É o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam, soffrendo, o
perdão das culpas commettidas na terra. Ha ahi o chorar e o padecer; mas
não se amaldiçôa Deus: bemdiz-se. Os soffrimentos ahi supportados são
salutares porque se comprehende a justiça d'elles; e corrigem porque a
esperança não é anniquillada.
Se tal logar existe, de que serve o inferno?
Deixar dizer que a eternidade é que apavora e refrêa o peccador. O
peccador não sabe o que seja a eternidade; porque é impossivel
absolutamente formar-se uma clara idêa do que seja isso. Se recuamos
perante nós um pouco que seja as balisas do tempo, a nossa imaginação e
razão se perdem; e cahimos nas prezas das mesmas angustias que
sentiriamos, se vissemos a verdadeira eternidade.
Para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que é
capaz a sua natural sensibilidade, e qual o podem comprehender as
faculdades do seu entendimento. Para que iremos mais longe? Não é
bastante ameaçar os maus com castigos proporcionados ás suas faltas,
durante um espaço de tempo desconhecido ou incalculavel n'este mundo? O
que fôr mais do que isto é inintelligivel. Para lá d'estes limites, a
ameaça nada importa; a alma está refarta de justiça, oppressa de terror,
extenuada de padecer, dobra-se, cáe, aniquilla-se, adora, supplica
perdão, não póde comprehender senão a piedade, está surda e insensivel a
tudo o mais. O remate da justiça para nós é o perdão; e, se n'essas
extremas alturas onde a imaginação póde chegar, e onde o peccado roja
gemente, se em vez de perdão, nos mostraes o odio ainda flamejante, lá
vai tudo: o terror tocou o apogeu; turva-se a razão, idêa de justiça e
de bondade tudo se desfaz; a alma, que cahira crente, levanta-se
atheista.
Se o tal inferno existe, no outro mundo coisa comprehensivel ha uma só;
é o blasfemar dos condemnados.
Mas se tal inferno existe, de que serve o purgatorio? Pois os
protestantes não o aboliram discretamente? Para os que podem crêr em tal
inferno, que é cem mil annos de purgatorio? Este acaba e o inferno não;
seculos e milhões de seculos de penitencia não se contam, esquecem-se.
Em vista d'este sinistro inferno em que a misericordia é desconhecida,
inutil o soffrimento, e a justiça um enigma, o purgatorio é um paraizo.
Quem nos dera a certeza de lá ir! que os castigos ahi soffridos,
por mais demorados e rigorosos que sejam, não ha temel-os: desejam-se.
Por maneira que o mais terrivel castigo que imaginar se póde, o mais
equitativo e rasoavel, deixa de impressionar as almas pervertidas pelo
espectaculo d'uma punição sem siso nem justiça apparentes.
As pobres almas aterradas, aturdidas, estupefactas são impellidas
involuntariamente a offender a Deus de dois modos; primeiro temendo-lhe
a vingança, segundo não lhe temendo a justiça. A idêa dos castigos
inefficazes e dôres infructiferas, por muito monstruosa, odiosa e falsa
que seja, se humanamente a consideramos, torna inutil a idêa dos
castigos poderosos e dôres salutares, por muito bella, clara, natural e
divina que ella seja.