Da auctoridade da Biblia

Ninguem nega que a Biblia contém brilhantes verdades; mas essas

brilhantes verdades não nos encantam por estarem na Biblia; em qualquer

parte onde as vissemos, as amariamos por seu natural resplendor. Da

natureza d'ellas, as encontrais nos escriptos dos antigos sabios. São

taes verdades como a noiva dos Cantares: a sua belleza é toda sua, e não

reflexa, e todo seu imperio lhes promana da formosura.

Porém, a Biblia tambem encerra pensamentos que, pomposamente vestidos,

nos tocam o espirito por inverso modo. Quanto mais os examinamos tanto

mais os regeitamos. Afóra a visinhança, nada tem commum com as

sympathicas verdades, entre as quaes se nos deparam. É-nos, todavia,

prohibido de as distinguir, e confiar em uns com desconfiança

d'outros; dizem-nos que tudo é verdadeiro, e verdadeiro com o mesmissimo

titulo, não porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que

outras, mas porque se acham escriptas n'aquelle livro.

Dispensam-nos de procurar na Biblia o cunho interior que Deus gravou na

verdade para que a reconheçamos. Caracteres naturaes e distinctivos do

erro podem guiar-nos em tudo; mas na Biblia não. N'outros livros é

facultativo discernir o justo do injusto; para o quê temos regras

certissimas, e instrumentos agudissimos; mas é peccado querer julgar a

Biblia. Cumpre-nos, lendo-a, desconfiar do nosso coração, do nosso

espirito, de tudo, salvo d'ella. Assiste-nos o direito de dizer, como

Platão que Homero ultraja a divina magestade, quando mistura o Olympo

com as paixões humanas; porém, quando a Biblia glorifica a perfidia de

Jahel, e a cavillação de Judith, e o roubo e carnificina dos chananeos,

e faz collaborar Deus em tantas traições e morticinios, não nos é

permittido o duvidar. Se Isaias nos figura o Salvador de Israel calcando

o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar, foliando sobre elle e

sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue,

não seu, mas dos homens, devemos dizer: _Amen!_ eis aqui o bom pastor, o

cordeiro de Deus, a mansa victima do Calvario, o Christo na sua gloria!

E quando o psalmista comparar o Senhor a um homem embriagado do vinho

que lhe redobra as forças e lhe faz expedir pavorosos gritos,

devemos sem escrupulo responder: Assim seja! Claro é que nenhum de nós

quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio;

ninguem ousaria assim fallar de Atila recolhido á tenda, com receio de

ser ouvido; mas similhantes confrontos que envileceriam Jupiter e

offenderiam o rei dos hunos, prodigalisal-os-hemos ao nosso Deus, em seu

templo, attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que nós quaes são

os elogios que lhe prazem. Taes sujeitos nada diziam do seu chefe: tudo

que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava, desde os successos

até ás expressões significativas d'elles. Ora ahi está por que tudo é

sagrado quanto a Biblia contém, e por que tal pensamento, que n'outro

livro trescalaria a impiedade, é, na Biblia, uma adoravel coisa. Ha

n'isso mysterio não menos profundo que o do inferno, se tentarmos

esclarecel-o; e tal mysterio, com que se quer demonstrar outro, promove

discussões que o catholicismo impugnou sempre, servindo-se d'isso como

arma contra os protestantes.

O catholicismo diz aos protestantes: Como sabeis que a Biblia é divina?

Conhecestes Moysés? Quando Deus lhe fallou do cimo da montanha, estaveis

presente? Passastes a pé enxuto o mar vermelho, ou bebestes agua da

rocha de Horeb? Quem vos affirmou que aquelle homem era propheta? Que

provas vedes na Biblia de que não é toda ella obra de homens? Milagres?

Outros livros os contam, e vos fazem rir. Verdades? Outros livros as

encerram sem que as imputeis ao Espirito Santo. Obscuridades?

