OBRAS
DE
Antonio Feliciano de Castilho
_Constando-me ter havido quem reimprimisse em França, sem licença minha,
dois volumes de minhas Obras, e sendo isto sobre iniquidade, manifesto
roubo, declaro que perseguirei em juizo com acção de furto, em quanto a
nossa Lei sobre imprensa não estabelecer outra propria para taes casos,
a quem quer que, sem minha expressa licença, reimprimir esta ou outra
qualquer Obra minha, ou impressas fóra as introduzir e vender neste
reino._
_A. F. de Castilho._
A PRIMAVERA
POR
_Antonio Feliciano de Castilho_,
_Bacharel Formado em Direito, Socio da Academia
das Sciencias de Lisboa, da Sociedade
Juridica e da dos Amigos das Letras da
mesma Cidade, da Sociedade Literaria Portuense,
do Instituto Historico de Paris, da
Academia Real das Sciencias e Bellas Letras
de Roão._
_Mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada._
Lisboa.
NA TYPOGRAFIA DE A.I.S DE BULHÕES.
_Rua do Soccorro de Cima N.º 39. 1.º andar._
1837.
_Stet quicumque volet potens_
_Aulœ culmine lubrico:_
_Me dulcis saturet quies;_
_Obscuro positus loco_
_Leni perfruar otio;_
_Nullis nota Quiritibus_
_Ætas per tacitum flua_
_Sic cum transierint mei_
_Nullo cum strepitu dies,_
_Plebeius moriar senex._
_Illi mors gravis incubat,_
_Qui notus nimis omnibus,_
_Ignotus moritur sibi._
_Sen. Thyest. Act. 11._
ANTE-PROLOGO.
Bem será para alguns motivo de maravilha, e de riso para muitos, a
declaração por onde me agrada começar este Ante Prologo; e he, que o
estou principiando, e querendo Deos o levarei ao cabo, antes de conhecer
a Obra para que vai feito. Quatorze annos, e não poucos d’elles bem
estirados, são hoje discorridos depois de impressa, e por tanto segundo
meu costume aposentada e esquecida, a minha _Primavera_. N’estes quatorze
annos, começados a contar aos vinte e dois da minha vida, não só se
encerrou, e desvaneceo aquella melhor, mais florída e derramada parte
d’ella, que tanto discrimina, e afasta o periodo seguinte do anterior,
senão que ahi se desatou tão desfeito temporal de successos estranhos,
de terrores e calamidades publicas; tantas certezas saírão vãs,
realisarão-se tantos impossiveis; por tal arte se transtornou e renovou
ora em bem ora em mal a face do nosso Portugal; tão fracas e tenues
reliquias de um passado, que ainda nós os moços alcançámos, subsistem
já agora quer nas pessoas, quer nas cousas e costumes, e emfim por tudo
isto nos petreficámos, e envelhecemos em tanta maneira, que por mim digo,
n’estes quatorze annos me parece ter a Fortuna desbaratado cabedal de
seculos, e o Tempo uma larga idade do mundo. Tantos e taes annos que da
minha Obra me separão, não custará muito a crer ma tenhão tornado ao cabo
tão alhea, como se d’ella só mui por longe me houvera susurrado uma leve
noticia. Esta idea confusa, mas suave e suavissima como apagado retrato
de antigos amores, como lua de estio contemplada em fundo de ermo, ou
como vista de remotas velas ao coração do que alem-mar definha desterrado
entre asperezas, esta idea toda mansa, toda rosada, toda primavera, mais
temo perdê-la do que todas as minhas outras illusões, se por ventura já
hoje alguma tenho. Talvez receie, e se receio talvez me não falte rasão,
que ao reler estes Poemettos, nem ache n’elles as côres que os longes
me figuravão, nem os gostos com que os hia não compondo, mas para assim
dizer colhendo e enramalhetando pelas varzeas e valles do Mondego: tanta
foi a metamorphose que de mim fizerão os livros, as couzas, e a idade!
Como que tenho uma dolorosa certeza de que me acontecerá com isto o que
ja me succedeo visitando, depois de espaçosissima ausencia, as cazas
onde a minha primeira infancia fôra brincada, amada e perdida: tudo
achei mesquinho, solitario e quasi mudo, tudo me dizia muita saudade
e nenhum prazer; cada pedra tinha sua historia, mas todas me clamavão
outros tantos desenganos. Grande differença esta entre as nossas
proprias antigalhas e as do mundo! as do mundo pelo seu mesmo misterio
nos deleitão, são a primeira pagina de um romanse para a imaginação;
as nossas pela sua certeza nos contristão, e são a pagina ultima de uma
historia que assaz nos corria formosissima.
Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas
fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser,
alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas:
sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa
puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte
dentro no peito.
Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo
no primeiro anno a primeira impressão da _Primavera_, tantos se tem
devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de
todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos
meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a
lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me,
como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar
uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ
todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo.
Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando
e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu
nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo,
obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos,
e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim
este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me
convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse
a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas,
fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da
Obra me forem por ella mesma suggeridas.
A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com
ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em
muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as
mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça
como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como
as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os
zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as
aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por
entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora,
segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem
vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de
mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais
ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os
himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os
campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas
verdura, flores e felicidade.
Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e
he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua
vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com
as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo;
Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha
cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se
recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas
saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual
mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e
d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha,
Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens,
mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa
Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados
destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar
e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para
muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais
do que he o grandioso torrãozinho que habitão.
Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e
esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de
uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim
tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he
um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos
o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão
secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles
das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua
vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais
amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque
d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em
seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a
tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão
suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina,
levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na
com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com
as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel,
os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno,
mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição.
Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo
vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á
estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por
certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas
parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”—
Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia
comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente
o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um
nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja
suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se
não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em
publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito
como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os
conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os
farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de
melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de
todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs
por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque
de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de
couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia,
ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou
pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia
singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não
lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por
Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não,
que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e
experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão;
minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me
palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça
uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma
choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em
summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como
um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha
_Primavera_ improvisada, e como ella as _Flores_ e as _Quatro Partes do
Dia_, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente
volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava
permanecer toda a vida.
Passe ainda adeante a sinceridade: com vergonha não só minha, mas do
tempo em que vivo, confesso que d’essa ingenua bondade, pela qual eu
mesmo a mim me comprazia, o de mais (como espirito que era subtilissimo)
se evaporou; parte se azedou no vaso com as más sementes de odio que
de fóra lhe lançavão; o resto se recozeo e estragou ao fogo das civis
dissensões: procuro-me e não me acho, ou se me acho não me amo. Ainda a
minha antiga choupana, os cordeiros nedios e as pombas alvissimas se me
fazem lembrados por uma noite de estio, mas riem menos, e não me acenão
senão fracamente. Tanto vi e vejo de alhêas maldades, tanto tem procurado
os entes mais abjetos e vis amargurar-me, que nem quasi na virtude
acredito, nem na possibilidade de ser feliz: e este estado, se não he
de todos o mais antipoetico, se na escola romantica pode até lograr os
foros do _bello ideal_ e ultimo sublime, pelo menos he o mais avêsso á
filosofia e mansidão Gessnerica. Oh quando poderáõ os dois monstros, em
cujas garras inexpertamente caí, quando poderáõ Politica e Romantismo
dar-me um longe, uma sombra dos interiores commodos que me lá ficarão com
a poesia natural e singela? E igual pergunta dolorosa poderia fazer o
mundo, a ter um coração e uma voz. Ja quanto á Politica me calo, que esse
voto fiz eu; mas quando será que o Romantismo exclusivo e tiranno qual
se presenta, se gabe de perfumar entendimentos para o amor, de reclinar
o amor como filho nos braços da virtude, e de transformar o templo da
virtude em caza do contentamento? Quando será que outro homem, da laia e
costumes dos nossos velhos, possa dizer na sinceridade da sua alma:—“Se
eu fosse parocho, leria Byron ou Schiller á estação da missa, para tornar
castas e probas as minhas ovelhas”? Mas todas estas reflexões de nado
valem: a torrente vai funda e rapida, ninguem, e muito menos eu lhe poria
dique. E até (que tão pouco dou pela minha filosofia) talvez que tudo o
que por ahi vai, que certamente: parece bem triste e bem máo, seja bem
necessario ao concerto e melhoria do mundo. Não digo eu o que as couzas
são, sim o que se me ellas figurão: não as sentencêo sem appellação; na
minha primeira instancia as julgo, e o que moralmente me parecem isso
assento com afoita liberdade. Perde ou ganha a humana especie em cada
vez mais se apartar por obra, por palavra, e por pensamento, do rural e
simples theor de seu primitivo ser? por minha experiencia affirmaria que
perde, mas os sabios que o decidão, e a mim seja-me licito pôr duvidas.
Não me intrometterei com o que vai por outros reinos; esse uso de
qualquer contrabandista literario de nunca chegar ás couzas patrias sem
primeiro haver tocado nas de França e Inglaterra, não me quadra a mim,
que ao menos tenho a sufficiente consciencia e pejo para não citar o que
mal conheço: em Portugal me limito. Somos nós mais felizes ou melhores
que nossos avós? Certo que não; e tanto, que se esses bons e honrados
velhos podessem ter adivinhado quaes seriamos nós, nós herdeiros de
seus nomes, escarnecedores de seus exemplos, e deshonradores de seus
castos e amigaveis costumes; nós que ao seu velho fallar e escrever de
_deveres_, substituimos o nosso novo fallar e escrever de _direitos_, e
á moda de ter palavra, a moda de ter palavras, ter-se-hião horrorisado
como de abominação, do pensamento de gerar. Acordai do sepulchro um
d’esses anciãos, que depois de pagar inteira a divida a pai e mãi,
viveo todo para a mulher, matou-se pelos filhos, guardou a palavra como
religião, a religião como necessidade, e cada paschoa de flores, bem
com Deos, contentissimo comsigo, se ufanava de sentar ao melhor lugar
de sua mesa o parocho, e todos os seus vizinhos de envolta com seus
filhos. Mostrai-lhe todos os nossos progressos, que em sós algumas
vantagens materiaes e corporaes se resumem: alardeai-lhe o que esperamos,
mas não lhe escondaes o que destruimos: lede-lhe a primeira pagina do
primeiro Jornal que topardes d’esse mesmo dia, raza de impudencia,
empapada com fel, estillando lagrimas, revendo sangue, suando calumnias
e desavergonhamentos, respirando e soprando odios de nação contra nação,
de cidade contra cidade, de familia contra familia, de irmão contra
irmão, de povos contra reis, de reis contra povos, e dos homens contra
a Providencia. Supponde que Deos lhe offerece renovação da vida, e
offerecei-lhe vós todas as blazonadissimas excellencias do nosso viver
e do nosso esperar: repellir-vos-ha com aquelle braço que antigamente
defendia e não apunhalava a Patria; tapará com o resto da mortalha o
rosto que só depois de cadaver córa pela primeira vez; e cerrando rijo os
olhos contra a luz, e deixando-se recair pezadamente, de vós não pedirá
mais do que um favor, o de lhe restituirdes a sua lagea.[2]
Emquanto assim vai o presente avesso do preterito pelo que toca á moral
e á felicidade, fallo da verdadeira felicidade, d’aquella em que a
moral entra como elemento, e não da fizica e corporal, da de fazenda
e honras, como hoje se entende; vejamos a que ponto subirão com o
_movimento_ e _progresso_ as nossas letras. Entrai as typografias, e
dizei-me porque assim amotinão com o seu noturno e diurno lavor a
vizinhança? perguntei-lhes porque assim gemem e se afadigão? em quaes
livros nos estão preparando mananciaes de doutrina, ou de costumes, ou
de suave, honesto e ja tão precizo desenfadamento? Dissereis que nossos
laboriosos maiores as deixarão esfalfadas com os copiosos frutos de
suas lucubrações: o mais com que se atrevem, são ridiculos farrapos de
bestiaes torpezas. Seguem-se os mezes aos mezes e os annos aos annos,
sem outras literarias novidades. Terra he que ja deo optimas searas e
vinhas abundosas; agora descultivada e baldia, e á lei da natureza bruta,
desata toda sua força e substancia em cardos, em ortigas, em venenos
e serpentes. Quantos livros, e quantos bons livros, que nós outros
nem conhecemos nem ja valemos a sopesar, saíão dos nossos prelos, nos
tempos em que a probidade, e a mansidão, e a concordia tinhão seu preço.
Um só reinado, e ainda bem chegado a nós, e de rei que por bom se não
cita, com tanta copia de literarios monumentos nos deixou avergadas as
bibliothecas, que dez centos de annos como o presente não produziráõ
a decima parte. São os nossos typógrafos de hoje, se com aquelles os
comparamos, como os nossos cutileiros de punhaes, comparados com os bons
armeiros que forjavão espadas como as de nossos heroes de boa data, que
só com sua pezada presença nos maravilhão, a nós, que por nossa verbosa
sabedoria, acabaremos de desbaratar tantas e tão longes terras, como nos
ellas ganharão esgremindo-se.
Tal vai pois o estado literario como o social; e nem menos podia ser,
porque estas duas couzas, como alma e corpo, se pertencem inseparaveis:
Mão de Deos que ao corpo politico quizesse restituir a saude, por ahi
lhe fortaleceria não menos o espirito; Sopro de Deos que ao espirito
restituisse a luz, por ahi lhe ordenaria e vigoraria todos os movimentos.
Por tanto, conhecendo e confessando que nem facil he nem possivel torcer
a carreira desenfreada que o nosso mundo leva não sei para onde, todavia
para mim tenho, se na cabeça está isto, se no coração, não o direi, mas
tenho para mim, que mui bem fará, e muito amado será dos rectos juizos
quem nos fizer volver olhos de saudade para a vida que ja se viveo, o
que ainda um ou outro, aqui ou acolá poderá inteira, ou quando mais
não fôr, em partes, em amostras reviver. E pois será isto uma illusão
minha? Se o geral da gente vai por entre dores para uma couza que se
chama perfeição, não pode um individuo em particular deixar-se ficar
atraz, despir essas suadas armas de milicia conquistadora, e recolher-se,
honrado desertor, lá onde viva seguro com Deos, comsigo, com poucos
vizinhos, logrando-se da natureza, e desfrutando em variados prazeres
todos as estações; prezentes que Deos enviou para todos os homens, mas
de que os das cidades só pela folhinha tem noticia! Por quão feliz se
não devêra dar o escritor desambicioso, se aos puros sons de sua lira
afinada nos bosques, lograsse, não como Anfião fundar e povoar cidades,
não como Orfeo arrancar as feras dos arvoredos e domestica-las; mas
arrancar d’entre feras humanas homens inda não corrutos, e assenta-los,
para sempre feriados do reboliço dos grandes povos, no divino remanso de
uma campestre solidão! De mui leves cousas e tenuissimos momentos pende
ás vezes o destino de toda uma vida: assim como de um encontro fortuito
resulta uma affeição amorosa, que logo produz um consorcio e um sisthema
completo de existir, assim de uma palavra em uma conversa casual, da
substancia de uma pagina lida em certa hora, do aspéto de um painel,
podem nascer, e mil vezes terão nascido, determinações, vocação, e fados
de individuos. E para vir a um exemplo recente e meu, aquelle bom livro
das _Prisões_ de Silvio Péllico (todo imbuido, releve-se-me a expressão,
de uma christã e filosofica filosofia, que a maior parte das assim
chamadas nem uma nem outra couza tem) aquelle bom livro, ja principiou e
talvez acabará de me curar o animo: não lhe restituirá a muita harmonia
com que o de Gessner mo temperára, porque a mocidade das illusões passa
e não volta; mas deixar-mo-ha provavelmente assaz alto e forte, que
ainda no meio das maiores tempestades repouze e abençoe tudo. E não he
isto maravilha, que a alguns outros que o lerão ja eu ouvi iguaes, senão
maiores encarecimentos de sua medicinal virtude.[3]
Este desvio, por onde me agora deixava ir, levar-me-hia longe, que assim
he accomodado a meus gostos; mas porque he desvio o largo, e retomo o
caminho que hia seguindo. A poesia amavel, a que nas mãos e seio nos
vinha offerecendo ramalhetes, e frutos no regaço, e amores nos olhos,
e nas fallas consolações, afastou-se d’entre nós, onde ainda a alguns
poderia aproveitar, e assim como outras muitas boas artes e prendas, foi
reclinar-se á espera na beira da torrente dos dias, d’onde não volverá,
sem que primeiro se restaurem muitas optimas couzas e todas suas, que
o mundo velho tinha produzido. Mas d’onde viráõ estas couzas? Do mesmo
mundo velho? mal o creio, que o novo quebrou a ponte que os juntava,
e rio de ufania vendo abismar-se fábrica que assim parecia eterna.
Renasceráõ por tanto da propria natureza da terra, da indole da alma
humana que ja uma vez as produzio, ou do sopro do ceo: renasceráõ tarde;
renasceráõ quando nós ja não formos; renasceráõ, talvez diversas, mas
renasceráõ. E quaes são estas couzas do mundo passado, cuja perda tanto
dóe ás Musas e á Virtude? são as formosuras e magnificencias da religião,
o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás lições da experiencia, ás
obras dos antigos homens, a veneração ás cãs, o quasi culto ás mulheres,
a benevolencia e sociabilidade, o aferro aos usos e modas patrias, o
amor do estudo, que nós dissipámos com as leituras efemeras, e o amor do
torrão natal, nobre fecundissimo sentimento, mas impossivel onde se vive
sem muita brandura e sem firme certeza de permanecer. Tudo isto se perdeo
para nós, e não sei que bens haja em seu lugar posto a _Filosofia_. A que
verdadeiramente o he, ainda que esse nome se não dê, a que realmente faz
homens livres e felizes, não he Furia que destrua tão venerandos objetos;
ama-os, defende-os, reforma-os quando o tempo os viciou, concerta-os que
se amparem mutuamente, pede-lhes frutos, e com seus frutos se fortalece.
Quando de espaço me dou a escavar estas verdades, nada me assombra a
nossa crassa e desdenhosa ignorancia, mãi ou filha, e certamente socia
da nossa immoralidade. Esta mal agoirada ignorancia e esta immoralidade
cresceráõ; ja nossos filhos apenas saberáõ ler, e se o turbilhão que a
roda leva não houver quem o suspenda, brutos e ferozes sairáõ os netos.
Applicai todos os vossos sentidos ao coração da nossa Cidade: se a vida
he movimento, ahi trabalha vida; se porem a vida ha-de ter um perfume,
uma harmonia, ahi não ha senão morte, e aquelle movimento he de cadaver
que fermenta para se dissolver. Poesia, verdadeira poesia ja n’este
Reino, onde em todos os tempos pullullava espontanea, posto que raro
amadurecesse, ja por consequencia acabou: quanto desde hoje se poetar
nas enamoradas doçuras da vida aldeã, mais não será que recordações sem
germen de futuro. D’entre a memoria e o espirito, não da experimental
convicção do poeta, nasceráõ esses versos, como lagrimas de balsamo,
que não de dentro da arvore, mas d’entre a casca e o libro vem raras
gotejando, para cairem e se perderem no terreno bravio da solidão. Oh
Liberdade, Liberdade! quão mal te comprehendem os que te separão do
bello! quão mal te servem os que te malquistão com os homens de bem!
como involuntariamente te levão á morte os que só te pedem como summa
felicidade, o direito de nada respeitar, estradas de ferro, navios de
vapor, um himno, e punhaes ou carceres contra quem quer que não beber ás
suas mesas! Pobre Liberdade, não he este ainda o teu dia: não és tu idolo
de selvagens, mas Divindade benefica de homens prudentes.
Eis-me outra vez com a Politica, e o meu voto quebrado. Ja vejo que a
minha cura não está tão adeantada como o eu suppunha: não ha remedio,
amanhã releremos Silvio Péllico, e por hoje voltemo-nos com toda a
diligencia a rematar, como quer que seja, este escrito.
Sáe pois o presente livro por todos os modos extemporaneo, ja porque a
estação nem he d’elles nem para elles, ja porque lhe fallecêrão dias
para amadurecer e sasoar, e ja porque dos que lhe tomarem o sabor, uns
o taxaráõ de temporão, outros de serodio, sendo que uma e outra couza
he elle, e demais a mais pêco, segundo a planta de que se creou. Uma só
lembrança me consola, e he, que assim mesmo ja deveo ser peor, quando
da primeira vez appareceo, e mais lhe não faltárão gostadores; tanto he
assim que nunca faltaráõ simpathias ao que de sua origem he bom, ainda
quando desbotado e estragado pela impericia de quem o tratou. Melhor he
hoje do que então era; não porque o eu tornasse á forja e á bigorna, ou
o recorresse e lustrasse com esmerada lima, senão porque havendo hoje
menos dados á lição dos livros, e em especial d’este genero, tambem ja
não ha criticos, senão he para as acções da vida publica e domestica; por
onde as obras escritas podem passar a seu salvo, sem que suas pobrezas
e vergonhas sejão vistas e apupadas na praça. Desconsolada consolação
he esta de se poder desafinar cantando, por se cantar entre surdos:
mas esse mal, se o he, só a mim me toca, e para o descontar me sobra
a lembrança, de que alguns caladamente me agradeceráõ o diverti-los
do publico espetaculo. Para estes em boa hora sáia e sai o livrinho
fallador de campos e amores: suave appareça como a violeta sozinha
encontrada no passeio de inverno: suave e não estranhado como o raio de
sol por cima de campo de batalha apoz uma noite de geada; nada aproveita
elle aos cadaveres, mas alegra e consola como esperança aos que mal
feridos jazião, e a quem o regelado lentor das trevas coalhava o sangue,
desesperava as dores, tranzia os ossos, e os descoroçoava da providencia.
Ramalhete he de flores silvestres que a meus amigos deixo na hora do
apartamento, que ao menos em quanto durar lhes recordará que os amei.
Terra de Portugal e outr’ora de Portuguezes, terra namorada do mais
formoso ceo, terra sombreada de larangeiras e murtas, acobertada de verde
e bordada alcatifa, amorosamente abraçada do Oceano, talhada e regada de
tão espelhados rios, terra de tanta poesia e de tanto amor, eu te deixo!
E para que ja nunca onde quer que a fortuna me detenha, me cuides de ti
esquecido, terra do meu Portugal lembre-te que o meu ultimo pensamento ao
sair das tuas praias foi o da tua Primavera e o da minha Mocidade.
_Lisboa: 1 de Dezembro 1836._
PROLOGO.
Não erão vãos os meus receios; acabo de visitar a _Primavera_, não ainda
para lhe emendar as miudezas, mas para a conhecer por alto, e podê-la
sentenciar no todo. Reconheci-a, mas demudada, mui outra da que a tinha
deixado na graça, geito e amores; trocarão-ma os annos, trocando-me.
Desama-la ainda não, mas ama-la tambem ja não! Se lhe não quero mal, he
só porque lhe quiz muito bem, e foi minha; mas como ja me risquei de seu
namorado, não hei de chamar-lhe formosa, que o não he, nem dissimular que
sejão defeitos, muitos que em bom tempo ja talvez lhe tive por perfeições
e primores. Não ha remedio, prometti-me seu juiz, passará por onde
houvéra de passar, se de inimigo fôra. Se ella perder do seu preço, e eu
do meu, consolemo-nos ambos d’esse pouco damno; ella por não receber de
mim injustiça, eu com ter obedecido á consciencia, que tambem em letras a
ha. Antes porem que entremos a contas e lhe formemos o summario, releva
anticipar uma dúvida não leve, que se me pode pôr, e desfazer um reparo,
que deixado a si pareceria de fôrça.
He o reparo e a dúvida; que pois he o Livro inamavel por defeitos a
seu proprio autor, não havia porque de novo o semear em público, antes
importava pôr todos os meios para que o nunca mais vissem, nem d’elle se
fizesse menção; que o contrario he faltar a toda a reverencia, que aos
leitores se deve, dando-os por broncos para conhecer o máo; ou á caridade
natural comsigo proprio, expondo-se sem fôrça de obrigação a menoscabos,
se não injurias.
Não quero responder que em dar o que ha quando ou emquanto não ha melhor,
ja o que o faz se ha de haver por desempenhado; nem que, para reo que sem
tratos e sôlto confessa os delitos, sempre por bom direito se usou de
misericordia; melhores me parecem do que estes, os meus fundamentos: e
ei-los aqui.
Primeiro: que andando a _Primavera_ ja impressa e corrente por muitas
mãos, e não podendo ser recolhê-la eu de novo, e desluzi-la da memoria
de muitos que a bem agazalharão, melhor arbitrio he, pois que tem de
se conservar no mundo, renascer n’elle expurgada de muitos vicios da
primeira impressão, e se a paciencia me acudir com o preciso valor,
retocada no que pertence ao literario.
Segundo: que havendo talvez ainda, e podendo vir a haver, moços que se
dem a poetar, acontecerá que entre os mais livros portuguezes que ás
mãos lhes cheguem, vão de envolta os meus (assim mo promette sua boa
fortuna, que os livros a tem como os homens, e ás vezes os mais ruins
muito melhor do que os bons): mãos de principiantes não sabem escolher,
os amores, amenidades e branduras da _Primavera_ cáem muito a gente moça,
ir-se-hião traz o gosto, e beberião muitos defeitos; do que seria minha a
culpa, se eu não procurasse agora arrancar boa parte d’elles, e contra os
demais os não precavesse com honestas advertencias.
Terceiro, finalmente: que eu pretendo antes ser bem conhecido pelo que
fui, sou, e hei de ser, do que só pelo que sou; porque nascendo-nos o
presente do passado, ainda que diverso, e produzindo-nos ainda que tambem
diverso, o futuro, o sermos só conhecidos pelo que somos não he sermos
conhecidos. He pensamento que merece ser entendido. Alexandre Dumas o
explicará. Sem pedir venia traduzo o passo, com quanto seja longo, certo
de que o não parecerá.
—“A maior desgraça da crítica, ainda quando se não sae com ignorancias
e velhacarias (diz elle no prologo da _Catharina Howard_) consiste em
sentenciar uma Obra nova desmembrada do feixe literario cuja he parte:
ahi está porque nunca se póde avaliar um livro com exacção antes da
morte do autor; e mais ainda he preciso que Deos lhe haja concedido
desde o primeiro até o ultimo, os dias, que para acabar seu edificio se
lhe fazião mister; por quanto, se antes de tempo morreo, o monumento
que traçára tem de ficar incompleto para sempre como a Sé de Colonia,
e os homens mal justos para com elle ainda para alem da sepultura,
lançar-lhe-hão á conta de humana fraqueza o ter-lhe ficado certo vão por
tapar, quando a morte de invejosa e apressada lhe veio atar as mãos, e
ja talvez para se arrematar mais não faltava que uma só pedra: ora por
aquelle vão, he que a crítica se mette e entra, quer o autor esteja vivo,
quer defunto.”
“De trez idades se compoem a vida de quem nasceo fadado a dar de si
produções, e em trez periodos se desparte: como couza alta e nobre que
he, tem primeiramente sua base por onde se começa; depois um cume onde
se chega; ultimamente la por dentro um motivo, tenção e fim particular
para onde se torna a descer. Pelo que, he necessario que o homem tenha
vivido todas estas trez idades e que o seu talento haja cursado estes
trez periodos, para se poder avaliar aquelle talento no seu todo, aquelle
homem na sua produção.”
“Primeira idade, quando a fantasia prevalece á rasão. A esta idade de
viço pertencem as horas que tão despedidas voão dos vinte e cinco aos
trinta e cinco. He o periodo para dever inventar _Hamlet_ quem se chamar
Shakespeare, o _Cid_ quem tiver nome de Corneille, os _Salteadores_ quem
for Schiller.”
“Segunda idade, em que a fantasia e a rasão se embalanção, ajudando-se
mutuamente, e vindo a formar das suas duas uma só força neutra. A esta
idade vigorosa pertencem os dias que vão correndo dos trinta e cinco aos
quarenta e cinco. He o periodo em que os mesmos trez sujeitos produzem _O
Rei Lear_, _Cinna_, _Wallenstein_.”
“Terceira idade, em que a rasão prevalece á imaginação. A esta idade de
reflexão pertencem os annos que descem dos quarenta e cinco aos cincoenta
e cinco. He o periodo em que elles compoem _Ricardo III_, _Polyeuctes_,
_Guilherme Tell_.”
“Ora pergunto, ficarião completos Schiller sem _Wallenstein_ e _Guilherme
Tell_, Corneille sem _Cinna_ e _Polyeuctes_, e Shakespeare sem _O Rei
Lear_ e _Ricardo III_?”
“Parece-me portanto que nunca devêra a crítica requerer de um poeta,
senão as obras de sua idade; e bem sabemos nós como o faz ella sempre
ao revez, sendo as obras que mais se empenha em querer extorquir de um
engenho as dos annos que ainda não vingou, ou as dos outros annos que ja
deixou transpostos. Pelo que toca a uma obra que vem condizendo com o
periodo d’onde dimana, nunca a impertinencia dos juizes a dá por cabal:
são uns Aristarchos sem paciencia, que acodem logo com a crítica a cada
pedra de per si, ao passo que ainda se está guindando, sem advertirem
que aquella pedra só assente e junta com as outras pedras he que ha de
dar prova da traça e desenho geral do architéto: são como uns pomareiros
esquipaticos, que não tomando em conta o inalteravel fio das quadras do
anno, pedem fruta madura á primavera, frutos verdes ao verão, e ao outono
flores.”—
Bem haja Alexandre Dumas, que tão artificiosa e claramente me decifrou, e
me ajudou a pôr em limpo uma verdade, cujos ares muito ha que eu tomava
de longe; uma verdade que eu andava adivinhando como por entre nevoas.
Ora pois, dos trez apontados motivos de determinação, foi este ultimo o
de maior momento: quiz dar completo o meu retrato, menos o intellectual
do que o moral, a quem desejasse conhecer-me: não podia omittir como
feição o que eu havia sido, e ainda antes d’aquella primeira idade, que
dos vinte e cinco decorre até os trinta e cinco annos. A _Primavera_,
escrita aos vinte e dois, tinha por tanto de entrar encorporada na
collecção das minhas Obras. Se a refundisse pelo meu gôsto de hoje
em dia, não sei se ficára melhor, mas sei que ficára outra, e por
conseguinte falsa como feição. Tudo quanto era seu geito, seu pensar,
seu ser proprio passará intato; e n’isso, se se hão de perdoar gabos
a quem sem disfarces nem dó se disciplina deante do Povo por peccados
poeticos, n’isso digo, alguma couza ha de bom, sem o que não tivera
agradado a tanta gente. O por onde a lima pode e deve correr afoita e sem
dó, são—_as numerosas faltas de boa falla portugueza—desleixo de frase—e
estiramento de períodos_.
Quero-me explicar, não para os Mestres, sim para os novéis no officio
de escrever, com os quaes particularmente converso nos meus prologos;
e porque não havia eu repartir do fruto de minha tanta ou quanta
experiencia com quem não a póde ainda ter, nem suppri-la com seguir
cursos de Bellas-letras que entre nós se não ensinão? Um dos maiores
delitos literarios, e em que mais usualmente cáem os moços, he o
_desprezo de lingua e corréção_; delito que per si basta para descontar
muitos meritos intrinsecos de escritura. Sem bem saber sua lingua, diz
Boileau, o autor mais divino nunca passará, por muito que faça, de máo
escritor. He ella a ferramenta para este genero de lavor da alma; e quem
poem as mãos na obra sem primeiro ajuntar, conhecer, escolher e apontar
bem os instrumentos de que se ha de valer, nem se pode mostrar bom
artífice, nem merecer desculpa de o não ser.
Toda a Musa em creança padece dispepsia de versos, diabetes disséra quem
se menos prezára de cortez com Divindades. Na primeira idade he costume,
e por muitas rasões, das quaes não será a mais fraca a aversão ao
trabalho, presumir-se antes de facilidade e presteza no escrever, do que
de corréção e primor: coração e fantasia tudo anda ligeiro, querem que a
penna lhes obedeça, como se ella podesse; forção-na, e dahi resulta que
pensamento ou afféto que lá dentro era soberbo, apparece cá fora frio,
mesquinho, desengraçado; e maravilha-se o escrevedor quando a mesma couza
que valentemente o agitava, em quanto em si a revolvia, depois de passada
para o papel adormenta os ouvintes, e a elle proprio o desconsola. De
todos os defeitos de autor, talvez se podesse affirmar que só este he
verdadeiro, real e absoluto defeito; porque, se os pensamentos e affetos
de cada idade são della, e dessoão e descontentão a todas as outras, tem
por si o serem d’ella, e como taes se defendem por conterem verdade e
pintarem o homem; não assim a lingua, que em todas as idades he ou deve
ser uma, não provando outra couza o faltar-se a ella, senão que se quer
fallar antes de se ter aprendido. Sou experimentado, e por bem do proximo
direi com vergonha minha, que no que me ficou escrito d’essa quasi
infancia poetica, as couzas nem me espantão nem me offendem, ainda quando
as desapprovo, mas a linguagem e o dizer me fazem de continuo caír as
faces; e por isso que he escolho em que naufraguei tão desastradamente,
o assignalo com tanta miudeza e teima; nem cançarei de o assignalar e
accender-lhe em cima boa luz de farol, em quanto vir, como vejo, outros,
que nem por idade se absolvem, esbarrar n’elle e perder-se a todas as
horas. Mancebos, (se os ha ahi que se dem ás letras) vós que encetaes a
mui ardua e perigosa vereda que pelas letras conduz á fama, seja qual
fôr o genero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não
vulgar engenho, sejão quaes forem os louvores que os velhos na arte vos
concedão, e os applausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis
pressa de apparecer: os conselhos que Horacio vos deu, durão com toda a
fôrça que a natureza e a pratica lhe bafejarão. Deve-se compor de espaço,
consultar os bons e peritos, guardar por nove annos, chamar, e tornar a
chamar dez vezes á unha a obra ja perfeita. O amor proprio nos persuade
e impelle a apparecermos cedo, devia elle, se não fôra cego, ter-nos mão
para nos não sairmos senão a horas;
_A melhor fruta colhe-se mais tarde._
(_F. R. Lobo._)
Muito mais vale começar jornada com dia claro, do que, para adeantar
horas, largar a pouzada pelo escuro da noite, em que os tropeços são
faceis, perigosas as quedas, e quasi certo o extravio, que a final
lançadas as contas nos farão chegar mais tarde e menos gostosos ao lugar
que demandâmos. Repetirei, porque nunca o repeti-lo será de sóbra, o
que ja por semelhante occasião disse em outro meu livrinho, contra
esta enfermidade que se tornou praga, e nos traz a todos lastimosamente
gafados; não ha mais remedio senão soccorrermo-nos aos livros mestres
de nossa lingua. A aversão que vós outros, gente moça, lhes tendes, bem
sei d’onde nasce, que tambem eu por ahi passei: correm para vós como
rio caudal os livros d’essa França, todos especiosos e doirados, todos
galhardos e louçãos, arrebicados e argutos no dizer, promettedores de
maravilhas nos titulos e indices, conversando comvosco paixões fortes
e brandos affetos, uns vomitando republica por todas as folhas, outros
por todos os poros exhalando commodissima incredulidade, e todos á uma
embebidos do presente, afinados pelo vosso ponto, e se o posso dizer,
mancebos como vós mesmos. Não ja assim os nossos patrios autores: estes
não vos sáem ao caminho; pouzão, antes jazem, pela escuridão êrma das
bibliothecas, mal envoltos na grosseira capa de seu tempo, enterrados
no pó, meio devorados dos bichos; se os olhais por fóra, parece-vos que
a vida vos não daria para um só volume: se os consultais por dentro ja
os titulos vos não namorão, os indices vos descoroçoão: folheai-los por
alto, vem os milagres incriveis, a historia encarecida ou chã, a poesia
enleada e escura, o estilo incorreto e desflorido, o amor grave e sizudo,
os costumes castos, a moral severa, a fé religiosa e inconcussa: cada
pagina na sua simplicidade apregoa Deos, revem por cada poro o cheiro
do mundo velho: mas esforçai, affazei-vos por alguns dias a soffrê-los
e comsenti-los; continuá-los-heis sem tedio, logo com gôsto, com ancia,
reconhecendo a final quanto as primeiras mostras vos havião mentido, como
pelo meio e fundo d’aquelle enganoso dissabor andavão sumidas galas,
joias, riquezas, maravilhas, que vos enchem os olhos, vos cativão a
vontade, e fazem que vos peze do tempo que os não conhecestes. Assaz nos
divertimos do caminho, rasão he que a elle nos tornemos.
O segundo defeito geral que me occorreo n’esta leitura, foi o que eu
chamei _desleixo de frase_. He este muito menos grave que a impureza da
lingua, sendo-o todavia assaz que mereça quanta reformação lhe eu possa
fazer. Quando quem não cura da pureza de sua lingua, cura ao menos de
lhe não deitar remendo de panno estranho ou novo que não seja vistoso
e garrido, quando o que se não preza de dizer limpa e castamente, ao
menos timbra no exprimir com viveza não vulgar, com certo matiz, com
certa novidade, algum passo mais se lhe póde conceder. Procurei se ao
menos teria eu posto algum pouco d’isto, e achei um desconsolado não. A
locução não me pareceo tão poeticameme figurada como convinha em poesia,
ainda pastoril; os epíthetos erão tão sem succo e bastos como a caruma no
mato. Uma e outra couza requerião, em quem as quizesse bem emendar, muita
paciencia, e muitissima mais da que eu tenho. De ambas, mormente dos
epíthetos, procurarei limpar a maior; todos não he possivel: tanto e por
tal geito estão com toda a Obra cozidos e enraizados, que lhes vale o que
ás ervas parasítas em parede velha mas necessaria; foução-se-lhe algumas
demazias, perdoa-se ao resto, com o medo que em faltando, se esboroe a
parede, e venha ao chão toda delida.
Tambem me queixei de _estiramento de períodos_. He defeito portuguez,
peninsular, meridional. Dava-me agora na vontade tornar a culpa ao
sol, que n’estas suas terras faz que tudo se desaperte, e derrame, e
desate em viço e sobejidão: mas fiquem esses milagres do sol para os
esquadrinhadores metafisicos, a quem inda assim, não quero mal; e eu,
melhor que a nenhuma outra causa, lançarei aquella minha diffusão ás
costas dos annos em que escrevia, com o que sempre fico de bom partido,
por das minhas a tirar. O que he grandemente verdade, he ser este defeito
para muitissimos leitores, principalmente mancebos ou hospedes nas regras
de escrever, virtude, e a virtude contrária vicio. Saírão a _Noite do
Castello_ e _Ciumes do Bardo_ muito mais contraídos e apanhados em couzas
e palavras, do que estes Poemettos e as _Cartas de Echo_: pois comtudo
muitos houve e ha, que por isso mesmo ficárão preferindo aos novos os
antigos e até velhos opusculos. A cada hora me diz um que me torne ao
meu primeiro caminho; outro que não desampare o novo: uns, que estas
ultimas obras se não lem senão de escaço numero; outros que as passadas
não occupão meia hora os olhos dos homens graves e bons juizes. Oh!
quem reconheceo nunca a verdade da fabula do velho, do rapaz e do burro
como o triste, que para expiação talvez d’algum grande peccado, entrega
e desampara a público os partos do seu tinteiro! Pois que não póde
ser contentar a todos, ir-me-hei como e por onde o meu juizo, gôsto e
natureza me levarem.
A poesia substancial e severamente escrupulosa, he o mais das vezes
descontada por uma certa desharmonia: a muita harmonia, ainda quando mais
apoucada de ideas, ja entretem suavemente: qualquer leitor se entende
com taes escritos, ninguem com elles se cança; são um genero de musica
facil, que ainda quando não exprime affetos, se ouve com gosto; são
como um deslizar de barco por uma agoa mansa: por isto he que os livros
do _Porto_ e _Tristezas_ de Ovidio se lem de um cabo a outro com muita
deleitação.—_Inter utrumque_: nem tanto apêrto como Almeno na chamada
tradução de Ovidio; nem tanta soltura como o seu amigo, e outr’ora meu
mestre, Elpino Duriense[4] nas poesias originaes; nem tanto pospor a
harmonia e clareza á brevidade como Filinto; nem tanto sacrificar o
entendimento ao ouvido como Elmano. Isto foi o que me pareceo lograr
na _Noite do Castello_, e _Ciumes do Bardo_, e não me arrependo se por
ventura o consegui.
Tanto não, mas alguma couza d’isto fôra o que eu quizera na _Primavera_:
alguma couza, para poder com ella reconciliar os severos; tudo não, por
não dessimilhar em demazia esta parte do retrato.
Até aqui descubrimos defeitos que importa emendar, agora os vamos ver
do outro genero, em que me não he licito bolir, por serem essencia do
livro: erão aquelles no tocante á lingua, estilo, e metro, que ainda que
importantes, não passão de accidentes da obra; estes são da alma, vida, e
pensamento da mesma obra. Entremos pelo descritivo (não será portugueza
a voz, mas o uso e necessidade lhe valeráõ.) Descritivos se chamão em
geral todos os poemas deste genero, e como a taes, parece que tudo quanto
for pintar dentro do quadro do seu painel, lhes compete e convem. Não
he comtudo bem assim, porque as descrições, por mui formosa e naturaes
que se ostentem, tambem canção a imaginativa de quem lê, quando umas
ás outras se vem succedendo perennemente e sem um bom entremeio de
narração, ou outro valente interesse, que por um modo verosimil as reuna,
separando-as ao mesmo tempo, para que se não confundão, nem se afrontem,
nem esmoreção. Não o advertio Delílle, e d’ahi procedeo não bastar seu
altissimo engenho para livrar seus poemas de enfadosos. Ora este livro
he quasi um embrechado massiço de descrições; e assim, se o posso dizer,
mais para ou olhos da alma do que para o seu entendimento. Mas serão ao
menos estas pinturas, consideradas uma por uma, de algum preço por fineza
de tintas, ou pontualidade de desenho? autos são em que me não compete
dar sentença. O Padre Kinsey, ou o Portuguez que em seu nome escreveo,
disse que eu não pintava bem a natureza; talvez que outro tanto, e
ainda peór, se devesse dizer da mór parte de nossos poetas; mas não he
contra elles, senão contra mim só que eu enfeixei varas no princípio
d’este prologo: como os applicados noviços se não enganem comigo por
minha culpa, que se desvairem e percão com os outros, paciencia! Aqui
está comtudo o que me parece; este descritivo he desbotado e de côres
pouco vivas e proprias se com o de Gessner ou Kleist se compara, mas
he o melhor que eu soube; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo,
como de si dizia Kleist, caçadas poeticas de imagens, nem discorrê-los
como Gessner, de lapis na mão. Ja póde ser que o Padre Kinsey, ou o seu
ponto, não houvessem de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás
escuras, ou quasi, o retrato da natureza: muito mais faz quem atravessa o
Tejo a nado, do que hum Almirante Inglez que em segura e bem apercebida
náo rodêa a esfera; poderá este trazer mais riquezas e informações, mas á
fé que não prova mais fôrças e esfôrço que o desconhecido nadador de uma
só corrente.
Passemos ávante, e das descrições entremos nos affetos. N’esta parte
direi pouco, porque sem embargo de que o desabrimento com que me castigo
onde entendo merecê-lo, me podia deixar alguma licença para tambem me
louvar pelo que em mim visse de bom, melhor he que nos louvores, em que
mais facilmente nos podêmos enganar, nos contentemos de ser ouvintes.
Ainda assim, não acabo eu de dizer tão pouco, que muito bem se não
entenda ja que no tocante a affetos não quero muito mal á minha Obra:
fallo dos affetos em geral, porque passos ha n’ella a cujo affeto não sei
ja hoje querer mal nem bem; honesto, formoso, e macio me parece, sei que
n’esse tempo devia ser meu, porque eu não compunha, tirava do coração,
mas ja o não posso entender cabalmente, e avaliar. Esses passos, apezar
de tudo e de mim, hão de passar intatos, que em assunto de branduras o
eu de hoje respeita religiosamente ao eu de algum dia; e porque tudo
diga, ainda que quizera emendar, não saberia. Sim me inclino a que haverá
(e ja de alguns m’o boquejarão) excesso, redundancia, languidez em
tantas suavidades, caricias e extremos de bem querer a tudo, e a todos.
Inclino-me e talvez o creio: mas que havia de cortar? a que havia de
perdoar, se assim como o eu antigo valia tanto mais que o eu presente,
póde ser que o melhor se me figurasse agora peór, e o peór melhor?
Digamos duas palavras da Mithologia. Ja não sou tão emperrado pagão como
n’outro tempo; desconsola-me ver o desmedido uso que d’ella fiz. Não se
entenda por isto que me alistasse debaixo das bandeiras triunfaes dos
modernos espanca-numes, nem que tiro vãgloria de botar pelo mundo pregáõ,
como Beranger, que os Deuzes ja saírão do meu credo. Todo o excesso
em crer ou não crer, em admittir, ou recusar me parece hoje em dia um
disparate, de que sempre, mais por aqui mais por ali, vem a resultar
contras e arrependimentos. Enjoa-me a fabula dos Lusiadas, e muita, e
muita, e muita outra: aborrece-me quasi todo o emprego que dos Romanos
para cá se tem feito d’ella, _incredulus odi_. Só consinto na fabula
parca, explicavel, e só a amo quando soberbamente poetada. Alumiarei
com um exemplo: quero-a assim como a derrama ás mãos chêas por suas tão
poeticas prozas o christianissimo Chateaubriand, esse mesmo que de longe
visto, assim parece guerrea-la. Nada d’isto acho eu pelo commum no meu
livro: de cada canto me surde uma Divindade; a boa parte d’ellas não
responde verdade, e se alguma couza ahi vierão fazer, certo que não foi
inspirar-me um só rasgo poetico. Porque pois as deixarei? porque não
substancia do livro, e n’elle tem posse velha e apozentadoria.
