São puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem
considerar-se os condemnados no inferno, por quanto só a alma d'elles lá
desceu, e os ossos restituidos á terra se transformam continuamente em
hervaçaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas
continuadas methamorphoses da materia.
Tanto, porém, os condemnados como os santos hão-de resuscitar no dia
final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo
corpo com o qual passaram entre os vivos.
A distincção d'uns a outros é que os eleitos hão de resurgir em corpos
purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados
pela culpa. E de então ao diante não haverá sómente puros
espiritos no inferno; mas sim homens como nós. É por consequencia o
inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que hão de
povoal-o creaturas terrestres, dotadas de pés, mãos, bôcca, lingua,
dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos
sensiveis á dor.
Onde está situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas
da terra; outros em certo planeta que eu não sei; mas a questão nenhum
concilio ainda a resolveu. A este respeito é tudo conjecturas; o mais
que se affirma é que o inferno, seja onde fôr, é um mundo composto de
elementos materiaes, mas não tem sol, nem lua, nem estrellas, e é mais
triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do
que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos.
Não se arriscam os discretos theologos a pintar, á similhança dos
egypicos, indostanicos, e gregos, o immenso horror d'essa mansão;
limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia, o
lago de fogo, e o enxofre do Apocalypse, e mais os vermes de Isaias,
aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaças de Thophet, e
os demonios atormentando os homens que perverteram, e os homens chorando
e ringindo os dentes, segundo a expressão dos evangelistas.
Santo Agostinho não concede que aquellas penas physicas sejam simples
imagens das penas moraes; contempla em um verdadeiro lago de
enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniçadas sobre todas as
partes dos condemnados, exacerbando com as suas mordeduras as ulcerações
do fogo. Quer, conforme um verso de S. Marcos, que este estranho fogo,
posto que material como o nosso, e actuando sobre corpos materiaes, os
conservará como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas
e sempre viventes, sentirão a dôr d'aquelle fogo que queima sem
destruir, e lhes filtra aos musculos, saturando-lhes os membros, desde a
medulla dos ossos e as pupillas dos olhos até as mais occultas e
sensiveis fibras do seu ser.
Se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulcão, sentir-se-hiam
ahi refrigerados e consolados.
D'esta arte fallam com toda a segurança os mais timidos, os mais
discretos e reservados theologos; não negam, porém, que no inferno haja
outros supplicios corporaes; sómente dizem que não tem d'elles um
sufficiente conhecimento, ou pelo menos tão positivo como aquelle que
receberam ácerca do horrivel supplicio do fogo, e do afflictivo
supplicio dos vermes. Ha no entanto theologos mais audazes e illustrados
que nos dão descripções mais miudas, variadas, e completas do inferno;
e, bem que não saibam em que local do espaço tal inferno esteja,
consta-lhes que alguns santos o viram.
De certo que estes santos lá não foram com a lyra em punho, como Orpheo,
ou com a espada na mão, á similhança de Ulysses: baixaram lá
arrebatados em espirito. D'este numero é Santa Thereza.
Quem lê a relação d'esta santa cuidará que no inferno ha cidades. Pelo
menos lá viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas
nas cidades antigas; entrou caminhando horrorisada sobre um terreno
lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos; mas foi retida em
seu transito por uma parede que atravancava a viella; e n'esta parede
havia um nicho onde Santa Thereza se metteu sem saber como. Disse ella
que este logar lhe estava destinado, se abusasse emquanto viva das
graças que Deus difundia sobre a sua cella d'Avila. E, bem que ella se
anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra, não
podia nem assentar-se, nem deitar-se, nem estar de pé, nem safar-se; que
estas horriveis paredes, apertando-a, envolviam-na, angustiavam-na, como
se fossem animadas. Parecia-lhe que a abafavam, que a estrangulavam, e
ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaços.
E sentia-se arder, e não havia genero de afflição que não
experimentasse. Esperança de soccorro, nenhuma. Á volta d'ella tudo
escuro; mas ainda assim, atravez d'essas trevas, entrevia, com grande
espanto, a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda
visinhança: espectaculo que lhe era tão intoleravel como as intalladelas
da prisão.
Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno.
Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu
no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e até Roma, com
os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados,
mercadejando no balcão, padres misturados com meretrizes nas salas dos
festins, hurrando nas suas poltronas d'onde não podiam arrancar-se, e
levando aos beiços, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas;
validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mãos postas, e
principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros
viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por
lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum
fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois,
tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo,
dispersavam-se em bandos pelos horisontes fóra em cata de terras mais
ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de
condemnados.
Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas
gementes, poços sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue,
turbilhões de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em
mar sem praia. Em fim lá viram quanto os pagãos tinham visto, o reflexo
lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas
miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrando
n'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas
proprias mãos forjaram.
Ha com effeito lá n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos,
para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas
de morcego, pontas, coiraças escamosas, griphos e agudissimos dentes.
Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes
ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo
isto durante a eternidade n'uma especie de açougue e cosinha da carne
humana. Ha outros transformados em leões, e viboras enormes, arrastando
as prêas em solitarias cavernas.
Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos
padecentes, em quanto outros se transformam em dragões volateis, e vão
carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos
espaços, e as precipitam no lago de enxofre. Além se vê nuvens de
gafanhotos, e de agigantados escorpiões, cuja vista arripia, cujo cheiro
enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acolá estão os monstros
polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de
aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e
vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque são immortaes.
Estes demonios de fórma sensivel, recordando tão ao vivo os deoses do
Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros
gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios não funccionam
á toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no
inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter
n'este mundo. São os condemnados punidos em todos os sentidos e orgãos
porque offenderam Deus por todos os orgãos e sentidos. Os comilões são
punidos de certa maneira pelos demonios da intemperança, e d'outra
maneira os calaceiros pelos demonios da preguiça, e ainda d'outra
maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, são tantas
as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles até na
fogueira terão frio, e no gelo se sentirão arder; estarão ávidos de
descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes
mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os
moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os
martyres, e assim para todo o sempre.
Nenhum demonio se desgosta nem desgostará jámais do seu terrivel
officio; n'esta parte são elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na
execução das ordens vingativas que receberam. Se não fosse isso, que
seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se
fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os
outros se desavêm; e posto que sejam máos e muitissimos, os demonios
harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca
na terra se viram nações mais submissas a seus principes, exercitos mais
doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientes a
seus prelados. Nada se sabe da ralé dos demonios, d'essa canalha de
espiritos villãos que formam legiões de vampiros, de sapos, de
escorpiões, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem
nome que constituem a zoologia das regiões infernaes; mas são conhecidos
de nome muitos principes que commandam aquellas legiões, entre outros
Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da
carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe
das moscas geradoras da podridão, e Mammou, o demonio da avareza, e
Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o
chefe universal, o sombrio archanjo que no céo se chamava Lucifer, e no
inferno se chama Satan.
Eis aqui, em summa, a idêa que se nos dá do inferno, observado em sua
natureza physica, e nas penas corporaes que lá se padecem. Lêde os
escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas
legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae
o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras
coisas.