Coisa naturalissima, sendo tantas em todos os auctores, e nos vossos não

menos. Quem sois vós, para que vos acreditemos, quando nos affirmaes

inverosimilhanças? Não vos conhecemos. Que caução nos dais? Sois

inspirados? Fazeis milagres? Vejamol-os. Não basta dizer: a Biblia é

divina; é mister proval-o irrefutavelmente. O numero dos vossos

partidarios não faz nada á questão. O livro dos Vedas, que se gosa do

foro de divino na Asia, é tão antigo como a Biblia, e não tem menos

sequazes. Se a Deus aprouvesse, communicar-se aos homens por meios

naturaes, como dizeis, fal-o-hia por lances de bondade, com o fim de os

unir, como filhos do mesmo pae, por que, a par e passo que melhor se

conhece Deus, mais se conhecem a caridade e justiça. Como é pois que

tantas nações, presumindo possuirem taes oraculos, em vez de viverem

unidas, luctam discordes, erigindo altar contra altar, injuriando-se,

perseguindo-se, e votando-se reciprocamente ás chammas eternas! O que as

divide é as obscuridades da Biblia; não é as verdades naturaes que lá se

vos deparam. Quem alumiará a escureza em que dizeis está Deus involto, e

no seio da qual os homens se dilaceram, desprezando naturaes e

luminosissimas verdades? Os judeus entendem as prophecias diversamente

do vosso parecer; e, tão de boa fé as interpretam, que sustentam a sua

opinião em desterros, carceres, fogueiras, durante seculos, fugindo, e

deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo. Qual seita

protestante não arrancou da espada contra a sua irmã? Todas tem

tido martyres e verdugos. Isso não nos parece prova da divindade da

Biblia. Nem sequer lhe podereis provar a authenticidade. Os originaes

d'esse livro miraculoso onde param? Perderam-se, comeu-os a traça, como

succede por tempo a tudo que é obra de homens. Porção consideravel

d'esse antigo monumento acabou ás mãos dos hebreus, depositarios d'elle.

O que nos resta são reliquias. Se capitulos inteiros, de que apenas

sabemos os titulos, já não existem, quem vos auctorisa a pensar que os

capitulos subsistentes não foram alterados? Estariam elles a melhor

resguardo? Por quem? Por que? E como? Quem os copiou? Quem os traduziu?

Quem abona a fidelidade de tantos copistas, e a intelligencia e sciencia

dos traductores? Por que signaes se conhece qual é a melhor entre as

copias antigas, e entre as differentes copias antigas? Em qual traducção

confiaremos entre tantas diversas? Reportar-nos-hemos ao livreiro, ao

impressor, ou ao editor? A quem? A mortos desconhecidos, a vivos

ignorantes, ou a sabios sem missão e cuja sciencia nos é ainda

problematica? Pois que venha ahi quem quizer, e mostrando um papel

rabiscado exclame: eis-aqui a palavra de Deus! E sem mais nem menos

ponha-se a gente de joelhos! Á vista d'isso ninguem póde ser accusado de

idolatria. Se não tendes á mão outras provas da authenticidade e

divindade da Biblia, todo o homem cordato regeitará a Biblia, sem salvar

o Novo Testamento. O christianismo foi prégado antes da redacção

dos evangelhos, ás multidões que não sabiam ler. Quando essas prégações

começaram a correr escriptas, os evangelhos eram aos cardumes;

appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de

Jesus.

Quem se entenderia n'este cháos? Quem poderia decidir que o evangelho de

Thiago não era de Thiago, e que o evangelho de João era de João? Quem

poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o

dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as

copias falsificadas de João? A coisa não era de si tão luminosa que

podessemos aceital-a hoje em dia.

No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questão enleava

gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo

Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja não prestaria fé ao

verdadeiro evangelho. Não achava elle portanto nos escriptos de João, de

Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua

divindade; com mais forte razão não acharia a mesma prova intrinseca nos

escriptos de Moysés, de Samuel, de Esdras e outros prophetas.

Se eu não debilitei, resumindo-as, as razões com que os catholicos

intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o

que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida

das Escripturas. Passemos á segunda prova que é o testemunho da

Egreja.

O Inferno · 第 122 / 158 题