Dêmos a derradeira parte do prologo, que em prologos deve ser sempre
esta a de vantagem, a algum poucachinho dizer sobre a moral. Moral
hoje, moral em livro de poeta, grande novidade e grande estranheza! Sim
hoje, que ainda ha muito quem se preze de viver honesto, virtuoso e
pela antiga: sim em livro de poeta, e por isso mesmo; visto como tudo
quanto era contra ella o tem a proza a si tomado, não será muito que lhe
abra sua porta a poesia, e lhe dê guarida em um pobre cantinho térreo
de sua pousada, como he este: inda mal, que até cá, no fundo de tamanha
escuridão e penuria, por todas as fendas e agulheiros do mal reparado
edificio poetico lhe chegaráõ as risadas sem alma nem sal de seus
inimigos, e contra essas não ha valer-lhe. Ha pois do titulo d’este livro
a dentro, dado se não prometta senão primavera, um como ar de bondade e
saude para o animo, de socego e bemaventurança para a vida: e por isso
he que, a despeito da todas suas manchas, me parece bem, como ja no
Ante-Prologo deixei tocado, atira-lo, como sementinha de erva medicinal,
ao baldio sáfaro e corruto d’esta idade. Bem estou eu antevendo quantos
de mim hão de haver lástima, por me assentar no meio de tão ferida e
accesa batalha, por cantar entre tantas vozerias de odios. Paciencia!
tambem sei que homem sentado não sóbe, nem a trôco de cantigas se comprão
riquezas e valimentos: mas cada qual tem sua estrella, e a minha, que
outra vez descobrio depois de largo eclipse, esta foi, e esta ha de ser;
oxalá que para sempre! Com o bom de Archimedes me pareço n’isto, o qual
na hora que a cidade estava sendo entrada do inimigo, e alagada das
torrentes de ferro e fogo, nem tinha ouvidos para o estrondo, nem deixava
de proseguir na composição da lustrosissima esfera celeste, unicos amores
que no canto calado de sua casa o desvelavão. Havia ahi uma não sei que
magnanimidade; e a ninguem deixa de doer a cutilada do soldado feroz que
despede tal cabeça para cima de tal obra. Mas quando me ólho, e me vejo
a brincar com flores e cordeiros, ao tempo que em redor de mim estão no
chôco tão grandes destinos do mundo, não me lastimo, porem rio-me, e
cuido estar vendo em mim proprio um menino, que por um dia de tempestade,
enthesoura conchas e forma lagoazinhas na praia, emquanto andão á vista
galeões alterosos á luta com os elementos, e na mesma praia uns pasmão,
outros se aterrão, outros suspirão pelo instante do naufragio para se
arremessarem aos despojos, apenas o mar os cuspir.—Fugindo me hião agora
outra vez os pés pela antiga ladeira abaixo: e a moral, esquecida até
por quem lhe deo couto! Com ella sou, e com ella determino acabar.
He a moral na maior parte d’estes poemas pura, facil e amavel; e se não
tão efficaz como a de Gessner, não he porque o eu dezejasse menos, he
porque podia menos atavia-la, e aformozea-la do que elle, e atavios e
formozuras até servem para fazer do bom optimo. Todos os amores de que
se urde e tece a domestica felicidade, se achão aqui representados por
um modo que se recommendão, e d’elles se imbue de mui bom grado o animo;
o amor filial, o paterno, o materno, o conjugal, a amizade, até o affeto
aos animaes, arvores, flores, e mais creaturas de Deos, companheiras
nossas n’este mundo, aqui vem de envolta com a recreação. Porque tudo
diga, pelo gostador ou gostadora d’este livro daria eu mais, e mais
quizera viver com elle debaixo do mesmo telhado, e tratar quer negocios
quer passatempos, do que, se dizê-lo ouro, com gostadores e pregoadores
d’outros livros que estamos vendo rebentar de muito mais avultados
engenhos. Se eu tivesse filhos e filhas a quem dar criação, sei que
emquanto não podessem ler Gessner, e seus bons imitadores estrangeiros,
lhes daria a _Primavera_; e ja não digo o mesmo das _Cartas de Echo_, e
muito menos da _Noite do Castello_, e _Ciumes do Bardo_. Mas, acudirá
algum prudente, couzas se deparão na _Primavera_ que mais são para ser
defendidas a donzellas, e resguardadas de fantasias ainda verdes, do que
para se aconselharem por doutrina. Sim as ha, e todas essas paginas que
para idades encorpadas e apercebidas de experiencia bem podem não ser
damnosas e parar em mero deleite, todas rasgára e déra ao fogo antes de
lhes entregar a obra para lição: e porei exemplos; na _Festa de Maio_,
os fins dos episodios de Galatea e Ignez de Castro, no mesmo poema boa
parte da republica de Chipre, como o culto religioso da Natureza, os
bens em communidade, a nudez, o divorcio, o cazamento de um com muitas
_et cetera_. Antes de passar adeante, trasladarei, que alguma couza fará
para aqui, parte de uma Nota que ácerca da republica de Chipre se lia na
primeira edição, a pag. 169.
—“Note-se que este poema está muito longe de dever ser considerado como
didático; que toda esta republica de Chipre he meramente um Dithirambo,
aonde a licença do poeta he muito mais ampla do que em outro qualquer
genero de poesia; que esta sociedade de que se ha de formar a republica,
he de poetas, homens de quem vulgarmente se diz que mais dão ao prazer do
que á rasão; e que em boca de poeta se poem a arenga recitada no templo.
Para os avisados escusada fôra a nota, mas para os fanaticos, que ignorão
ter a Musa do Dithirambo licença para nos seus delirios arremetter contra
tudo, he indispensavel.”
Era este arrasondo o melhor que o caso admittia, porem melhor houvéra
sido não carecer d’elle; e se ainda por elle se pode perdoar á republica
de Chipre, não assim ás demais desenvolturas, como as dos dois ja
apontados episodios. Porque as puz umas e outras? vá mais penitencia. Puz
as pinturas amorosas em quasi nudez, porque estava n’aquella sazão da
vida e do anno, em que todos nos deliciamos nas fantasias sensuaes, e se
somos poetas, cuidamos morrer abrazados e afrontados em não desabafando.
Porque não expurguei d’ellas esta segunda edição? pelo mesmo motivo do
retrato, e não outro. Quanto ao culto da Natureza, e á gente nua, e aos
maridos de muitas mulheres, são necedades taes, que não merecem que
nos detenhâmos em as refutar: são d’aquellas demencias, cujo aggregado
dá o que entre moços que esfolheão livrinhos bem doirados e térsos, se
denomina filosofia, e que só dura emquanto a experiencia e o tempo nos
não desmamão da presunção; pelo que, e pela rasão geral, ja muitas vezes
apontada, de querer mostrar-me qual fui, vivão, durem e passem, que
depois d’isto ja a ninguem farão mal.
Eis aqui por alto, mas com toda a lealdade, o juizo que da _Primavera_
formei; he primavera por matos de serra, com mais flores do que graças,
com mais ares saudaveis do que ervas medicinaes, mui tibia de fragrancias
mimosas, mui nua em muita parte de terreno, mas com seus longes de campos
e cazaes felizes, e muitas saudades lá pelos extremos confusos do seu
horizonte. Quem se d’estas cousas contenta, fico se recreie com ella;
e quem com ella se recrear, para amigo o quero, que esse saberá, como
eu, amar muito os homens, fugindo-os; e enfadado, como eu, das terras
onde não ha ver passaros senão em gaiola, nem verdura fóra de gigas,
nem arvoredo que não seja pintado, nem pastores e innocencia senão na
opera e trajados de seda e veludo, nem felicidade senão em promessas de
políticos, irá procurar-se, achar-se, e lograr-se de Deos, de si, e dos
penhores de sua alma no seio e entranhas da vida campestre. Oh, se assim
fosse!... e se Deos a um tal me désse ainda por vizinho!...
_Lisboa 4 de Dezembro de 1836._
_Post Scriptum._
_Lisboa 29 de Março de 1837._
Quando todo estava no trabalho de desempenhar minha palavra, e fazer
ainda mais do que no Prologo deixára promettido, revendo cuidadosamente,
afeiçoando, podando e enxertando de novo este volume, sobreveio-me aos
2 de Fevereiro passado, o maior infortunio de minha vida, uma perda de
que em nenhum tempo se me poderá o coração consolar. Quebrarão-se-me
as forças para continuar no trabalho, bem como se esvairão muitos,
antes todos, meus projetos. Ja não arrancarei (e para que?) este pouco
e inutil resto de mim mesmo da terra que encobre a minha melhor metade:
aqui procurarei, se tanto podér ainda, pagar com uma pouca fama e muitas
lagrimas, a quem a mim me deo até á sua ultima hora seus olhos, seu amor,
toda sua alma. Qual ficou este livro tal sae, e muito inferior ao que eu
promettia, podia e devia fazer. Se algum de meus leitores entende por
experiencia o que seja padecer n’uma viuvez uma completa orfandade, esse
passará com indulgencia, e ainda suspirando, pelos muitos defeitos que
na leitura lhe occorrerem. Aos sem alma não tenho que dizer: se quizerem
castigar o espirito meio morto, porque não pôde mais, fação-no, que dôres
d’essas não acharáõ ja em mim lugar nenhum.
EPISTOLA Á PRIMAVERA
_Vai a Epistola em tudo outra da que fôra na primeira Edição: conserva
a invenção e os pensamentos, mas emendou-se a linguagem, apertou-se o
estilo, deu-se alguma côr mais ás imagens, explicarão-se melhor alguns
pensamentos, reformarão-se e afinarão-se quasi todos os versos._
DEDICATORIA A MINHA IRMÃ.
_Eu mandei o meu Genio campestre apanhar flores por entre os gelos do
inverno. Formosas não saírão, bem o sei, porem n’esta estação do anno não
mas dá melhores o estreito jardimzinho que me as Musas doarão nas fraldas
do Parnaso. A ti, minha Irmã, me ordena o coração que as offereça.
Felicidade será para mim, se quando para o teu lado me tornar, tu me
disseres abraçando-me:—“Eu amo as flores que tu me enviaste, no meu seio
as guardo: as da primavera menos me contentão do que estas, que o teu
Genio campestre colhe no teu jardim, por entre os gelos do inverno.”_
DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO
Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que
entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se
arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras
afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro
até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada
de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes
as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada
e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a
recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao
campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo
e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento,
temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas,
leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de
_charadas_ e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As
espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes
passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume
d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar
um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde
se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos
laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com
frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia
de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes
de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares,
aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera
na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas
pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda
se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha
me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite,
acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque,
amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso
lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto,
colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento,
quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera
me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e
n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á
Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida
a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e
no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a
crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar
he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me
da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la
vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas
innocencias.
_Lisboa: 9 de Dezembro de 1836._
EPISTOLA
_Á PRIMAVERA_.
Corre a Noite, jaz muda a natureza;
Os campos solitarios esmorecem;
Mal se ouve ao longe o estrondo da corrente:
De quando em quando a lua desmaiada
Mergulha em nuvens, surde, outra vez morre;
E das planicies a extensão geosa
Ora resae e alveja, ora se apaga.
N’esta cabana de grosseiros troncos,
Tecido vime e colmo, onde sereno,
Vento, e cuidados não coárão nunca,
N’esta onde habita perennal fogueira,
E onde he Penate o Genio da hospedagem,
Venho entre amigos deslembrar tristezas:
Do frio lá de fóra o ultimo resto
Ja o atirei á chama tragadora.
Em ti, Amores meus, em ti só fallo
Ó Primavera minha; em ti só cuido;
A ti quero escrever: inda ha bem pouco
Em meu passeio a flor das larangeiras,
E do sol que hia a pôr-se o extremo raio,
Cá me derão de ti saudades tristes.
Desde que ao scetro do raivoso Junho
Tu doce com teus Zéfiros fugiste,
Meu dia estendo em languidos suspiros.
A noite em vagos sonhos me afigura
Ver-te, cantar-te, desfrutar teus mimos:
Mal desponta a manhã, mal foge o sono,
Desespero-me, lido entre amarguras;
Peço aos bosques sem folha, aos ermos campos,
Aos rochedos de neve, ás turvas fontes,
Ao ceo toldado, aos ares tempestosos,
E a toda a natureza, a minha Amada.
“Primavera, onde estás?” do outeiro exclamo;
De valle em valle, de um cabêço em outro,
“Primavera, onde estás?” responde o echo:
No prado o guardador, no monte o Fauno,
Pelo arvoredo as Dríades á escuta,
“Primavera, onde estás?” depois exclamão.
Emquanto assim fiel, por ti ó Deosa
Me desentranho em ais, onde te escondes,
Perguiçosa gentil? onde vagueas
Bella inconstante que estes ais não ouves?
Algum Deos namorado, em plaga estranha,
Encheria de amor teus olhos livres?
Esquecer-te-hião, (Ceos!) promessas tantas?
Sim: que te importa o definhar de um vate?
Do vate que te amou, te adora ausente?
Tu folgas e elle gema; elle delire,
Tu a prados sorris vestindo prados,
Revês-te, amante nova, em novas flores:
Fontes ha tambem lá, que importão éstas?
De fonte ao claro espelho te engrinaldas;
E ufana de encantar sensiveis peitos,
Tambem, como entre nós, por lá dardejas
Fogo de amor aos entes insensiveis.
Volta, volta, ó cruel, aos campos nossos.
Qual paiz no universo, a não ser Pafos,
He mais digno de ti? ¿por onde achaste
Para o cortejo teu, Ninfas, pastoras,
Como éstas que entre a murta o ceo nos cria?
Amantes mais fieis? florestas, rios
Namorar-se, mais frescas, mais formosos?
Mais doces flautas quando amor entoão,
Aves mais doces quando amor gorgêão?
¿A tua Cintra, Elisio dos desejos,
Nobre jardim do Oceano, onde folgavas
Contemplar na alta noite em mista dança
Ninfas das ondas, Ninfas das florestas,
Assim te descaío? ja não proteges
Os córos virginaes que ali passêão
Sorrindo ao ver seu nome em bosque e bosque?
¿Por toda a parte as Graças que espairecem;
Do aligero esquadrão travêssos brincos,
Frechas doiradas em contínuo vôo
Aqui e ali aos peitos descuidados,
E se errão corações, ferindo os bosques,
Porque os bosques ali tambem suspirão,
Tudo pois te esqueceo? Volve, ó Querida;
Cede, não sejas dura, a amor, aos versos.
Desde que te ausentaste ahi pende a lira
Nos braços nus de um álamo sem folhas,
A minha lira ao vento abandonada!
A lira d’oiro, onde entoei teu Nome,
Onde a minha paixão soou mil vezes
Na linguagem dos ceos a teus ouvidos,
Ei-la sem honra; os ventos lhe roubárão
Dos antigos festões o escaço resto!
Ao passar com seu gado, e vendo-a muda,
Diz suspirando a turba dos pastores:
“E’sta a que dava alento ás nossas festas:
Mal haja quem a trouxe a tal desterro!”
Dríades ternas, que meu canto ouvião
Não talvez sem prazer, dizem passando:
“O vate emmudeceo longe da Amada!”
Mas apenas teus Silfos precursores,
C’roados de violetas assomarem
Na ethérea região de nossos climas;
Apenas este ceo pezado e turvo
Mandar á terra os ultimos chuveiros;
Apenas rebentando as novas folhas
Se remoçar esse álamo tristonho,
E entre a nova ramage, emtorno á lira,
Cançada de seguir-te andar pouzando
A rolinha estrangeira, e sócia tua,
Á lira despirei do inverno o musgo;
E n’ella, de aureas cordas melhorada,
Só de ti chêo, na presença tua,
Brotarei versos, como brotas flores.
Oh voa, acode a consolar Cibele,
Cibele a térrea mãi da especie humana,
Cibele, amores teus, qual tu Deidade!
Se ora a visses! ... do carro verdejante
Os rebeldes tufões a derrubarão:
Co’a trança descomposta, o manto em rios,
A altiva c’roa em parte destruida,
Nua jaz á vergonha, ao vento, á neve.
Seu tanto desamparo he mágoa aos filhos:
Mas para dar-lhe a mão, torna-la a Nume,
Poder, qual em ti ha, não ha nos homens:
Do fundo do teu lodo a ti só chama,
Ai, leve-te algum vento as queixas d’ella!
As torrentes sem freio divagando
Contra marmóreas pontes indignadas,
Investem, chocão, despedação, rojão
Ruinas em montoẽs aos fundos mares.
As Dríades, teu povo e tua gloria,
Tremem, oh dor! ao furioso assalto
D’Euros, e Notos, e Africos em guerra:
A seu brutal furor nenhuma escapa:
Crer-se-hia que as prisões da Eolia furna
Para sempre arrazára a mão de Jove.
Dríades nobres de arvores antigas,
Refugio outr’ora das calmosas séstas;
Dríades bellas de arvores vaidosas
Co’a idade juvenil, verdura e fôrças,
Tem a seus pés quaes vítimas caído.
Co’os negros frutos oliveira amiga
Baqueou; não lhe valeo celeste guarda;
E Minerva prantêa o estrago enorme:
Cáe o pinheiro amedrontando os valles,
E Pan, sentado nos troncados restos,
Triste espera por ti co’a flauta muda.
¿D’esta cabana a rustica fogueira
Sabes quem a sustenta? ah! corre, vôa:
Cedro, que eu te sagrei, caío por terra,
E onde brincou favonio estalão chamas.
Mui tarde chegarás se não-te apressas;
Do colono e pastor os ais te invocão,
A mesma natureza he morta quasi!
Que fragor, que trovão! piedade ó Numes!...
Este deu raio, e pérto.—Outro rebrama!...
O Olimpo sobre nós desaba em fogo!
Chlóe, e Amarilis trémulas, gritando,
Desfeita a rubra côr em côr da morte,
Enchem de seu terror esta cabana.
O’ innocentes, miseras pastoras,
Não griteis, não tremais; vereis em breve
Dissipado este horror nos longes ares;
Contra o crime orgulhoso os Deoses troão,
Não fere o raio a rusticos alvergues.
Não, não me engano, ouvís como se afasta?
Como la vai ja longe? o mais do estrondo
Ja he toada vã no vão dos bosques.
Chuva propícia em caudalosa enchente
Desce na escuridão; resoa o této
Com o crebro saltitar das frias gotas:
Sibila o vento na vizinha serra.
Chlóe a porta fechou: nós apertâmos
O cerco estreito em deredor do fogo.
Cantou o gallo esperto: he meia noite!
E eu vélo ainda, e velarei saudoso
As horas todas que á manhã precedem!
Horas, horas de paz no horror das trevas;
Horas de estro, misterio, omnipotencia
Ao que nasceo das Musas bafejado!
Sonhe a ambição com purpuras, e scetros;
Torpe avareza com os inuteis cofres;
A vingança, fatal a si e aos outros,
Cogite embora nas traições, no engano,
Nos agudos punhaes, no sangue em jorros;
Vulgar amante afine, esmere astucias,
Com que succumba a tímida innocencia,
E aos laços venha destramente armados:
Eu dando a amor o que se deve ao sono,
Em chama pura, porque he tua, ardendo,
Alégro com teu Nome a horrenda noite,
A saudade em saudades apascento,
E inda ausente, comtigo ausente fallo.
Como o perdido em temeroso escuro,
Que ao mais leve rumor trémulo pára,
Assacinos agoura em cada tronco,
Não ouza resfolgar, prosegue a medo,
Aqui lhe surde a silva, alem penedos,
E lhe abrem fauces mil os precepicios,
Só tem na aurora esp’rança, e mal que ao longe
Annuncios d’ella vê, canta e renasce;
Serei mais que feliz pois vas ser minha,
Mal te sonhar ao longe, ó Primavera.
Sim: eu te amo inda mais que a vide ao tronco,
Mais do que o touro em maio ama a novilha;
Quero-te mais que o Deos de amor ás trevas,
Mais do que Flora ao Zéfiro inconstante.
Eu suspiro por ti, como suspira
Murchada planta por sereno orvalho,
E ardente ceifador por fresca fonte:
Es-me tão cara como a bella esposa
A seu amante de chorar cançado,
Quando no dia d’hirneneo se abração:
Tão doce emfim como o primeiro beijo,
Que uma terna pastora, a medo e a furto,
Consente ao seu pastor levar-lhe aos labios.
Qual dos amores, que no mundo girão,
He mais grato que o meu? Este em delícias
Excede tanto aos mais, como tu vences,
Tu belleza do ceo, do mundo as bellas:
Eu amo e para amar não me recato,
Ao mundo inteiro meu ardor confesso,
Tenho rivaes e do ciume zombo,
Gozo-te, e nem pudor nem leis mo estorvão.
Inda me está lembrando (hora doirada!)
Quando longe do mundo, e a sós comtigo,
Pela primeira vez te disse “Eu te amo!”
Abria a Aurora o roxo mez das flores:
Juntas em córos no arvoredo as aves,
De ramo em ramo aos ranchos adejando,
Em nunca ouvidos sons a luz saudavão:
Inda do puro rio a opaca nevoa
Bem não era desfeita ao sol nascido;
Inda das folhas concavas pendião
Trémulas gotas de luzente orvalho,
Que depois leva o brincador Favonio;
Quando (ai memoria doce!) eu dei comtigo
Inda meia a dormir na fofa relva.
N’alguns louros de roda entretecida
Hera tenaz um toldo te formava:
O melro grave, o rouxinol cadente,
Para encantar-te os sonhos, diffundião
Entre uns rosaes a musica dos prados;
Enchia aroma puro os puros ares.
Ligeiras, bellas Sílfides, velando
Invisiveis teu placido retiro,
Impedião que um Fauno petulante
Ou rustico pastor pozessem olhos
Em teu corpo sem véo, cheio de encantos.
Alí me conduzio propicio acazo:
Não mo impedirão Sílfides zelosas,
A natureza inteira he franca ao vate.
Ridente sono, da innocencia imagem,
Cerrava ainda os olhos teus ao dia:
Todo brandura o juvenil semblante,
Até sem o saber, até dormindo,
Faria suspirar homens e feras.
Entre a face mimosa e a fria relva
Tinhas meio curvado o braço lindo:
Como ao desdem, na esquerda seguravas
A cornucopia, a não poder com flores:
Halito doce de fragancia amena
Sáe do seio, que túrgido se eleva;
Dos roseos labios, da pequena boca
Vem tão doce, vem tal, que um peito humano
Bafejado por elle, excede os numes,
E a alma, em vez de pensar, delicias volve.
Tal eras, tal fiquei ó Primavera!
Espertaste de todo; e toda risos,
E todos luz e amor os olhos verdes,
O que era ja sem termo accrescentaste,
Dobrou-se a graça ao mundo, o fogo aos peitos.
Um mar de deleitosas fantasias
Me soçobrou, confesso, e tempo largo
Jazi com o ledo mundo em braços da alma.
Depois tornando em mim, ví-te ja prestes
Para baixar do outeiro aos amplos valles:
Quão mais louçã, e em galas mais garrida!
¿Que muito, se a mais nova das trez Graças,
De tuas mil Oréades servida,
Pozera as proprias mãos ao vago enfeite?
Erão-te manto ondado, e roupas simples,
Quanto verde ha na terra, e flor nas plantas;
Mas triunfava a rosa! aos botões d’ella,
Nem ja todos botões, nem flores todos,
Fôra o tépido seio em throno dado,
E em vez de o embellezar, se ornavão d’elle:
Erão raios do Sol a c’roa tua!...
Parei de embevecido! e quem no mundo
Te vio jamais como te vio teu vate?
Em teu seio amoroso um Cupidinho,
Qual borboleta d’oiro, esvoaçava
De botões a botões, na escolha incerto.
Vio-me; e curto farpáõ, doirado, agudo,
Curto farpáõ que os olhos não percebem,
Me arrojou, me sumio dentro no peito.
Graças ao tiro do mimoso Alado!
Na profundez da f’rida, e gôstos d’ella,
Contente reconheço, adoro um Nome.
Amante, desde então, ditoso amante,
De dia a dia te encontrei mais terna.
Incenso, que antes dava a falsas Musas,
Off’reci-te, acceitaste, e foste a minha.
Abriste-me a Aganippe em cada arroio,
Cada monte foi Pindo, e Tempo os valles:
E tu em cada valle, em cada monte,
Ante a lua, ante o sol, me estavas sempre
Musa do coração, presente aos olhos.
De poetas foi sonho a voz das outras,
A tua graciosa ciciava,
De toda a parte vinha em tom macio,
Que filtra inspirações, e a amor contenta.
Se os de ambições miserrimos forçados
Que ás cidades dão vida, e a si a roubão,
Podessem vir um dia onde tu reinas!
Se a mente que as paixões lhes anuvião,
E olhos em que os cuidados, seus verdugos,
Atárão com trez nós perpétua venda,
Podessem ver-te a luz deliciosa,
O manso da alegria, os gostos puros!...
Deixando sem adeos tumulto e pompas,
Mais de um, mais de um, salvando a tempo os filhos,
Co’as pouzadas dos bons unirra a sua.
E a quem darás tu nunca o riso cheio,
Como o déras a este, que trocasse
Oiro a virtude, e marmores a flores?
¿Que ja sôlto de si e a si tornado,
Viesse pôr, para os livrar de queda
E adora-los em ocio, os seus penates
Á beira de uma límpida corrente,
Que de um bosque atravéz susurra e foge.
Víra os Genios da terra o anno inteiro
A lhe aprestar a mesa; aqui brotando a
No pomar curvo, ali na horta regada,
Lá no chão da seara, alem na vinha
Que o recôsto do outeiro alastra e enreda,
Mais longe nos cabeços verdejantes
Onde o gado em socego os leites cria.
Não lhe ameaçára o raio o této humilde:
As manhãs, d’entre as ramas espreitando
Pela aberta janella, o acordarião,
Por lhe alargar a vida: os passarinhos
Lhe dirão nas frescas alvoradas
“Bem vindo, alegre amigo, ás nossas casas!
Nós cantamos teu Deos, somos felizes,
Tu louva o nosso, e goza d’este mundo.”
Se algum cuidado a vespera deixasse,
Levar-lho-hia na vêa murmurante
A correntinha onde lavasse o rosto.
Vê zagalas fieis, vê perigrinas
De formosura e joias não compradas,
(Que uma da-lha a saude, outras o prado);
Com ellas espairece a fantasia,
E se inda o coração quer mais ventura,
Ama; ao ceo que ja tinha, um Deos lhe accresce!
Quanto via e pasmava em mortos quadros,
Onde astuto pincel prodigios obra,
Sombras vãs, cujo preço he rios d’oiro,
Tudo agora real, vivo, mais bello,
De mais subida mão pintura immensa,
De graça lhe cercára o lar e a vida.
Mas ah! porque me sólto em vãs ideas!
Embora o preço teu não saiba o mundo,
Primavera, eu te adoro e tu me afagas:
Caro co’a lira vezes mil teu nome,
E tu me infloras magamente a lira:
Em longo mútuo abraço almas trocâmos;
A minha he mansidão, frescor, perfume,
Toda a tua, poesia, amor, extremos.
Lanças-me em teu regaço, e quando a noite
A lira e cornucopia aos dois nos furta,
Das-me dormir co’a fronte no teu seio,
D’onde me vem coando uns sonhos leves,
Todos teus, todos candidos, na fórma
De flores, de aves, de amorinhos, de auras.
Assim, me queres teu até no sono!
E porque sombras más o não perturbem,
Mo ficas a velar á luz dos astros,
O semblante pacífico ao sereno,
Os olhos no ceo da alva, e o peito amores.
Mas tu ... porque não vens?—Não não me engano,
Inda agora os trovões rijo batalhão.
Talvez rola n’esta hora a tempestade
Pelo oceano de Atlante ondas sobre ondas;
Rugindo estoira o mar em crespas serras:
Possança de baixeis, esfôrço, industria
Não vale a contrastar-lhe a valentia;
De toda a parte a morte esvoaça, ruge
Na horrenda cerração com sons do averno;
O náufrago abraçado a sôlto lenho,
De toda a parte a vê, a ouve, a sorve;
Vai a abismos e a ceos repulso d’ambos,
E perde, antes da vida, a luz e a mente.
Sumio-se o ultimo audaz de sôbre as aguas!
De nuvens atro veo submerge a lua;
Não luz na escuridade alguma estrella;
He o luto do Homem forte! Ó Mar és livre!
Triunfaste, adormece.—Ah que de vezes
Taes scenas, tal horror, maior, mais negro,
Nos tem de si brotado a umbrosa quadra!
Ó tu contrária sua, o tu dos homens
Sempre invocada amiga, ethéreo Nume,
A quem ceo, terra e mar dão vassallagem,
Onde estás, que não vens com um leve assopro
Trazer serenidade aos elementos?
Se inda és a mesma, e súpplicas te movem,
Sobe ao carro da aurora, os ares fende,
E acode ao Luso clima, onde te invocão.
¿Lembra-te a gruta, a gruta onde Amarilis
De seu ja quasi esposo Umbrano, o astuto,
Acceitou, de sincera, a grave aposta?
Qual era, que o pastor lhe não podia
Dar n’uma tarde tantos beijos, tantos,
Como as folhas do plátano vizinho,
Sendo o premio da aposta inda outro beijo?
¿Aquella gruta, onde ambos consumirão
Um dia teu, a adivinhar a ponto
Todas as graças do primeiro filho;
E só no sexo os votos discordavão,
Porque Umbrano pintava outra Amarilis,
E Amarilis raivosa um novo Umbrano?
Pois n’essa, n’essa gruta os meus amigos
Para hospedar-te um grão festejo tração.
Pôr-se-ha do cedro á sombra altar gramíneo
Com seus flóreos listões, onde c’roados
Te libem vinho annoso e leite puro,
Concertando himnos teus com lira e flautas.
O lavrador da proxima campina,
A estirada cantiga aos bois tardios
Parando calará, para escutar-nos.
Então, então começa o tempo d’oiro,
Folgão no campo os naturaes prazeres,
E a rustica alegria apraz aos deoses.
Aqui, apoz as candidas ovelhas,
Vai trigueira, descalça pastorinha
Aos echos do arredor cantando amores;
Ali galhudo Sátiro se esconde
Para colher alguma Ninfa errante;
Alem com ledos sons retine o bosque,
O riso ferve, as flautas se misturão;
Mais longe, aos pés de mal fingida ingrata,
Se exhalão rogos apiedando as selvas.
Um favonio subtil encrespa as ágoas,
E enfada a Ninfa, que estudava uns geitos
De se enfadar com quem de amor lhe falle.
Priapo brincador gira saltando
Nos jardins, nos vergeis, e nos pomares,
Ramos bate, alvorota o plúmeo bando,
Que foge, mas de Amor não foge ás settas.
Amor e seus irmãos, com o facho em punho,
Lanção tacito fogo a quanto existe.
Junto da verde faia susurrando
Se ouve outra faia um não sei que, tão doce,
Que aos amantes apraz o seu murmúrio.
Do rebanho o marido entre o rebanho
Bala amoroso, e todas lhe respondem:
Pela novilha se enfurece o toiro,
Accomette o rival, goza o triunfo.
Côr de neve, innocentes cordeirinhos
Ja balão na verdura, ja recresce
Maravilhando a serra, a grei profusa
Das erradias cabras saltadoras:
A nova creação corre exultando;
Aquelle foge, os outros o perseguem,
Voltão, saltão, empinão-se, discorrem
Por toda a parte n’um momento o prado;
Cresce o leite, e o pastor a quem ja faltão
Cinchos para o queijar, tarros que o levem,
Lédo se enraiva com riquezas tantas.
Todo o arredor da aldea he movimento,
Contente lida, esp’rança, amenidade.
Porque se hão de calar da infancia os brincos?
A infancia he primavera, he mundozinho
Florente, de que nasce um grande mundo.
Menino á espreita e mudo entre as silveiras,
Apoz o som do grillo o vai buscando;
Outro os ramos envisca, as redes arma;
Prêzo de longo fio ao pé mimoso
Passarinho pelo ar chirla e revoa,
E crendo-se de novo o rei do espaço,
De inconstante creança um dedo o rege.
Um mais travêsso, ás árvores trepado,
Nos ramos se embalança, ou furta os ninhos;
Outro mais atrevido, emvão forceja
Por montar no carneiro, que se escapa,
Fazendo ao longe retinir os bosques
Co’ o crebro som da aguda campainha.
Tenra menina um malmequer desfolha,
E pelo amor da mãi á flor pergunta;
Em quanto seus irmãos vão na corrente
Pôr de cortiça um concavo barquinho.
Na luta, na carreira apostas fervem.
Oh! da infancia do mundo amaveis scenas!
Se inda as virtudes sôbre a terra existem,
Se inda existe o prazer, o socio d’ellas,
He no campo, no campo; e a quadra tua
Nos mostra, ó Primavera, este prodigio.
Mas da fogueira as chamas enfraquecem!
Ja os gallos das proximas cabanas
Vão começando a annunciar-me o dia:
Que som grato! que enlêvo estar sentindo
Por um sereno albor, estes vizinhos
Nuncios da aurora, a cuja voz respondem
Outros aqui e alem, com voz diversa!
Sim, o dia começa: a luz nascente
Pelas fendas do této está brilhando.
Eis-me só junto ao lar! quem sabe ha quanto
Se irião meus bons hospedes ao colmo:
Agora em doce paz lá estão dormindo.
Que breve noite! e he finda; ah toda he finda!
Da fresta, onde cheguei, contemplo os ares,
E claro vejo o ceo, de nuvens limpo:
Mal brilha no horizonte a estrella d’alva.
E os olhos meus (oh dor!) só descobrirem
Como por um véo denso a natureza!
Os montes que longissimo se alcanção
De vinhas e arvoredo entresachados,
O rio ao longe a fulgurar co’as ondas,
Os remotos cazaes da gente humilde
Pelas verdes campinas alvejando,
Não vê-los eu! não ver!... Mas que murmúrio
Sólta a folhagem do loureiro antigo,
Que defronte de mim remonta aos ares?
O Favonio acordou, que hontem de tarde,
Cançado de girar, adormecêra
Junto á cascata no pomar sombrio.
Vai subito partir: em curtas horas
Será comtigo, e te dirá meus versos.
Meus Amores, adeos! adeos meu Nume!
Da Epistola a resposta a vinda seja.
O DIA DA PRIMAVERA
POEMETTO EM DOIS CANTOS
_Em dois Cantos se divide agora este Poema, para commodo de quem lê.
Entendi em apertar melhor que da primeira vez, este feixe de flores, se o
he: algumas deitei fóra sem fazerem mingoa; as demais forão refrescadas,
e se me não engano mais algum viço ganharão. Puz-lhe com tão boa vontade
as mãos como na Epistola: pelo que, sem deixar de ser o mesmo, he outro;
he o mesmo no essencial e intrinseco, todo outro no lustre e na toada._
DEDICATORIA A MINHA MÃI.
_Á maneira das arvores, que acordando do sono do inverno ao bafo
omnipotente da primavera, como que ressuscitão com o riso e vida nos
primeiros olhos e flores, o meu engenho começa a matizar-se das suas,
com a tornada d’estes dias puros e deleitosos aos amigos do campo. As
primicias, que d’ellas pude colher, forão para a grinalda que apresentei
na Festa da Primavera celebrada com os meus amigos. Depois de a haver
tirado do altar da Deosa que governa a mocidade do anno, a quem senão a
ti, ó minha Mãi, devêra offerecer esta grinalda? sim: outrem qualquer
a engeitára por de nenhum preço; de ti sei eu certo que lhe acharás
uma graça especial, mais finas côres, e fragrancias mais suaves: emfim
me atrevo esperar que póstos amorosamente os olhos na minha Obra,
entenderás, sem o dizer, como eu sinto todo o amoroso da gratidão, ao
cuidar em quem me deo alem do ser, a educação, e todos os mais carinhosos
desvelos: alguns suspiros e lagrimas, para cúmulo da minha felicidade,
serão talvez por ti, ó minha Mãi, espalhados na minha ausencia._
HISTORIA DA FESTA DA _PRIMAVERA_.
Remontando a vêa do Mondego até obra de um quarto de legua para cima da
Cidade, encontra-se na margem do poente um gracioso retiro, selvatico
sem aspereza, e como que enfeitado sem arte: dissereis que em hora
de contentamento o fizera a Natureza, para algum dia hospedar no
regalo d’aquellas suas sombras um ajuntamento de poetas seus. De _Lapa
dos Esteios_ pozerão nome ao sítio em dias remotos, segundo soa, os
vinhateiros e pomareiros que de umas e outras varzeas do rio costumavão
acudir ali por paos, com que estear suas parreiras e arvores derreadas
com o pezo da fruta. Ainda permanece o nome, porem ja o arvoredo se não
desbarata pelos vizinhos, e a Lapa, de tão solitaria e amena que he,
parece a appetecida estancia do Genio da liberdade.
Entra-se por um breve cáes ornado de cinco alterosas arvores, das quaes
uma torcendo-se toda para o rio, se debruça para saudar e cobrir com
a sua sombra os bateis que chegão. No tôpo do cáes, e fronteira a quem
desembarca, se alevanta um genero de muralha nativa de rochedo, rôto em
muitos seios. Esta penedia, até aos nove ou dez palmos de altura, sóbe
nua e só ornada de sua mesma aspereza; d’ahi para cima, como envergonhada
de sua dura condição, se esconde toda com um frontal de heras, que ora
resaem como cabeços pendurados, ora se recolhem para fantasiarem la
por dentro suas grutazinhas e labirinthos, d’onde ás vezes se estão
vendo saír por um cabo e por outro os passaros, que depois de beber e
se banharem na vêa da agoa, se empoleirão pelos lamegueiros vizinhos,
namorando e cantando a suavidade e fresquidão de suas habitações. Pelo
lado direito d’esta aprazivel scena, sóbe uma cerrada espessura de bosque
pequeno, onde os olhos se enleão na confusão de troncos e folhagem:
pelo esquerdo abre-se para cima uma escada rustica mas commoda, de doze
degraos. Tecem-lhe estendido toldo dois lamegueiros velhos, e outras
arvores mais pequenas se abração por ali, travadas com mil voltas de
hera. Dá esta subida em uma planura sôbre o comprido com seus assentos
de ambas as bandas, isto he da terra e do rio, o qual por entre um basto
arvoredo, que d’ahi por uma especie de promontorio, vai descendo até
lhe metter os pés na corrente, se está vendo a furto transparecer: das
primeiras cabeças d’este arvoredo cáe para os assentos uma boa a vedada
sombra. O puro e perfumado dos ares, a vária presença da terra e aguas,
o susurrar dos ramos abanados da viração, as melodiosas querellas das
aves, em summa o natureza enfeitada só de suas mãos, e paz e descanço
de deserto, são a fonte perenne dos encantamentos d’este sítio. Uma
ladeira suave opposta á escada, e ainda mais sombreada, despede em outro
cáes com seus degraos nativos de rocha até á agua. He este menos bem
assombrado que o primeiro: não tem relva, nem arvore, nem verdura afóra
ada muralha no tôpo, toda velada de musgos, matizados com seus tufos de
fetos silvestres, congossas e um sem numero de outras plantas e ervas,
sobresaindo a espaços alguns ramos solitarios de figueira brava: mas o
que de interior graça lhe fallece, lho compensa a larga vista que para
fóra desfruta.
Era chegado o primeiro dia de primavera. Tratado e assentado estava de
ha muito entre mim e meus amigos, como iriamos passa-lo juntos, em uma
romaria e festa poetica á honra d’aquella mais formosa parte do anno. Não
faltavão á volta da Cidade muitos sitios accommodados ao intento, antes
não creio que possa haver no mundo outra verdadeira Arcadia, que em tão
pequeno espaço resuma tantos: mas d’entre todos coube á Lapa dos Esteios
a palma da competencia. De doze se compunha o rancho, todos amigos,
poetas e academicos.
Por volta de meio dia, pouco mais, nos ajuntámos com muita alegria e
abraços, e todos com as nossos ramalhetes de primavera nas mãos, nos
pozemos alvoraçadamente em caminho para o rio, onde ja o barco nos
aguardava. O ar estava puro: contra o sol que ardia rijo, nos acudia com
refrigerio um pouco vento, que ao mesmo tempo nos fazia mui boa feição
para contrastar a corrente. Saltámos e partimos.—Em quanto alguns por
um e outro bordo ajudavão o favor do ar com o trabalho de suas varas,
repellindo o álveo, e fazendo-nos resvalar mais prestes á medida de
nossos desejos, os demais amotinavão ao longe ambas as ribeiras com suas
cantigas de amores, entoadas em chusma. A cada momento porem se quebrava
por si o canto, para se contemplar e encarecer o muito que a natureza
e o artificio podérão e soubérão crear para enlevo de olhos, por ambas
aquellas dilatadas margens e campos: pradaria verde e florída, outeiros
risonhos, cazaes branqueados, grangearia e recreação de quintas, pomares,
hortas, jardins, e mil arbustos curvos por entre choupos e salgueiros até
beijarem a agua, esse era o painel em que meus amigos se hião enlevando,
e que a mim, que pelo longe que era posto, o não podia nem por nevoas
enxergar, me desentranhou algum suspiro, dando-me a sentir no meio da
geral alegria alguns momentos magoados, recostado na borda da embarcaçaõ.
Mil couzas pequenas, e por ventura vãs (mas quaes ha que sejão taes para
gente moça em dia de júbilo?) matizarão toda esta viagem: taes como a
grita que de subito alevantámos ao passar por baixo do arco grande da
ponte, aonde as vozes, refletindo do massiço da cantaria, nos ressortião
para os ouvidos com uma estranha soada, como que por aquella porta e
esteiro estivessemos entrando um mar nunca d’antes descoberto; despedidas
á Cidade que de nós se alongava, branca e assentada em seu monte, até que
desapparecia, e ás margens que para nós arremettião correndo com seus
estendaes, lavradores e rebanhos, para logo nos passarem alem, fugir-nos
e perderem-se; a vista de um bando immenso de pombas, que levantando-se
espavoridas com a nossa passagem, de um ilheo de arêa onde se estavão
a beber e banhar-se, nos atravessarão pela proa e forão derramar-se
todas queixosas pela ribanceira vizinha; o ceo a espelhar-se inteiro
nas aguas ufanas de retratarem multiplicado o sol da primavera com toda
sua magnificencia: semelhantes nadas produzião em somma um genero de
felicidade a estes moços Anacreontes viajando, á qual, para de todo o
ser, só faltava poder durar.
De instante para instante importunavamos os barqueiros, perguntando
insoffridos quanto nos restava do caminho. Cuidava-se ver a Lapa dos
Esteios em quantas soledades apraziveis nos apparecião ao longe. Emfim
a apontárão com o dedo; levantão-se todos, todos com clamor unísono a
saudão. Saltámos logo no primeiro cáes, deixando o nosso barco amarrado
a uma arvorezinha, que se algum curioso vier visitar aquelle sitio,
he a terceira da parte esquerda. Uns de outros derramados, nos fomos
prestesmente por onde o acaso ou a fantasia nos levavão, correndo e
devassando toda aquella solidão, que por algumas horas vinhamos povoar:
e tornando-nos a ajuntar no alto, onde tão commodos assentos se nos
deparavão. “Esta Lapa disse um, para estancia e habitação das Musas
parece feita; por aqui as heras pendem de toda a parte!” Sobre o que, se
procedeo logo á lição dos poemas que todos levavamos. Aqui usarão meus
amigos para comigo de huma cortezia, de que por mais que fiz me não foi
possivel defender-me, ordenando-me com seus rogos que os meus versos,
para os quaes o ultimo lugar em tal companhia podéra ainda ser de muita
honra, rompessem antes de outros aquelle acto. Estes, a que eu pozera o
titulo que ainda tem _O Dia da Primavera_, ja primeiro que o sitio fosse
escolhido se achavão feitos, rasão porque não ha que procurar n’elles a
pintura d’elle. Concebêra eu um dia de Primavera levado pelos campos em
contentamento com aquelles companheiros; tomei de minha livre imaginação
o que me pareceo bastaria para o encher; e poetei-o sem me obrigar a
nenhuma outra verdade.
_Elmiro_ (que todos havião arcadicamente tomado para si nomes de
pastores) assim como a leitura foi rematada, veio para mim com um listão
de heras nas mãos, e mo lançou, a todo o poder que eu pude para me
escusar, do hombro direito ao lado esquerdo.—Seguio-se _Anfrizo_, o qual
em pé junto de mim, e com uma coroa em punho, recitou uma formosa Ode,
toda floreada dos louvores que a amisade lhe figurava poderem-me bem
assentar; e chegado que foi á ultima estrofe, me coroou abraçando-me.
Tambem a esta honra me foi forçado ceder, com quanto claramente em mim
sentisse o muito que vinha mal empregada: a amisade ordenava, o dia era
seu, rendi-me. Era a grinalda de artificiosissimo lavor, mui fresca, e
tecido de louros, heras e cópia de flores naturaes; guardei-a com ufania
e como joia; quizera conserva-la para sempre, mas representava gloria, e
minha, murchou, desfez se, largos annos ha que he pó, e pó disperso.
Dado que ja então fosse tal o meu triunfo, qual nem em sonhos de ambição
o podéra antever, _Josino_, a cuja feiticeira Musa ja eu era, muito
havia, devedor, inda o subio de ponto, lendo antes de um poema, pequeno
em extensão mas grande e grandissimo em merecimento, um elogio a mim em
tão delicados versos, que não posso menos de perdoar-lhe a lisonja.
_Aulizo_[5] leo um longo poema intitulado _A Primavera_, que todo
respirava amor aos campos e á virtude, ataviado de mui mimosas galas
poeticas, e de mui particular doçura e sabor para os ouvidos: nem se
cuide que sangue ou amisade ou vãgloria me fazem fôrça para o dizer,
que antes o dissimulára eu, se o ser irmão e amigo fossem partes para,
quando a todos os mais vou distribuindo seu preço, lho sonegar a elle; e
ainda assim talvez o não ousára, se tão boas testemunhas não valessem a
confirma-lo.
Foi esta leitura interrompida de uns sons de flauta, que por cima
das cabeças, e de mui perto nos vinhão: era o meu caro amigo,
Horacio portuguez, José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvea, que
alvoraçando-nos e alvoraçado, nos apparecia ao cimo da curta escada que
da Lapa sobe para a _Quinta das Canas_, que lhe fica sobranceira. Forão
tudo clamores de alegria, recebendo entre nós, poetas todos verdes, o
nosso decano e patriarcha; cercámo-lo com abraços, das mãos lhe furtarão
a flauta, foi levado de repente a todos os recantos do nosso Parnaso,
contando-lhe todos á uma o que até ali se passára, que vezes se fallára
n’elle, e se desconfiára de sua promettida vinda. Este homem amavel,
jovial, incapaz de estudadas gravidades, dado e corrente com todos, bom
sem merecimento de esfôrço, filosofo sem o cuidar, coração que ainda não
saío nem ja agora sairá da infancia, homem só comsigo parecido, que a
ninguem imitou nunca, nem de outrem será nunca imitado, e cuja vida, se
alguem soubesse escrevê-la, sairia tão original e unica como elle mesmo,
este digo, nascido para ser alma de qualquer ajuntamento moço e alegre,
tomou para logo seu quinhão na Festa. Deu-se fim ao poema interrompido
com a chegada do novo socio, que muitas outras vezes o tornou a
interromper com applaudir e abraçar o poeta. _Josino_, que assim como o
ouvia fôra entrançando uma coroa de hora da arvore mais chegada, mal que
o ultimo verso expirou, se foi com ella, por entre as palmas de todos,
premiar a fronte do cantor.
