Esquadrinhando o bem que procede do inferno, já divisamos o mal que
produz. Bem negativo e limitadissimo; mal positivo mas profundo,
extensissimo, apenas por em quanto entre-vimos. Faz-se mister examinal-o
mais pelo miudo. Não perderemos o tempo.
É facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de
céo e inferno que das precisões, interesses, prazeres e dôres da terra.
A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio
senão ser assim? Pois acaso póde toda a gente retirar-se ao deserto?
Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram
abolidos?
Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas,
todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de
viver, não viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperança do
ceo não bastaria a contrabalançar os effeitos de tal susto, mormente
quando nos affiançam que a porta do ceo é estreita, e que o inferno tem
milhares de portas sempre abertas. Á medida que esta crença se incutir
nas turbas, assim ellas hão de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio,
sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e
angelica fôr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a hão de
considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-hão os ouvidos ao
vosso apostolado, e ninguem quererá sequer aproximar-se d'aquella
perfeição immaculada, que sómente florece em estufas claustraes, que se
desbota ao leve bafejo do homem, e só está ao alcance de ociosos.
Se no inferno tão sómente fossem castigados certos crimes monstruosos e
excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o
incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justiça de tão
exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era
applicada a pena. Porém, se vão ás chammas eternas o aváro, o glotão, o
preguiçoso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o
maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o
usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o
philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas
veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar,
pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde começa a
avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde começa a
lisonja? e a usura? e os limites da temperança quem os abalisou?
Occasiões, tentações e perigos em tudo!
A questão não é saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem
nega que os haja;--o que se tracta é de saber se é racional e discreto,
e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por
peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou
quê de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos
prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeições, menos
desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos
revezes e resignado nas desgraças? Quem se crê assaz justo, caritativo e
perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpção seria peccado
capital, até nos conventos, até para os anachoretas envelhecidos em
abstinencias e orações. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que
um acto licito descahe no illicito; que dóse de alimento quadra á sua
saude, e onde no rico principia o superfluo, que é o necessario do
pobre. Para que vem seis pratos á meza? Se um basta, para que são dois?
A regra onde está?
Cautela! esse copo que chegaes aos beiços risonhos, em vez de vos apagar
a sêde, vae abrazar-vos em sêde eterna. Cautela! Theologo nenhum
poderá dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos
cumpre não dar; e o caso é que, se vos enganaes com tal incerteza, folga
o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, não
disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer não
conhecemos?
Estas e outras mais terriveis cousas podeis lêr no _Quotidiano do
Christão_, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda
em mãos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha só duas cousas: a
condemnação, se nos enganamos, e a abstenção para nos não enganarmos.
Mas a abstenção não é viver. Viver é a actividade inteira, incessante, e
arriscada a peccar. É lei do genero humano viver e perpetuar-se. Não
nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada
passo lhe apontam aberto um alçapão do inferno. Vivem os homens n'uma
especie de indifferença religiosa que os avilta, movidos unicamente por
suas paixões, e apenas enfreados pela justiça temporal. Fóra com isso do
futuro! fóra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clarões, e os
ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa
inteira vida, todos os desejos e pensamentos.
É effeito imprevisto, porém real, d'esta medonha crença induzir ao
materialismo, não theorico, mas pratico, a maior parte dos que não leva
ao ascetismo: attasca na lama os que não transvia nas nuvens; faz que se
rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os
philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, estão
innocentissimos: não ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio é
coisa que ahi não vislumbra. O instincto é que desde tempos esquecidos,
e não de ha pouco, nos propendeu áquelle cego materialismo: é a
necessidade de arrostarmos com uma crença mortifera; é a vida que
resalta d'entre as mãos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este
desbordar de toda a fórma surdem os excessos.
Já não lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece são os fracos;
os fortes vão mais além: escarnecem-no. Anda já por ahi o diabo cantado,
e do mesmo feitio o inferno, e o céo com os seus moradores. E de taes
canções vendem-se tantos exemplares como dos _Canticos de S. Sulpicio_:
antiquissima impiedade, de que ha vestigios, não só na Grecia pagã, mas
tambem nas fabulas da edade média, e até nas paredes das vetustas
cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de
seiscentos annos, o _Inferno_ de Béranger. A ironia mascarava-se então com
tregeitos beatificos; o impudor, porém, não se disfarçava nem se
constrangia.
Os lamuriantes da edade média talvez digam que, apezar das galhofas
audazmente esculpidas nos portaes e córos das egrejas, esses antigos
imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, não foliavam,
tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellãos e
castellãs, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as
taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus, é verdade. Mas
circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou.
A mesma educação religiosa não produz continuamente identicos
phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os
usurarios, os prodigos e os ladrões, os famintos e os repletos, os
invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo
da alma guardam elles as superstições das amas: que farte o denotam na
vida, e principalmente na morte. Em quanto são moços, ageis, febris de
saude e esperança, repulsam uma crença que lhes tornaria maldita a
mocidade, a saude, a força, a razão de todas as dadivas do céo. Quando
caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que
já não tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram
facilimas. É chegada então a hora e situação conveniente para intender a
moral do inferno, que é a privação em tudo e por tudo,--a morte na vida.
Singular crença que não infrêa o maior numero de homens, quando o freio
lhes é mais preciso; e quando o retêl-os é já inutil, e mais necessaria
lhes seria a esperança, então, á entrada da sepultura, lhes sahe
espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano
ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros
males, a crença no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece.
Melhor é esquecel-o á maneira das turbas, que pensar demasiado
n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabeça á
roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos,
defendido ou não, que faz? Lá no inferno não estaremos melhor nem
peormente; a eternidade não terá hora menos ou hora mais.
Constrangermo-nos para quê? Não ha termo medio entre o bem e o mal
absolutos. Tudo que é humano é mau: é forçoso ser anjo ou demonio:
seja-se diabo, que é mais comezinho. Vêde-me uns frades, padres,
devotos, freiras, que a desanimação avassalou: não ha peores peccadores;
rolam cada vez mais ao fundo, e vão-se consolando com as delicias que
topam na sua queda. Um peccado de menos, que é na conta que hão de dar?
Chegados a tal extremidade, qualquer boa acção lhes será vã. Como não
podessem abster-se de tudo, os desgraçados já agora não se abstem de
nada. Esta desesperada crença precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem
surdido mais libertinos que ermitões, mais blasphemos que santos, mais
loucos que ajuizados; e, em verdade, é mister que o christianismo
entranhe vivacissimos embriões, esplendorosissimas luzes, e
poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido, á influencia
de taes doutrinas.
Tirae-nos, por favor, esse inferno tão fatal aos que o recordam como aos
que o esquecem. É verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas
teremos mais christãos. No purgatorio será util pensar, comprehender-lhe
a justiça, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se é
facil sacudir o jugo de uma revelação sobrenatural e inintelligivel, por
mais beneficente que ser possa, não é facil desprendermo-nos de idêas
excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam.