Da immortalidade das penas espirituais do inferno.
É pois o inferno um máo logar, trescalando ao vicio e ao crime. Os
demonios, guardas d'este máo logar, e professos na corrupção, usam do
imperio que sobre os hospedes lhes é permittido, corrompendo-os
incessantemente e sem lucta nem obstaculo.
É propriedade d'elles a alma dos condemnados. Deus, entregando-lh'a para
que elles façam d'ella o que poderem, não lh'a disputa e bastantemente
sabe o que elles farão.
Se as adições espirituaes dos condemnados fossem sómente crueis, seria
isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas; mas,
além de crueis, impuras, é um direito, é até um dever negal-as. É certo
que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros
soffrimentos; mas são transitorios: uns morrem, alguns curam-se, e
outros endoidecem: é outro genero de morte. Mas no inferno os furores
sensuaes, os appetites phreneticos não matam nem remedeiam, não são
venenos nem balsamos, são penas sem fructo e sem fim.
«Que condemnação, diz S. Bernardo, a da vontade amarrada á precisão de
crêr o _mal_ e não crêr o _bem_; por tal modo que de qualquer maneira
que se mova, é sempre _criminosa_ e miseravelmente! Não ha de gozar
jámais os prazeres _culpaveis_ que deseja; e as _privações_ que ella não
quer é as que ella ha de ter por toda a eternidade.»
Crêr o mal e não crêr o bem, é logo o resultado d'aquella condemnação.
Por sentença do juiz, e de que juiz! é que lá eternamente se anceiam
impudicos prazeres, ao mesmo passo que o espirito soffre a privação dos
sentidos. Montesquieu, que, a fallar verdade, não era padre da Igreja
nem monge, formava outra idêa da natureza moral das penas destinadas a
servir de sancção aos accordãos da justiça da terra propriamente. Lêde
no _Espirito das leis_ certo capitulo intitulado: _Da violação do pudôr,
no castigo dos crimes_. Assim começa o capitulo: «Ha regras de pudôr
observadas em quasi todas as nações do mundo: absurdo seria violal-as no
castigo dos crimes, o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento
da ordem.»
Ainda que Montesquieu m'o não dissesse, a cousa é evidente por si.
Satrapas em delirio, Cezares devassos, tyrannos corruptissimos, póde ser
que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um
bordel, e que, ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo,
convertessem a excitação dos sentidos em supplicio legal, deshonrando a
lei para deshonrar o inimigo. Em todos os paizes civilisados
castiga-se para restabelecer a ordem material e a moral quanto
póde ser.
Cuida-se em esquivar o culpado ás seducções que o perderam; impedem-no
de ser nocivo a si e aos outros; privam-no de satisfazer as paixões, não
com o intento de lh'as irritar, mas de enfraquecel-as; sequestram-no da
companhia das pessoas de bem, não para que as odeie, mas para que as
chore; deseja-se que a sua maior afllicção consista em havel-as
offendido, e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio
d'ellas; protegem-no contra a injuria; enviam-lhe a visita de caridade
que o instrue, consola e ás vezes restaura. Estas conversões são raras
certamente; quasi todas as nossas prisões são infectas; ahi a soledade
corrompe; e a promiscuidade é contagiosa. Sabem-no os legisladores, e os
juizes tambem. Não se diz, porém, que assim o querem juizes e
legisladores? E, na verdade, querem-no assim!? Que se nos depara ahi
senão o stygma da imperfeição das nossas obras, e a pequenez de recursos
em comparação dos desejos? Mas nem por isso nos sentimos descrer dos
intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a
ordem perturbada, onde quer que seja, e até na alma do criminoso. O que
a mesma imperfeição nos aconselha é que prosigam sem descanso no
intento, que será completamente realisado no mundo em que a justiça é
perfeita, e o poder do principe igual á sua justiça.
Não nos mostrem, pois, no inferno, uma galé immensa, repleta de
impudentes scelerados, porque vos será perguntado se Deus não póde, mais
que os homens, vencer corações rebeldes, ou se mais lhe praz exercitar
sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que nós, philosophos e
christãos, bem quizeramos que fosse banido.
Esta concepção do inferno, tão ignobil quanto atroz, data visivelmente
de tempos barbaros, em que a vida physica afogava a moral, e a justiça
não transparecia aos olhos propriamente do sabio senão atravez da nuvem
sanguinosa da vingança.
Punir eternamente o vicio com o vicio, a immoralidade com a
immoralidade! que projecto! e, na execução d'elle, que prodigio! Pois
não basta justiçar o homem no corpo? Será preciso que o aváro, durante a
tortura, arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram
e tantas dôres grangearam? Ha de o comilão, deitado sobre grelhas em
brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira? O voluptuoso,
comido de chammas e de bichos, ha de estar sempre a lagrimar pelas
parceiras? Acham isto possivel? Sendo assim, no inferno sabe-se melhor
do que na terra o que valem riquezas, prazeres, divisas, veneras,
medalhas, sceptro e arminhos. Ahi, ser-se-ha, de facto, blasphemo, e
intencionalmente devasso, adultero, usurario, despota, valido, mas tudo
isto sobre brasas? Havemos de confessar que o local não é dos melhores
para taes desejos, e que só por milagre, em tal sitio e por muito tempo,
possa haver similhantes delirios. Ora ahi vedes que se attribue a
Deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens,
immobilisando-as em appetites que o offendem. É o peccado eternisado, e
eternisado por Deus. Não cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados.
Não os accuseis; lamentai-os; que esses infelizes não são viciosos de
vontade propria: é a lei que os obriga.