_Elmiro_, que de apoz se seguio, nos cativou as attenções com um poema
de muita invenção e belleza, aonde outra vez a amizade me brindou com
perfumes seus, para os não dizer da lizonja. Igualmente o coroámos; e
outro tanto se foi fazendo aos demais, que recitarão poemas mais breves
ou traduções.
_Salicio_[6] repetio uma mimosissima tradução livre de uma parte da
_Primavera_ de Thompson: _Albano_, uma tradução em lindas quadras do
Idillio Primavera de Gessner: _Francilio_, uma tradução em proza de Utz,
que leo de pé com o copo em punho, e rematou com um brinde: _Franzino_
uma versão da _Primavera_ de Cramer: cerrando-se finalmente este rico
banquete poetico com mais de quatrocentos versos de um poema de meu irmão
José Feliciano de Castilho, que pelo muito menino que ainda áquelle tempo
era, não foi dos menos vitoriados.
Todos estavamos coroados, e o rancho se espalhou. “Ja la vai o sol
abaixo; os seus raios apenas tocão ja os cumes dos outeiros d’alem:
aproveitar o tempo!” bradarão alguns amigos da borda de uma eira que
dominava a Lapa: e todos sentimos que a tarde nos hia insensivelmente
escapando. Então ao som da flauta do nosso Horacio, começarão todos
de dançar e saltar, e as aves incitadas da musica, levantarão mais
alto os gorgeios da tarde. As folhas das heras, que por ali guarnecião
todas as arvores, e algumas flores voavão ás mãos chêas como em chuva,
de uns contra os outros. De quando em quando se alevantava alguma voz
inculcando, porque o fossem todos ver, algum particular gracioso e ainda
não observado d’aquelle sítio. Chamando _Aulizo_ pelos outros, lhes
fez notar do cáes mais arido, o como o rio d’ali visto, á conta de sua
curvidade se afigurava lago cercado de collinas desiguaes, coroadas e
semeadas de larangeiras, oliveiras e pinheiros, e cazaes alvejando,
enxergando-se mais a longe, e por entre estes, outros outeiros, quasi a
se desvanecer na distancia e sombra da tarde. Debuxava eu no animo toda
aquella scena saudosa; saía-me o quadro maravilhoso, mas era por ventura
verdadeiro? não o sei.
Uma merenda saborosa nos appareceo de repente e como por encanto:
_Elmiro_ fôra o magico providente. Toalhas brancas de neve estendidas no
cáes do desembarque, forão povoadas de primorosos manjares, garrafas ja
de dias, e copos coroados de verdura: uns rolos de arvores estendidos
em quadro nos valerão de assentos: dois meninos gémeos, vestidinhos da
branco, erão os Ganimedes do nosso banquete folgazão. Parte assentados,
parte reclinados em diversas posturas, outros por entre estes girando com
os copos e pratos na mão, boas descaídas, descuidos a tempo, apontadas
graciosidades e risos do íntimo, brindes com o copo alto na direita,
enviados a mui longes e mui diversas terras (que não havia um só que da
sua não padecesse ausencia e se não finasse com saudades), outras saudes
ora mais ora menos sumidas, a objetos nomeados umas vezes e outras não,
mas mui bons de adivinhar pelos suspiros e geito do saudador, a voltas
e proposito d’isso narrativas e contos para folgar, musicas alegres de
flauta mil vezes começadas e outras tantas interrompidas, e outros muitos
nadas com que a penna se não atreve, convinhão em aprazivel mistura para
encantar a ultima hora da Festa da Primavera.
Posto era o sol, mas o ceo ainda não carregado de noite: havia-se de
partir, faltava o animo para o fazer; instavão os barqueiros, crescião
n’elles a rasão e o importunar, acabárão comnosco que nos rendessemos.
Despedidos os amorosamente da Lapa ja áquella hora entranhada de
escuridão temerosa; com os pés ja postos na beira da agua, nenhum queria
ser primeiro que trocasse terra de tanta festa, por um barco que nos
hía tornar para onde vida de proza e cuidados nos aguardava: senão
quando, levantando o bom Gouvea a voz, com ella suave e chêa que se hía
por aquellas margens alem, começa de cantar _A minha Lilia morreo_;
improviso seu, chêo de uma branda tristeza, que aos cançados e não fartos
de gozar costuma ser segundo gozo. Assim hia elle até n’isto imitando
o seu Horacio, que nos poeticos festins que dava ao Genio da alegria,
nunca se esquecia com seu quinhão de pensamento para a morte. Profundo
era o silencio que de toda a parte cercava o nosso cantor; só se ouvia o
murmurio baixinho da corrente.
Não havia quem nos apartasse: por derradeira vez nos tornámos ainda á
Lapa, travou-se uma dança por despedida, e fez-se uma saude geral ao
lugar e ás trez Graças que ali costumão a vir muitas vezes[7], até que
emfim nos embarcámos, com as nossas coroas na cabeça. Foi aos barqueiros
defendido usar de vara, antes se lhes encommendou que nos deixassem
embora ir, tão mansa e perguiçosamente como á vêa mal desperta do rio
parecesse, e ainda n’aquelle pouco descer das aguas houvéramos nós tido
mão, se podessemos.
Pareceo bem, para atalhar a confusão de tantas vozes como as que ali
fervião juntas, nomear á maneira do Rei do vinho nos festins dos antigos,
um que nos governasse. Este foi Gouvea por acclamação unanime. Lembrou
um que d’ahi ao deante nos ficassemos uns aos outros dando o tratamento
de confiança, que a boa amizade consente e requer: approvou-se. “E
quemquer que a esta lei desobedeça, haja-se por expulso da _Sociedade
dos Amigos da Primavera_.” Approvou-se com alvoroço; levantarão-se todos
abraçando-se, apertando-se entre si as mãos, e dando-se entre risos o
tratamento novo tão amiudado para lhe quebrar a estranheza, que ninguem
se entendia.—“Todos os Socios (gritou outro, e de novo se fez silencio)
hão de conservar até que o tempo as destrua, estas suas coroas, se não
monumentos de gloria, penhores certo que mais vale, de horas felizes:”
approvou-se por lei o que ja todos levavão no coração bem votado.
Suscitou-se depois que recitasse cada um segundo a ordem dos assentos,
alguma sua poesia breve, e que mais lhe parecesse accommodada á occasião.
Não faltárão aqui seus debates, lembrando uns como apoz tanto recitar,
tinha a cantoria muito melhor cabida do que os versos nus, outros
affirmando que a flauta melhor que nenhuma outra cousa diria com a hora,
sítio, e calada grande do rio: até que um veio conciliar a diversidade
dos pareceres, dizendo que umas couzas não tolhião as outras, antes
podião ir todas a revezes tendo seu lugar: o que assim se cumprio.
A serenidade da noite junta com as saudades do dia, nos fez achar
inefavel doçura nos sons da flauta, que parecião modulados pela
melancolia, e se esvaíão ao longe nos ares. Se ás vezes o acaso nos
levava mais para uma das margens, uns frouxos echos chêos de doçura a
tristeza se comprazião de repetir a musica e as palmas com que a nós
applaudiamos. Emquanto um só cantava em meia voz, e nós o ouviamos
calados, a face na mão, e meio reclinados contra o rio, suave nos era
escutar como as quasi insensiveis ondas, com som muito mais baixo nos
vinhão beijar os lados do batel, d’onde, se fugião partindo, com um
murmurinho saudoso.
Descemos em terra, e abraçando-nos repassados de igual amizade, e das
mesmas lembranças, votámos logo ali nova Festa em honra do primeiro dia
de Maio, a qual se veio a fazer, como ao deante o declarará o volume: e
todo esse meio tempo de uma até á outra, foi tecido de doces memorias,
fantasias poeticas, tenções e esperanças de prazer.
Assim se podia e sabia ainda então passar dias mansos, innocentes e
bemaventurados!
_Lisboa: 2 de Janeiro de 1837._
O DIA DA PRIMAVERA.
CANTO I.
_A Manhã_
Ei-la que chega a amante Primavera!
Logo ao romper do dia susurrando
Vós, Favonios azues, a annunciaveis.
Chega ... chegou! as aves a festejão
Desatinadas, doidas; ja com verdes
Braços lhe acena o bosque; estão-se os rios
A retrata-la; as fontes a murmurão;
Traz gala o monte; os valles se alcatifão;
Ri-lhe o ceo todo, a Natureza he d’ella!
Mais cedo ao leito do marido annoso
Hoje a Aurora fugio; tomou regaço
De orientaes aljofares mais rico,
Mais cópia em seio e mãos de ethéreas flores.
Aos umbraes inda escuros do horisonte
Quem a aguardava, quem? os meus Amores
Que encontro! que abraçar-se!... O Zefirinho
Que ja por entre nós passou trez vezes,
Trez vezes ao passar mo ha segredado:
Vio tudo, tudo ouvio, que era elle proprio
Um dos que pelo ar vinhão soprando
O matizado pavilhão de nuvens,
Em que ás terras baixava o Par celeste.
Rosto a rosto inclinado; as mãos unidas;
Mago riso um só riso em bocas duas;
Absortos em luz mutua os mutuos olhos;
Duas Gémeas do ceo, duas Virtudes
N’uma Virtude só, se afiguravão.
—“Ó minha Irmã (dizia a Primavera)
“Quem nos ha de estremar? tu es do dia
“A Primavera, eu sou do anno Aurora”—
—“Filha como eu do Sol (acode rindo
“A Aurora), ó doce Irmã, vérte-te o Fado,
“Não q eu to inveje, os bens de urna mais ampla:
“Deu-te folgar sem mim, deu-te a alegria
“Dos dias que eu só abro, e os tão gabados
“Prazeres que eu não vi, não verei nunca,
“Prazeres do sol pôsto, e de alvas noites.
“A mim lida perenne, a mim rigores
“De oppostas estações, reinar de instantes,
“Contínua fuga, e os odios dos ditosos,
“E as maldições de Amor comtigo affavel.
“Eis porque a meu pezar, já por costume,
“De olhos que espargem luz se orvalhão choros.
“Perdôa-mos teu jubilo mos sécca.
“Desce, eu parto, urge o Tempo, e ja me acena
“Co’a mão rugosa para novos climas.
“Fica-te em nossa amada Lusitania,
“Inda pouco ha tão triste. Observa os cumes
“Contra o nosso nascente; ahi vês á espera
“A turba toda dos campestres Deozes,
“Flora, Cibele, Dríades, Napéas,
“Hamadríades, Náiades, Silvano,
“A caçadora Cinthia, Amores, Graças,
“Os ledos Risos, a amorosa Venus;
“E Pan ha muito tempo em nova flauta,
“No verde cume do apartado monte,
“Lá onde canas trémulas susurrão,
“Para a tua chegada estuda um hino,
“A cujo estrondo os Sátiros voltêem.”—
Diz: olha para traz, vê o Sol, desmaia,
Beija a Amiga, e fugindo a entrega ao dia.
Desfez-se a névoa eis Sol! Joelho em terra,
Amigos meus; he o Sol da Primavera!
“Ó Sol das flores, Salve! Ó Sol de amantes,
“Salve! E trez vezes Salve! ó Sol dos vates!”
Vêde-o doirando do arvoredo os cumes;
Vêde nas aguas límpidas fervendo
De reflexos de luz áureo cardume.
Corramos n’um momento os campos todos!
Como esta luz do Ceo, que a toda a parte
Desce, rompe, insinua-se, alvoroça;
Como esta luz do Ceo, vates mancebos,
Devassemos a terra: uma só gruta
Não fique, um arvoredo, ou valle, ou fonte,
Por onde não mergulhe a vista, o estro.
Esta, que ora seguimos, tortuosa
Concava senda, ha pouco estreito rio
Co’as grossas chuvas da vizinha serra,
Parece de um jardim curiosa rua!
De um lado e d’outro os còmaros pendentes
Ja não são montes de crueis espinhos,
Montes são de verdura, e roxas flores,
Onde n’outra estação viráõ c’os cestos
Colher nevadas mãos negras amoras:
Recende o legacão, e a madresilva.
De madresilva ornemo-nos as frontes ...
Mas não: fique-se em paz a flor nevada;
Quer-se antes a violeta, eu sei outeiro
Onde ella mora, he flor da Primavera;
D’esta eu fiz elleição não quero d’outra,
Vós, se outra preferís, apanhai d’essa.
Por aqui vai a encosta desfarçada:
Como que ja de cór meus pés a sabem.
Ja vós de cá vereis, la quasi ao cimo,
Um ramalhete espesso de aveleiras,
E de dentro luzindo uma apparencia
De alvo lirio entre verde, um cazalinho;
Pois essa he a casa de Egle. E mais avante,
No alto; não voltêão solitarias
As pandas velas de veloz moinho?
Tambem ja la pouzei n’uma afrontada
Tarde do estio, e lhe dormi á sombra.
Tudo isto me conhece! Esta ladeira
De rusticos degráos, que ahi desce á dextra,
De perenne verdor acobertada,
Cáe na fonte da aldea. (Ahi vão por agua
Com seus vermelhos cantaros as moças.
Outras cá vem, com passo mais tardio,
Sobindo ja, com os potes á cabeça
Lustrosos, vacillando e sempre firmes)
Não presumis quanto he social a boa
Da fontinha aldeã! não ha formosa
Que ali se não detenha e não se enfeite;
Não ha pastor cortez, que ao fim da tarde,
Ja recolhido o gado, ali não desça
Para ajudar a encher; inda não houve
Na vizinhança amor, cantiga nova,
Ou fallado successo, que cem vezes
Do fundo de seu antro os não ouvisse
A Náiade anciã; nem bôda alguma,
Sem se enramar o portico musgoso.
Á esquerda, pela varzea anda rebanho;
Que ouvi balar, e ainda ouço a cantilena
De pegureira voz. Dizei-me á pressa,
Que scena off’rece a varzea? a relva molle
De alvas boninas trémulas brincada,
Onde o calor nascente o orvalho enxuga,
O sombrear das arvores dispersas,
Bellos não são de ver? he vasto o bando
Das ovelhas pacíficas? he linda
A guardadora sua? está sozinha
Em pé volvendo o fuso e olhando o pasto,
Ou com algum pastor sentada em ocio?
Traz disperso o cabello ou prezo em rosas?
Que donoso cantar! que peregrina
Poesia que esperdiça aquella moça
Com broncas solidões e ovelhas rudes!
Couza que assim namore a fantasia
Não quero que haja, não: virgem formosa
Sozinha sob o ceo; velando em brutos
A que era de velar como um thesouro;
A graça envolta em lãs, contente e rica;
E annos verdes, sem pena aqui florindo,
Longe de olhos e amor, jogos e esp’ranças!
Detende-vos: o aroma he de violetas.
Ei-las! irei tecendo a c’roa minha
Com estas, que escondidas, pudibundas,
Como a pastora, em paz desabrocharão,
O ar, como a pastora, em roda encantão.
