disse—Tu serás poeta.—Scena digna de um pincel eloquente: um ancião

coroado de louros, e cego como Homero, sagrando ao culto da mais bella

das Artes, um menino cego como elle!

NOTAS

[1] Alguma vez publicarei o que acerca d’isto disputamos por Cartas,

de Lisboa para Coimbra, o Padre José Agostinho de Macedo e eu. Negava

aquelle escriptor, de incontrastavel talento, que a Poesia Allemã e

Suissa mais fosse do que a nossa rica em graças naturaes, e amena

frescura, antes affirmava que a nossa a excedia grandemente. Ou não

escrevia elle deveras, ou se convenceo do erro, como será de ver das

Cartas, quando ellas aparecerem. O motivo porque até hoje as tenho dos

publicos olhos resguardadas, outro não foi senão recêo de que se me

attribuisse a vãgloria a publicação de uma disputa em que tamanho sujeito

me cedeo, principalmente sendo notorio que o favor que em seus escritos

deu ás minhas primeiras tentativas poeticas e infantis, jamais o denegou

com o andar do tempo, antes o reforçou com mui graciosos louvores.

[2] Conceder-lha-heis, se ja não tiverdes determinado emprega-la em outro

uso, ou fundar nesse sitio alguma caza de Commissão que nada faça, ou

algum quartel de guarda que legisle sobre os destinos publicos.

[3] O Livro _Le mie Prigione_, quanto á utilidade prática leva, me

parece, a palma á _Imitação_ de Kempis. Em Kempis apparece a descrição

da caridade e piedade, em Silvio a applicação d’ellas aos successos da

vida. Kempis aconselha, Silvio ensina a perdoar, a amar, e a ser feliz,

em despeito da fortuna: dá o exemplo d’isso, he elle proprio o exemplo.

[4] Quem bem reparar na justiça rigorosa (de cruel a taxaráõ alguns)

com que eu proprio trato a minha Musa, perdoar-me-ha quando por amor ás

nossas letras, aponto um defeito em meu mestre e amigo o Snr. Antonio

Ribeiro dos Santos. Inda assim, porque me não fique remordendo a

consciencia, como expiação, e mui suave, porei no fim do volume um penhor

do meu respeito e grato animo a tão grande varão; capitulo ja impresso no

_Jornal dos Amigos das Letras_, mas por isso mesmo apenas conhecido.

[5] Meu irmão Augusto Frederico de Castilho.

[6] Meu irmão Adriano Ernesto de Castilho.

[7] As Senhoras Mellos, a quem pertence a Lapa e a Quinta das Canas.

[8] Na _Primavera_ de meu Irmão Augusto Frederico de Castilho ha um lugar

parallelo, não quanto á expressão, mas quanto ao pensamento principal.

Releva porem que em duas couzas se advirta: a uma, que nenhum de nós

foi plagiario, nem o podiamos ser, porque todos compunhamos em segredo;

a outra, que o passo do poema, em que elle descreve Nize a figurar de

Primavera, leva grande vantagem de valia a estes versos!

[9] Augusto Frederico de Castilho.

[10] O meu amigo Jose Vitorino Freire Cardozo da Fonseca (_Etmiro_) tinha

começado em uma sua quinta na Beira um jardim, tal como o descrevo aos

seguintes versos, e que pretendia consagrar á minha memoria. Mal haja

aquelle, a quem semelhante penhor de amizade não enternece!

[11] Veja-se a Quarta Edição do Diccionario chamado de Moraes.

[12] Lamartine no Prologo de _Jocelyn_

[13] Em Maio se poem o ponto aos Estudos da Universidade, que eu

n’aquelles tempos cursava. Só os que por ahi tem passado, podem entender

o alvoroço com que he recebido.

[14] Antigo nome da Serra de Estrella d’onde nasce o Mondego.

