Descendit _ad Inferos_; tertià die
resurrexit à mortuis; ascendit ad
coelos, sedet ad dexteram Patris,
indè venturus est judicare vivos
et mortuos.
Credo in Spiritum sanctum, in sanctam
Ecclesiam catholicam et apostolicam,
in communionem sanctorum, in
remissionem peccatorum, carnis
ressurrectionem et vitam æternam. Amen.
(_Symb. apostolorum_).
I
O Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos
infernos. Não é o Evangelho que o refere; é um documento não menos
venerado, o qual, com o _Pater_ e _Ave_, é parte das orações que a Egreja
ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior á redacção
dos Evangelhos e resumo da fé apostolica: é o _Credo_.[9]
Jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova: Satanaz vencido,
os peccadores resgatados, o céo aberto aos que oram, aos que choram, aos
que soffrem. Para estes exclusivamente é que seu sangue aspergiu o chão
do calvario. Jesus não dispensa da penitencia os que morreram culpados;
mas dá-lhes a esperança que as antigas crenças deixavam luzir na terra
sómente, e apagavam no tumulo.
Sei de sobra que os theologos querem que o inferno, visitado por
Christo, não seja o verdadeiro inferno; mas sim o limbo, o purgatorio,
os seis primeiros circulos da Géhenna, e não o ultimo. Esta distincção,
porém, não está no _Credo_. O inferno ahi diz-se com todas as letras, e,
mais pelo claro, _os infernos_, como quem indistinctamente diz todos os
logares de soffrimento onde podem penar os mortos.
«Desceu aos infernos, diz o _Credo_, e ao terceiro dia resurgiu dos
mortos.»
Quem eram esses mortos com quem Jesus passou trez dias? A interpretação
natural é--todos os homens que, desde o principio do mundo, haviam
desparecido de sobre a terra; não só patriarchas e prophetas, senão
todos os judeus; não só todos os judeus, mas todos os gentios. Eis aqui,
entendidas ao natural, o que dizem as palavras: «Desceu aos infernos, e
habitou trez dias com os _mortos_.» Quereis dar áquellas palavras
uma accepção espiritual? Temos ainda mais. luz na questão. Os mortos
espirituaes são os condemnados, os que eram considerados em perpetua
privação dos resplendores eternos. Não são os prophetas, os patriarchas,
os eleitos, os santos, nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam
merecido as penas temporarias, por que não estavam espiritualmente mas
só carnalmente mortos, crendo, esperando, amando, vivendo. Seja qual for
a interpretação adoptada, leva-nos a concluir o inverso do que os
theologos affirmam. Do citado trecho do _Credo_ colhe-se que Jesus desceu,
não só ao limbo, mas tambem ao inferno, não só aos patriarchas que
esperavam sua vinda,--explicação acanhada e violenta dos hebreus
conversos e dos christãos judaisantes--mas aos mortos de todos os tempos
e paizes, aos peccadores que a lei antiga e antigas crenças haviam
ferido de morte espiritual, eterna, incuravel, da verdadeira morte. O
Redemptor, o Crucificado, o Messias visitou-os, mostrou-se-lhes, e elles
rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos
aridos. Jesus não destruiu o inferno; converteu-o em purgatorio. Do
inferno judaico e gentilico fez o inferno christão, inferno que corrige,
inferno onde ha o chorar sem blasphemar, onde ha o soffrer sem
desesperança nem rancores.
Outras luzes póde dar o symbolo dos apostolos ás almas piedosas. Mais
abaixo, diz: «Creio na vida eterna» mas não diz: «Creio na morte
eterna.» Este horrivel dogma não se lê no credo apostolico. Se ahi
se falla em infernos é para nos ensinar que Jesus Christo lá foi,
e de lá sahiu, mas como devia sahir, vivo, glorioso, triumphante e
bemdito.
Diz finalmente o _Credo_ que Christo subiu ao céo, onde está sentado á
dextra do Padre, d'onde virá a julgar _vivos e mortos_.
Quaes vivos? os justos? Quaes mortos? os peccadores, os ultimos
povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas
mansões onde a esperança radiou com o Christo quando tudo foi consummado
na Cruz? Não é possivel que uma só palavra tenha dois sentidos com tão
breve intervallo. Quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim
do terceiro dia sejam os antigos reprobos? Tambem eu quero. Quereis
antes inferir de taes palavras que os nossos avós judeus e os pagãos,
quantos então eram mortos, viveriam, n'outra parte, jubilosos ou
suppliciados? Tambem eu quero. Adoptai um sentido, ou outro, ou ambos
juntamente, que a mim não se me dá d'isso. O que ha de sempre
forçosamente reconhecer-se é que a phrase representa a mesma idêa
significada uma ou duas linhas abaixo. Será, conseguintemente, preciso
confessar que os mortos visitados por Christo são os mesmos que elle
virá julgar quando julgar os vivos. Direi pois logo que na descida aos
infernos, Jesus morou trez dias não entre os justos esperançados, mas
entre os condemnados á desesperação para os ungir de seu sangue,
consolal-os e salval-os. E, senão, para que os visitou?
Faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana,
se do _Credo_ se colhe o dogma das penas eternas. Não está lá: o contrario
é que está. O veneravel texto é mil vezes mais luminoso que todas as
glosas dos doutores.
[9] Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos
gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte
do divino Mestre, se reuniram e compozeram o _Credo_, elenco das
verdades cujo ensino lhes fôra confiado. O Evangelho ainda não
corria escripto. Só depois da separação, é que foi composto o de S.
Matheus, que antecede a todos. O symbolo da fé apostolica tambem não
andava escripto; mas ensinava-se de cór aos fieis, e por isso longo
tempo se conservou na Egreja, bem como a tradição egualmente oral da
sua origem.