Ja percebo o rugir das aveleiras;
Não vejo inda o cazal estancia d’Egle,
Mas perto, oh perto vem: todo esse rôlo
De espesso fumo que serpêa aos ares,
He da interna fogueira que amanhece,
Cuidadosa do almoço, aos moradores.
Entremos no pomar. Ja Primavera
Copiosa o bafejou, de agradecida
Ás pomareiras mãos que lho aprestárão.
Inda folhas não ha, mas tudo he flores!
Vede como ante o sol tremúla e brilha
O pecegueiro co’o vermelho ornato:
Vede alem da pereira a branca véste,
Da cerejeira, do abrunheiro a cópa:
Vede como uma vide em cada tronco
Tenaz se enlêa em tortuoso abraço;
Ja seus pequenos pampanos rebentão,
Verdejantes festões ja vão formando:
Do cheiroso morango a planta humilde
Aqui e ali no verde chão rasteja.
Arvores, plantas d’Egle, a nomeada
Em todo este arredor pelas delicias
Dos ricos frutos seus, não se numérão,
Nem sei louvor que lhes não ceda, e muito.
O porque sejão taes, fique em segredo
Quando vo-lo eu disser. — Aqui Vertumno
Veio uma tarde do passado outono,
Mudado em rouxinol, cantar nos ramos,
D’onde, mais bella que a gentil Pomona,
Egle andava colhendo a rica fruta.
Julgou ver sua Deoza o terno amante,
E tão doce cantou por entre os frutos,
Tão queixoso gemeo, gemeo tão meigo
Cercou-a tanto com chorosos pios,
Tantas vezes pouzou na mão de neve,
Na trança negra, no virgineo seio,
Que Egle o metteo no candido regaço,
O levou toda ufana ao lar paterno,
E em pintada gaiola inda hoje o guarda,
Que o Deos não quer fugir do cativeiro.
Quando a sente acordar pela alta noite,
Acalenta-a com languidos requebros:
Ao romper da manhã, quando no bosque
Ouve perto cantando as outras aves,
Logo a acorda com vividos gorgeios:
Mas quando a vê surgir, qual Venus da agua,
Sem mais vestido que a esparsida coma ...
Ahi he o pipillar, o esvoaçar-se,
O encrespar de plumage, o dar sem tino
Contra os duros varões co’ o peito brando:
Ahi o abrir do bico a pedir beijos,
E o revelar calado o amor e o nume.
Por isso he que ao pomar onde foi prezo
Fadou, quanta vos prende, infinda graça.
Como he puro este ceo do campo d’Egle!
Como he doce este Zéfiro que folga
Entre as arvores d’Egle! este he ditoso!
Ei-la que sáe de seu campestre alvergue.
Calados se podeis, entre estes verdes
Porque vos não descubra, olhai-a um pouco.
Quereis ver como a ponto lhe adivinho
Os passos, e o que faz, e os pensamentos?
Sim, Egle he sempre aquella, he sempre a mesma;
Arvore sem enxerto he sua vida,
Dá sempre a flor igual, iguaes os frutos.
Mas silencio, Vertumnos insoffridos,
Ja vo-la pinto, e me direis se eu érro.
Do braço nu e candido lhe pende
De louro milho o próvido cestinho.
Chama as pombas, lá vão pouzar no alpendre;
Á eira arroja os grãos, lá são na eira,
Arrulhão, comem sofregas, refogem;
Ahi vai novo punhado, ahi vem de novo.
Uma d’ellas, mais alva do que o leite,
Vai pouzar no cestinho ao lado d’Egle,
E mansa come na formosa dextra;
Furtão côres com o sol o collo, as azas.
Egle lhe chama filha; affirmarieis
Que o brutinho a entendeo, salta-lhe ao seio,
Espaneja-se: agora lhe promette
O pombo mais fiel para consorte,
E um ninho todo fôfo, e muito afago
Aos pequeninos seus; mas quer em paga
Um beijo, e um beijo pede: a face inclina,
O bico a vem libar; alonga os labios
Unidos em botão, corre o biquinho,
E ao centro do botão lhe leva o beijo.
Agora vem ao tanque, aos rubros peixes
Trazer segundo almoço: oh!—providencia
Não ha mais desvelada, ou mais formosa!
Mal que o choveo nas aguas transparentes,
Por entre os crebros circulos assoma
De vivos olhos purpurina turba,
Tragão-no, e fogem requebrando as caudas:
Ermo o lago outra vez ficou dormindo.
Que dizeis? volve a casa? em manhã d’estas
Egle volve ao cazal! tornará logo.
Mas vós não ficareis, que o não consinto;
Hoje he só Divindade a Primavera.
Emquanto a hora da Festa inda vem longe,
Irmos correndo á sôlta, irmos folgando
He o nosso dever, foi jura nossa.
¿Mas que risadas d’esta parte sôão
Entre os salgueiros, do regato á borda?
Rasgado o cinto, desgrenhada a trança,
Uma Ninfa gentil é quem sozinha,
Se ouve rir no pacífico arvoredo!
La vai na vêa d’agua bracejando,
E a soltar de afflição piedosos gritos
Um Sátiro infeliz! ja muito longe
A corrente lhe leva o odre e a flauta.
Agora á flôr das agoas apparece,
Some-se agora no lodoso fundo.
Em vez de o soccorrer, o apupão rindo
Da opposta varzea os rusticos pastores.
—“Dize, bom guardador das vaccas nedeas
“Que successo foi este?”—“Eu vo-lo conto.
“A Ninfa hia correndo, antes voando,
“Ao longo d’esta margem que verdeja,
“Quando eu dei fé; suava-lhe no alcance
“O mofino do Sátiro ... (Que vejo!
“Inda poude aferrar ... Más horas leve
“A agua que o não tragou! Pois ja não larga
“Os vimes que aferrou co’a mão pelluda.
“La trepa ... Vê-lo em cima! Oh como o bruto
“Se estira ao sol e arqueja!) Hia no alcance
“Da pobre Ninfa o Sátiro; umas silvas
“A prendêrão, travando-lhe do cinto.
“Carpia-se a coitada entre alaridos,
“Como passaro prezo; esta novilha
“Não muge com mais ancia em vendo os lobos.
“Bate as palmas o fero, e mais ligeiro
“Atropella a carreira, e vai clamando
—“Venci-te—Avida mão ja lhe lançava,
“Senão quando (tomado está dos vinhos)
“O pé caprino na orvalhada relva
“Resvala: vê-lo vai de tombo em tombo
“Medindo a ribanceira, e dá no rio!
“Logo ao caír, fugíra-lhe dos hombros
“O odre do vinho, e a flauta d’entre os dedos.
“Mal poude resfolgar—Ó flauta! ó odre!—
“Disse trez vezes, e esqueceo-lhe a Ninfa”—
—“Bem hajas, guardador das nedeas vaccas:
“Mais feliz sejas tu com teus amores,
“E menos apressada a que seguires.”
Socios, que mais ha ahi? Que vos demora
Em de redor de um choupo? Letras, versos
Entalhados no tronco! uma grinalda
A abraça-lo, outras mil por toda a cópa,
Que parece um rosal! na terra mirtos!
Lede-me esse letreiro: algum queixume
De infeliz namorado. Oh! ceos, he crivel?
LEI DE AMOR tem por titulo? se fosse
Da propria mão do Nume aqui gravada!
_Amar, amar! viver d’amores!_
_Que o tempo off’rece e nunca espera;_
_Aos corações bem como ás flores_
_Não se renova a Primavera._
Oh Lei, porta de Elisio antes da morte!
Sim, sim, de Amor tu es; vós sois das Graças
Coroas que a ufanaes, a encheis de aroma.
Socios, ministros das Piérias Deozas,
Erguei mão não profana ás flores sacras,
Privilegio he do estro, ouzai colhê-las:
Levará cadaqual no peito a sua
Bem sobre o coração, tão perto d’elle
Que ouvindo-o palpitar lhe falle amores.
Pois he lei quero amar: sim. Porém onde
Onde estará da Primavera a Deoza?
Por toda a parte os seus vestigios nóto,
Mas não a posso achar. Ah! vós que rides,
A insólita paixão julgaes chimera.
Existe, existe a Virgem graciosa,
Dos Ceos a Filha occulta anda na terra:
Não são sem divindade estes prodigios.
Quem faz tão branda murmurar a fonte?
Quem abre a rosa na materna planta?
Quem dá cheiro á violeta, e côr ao lirio,
Ao ar fresco o regalo e verde aos campos?
Quem poesia de amor ensina ás aves?
Quem é que influe no coração dos homens
Tanto amor, tanta paz, doçura tanta?
Existe, existe a Virgem graciosa,
A minha doce Amante, a minha Amada,
Dos Ceos a Filha occulta anda na terra.
Sinaes de sua mão, pizadas suas,
Fragrancias que espirou, por toda a parte
Me envolvem, me arrebatão, me endoidecem;
Mas busco-a e não se mostra; exclamo, he surda!
O dia he fallador, he distraído,
Deidade virginal recêa o dia,
Casta, só quer talvez ás castas sombras
Revelar seu misterio, abrir seu peito.
Oh quem me dera que baixasse a noite!
Da noite no pacífico silencio
Côa pelo ar vazio o som mais leve:
Por isso a Filomela a quiz por sua,
E o mocho lhe confia as longas queixas:
Quem me ja déra que baixasse a noite!
Irei clamar do cume dos outeiros
“Ó Primavera, ó minha Primavera!”
E depois que trez vezes repetirem,
Ao longe os echos meu tristonho grito,
Attento escutarei se me responde.
Se nada ouvir, prostrando-me, e cobrindo
De igneos beijos a terra (os igneos beijos
Tem valor de conjurio entre amadores)
Com maior devoção, dobrada fôrça,
Clamarei “Primavera, ó Primavera!”
E os campos todos correrei bradando.
Na solitaria gruta alguma Ninfa
Ha de acordar, e á parte do oriente
Lançar a vista, procurando a aurora:
A aurora não virá, e eu longo tempo
Andarei pelas trevas suspirando.
Se trez vezes o sol descer ás ondas,
Sem que possa encontrar a minha Amada,
E sem que algum mortal dê novas d’ella,
Apagarei no peito o incendio inutil,
Pensando que era ingrata, ou que por sonhos
Somente a víra em extases do estro.
Mas viver sem amar, sem ser amado?
Vida entre gelos equivale á morte,
No pasto ao coração mantem-se a vida;
Sois brandas affeições, a essencia d’ella.
Confessar-me da Lei que abrange a todos,
O primeiro infrátor? Ó Chlóe, ó bella,
Serás tu d’entre mil, o preferido
Emprego aos versos meus e aos meus excessos.
Ja tens da Primavera o genio, as graças,
Sua fama terás, terás seus hinos.
Quando com teu rebanho para o rio
O bosque ao fim da tarde atravessares,
De longe me verás na flórea margem
Sobre um penedo a celebrar teu nome.
Quando o quente redil ao gado abrires
No frescor da manhã, dir-te-ha meu rosto
Que entre as da tua porta arvores caras
Não fui amanhecer, mas toda a noite
De amor andei cercando o teu descanço,
Sentindo-te o respiro, ou crendo ouvi-lo.
Quando na sésta, á sombra da oliveira
Tiveres descuidosa adormecido,
Em sons de flauta escutarás por sonhos
O cantar novo que te mais recreie.
Mas vede como leve escapa o tempo!
Ja alto e rijo o sol encurta as sombras.
Largo se ha divagado! Hora purpúrea,
A mais social, mais folgazã das horas,
Chamando está por nós co’a mesa agreste.
Onde a iremos tomar? n’algum tugurio
De solitaria Baucis? nem de feno
Pobres tétos consente o sacro Dia.
Ali temos o outeiro alcatifado,
Rico montáõ de flores! Que mui frescos
Pela assomada os louros se entrelação!
Mas sobre tudo que aprazivel gruta!
Por fóra he de hera um tufo luzidio,
Dentro um fôrro de musgo. Alvitre novo
Ó Socios escutai. Esta collina
Desde hoje para nós fique Parnaso.
Eis a gruta de Cirrha, onde costuma
Febo sonhar magníficas imagens!
Esses louros são delle! Aquella fonte
(Ceos nada falta!) he fonte de Castalia!
No remanso diáfano boiando
Niveos ganços as azas empavezão;
Fingi-lhes doce a voz, chamai-lhes cisnes:
Lindas pastoras nossas Musas sejão.
Respiremos o estro! Ó lá de Cirrha
Virações, acudi-nos contra a calma:
E vós louros selvaticos, ó louros,
Velai com vossa abobada frondente
Os vates e o banquete, o rir e os versos.
A primeira saude a Bacho e Ceres,
A Palles e Pomona, ora presentes
Do banquete á rural simplicidade.
Para dias iguaes, plantar-lhes voto
Cá bem no viso do sagrado outeiro,
Densa cabana de perpetua folha:
Para aqui, de canceiras feriados,
Viremos amiude abrir os peitos
Ao bachico folguedo, a Amor e aos cantos,
Co’a alegria assombrar, e co’a amizade
Do loureiral as Dríades vizinhas.
Na venturosa paz d’este retiro,
Não virá perturbar nossa humildade
Com seus trovões, com seus _coriscos horridos_
Turba sublime de soturnos vates.
Alçando o collo, enfaticos praguejem
Contra os _tirannos_, contra os _monstros barbaros_;
Pintem de rôjo os _prepotentes déspotas_,
Fulminem os _perversos aristócratas_,
E fujão por estudo á natureza.
Não lhes invejo, não, a bronsea tuba,
Que despede trovões e rasga ouvidos.
De nosso humilde genio estou contente:
Nada mais temos que uma agreste flauta;
Com ella muda, ás vezes longas horas,
Da natureza os quadros estudâmos.
Socios dos rouxinoes, só diffundimos
Depois de meditar, nossos gorgeios;
Em quanto o mocho a luz aborrecendo,
Nos amenos vergeis nunca discorre;
Dorme o formoso dia em cava furna,
E sólta pela noite horrendos guinchos,
Pouzado junto ao ceo, mas entre horrores.
Elmiro, ó tu que, tanto como odêo,
Odêas as sonoras bagatelas,
E ris, como eu, dos estrondosos nadas;
Nunca te afastes da florída róta,
Por onde a Natureza o Genio chama.
Da madrugada nos mimosos sonhos,
Costumas ver de murtas coroada,
A amavel Sombra do risonho Géssner.
Oh! quando aos campos teus um dia voltes,
Á sombra do teu cedro será doce
Ouvir-te prantear perdida amante!
Entre as folhas cheirosas susurrando,
Qual favonio indeciso, os Manes d’ella,
Mansa tristeza ao coração te enviem.
Emquanto no escarceo da grão Cidade
Eu misero, eu saudoso andar lutando,
La no fertil torrão verás contente
Por ceos de teu jardim nascer a aurora:
Regarás pela fresca as flores tuas
Junto da terna Mãi, que este só gôsto
Na morte conservou do esposo amado;
Triste e formosa qual viuva rôla.
Outras vezes as pombas que sustentas,
Terno irás vizitar co’as Irmãs bellas,
Qual entre as Graças passeára Adonis
Nos arvoredos da ociosa Chipre.
Elmiro, ¿e alguma vez tambem meus versos
Serão do teu retiro um passatempo?
Quando eu tos enviar, vós reunidos
Junto do fogo nos serões do inverno,
Contentes os lereis; e tu, girando
Co’a vaga idea nos passados tempos,
Dirás a suspirar “He meu amigo”.
FIM DO CANTO PRIMEIRO.
O DIA DA PRIMAVERA.