[15] Por esta occazião me importa fazer um annuncio ao Publico. Ei-lo:

declaro que se esse Jornal inexperadamente acabou, não foi minha a culpa,

assim como de nenhum dos sócios, mas somente dos acontecimentos, assim

publicos como privados da Sociedade: com elle nunca tive outras algumas

relações senão as onerosas e de trabalho, que eu tomava comtudo com muito

gôsto. Todos os sócios o sabem, mas interessa-me que o saiba toda a

gente, para me salvar de quaesquer desasizadas reclamações.

[16] Em podendo ser, publicarei um volume de poesias, que lá compuz

acerca d’aquella bemaventurada solidão, onde annos vivi ignorado e

contente, na residencia de meu Irmão Augusto Frederico.

[17] Tudo isto, que eu julgava para sempre meu, passou! Aprouve a Deos

mostrar-me só de relance a felicidade! Pouco mais de dois annos a

illustre e digna sobrinha de Nicolau Tolentino de Almeida, a Senhora

D. Maria Izabel de Baenna Coimbra Portugal, se sacrificou toda a

felicitar-me: o Pai de todo o amor e de toda a virtude a chamou logo

para o seu seio: era aquelle um Anjo que faltava no ceo. Esta Nota ao

poema, vai como se achava feita quando ella ja me não escrevia, senão

a espaços, mas ainda se comprazia de me ouvir dictar. Quando o seu fim

era ja inevitavel, todos o sabião e talvez ella mesma, e eu contava

ainda com largos annos de fortuna. O mesmo advirto quanto ás mais Notas

e accrescentamentos d’este Livro, que tudo estava pronto (faltando só

algumas poucas notas que não fiz nem ja farei) antes do fatal dia um

de Fevereiro passado: dois se imprimio erradamente no Post Scriptum do

Prologo. Se outrem não tivesse conservado essa data, e me não advertisse

da inexatidão em que mal informado caí, ainda agora a podéra eu ignorar:

esse dia, as vesperas e os seguintes não tiverão para mim nenhuma ráia

nem de luz, nem do sôno, nem de alguma outra das couzas que estremão os

dias.—_12 de Maio de 1837._

INDEX.

Pag.

Ante-Prologo 5

Prologo 25

_Post-Scriptum_ 47

Epistola á Primavera 49

Dedicatoria a minha Irmã 51

Duas Palavras de Introdução 53

Epistola 57

O Dia da Primavera Poemetto 75

Dedicatoria a minha Mãi 77

Historia da Festa da Primavera 79

O Dia da Primavera Canto I

_A Manhã_ 95

O Dia da Primavera Canto II

_A Tarde_ 111

Notas ao Poemetto antecedente 131

Nota 1.ª (_Elmano e Filinto—versificação

esdruxola e aguda_ &c.) 131

Nota 2.ª de Augusto Frederico de Castilho 162

Os Cantos de Abril Idillio 167

Dedicatoria a meu Pai 169

Advertencia 171

Os Cantos de Abril 173

Nota ao Idillio (_Excerpto de alguns

versos da primeira Edição do Idillio,

rejeitados n’esta segunda_) 186

A Festa de Maio Poemetto 189

Dedicatoria ás Senhoras da Lapa dos

Esteios 191

Historia da Festa de Maio 193

A Festa de Maio Canto I 199

—— Canto II 225

Notas á Festa de Maio 263

Nota 1.ª (_Com a tradução para latim

dos amores de Galatea no Cant. 1 da

Festa de Maio_) 263

Nota 2.ª (_Piedade para com os animaes—alimento

animal_ &c.) 269

Nota 3.ª (_Em desaggravo das mulheres_) 291

Nota 4.ª (_Sôbre o 2.º Canto da Festa

de Maio_) 305

Mais Primavera 309

Advertencia 311

Março (_Princípio da Primavera_) 313

Abril 317

Maio 319

Ácerca da Pessoa do Sr. Antonio Ribeiro

dos Santos 324

FIM

Lista de Assignantes.

S. M. F. A RAINHA D. MARIA II.

S. M. I. A DUQUEZA DE BRAGANÇA.

S. A. R. O PRINCIPE D. FERNANDO AUGUSTO.

A. A. A. Moreira.

Ab. M.ᵃ J. Paiva Manso.

