Affirmam os theologos que a liberdade é um mero accidente da nossa vida
mortal, e que, além da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a
dera, e quebrando entre nossas mãos, no momento da morte, aquelle
instrumento de nossas provações. Os justos são esbulhados d'ella para
permanecerem justos, e os máos tambem para ficarem máos. Diz-se que
Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no céo
não houve mais creaturas livres, nem tão pouco no inferno, onde o
proprio archanjo está acorrentado ao peccado.
Não são, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas não
lhes é concedido meditar, amar e querer senão maldades. Soffrem e sabem
o porquê; mas não podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem.
Conhecem os seus crimes; porém, não se arrependem, porque o
arrependimento é um bem, e o bem não podem elles sentil-o. Se peccam
sempre, é que a tanto são obrigados por sentença. Conservam razão e
sentidos; mas consciencia não a tem, não discernem entre justo e
injusto; não são senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos
sentidos, apezar da razão.
Esta escravidão absoluta, irremediavel e eterna, explica
superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de
todo em todo lhes é impossivel a conversão, inutil e deshumano é o
castigo corporal que os tortura.
Se não fosse a perpetuidade d'esta escravidão, seriam intelligiveis a
fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda,
os tractos a fogo e ferro. Vá d'exemplo: eis aqui um criminoso
impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas
as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? Não. Que vá, n'outro
mundo, saber á sua custa o que é dôr, e que piedade merecem os que
soffrem. Deus é bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer
bradar por misericordia; é justo que o não poupe; exige-o a humanidade,
com a condição de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto é,
um ser não só intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia,
susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do
arrependimento; se, em vez do homem, o que temos á vista é um mero bruto
sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem a dôr nada ensina, e a
razão nada presta, máo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso,
gemente... ah! quem falla ahi de justiça? desfaçam por piedade esse
monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida
lhe foi a innocencia.
Quando uma creança brinca á beira de um poço, e cahe apezar dos avisos
da mãe, a pobre mãe não respira em quanto a não salva; corre logo sem
attender á desobediencia, porque a vê mais carecida do soccorro quanto
maior é o perigo; para castigo lhe basta a quéda. Que diriam os
theologos, se aquella mãe, em vez de tirar do poço o filho, lhe fosse
quebrar braços e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos
imaginam que Deus faz, é aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem.