_Lux in tenebris._
Lêde no Evangelho de S. Lucas, capitulo XVI, a parabola do rico
avarento.
Do fundo do inferno, o rico avarento levanta a voz para seu pae Abrahão:
«Compadece-te de mim, e manda cá a Lazaro, para que molhe em agua a
ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a lingua.» Lazaro não se bole,
em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talião; cabe agora
ao opulento mendigar, e ao pobre fartar-se.
O rico avarento baixou os olhos, e não pediu mais agua: resignou-se, não
murmurou, não blasphemou, renunciou a gottinha d'agua como renunciára as
vestes purpureas e as regalias da meza. Todavia, ainda outra vez se
dirigiu ao pae Abrahão: «Eu te rogo que o mandes a casa de meu
pae, pois que tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, não
succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento.» E Abrahão
lhe disse: «Elles lá tem Moysés e os prophetas: ouçam-os.» Ainda assim,
o padecente insiste: «Mas, se algum morto lá fôr, elles farão
penitencia.»
Ahi está mudada não só a fortuna do rico avarento, mas o coração tambem.
Eil-o humilde, supplicante, submisso. Recebe as recusas sem irar-se; e,
em meio de suas dôres, lembra-se enternecido de cinco irmãos que deixou
na terra. Não lhes inveja os haveres; pelo contrario, quer incutir-lhes
caridade, e só por amor d'elles importuna o seu ascendente Abrahão.
Porém, Lazaro e Abrahão sahem-lhe tão rijos como elle tinha sido para
com as dôres alheias. O tal Lazaro, cujas chagas os cães lambiam,
tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os
cães. Refocila-se nas delicias do ceo, como o rico avarento se
refocilára nas da terra, e esqueceu o que era penar, e o que se deve a
quem pede. No tocante ao patriarcha, esse, em vez de consolar o neto
supplicante, desespera-o; e, a segunda vez que o desgraçado ousa
pedir-lhe um milagre de bondade, não para si, mas para os irmãos, que
lhe responde o outro? Responde seccamente que os irmãos lá tem as
escripturas tão dignas de credito como os mortos, pelo menos.
Admiravel, mas, para theologos, incomprehensivel parabola! Eis aqui o
inferno converso, repêso, enternecido, o rico aváro deplorativo e
caridoso, e por cima, um ceo de bronze, uns santos descaroados.
Este não é o inferno judaico, é christão; mas o paraiso esse é que é
judaico, e não christão.