Abrahão Weelhause.

A. Carneiro.

Achilles de Pereira.

A. Eustaquio da Silva.

Ag.ᵗᵒ de Castro da Gama Lobo.

—— José Pereira.

—— Roïz da F. Soares.

A. J. R. Leitão.

Albino F. de Figueiredo.

Conselh.ᵒ Alexandre Alb. de Serpa Pinto. _4 Ex._

Alexandre Lahmeyer.

D. Alvaro.

Amaro Coutinho Pereira.

Anacleto José da Silva.

André Joaquim Ramalho.

—— Perez.

A. Neves de Sequeira.

Angelo Augusto Martins.

D. Anna C. Guimarães.

—— Ifig. do Valle de S. e Menezes.

—— Lucinda Mont.ʳᵒ

—— Ludovina.

—— Margar.ᵈᵃ Fructuoso de Ar.ᵒ

—— Victoria da Rocha Torres.

Anonimo. _2 Exempl._

Anselmo J.ᵉ Braamcamp.

Ant.ᵒ Adolfo Ferr.ᵃ Sarmento. _15 Exempl._

—— Adriano da Mata P.ᵗᵃ

—— Ag.ᵒ Per.ᵃ Lacerda.

—— Alves Souto.

—— Aluisio Jervis d’Atouguia.

—— Augusto Gonsalves.

—— B. de Brito e Cunha.

—— Cardoso e Silva.

—— C. da Costa e Sousa.

—— Coelho Bragante.

—— da Costa Paiva. 130 _Exempl._

—— Dias d’Azevedo.

—— —— Monteiro.

—— —— Rodão.

—— Diniz Couto Valente

—— Ezequiel d’Aguiar.

—— F. Mag.ᵃᵉˢ Coutᵒ

—— F. Mendonça Arraes.

—— Frz. Alves Fortuna.

—— Florencio Reixa.

—— Fr. Alv. Guimarães.

—— Freire Castello Br.ᶜᵒ

—— de Freitas.

—— Gaud. S.ᵃ Monteiro.

—— G. Barreto de Pina.

—— Gomes Lima.

—— Glz. d’Alm.ᵈᵃ Rino.

—— Gueifão Bello Per.ᵃ

—— Guilherme da Costa.

—— Henriques Doria.

—— Jacinto Santarem.

—— Joaquim de Abreu.

—— Cons.ᵒ Antᵒ Joaq.ᵐ da Costa Carv.ᵒ 6 _Ex._

—— Joaq.ᵐ Reis Junior.

—— —— da Silva.

—— —— Teix.ᵃ S.ᵃ

—— J. d’Oliveira Lima.

—— José d’Avila.

—— J.ᵉ Bot.ᵒ da Cunha.

—— —— Ferr.ᵃ de Sousa.

—— —— Glz. Basto.

—— —— —— Duarte.

—— —— de Oliveira.

—— J.ᵉ de Oliveira e S.ᵃ

—— —— R. Guim.ᵃᵉˢ 3 _Ex._

—— —— de Sá Camello.

—— —— da S.ᵃ Milheiros.

—— —— de Sousa Martins.

—— —— Teixeira Leal.

—— —— de Vasc.ᵒˢ 20 _Ex._

—— Leite Pereira Lobo.

—— Lopes de C. Alm.ᵈᵃ

—— Lour. Coelho. 5 Ex.

—— Luiz Nogᵃ e Freitas.

—— M.ᵉˡ R. Abranches.

—— —— Vargas.

—— M.ᵃ d’Almeida e S.ᵃ

—— —— de Campos.

—— —— Ferreira.

—— —— L. M. Queiroz.

—— —— Machado.

—— —— Thovar Lemos.

—— Martins dos Santos.

—— de Mello Breyner.

—— N. Roïz. Cancella.

—— Nunes dos Reis.

—— Pedro de Carvalho.

—— P. X. O. B. Leite.

—— Pereira de Faria.

—— Porfirio de Freitas.

