Os martyres de Nero

Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos

que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu

systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais

formosa, assacou o crime aos christãos, gente indocil que o não

bajulava, e cria em justiça mais amavel que a d'elle, e por esta e

outras razões desagradava á plebe idólatra. O processo foi summario; a

sentença de morte, e a execução espantosas, como vai vêr-se.

Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados

distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados

então os jogos nocturnos. Era já noite, quando as portas foram abertas á

multidão. Eis que sôa o clangor das trombetas, e logo os verdugos

infileirados chegaram lume ás tunicas dos christãos. Callam-se as

trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas,

arvores, flôres, estatuas, escadozes marmoreos, tanques, repuxos,

tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroça, escoltado de vistosa

côrte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu

sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Dançam as filhas do

oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dôce

melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros

arrancos dos christãos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.

Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas

mais bisarras são curtas. Felizmente para os martyres, Nero não era

Deus. Diz-se, porém: eil-os, os confessores de Christo apremiados, á

volta de um Deus que dá ares de Nero, e como contemplando, á maneira do

Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e

clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis,

testemunho assás consolativo da superioridade do rei do céo sobre os

regulos da terra.

Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas

corporaes são quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, são

essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno

encerra.

O Inferno · 第 82 / 158 题