Da auctoridade da Egreja

Diz-nos a Egreja catholica que é preciso crêr o que ella nos ensina como

se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos nós peccamos antes

de nascer, e que a Virgem, mãe de Christo, nasceu sem peccado--o que se

não acha no evangelho--devemos acredital-o como se o evangelho o

dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os

textos, umas vezes prende-se á letra, outras descobre um entendimento

occulto que só ella vê, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a

tradição oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova

synagoga continúa no tempo e no espaço a immortal cadêa, guardando, diz

ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres.

A Egreja catholica é mais que a imagem de Jesus Christo: está

consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do

presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellação,

devemos consideral-a sempre como viva incarnação do Verbo eterno. Seria

a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella não asseverasse a

autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se não recebesse a

missão de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade

n'este mundo, já a da razão, já a dos livros sagrados, sóme-se

absorvida na soberana auctoridade d'ella.

Esta segunda prova do inferno é de natureza analoga á primeira: é

mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no;

negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e

centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o

exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de

Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos

martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja--o que elles

qualificariam de idolatria. Não posso abster-me de relatar algumas de

suas objecções, as quaes, bem que sejam forçadas sobrenaturalmente com

versiculos do Apocalypse ou das Visões de Isaias, nem por isso me

parecem menos debeis.

Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da

Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias

da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres

arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; não,--dizem outros--isso é

pessimo--; e os terceiros sustentam que não se deve fazer nada, ainda

que a inacção pareça aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem

actos manifestamente culposos aos olhos da razão, já prohibidos por lei

natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso não convence que

possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos é que nos

guiem no lance em que os outros conductores nos abandonam, nos

pontos em que elles se desavém, em que se calam; emfim, na conjunctura

em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes

occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. Não affrontemos com os

casuistas multidão de problemas onde o nosso partido seria grande;

busquemos antes, nas relações da vida civil, um só d'esses factos

duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana está indecisa. Vá de

exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questão muito pelo

alto.

Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro

valor, gratuitamente? É, pelo contrario, licito haver parte dos lucros

da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como

principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual, á maneira da

esmola, é um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria

nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos,

e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o

emprestimo gratuito é o unico bem consoante á equidade natural, e que a

minima usura é roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor

especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade

do emprestimo como obrigação moral. Tal preceito usurparia á mediania

económica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias

não arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o não

acoroçoasse esperança d'um beneficio adequado ao serviço que

presta e aos perigos que corre. Os que nada tem caíriam, por

conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente.

Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos,

multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva,

estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o

desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O

emprestimo a juro é logo geralmente admittido como justo e fertil em

toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos

obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crédor?

Como se hão de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes

do crédor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differença entre a

qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal

mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, ás vezes

pequenissimo, casos haverá em que seja pezado; mas, como é legal, pezará

com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Será elle até

motivo a encarecerem os generos, e redundará em incommodo e vexame. Tal

é, quando menos, a opinião de celeberrimos philosophos.

Mas deve-se, como elles querem, deixar livre plenamente a vontade dos

contrahentes?

Cuidar-se-ha que tudo isto é mera questão de economia politica: não é

verdade. Aqui, mais que tudo, militam questões moraes complicadas

e de alto melindre, de interesse quotidiano e universal, questões que

enliçam elevadissimos espiritos, e sobre as quaes devemos, por isso,

interrogar a Egreja.

Se consultamos os canones dos concilios, e nomeadamente os de Nicea,

d'Arles, de Carthago e de Elvira, achamos que a Egreja condemna, em

theoria, o emprestimo a juro. Na pratica, porém, tolera-o. Não

insistamos na contradicção. Se é permittido o emprestimo a juro, quaes

são as condições? Tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor?

Quem é? O Estado? Se é o Estado que fixa a taxa do juro, é o Estado quem

definitivamente decide do que Deus concede e do que Deus prohibe, do que

é e do que não é peccado, e por tanto a lei divina varia com a phantasia

da lei. Se não é o Estado, é o uso da terra? Ha nada mais injusto e

irregular? Que principio cumpre adoptar? Onde está o direito? Onde o

abuso? Que é da regra? Não ha nenhuma? Não ha. A tal respeito é tamanha

a desordem entre os theologos como entre os estadistas, e philosophos, e

economistas e jurisconsultos, e entre os confessores e penitentes. Varia

em cada diocese a jurisprudencia: não vamos tão longe; varia em cada

parochia. Mudai de confessor, e vereis que o mesmo facto, cercado das

mesmas circumstancias, muda o nome: peccado mortal, injustiça,

expoliação no confessionario á direita, acto licito no confessionario á

esquerda, debaixo do mesmo campanario, em nossas opiniões, e o seu facho

milagroso vasqueja ao pé do mesmo altar. Um parocho vos condemna

e outro vos salva. Parece pois que a infallibilidade ecclesiastica é

aleijada n'esta questão vital em que os ricos a invocam para

tranquillisarem suas consciencias, e os pobres para satisfazerem as

necessidade do corpo e as da alma, porque elles pedem de emprestimo para

trabalhar, para nutrir os filhos, educal-os, casal-os, auxiliar os seus

parentes velhos, e sepultal-os, e para isso é mister que achem quem lhes

empreste.

Quanto a materia politica, reinam as mesmas contradicções e incertezas

dos negocios civis. Ha factos criminosos perante a razão, e todavia são

absolvidos e até glorificados por uma parte do clero, sem excepção dos

bispos, ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a

meia voz; mas de modo que a ouçam. A carnificina chamada de _Saint

Barthélemy_ foi approvada em Roma e celebrada em quasi todos os

pulpitos. A revocação do edito de Nantes foi approvada pelo Papa e pela

maioria dos bispos. Sobejar-nos-hiam exemplos, se os quizessemos, sem ir

tão longe. Por outro lado, ha factos legitimos, heroicos, louvaveis,

perante a razão, e esses são malsinados e condemnados como crimes por

parte do clero, sem excepção dos bispos, ao mesmo passo que outra parte

do clero os approva, e ás vezes tem parte n'elles. E tambem do clero ha

porção que se abstem de julgar taes actos. As ultimas insurreições da

Polonia e Italia nos dão exemplo recente e ainda sanguinolento. Aquillo

que um Papa censurou, e outro Papa stygmatisou, outros padres

applaudiram, alentaram e abençoaram! Estas diversidades de opiniões

sobre successos tão graves, e culpaveis, se o são, tão admiraveis pelo

contrario, se não são culpaveis, manifestam-se no secreto do tribunal da

penitencia como nos escriptos e actos publicos. O confessor de Carlos IX

considerou d'Orther subdito rebelde porque recusou ser assassino.

O bispo de Abranches talvez negasse a absolvição ao confessor de Carlos

IX. Tal italiano, injuriado por um frade, seria festejado pelo seu cura.

De maneira que á vista d'uma auctoridade moral infallivel, bastantes

catholicos, testemunhas d'este espectaculo, vendo para onde Roma pende,

perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos, e meios de

fazerem respeitar os seus direitos; se a desobediencia ao rei é só

permittida em materia de dogma; se a liberdade, o trabalho do

pensamento, da escripta e da voz não merecem ser defendidos, comtanto

que vos deixem a liberdade de rezar; se ha outra patria além da Egreja;

se o servilismo, já cégo, já illustrado, não é a principal virtude

civica; se, emfim, n'este mundo o belprazer dos poderosos não é a

suprema justiça. Estas e muitas outras perguntas tem sido

contradictoriamente respondidas pela Egreja, que não sabe melhor que nós

onde estão bem e mal, virtude e crime, em conjecturas solemnes e

frequentes, nas quaes bem e mal, virtude e crime avultam a proporções

enormes. A Egreja hesita comnosco, duvida comnosco, bandeia-se e

apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano é

forçado a entrar, as quaes inevitavelmente conduzem ao céo ou ao

inferno. A Egreja sabe que a Virgem foi concebida sem peccado; conhece a

gerarchia dos anjos; dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente, e

a ignorancia saudavel; porém, se procuramos regras de proceder, esteio e

guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai

resplandecer, activar-se e resolver a questão, a Egreja perturba-se,

balbucia, contradiz-se e desampara-nos á discrição.

Como é então que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de

esquadrinhar na Biblia as regras da nossa fé, allegando que a Biblia é

livro inintelligivel para nós. E, se lhe pedimos a razão d'isto, abre o

livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e

sentido só ella garante e explica. É ahi que ella pretende mostrar-nos a

prova que lhe pedimos; mas nós sustentamos que ahi não ha tal prova.

Além d'isso, se é mister crêr primeiro na Egreja quem houver de crêr nas

Escripturas e entendel-as, que argumento é esse? Póde qualquer, em um

processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle só se

constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que é

infallivel, mas abstenha-se de o provar.

Eu por mim não creio. A infallibilidade é um attributo incommunicavel de

Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem

infalliveis, não bastaria respeital-os, seria mister adoral-os.

Disso nos defenda Deus! São homens como nós. E, quando o Espirito Santo

nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o

querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor.

Assim fallam os protestantes. Não digo que taes discursos sejam

concludentes: não me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do

anterior inferimos uma conclusão cuja justiça creio que ninguem

contesta.

O Inferno · 第 124 / 158 题