—— Ramos Azev.ᵒ Maia.

—— Rib. Azev.ᵒ Bastos.

—— Ribeiro de Faria.

—— Sald.ᵃ R. Albuq.ᵉ

—— Samp. X. Casqueiro.

—— dos Santos Monteiro.

—— de Sá Per.ᵃ Samp.

—— da Silva Bastos.

—— da Silva Leitão.

—— S.ᵃ Monteiro. 2 _Ex._

—— Sotero Sz.ᵃ Falcão.

—— Thomaz Aquino S.ᵃ

—— Vicente de Sousa.

—— Vieira de Carvalho.

A. P. Ardisson.

A. P. B. de Saldanha.

A. R. Sealy.

Assemblea Lisbonense.

—— Portuense.

Associação Civilisadora.

Augusto.

—— Frederico Ferr.ᵃ

Dr. Augusto Lavit. 2 _Ex._

Augusto Maria Dermott.

—— Victor Sabbo.

Aureliano J.ᵉ de Moraes.

Ayres Sá Nogueira. 3 _Ex._

—— da Silva Coelho.

Balthesar Lopes do Calheiros e Menezes.

Bandeira—Ex-Governador do Castello. 4 _Ex._

Barão d’Argamaça.

—— de Ruivoz.

Barnabé F. Paula Ataide.

Bartholomeu dos Martires.

Bento Alão.

—— de Almeida.

—— G. Brito Taborda.

—— Guilherme Klingleofer. 3 _Exempl._

—— J.ᵉ Teixeira Penna.

—— de Moura Portugal.

—— Pereira.

Bernardino J.ᵉ dos Santos.

Bernardo José de Miranda.

Busch.

Dr. Cabral Teix.ᵃ Moraes.

Caet.ᵒ Alberto Orlandi.

—— J.ᵉ Alves d’Araujo.

—— José M.ᵃ de Sena.

—— Xavier Diniz.

C. Almeida.

Camillo da Silva Ferraz.

Candido José Roïz Vieira.

Cap.ᵃᵒ Engenheiro Carv.ᵒ

Carlos Augusto Poppe.

—— Gould. 5 _Exempl._

—— de Sá.

—— Vieira da Silva.

Carneiro.

Castro Almeida.

C. F. Altavilla.

Christovão M.ᵃ dos Santos.

Cipriano A. Rib. Freire.

Cipriano Dom. Vianna.

C. Lagrange.

D. Clara Clorinda Lopes Pereira de Vasconcellos.

Clem.ᵉ A. O. M. Alm.ᵈᵃ

—— Augusto Bolonha.

D. Clementina Adelaide da Silva Monteiro.

C. Massa.

C. M. Caula.

Conde da Cunha.

—— de Lumiares.

—— de Mello. 6 _Ex._

—— de Villa Real.

Condeça de Belmonte D. Jeronima.

—— de Mello. 2 _Ex._

—— de Villa Real.

Cosme José Dias. 10 _Ex._

Daniel Cesar S.ᵃ Ferraz.

—— Sotero Caio dos S.ᵗᵒˢ

D. A. R. Varella.

David Ubaldo S.ᵃ Leitão.

Diogo Ant.ᵒ de Sequeira.

—— Aug. C. Constancio.

—— P. Mtr.ᵒ Bandeira.

Domingo Garcia Peres.

Domingos Fr. Santos Lim.

—— Monteiro de Albuquerque e Amaral.

—— Ribeiro de Faria.

—— —— dos S.ᵗᵒˢ

Duque da Terceira.

Duqueza da Terceira.

C.ᵉˡ E. C. C. F. Furtado.

Eduardo Frederico Lour.ᵒ

Emilia C. de Figueiredo.

D. Emilia Martinini.

Epifanio Fr. de Miranda.

Ernesto Adolfo de Freitas.

—— M. V. Montenegro.

—— José Ferreira.

D. Faustina M.ᵃ das Dominações Simões.

F. C. de M.

Feliciano Alm.ᵈᵃ Vidal.

Fernando Affonso Giraldes de Mello e Sampaio.

