VIII

Entretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo

o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado,

quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de

peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa

presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis

dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso

que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga

ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e

Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado

e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor,

apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»

Apiedai-vos d'elle, Senhor!--dirão todos os bemaventurados--que elle,

sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz

culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que

grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz

tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em

cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos

amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos

prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi

amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por

quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o

mundo estaria resgatado.

Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e

lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os

olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis

é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros

commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que

derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes.

Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando

pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos

haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o

soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos

injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que

fazem!»

E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a

blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita

divindade; perdoou-lhes o que a justiça e caridade querem que se perdoe

aos insensatos e aos cegos, e a quantos _não sabem o que fazem_. O que

ficou sobre elles pezando é o peccado contra a humanidade, por

que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a

commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado

por vossas lições e exemplos, e resgatado por vosso sangue.

O Inferno · 第 116 / 158 题