O inferno espiritual

Em que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os

dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse

tempo illimitado em que os segundos são seculos, e os seculos menos que

segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto

perpetuo o inferno, não ha dous modos de resolver aquellas perguntas.

Uma breve reflexão vos dará a resposta que os theologos tem dado

perfeitamente conforme a todas as tradições.

Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de

assassinos, uma caverna de ladrões, um bordel immundo; soltai ao mesmo

tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma

optima pintura do inferno espiritual, isto é, o estado mental dos

condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos,

apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente

vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis,

eternamente impios, eternamente sandeus.

Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas

ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes

de que ávidamente estão sequiosos e privados. Os demonios, que os

castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades,

e insensatos desejos, dos quaes nada póde distrahil-os, nem sequer as

dôres corporaes, e agudissimas de que são atormentados todos os seus

membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem é executar as

sentenças do soberano juiz--sentença promulgada no céo, pela qual são os

reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seu

_Commentario aos psalmos_: faz-se mister que tudo quanto deliciou os

homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando

castiga. O desejo saciado é, pois, punido com o desejo insaciavel.

Não imaginem que no inferno haja uma só alma que deplore a sua

innocencia baptismal, e o céo promettido que ella perdeu, e a companhia

dos anjos, e a bemaventurança dos eleitos. Os precitos fogem de Deus,

não o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos

tormentos que soffrem. De certo os angustia estar tão longe d'elle; mas

é angustia de raiva que não tem nada que vêr com as saudades e anceios

do amor.

Não pensem que entre as alegrias cuja perda lá nos dilacera o coração,

estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos anciãos, as meiguices

das creanças, a ternura dos irmãos, a dôce confiança dos amigos, as

consolações do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias

eram aquellas de certo para os peccadores; mas os condemnados nem

as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e,

pelo que toca ás affeições terrestres, mortas são todas: resta-lhes o

odio sómente. A mãe que está no inferno, se tem um filho no paraizo,

abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e é

correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma

sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmãos e irmãs, amigos, tudo lhe é

igualmente odioso.

O que os condemnados mais ardentemente desejam é coisa que se beba e se

coma, e além d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal.

São de tal sorte as suas disposições em meio de tantos soffrimentos que,

se um só d'esses condemnados podesse por um momento voltar á vida,

escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justiça da

condemnação que os fere; mas é para amaldiçoal-a; e, bem que não sejam

atheus, por que tal não podem ser em similhante lugar, são mais

scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sêl-o uma

nação de atheus. Uma nação de atheus, não sendo composta de immortaes,

temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperança, e tiraria

d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel

e brutal; mas no inferno não ha que temer nem que esperar. Ha ahi um

retouçar-se na dôr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem

os satisfazer. Ahi é tudo obscenidade, egoismo, opprobrio,

hediondez, a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima,

sem piedade, sem consciencia.

A blasphemia é a unica distincção que separa os condemnados das feras

assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos,

dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis. É logo a blasphemia o

unico symptoma de razão que se lhes deixa, a sua unica e ultima

grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia é

um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um

condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou

tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis

os santos n'este abysmo, o condemnado que não blasphemasse seria um

bruto infecto.

É portanto de justiça que os façam blasphemar; d'isso inferimos que

elles tem alma; e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem; e,

se não podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora, desforram-se

saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o Deus que os pune

por tão singular maneira.

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O Inferno · 第 84 / 158 题