Fernando Theod. Arnaut.

F. L. Bettencourt.

Figueiredo. 13 _Exempl._

Filippe Folque.

Fortunato José Barreiros.

—— —— N. M. e Mello.

D. Francisca de Noronha.

Fran.ᶜᵒ Abrantes.

—— Adrião Pereira.

—— Affonso da Costa Chaves e Mello. 12 _Ex._

—— Alves Souto.

—— —— Alm.ᵈᵃ Reixa.

—— Ant.ᵒ de Pinho.

—— —— Cerqueira S.ᵃ

—— —— F. S.ᵃ Ferrão.

—— —— dos Santos.

—— de Assis Almeida.

—— —— —— Alm.ᵈᵃ C.ᵗᵉ Real.

P. Francisco d’Assis Biga.

Fran.ᶜᵒ Brito P. Almeida.

—— Candido Mend.ᵃ

—— de Castro Freire.

—— C. Judice Samora.

—— da Conc.ᵃᵒ Soares.

—— Dias Brandão.

—— Eduardo Andrade.

—— Fabião de Mend.ᶜᵃ

—— Gaspar Lahmeyer.

—— Gomes Loureiro.

—— Joaq.ᵐ da Cunha Travassos Cast.ᵒ Branco.

—— —— da Fonseca.

—— —— dos Santos.

—— J.ᵉ de Freitas.

—— J.ᵉ de Sousa Nunes.

—— —— Tavares Junior.

—— Luiz de Sousa.

—— da Mãi dos Homens Annes de Carvalho.

—— M.ᵉˡ C. Pimenta.

—— —— de Negreiros.

—— M. Silvr.ᵃ Menezes.

—— —— de S.ˢᵃ Brandão.

—— —— de Maris Coelho.

—— M. Walsh. 4 _Ex._

—— Nunes da Silva.

—— Paula Costa Feio.

—— —— Seg. Lemos.

—— —— S.ˢᵃ V. Boas.

—— —— V. Campos.

—— —— Zuzarte.

—— P. Taboada Junior.

—— P.ᵗᵒ de Magalhães.

—— Raim. d’Andrade.

—— da Silva Falcão.

—— Vieira S. Barradas.

Frederico Aug.ᵗᵒ Martha.

Fructuoso Dias Mendes.

—— —— de Paiva Card.ᵒ

F. Z. Fer.ᵃ d’Ar.ᵒ 5 _Ex._

Dr. G. Centazzi.

Gabriel Fran.ᶜᵒ Ribeiro.

—— Lopes de Lima.

G. A. Pereira de Sousa.

Gaspar dos Reis e Sousa.

—— Schindler.

D. Genoveva Victoria da Rocha Farinho.

D. Gervasia Joaquina de Sousa Falcão.

Greg.ᵒ Mag.ᵃᵉˢ Collaço.

Guilherme Ignacio Basto.

H. D. Wems.

Henriq. J. Passos Chaves.

Hermano Estanisláo Orlandi.

H. Hodgson. 10 _Exempl._

H. J. Moser.

H. O. Maya. 2 _Exempl._

Honorio Ces. Mendonça.

Ignacio Cabral Arez da Silveira Barros.

Vice Almirante Ignacio da Costa Quintella.

—— José de Sá.

—— P. Qt.ᵃ Emaus.

D. Ignez Raim. Prado.

D. Ildefonso Olheiro.

Isidoro H. C. Semmedo.

Izidro Costa.

Jacinto de Freitas Oliv.ʳᵃ

—— José de Mattos.

—— José de Sá Lima.

—— de Sousa Falcão.

—— —— —— —— 2 _Exempl._

Jacomo Pereira de Carv.ᵒ

J. Bento Pereira.

J. B. Massa.

J. B. S. L. de Almeida Garrett.

J. C. Bastos.

Jeronimo José da Silva.

—— Perᵃ Vasconc.ᵒˢ

—— —— da S.ᵃ Cardoso.

J. F. Danin.

J. F. Passos.

J. F. R. S. de Azevedo.

J. F. Thomaz.

J. G. Toussaint.

J. J. A. Redondo.

J. J. da C. J.

J. J. Loureiro.

J. J. Manitti.

J. M. Chaves.

J. M. F. Dias.

J. M. S. Freire.

João A. de S.ˢᵃ Queiroga.

—— A. Lobo de Moira.

—— Anastacio Simões.

—— Antonio Biga Nunes.

—— —— Colasso da S.ᵃ 2 _Exempl._

—— —— Marques.

—— —— Pereira.

—— Bap.ᵗᵃ da Costa.

—— —— da Cunha Fer.ᵃ

—— —— e Mafaos.

—— —— Sabo Junior.

P.ᵉ João Baptista da S.ᵃ

João Bpt.ᵃ S.ᵃ Malafaia.

—— Bento da Costa.

—— Bonifacio Guimarães.

D. João da Camara.

João Coelho de Gibraltar.

—— —— da Silva.

—— Dias X. do Loureiro.

—— Ferr.ᵃ Azev.ᵈᵒ Junior.

—— —— Camp. 10 _Ex._

—— —— dos S.ᵗᵒˢ S.ᵃ J.

P. João Franc.ᵒ B. Lança.

João Gomes Roldão.

—— —— dos Santos.

Dr. João Gonç. Miranda.

Dr. João Gonç. M. Robalo.

João Guilherme Caldeira.

—— Ignacio Curvo.

—— Januario V. Rezende.

—— José da Assumpção.

—— —— Ferr.ᵃ de Sousa.

—— —— Freitas Aragão.

—— —— Machado Ferr.ᵃ

—— Lameira M. V. Lobos.

—— Lourenço Ferr.ᵃ Braga. 4 _Exempl._

—— Luiz de Sousa Falcão.

—— —— Talone.

—— Manoel de Aral.

P.ᵉ João Maria Cardeira.

João Maria Feijó.

D. João Martins Falcão.

João da Matta e Silva.

—— Mend. A. Barbarino.

—— Neves Gomes Eliseu.

—— Nogueira Gandra.

—— Nunes da Silva.

—— Pedro Coelho.

—— —— Heitor Alcant.ᵃ

—— —— Nol. Cunha.

—— Per.ᵃ Queiroz Basto. 20 _Exempl._

—— Silva Fonseca.

—— Procopio Tavares.

—— Saecadura Botte Corte Real. 2 _Exempl._

—— da Silva Falcão.

D. João Silva Pessanha.

João da Silva Serrão.

—— de Sousa Falcão.

—— Vic.ᵗᵉ P.ᵗᵉˡ Mald.ᵈᵒ

—— de V.ˡᵃ N.ᵛᵃ de Vasc.ˡᵒˢ Correia de Barros.

Joaq.ᵐ Xavier da Maia.

—— Ant.ᵒ Aguiar. 5 _Ex._

—— —— Barbosa Torres.

—— —— da Costa.

—— —— da Fonseca.

—— —— Tenreiro.

—— —— Vidal da Gama.

—— Augusto Burlamaqui Marecos.

—— Barreto de Castilho.

—— Corrêa Moreira.

—— Felix Moreira 6 _Ex._

—— Francisco Danim.

—— G.ᵐᵉˢ V.ʳᵃ Gaio.

—— José Bernardes.

—— —— Costa Macedo.

—— —— Costa Portugal.

—— —— da Cunha.

—— —— Dias Lopes de Vasconcellos. 3 _Exemp._

—— —— Figueira.

—— —— Gião.

—— —— Lobo.

—— —— Marques Cald.ᵃ

—— Julio da S.ᵛᵃ Ferraz.

Cons.ʳᵒ Joaq. Larcher.

Joaq. Lucio Arbues M.ʳᵃ

—— das Neves Franco.

—— Pedro Abreu Lima.

—— Romão Lob.ᵗᵒ Pires.

—— da Silva Cordeiro.

—— da Silva Machado.

—— Torquato Alvares Ribeiro. _6 Exemp._

—— Victor S.ᵃ Gosmão.

—— Urbano de Sampaio.

D. Joaq.ⁿᵃ Carlota Fons.ᶜᵃ

Jorge Oom.

José Anastasio Pereira.

—— Antonio de Almeida.

—— —— de Castro.

—— —— Cob.ʳᵒ d’Azevedo Gentil.

—— —— Mello Ar.ʲᵒ

—— —— da Silveira.

—— —— Soares M.ᵈᵉˢ

—— d’Ar.ʲᵒ Coutinho V.ⁿᵃ

—— —— Machado.

—— Aug.ᵗᵒ Correa Leal.

—— Bernardino Frazão.

—— de Brito.

—— Caetano Rebello.

—— Candido Alz. Torres Barata Araujo e Lima.

—— Carlos Cerveira Val.ᵗᵉ

—— —— da Costa P.ʳᵃ

—— —— Guimarães.

B.ᵉˡ José Cesar da Silveira.

José C. M.

—— do Coração de Jesus.

—— Crispim da Cunha.

—— Ricardo P.ʳᵃ Cabral.

—— Roïz. da S.ᵃ Vianna.

—— dos Santos Nazareth.

—— Servulo Costa e S.ᵃˢ

—— Silverio da Fonseca.

—— Silvestre de Andrade.

—— Sousa Falcão Senior.

—— —— —— Junior.

—— Tello Mag.ᵃᵉˢ Collaço.

—— Vaz Araujo Veiga.

José Victorino Freire da Fonseca Cardoso.

—— —— Zuzarte Coelho da Silveira.

Jovencio Pedroso Oliv.ʳᵃ

J. Paulo da Silva.

J. P. N. X. de L. Brito.

J. P. R. G.

J. R. Blanco.

J. R. Manco.

J. R. Pinto.

K. Pinto.

L. A. M. Brandão.

L. J. de Gouvea.

Leandro Capistrano d’Almeida Figueiredo.

Lourenço de Almeida.

—— Justiniano Lima.

—— M. Telles Mattos.

L. T. H. de Brederode.

Luciano S. Carv.ᵒ para si e seus amigos 40 _Ex._

Luiza Mathey.

Luiz A. Bello Reis Junior.

—— Antonio de Freitas.

—— B. Ribeiro Vianna.

—— Caet.ᵒ Guerra Santos.

—— C. Alm.ᵈᵃ Botelho.

—— da Costa Pereira.

—— —— —— Pinto.

—— Joaquim de Sampaio.

—— José da Silva.

D. Luiz M.ᵃ da Camara.

Luiz de Mello Breyner.

—— —— —— Corrêa.

—— Miguel d’Azevedo.

—— O. da Costa.

M.ᵉˡ Alves do Rio Junior.

—— Antonio Rodrigues.

—— —— Vianna.

—— Bento Rodrigues.

D. Manoel da Camara.

M.ᵉˡ de Castro Pereira.

—— —— —— e Silva.

—— Coelho Bragante.

—— Felix Oliv. Pinheiro.

—— Ferreira Borges.

—— Francisco Dias.

—— —— —— das Neves.

—— Gonçalves Pombo.

—— I. Cunha Menezes.

—— I. Moreira Freire.

—— Joaq.ᵐ Cardoso Castello Branco. 2 _Ex._

—— —— Fortes.

—— —— Freire.

—— —— Moreira.

—— —— Pereira Silva.

—— —— Santiago.

—— José Cordeiro Galão.

—— —— Esteves Campos.

—— —— da Motta.

—— Maria da Rocha.

D. M.ᵉˡ M. Sousa Falcão.

M.ᵉˡ Per.ᵃ Lima Tavares.

—— Ramos.

—— Roïz Costa Salgado.

—— dos Santos.

—— Thomaz S.ˢᵃ Menezes.

—— de Vasconcellos.

—— Urbano.

Marcellino Ant.ᵒ Moraes.

D. M.ᵃ B. C. Vilella.

—— —— C. S.ˢᵃ Falcão.

—— —— Carlota Vidal Gama Lobo.

—— —— Carmo Guimarães.

—— —— C. Guimarães.

—— —— Clara Braamcamp.

—— —— F. Paes de Mattos.

—— —— H. Sousa Falcão.

—— —— José Ozorio.

—— —— J. Sanches Brito.

—— —— Luiza d’Albuquerque. 2 _Exempl._

—— —— Magdalena Sousa.

—— —— Manoel Vidal da Gama Lobo.

—— —— M. Silva Falcão.

—— —— R. Sousa Falcão Ferreri.

—— —— Vicencia de Mello.

—— —— Xavier Falcão.

D. Margarida Silva Machado Figueiredo.

D. Marianna C. Ribeiro.

—— —— G. Pereira de Beça.

—— —— Noronha.

—— —— da Silva Machado Figueiredo.

Marquez de Fronteira.

—— de Saldanha.

M. F. da Costa.

Miguel Ferreira da Costa.

—— Fran.ᶜᵒ Saldanha.

—— João Coelho.

—— Joaquim Pires.

—— J.ᵉ Okeeffe. 2 _Ex._

—— M.ᵃ Gomes de Andrade e Leiros.

M. J. M. Dantas. 2 _Ex._

M. T. H. de Brederode.

N. H. Klingelhoufer. 3 _Exempl._

D. Nicasio Canete y Moral.

Nicoláo Maria Nobre.

Nicoláo C. P.ᵗᵒ Queiros.

—— S. James.

Nuno José Gonçalves.

Pedro A. N. Domingues.

D. Pedro Cunha Menezes.

Pedro Jacome de Calheiros e Menezes.

—— José de Oliveira.

—— M.ᵃ Costa Almeida.

—— Paulo Ferr.ᵃ Sousa.

—— —— Vasconcellos.

—— P.ᵗᵒ Moraes Sarm.ᵗᵒ

Bacharel Pedro dos Santos Freire.

Pedro da Silva Ferraz.

—— de Sousa Cardoso.

P. G. Toussaint.

P. M. Lagan. 4 _Exempl._

Prior da Magdalena.

—— de Marv.ᵃ de Sant.ᵉᵐ

—— do Milagre de Sant.ᵉᵐ

Quintino Teixeira Carv.ᵒ

D. Quiteria da Silva Machado Figueiredo.

Rafael Antonio de Brito Pimenta d’Almeida.

—— Archanjo de Carv.ᵒ

Reis e Irmão.

Roberto Wanzeller.

Rodrigo de Azevedo Sousa da Camara.

—— José Dias Lopes de Vasconcellos.

—— Limpo Rav.ᶜᵒ Pereira de Lacerda.

Rosa Coelho de Gibraltar.

D. Rosa Dioguina Lopes Pereira de Vasconcellos.

Sebastião André Xavier.

—— Casqueiro Vieira Gago.

—— de Gargamala.

—— J. Villaça Gama.

—— Xavier Botelho.

Servulo M.ᵃ de Carvalho.

S. J. de Gouvea.

Silencio Christão Barros.

Simplicio Moura Mach.ᵈᵒ

Tertuliano Turibio Lobato Pinto Ferreira.

D. Ther.ᵃ Hedeviges Leite de Moraes Castilho.

—— —— Maria Botelho.

—— —— Miquelina Alves de Sousa.

—— —— Theodora da Soledade Martins.

—— —— Xavier Botelho.

Thomaz Aq.ᵒ S.ˢᵃ 2 _Ex._

—— Pinto Saavedra.

—— Rufino Monteiro.

Thomé A. Frnz. Roxo.

Torcato Francisco Carn.ʳᵒ

D. Vasco Guterre Cunha.

Vicente Altavilla.

—— Pires da Gama.

D. Vic.ᵗᵉ Segur. Menezes.

Victorino José Gomes.

—— Manoel de Oliveira Mascarenhas.

Visconde do Porto Covo. 2 _Exempl._

Vital Jorge Maia Canhão.

A Primavera · 第 6 / 6 章