Entretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo
o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado,
quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de
peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa
presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis
dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso
que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga
ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e
Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado
e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor,
apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»
Apiedai-vos d'elle, Senhor!--dirão todos os bemaventurados--que elle,
sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz
culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que
grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz
tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em
cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos
amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos
prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi
amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por
quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o
mundo estaria resgatado.
Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e
lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os
olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis
é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros
commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que
derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes.
Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando
pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos
haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o
soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos
injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que
fazem!»
E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a
blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita
divindade; perdoou-lhes o que a justiça e caridade querem que se perdoe
aos insensatos e aos cegos, e a quantos _não sabem o que fazem_. O que
ficou sobre elles pezando é o peccado contra a humanidade, por
que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a
commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado
por vossas lições e exemplos, e resgatado por vosso sangue.