Pater noster

Chamamos a Deus nosso pae e nos consideramos seus filhos. Um pae

condemnaria seus filhos a supplicios eternos? Que a questão seja de

ingratos e desobedientes, de rebeldes e de máos, embora: Deus é Deus, e

nós somos homens.

O mais sabio ancião n'este mundo é perante o Pae celestial o que diante

d'esse velho mortal, curvado ao pezo dos annos, é uma criancinha no

berço. Perante o Pae do ceo somos todos crianças balbuciantes que apenas

caminhamos com andadeiras. E a comparação é ainda muitissimo ambiciosa!

Ha mais proporção entre o menino que balbucia e os maximos doutores

theologos, do que entre os maximos doutores em theologia e o eterno Pai.

Cobertos de seus circumspectos barretes, aquelles doutores

tartamudêam, gaguejam, balbuciam freneticamente, não se entendem a si

proprios, descambam a cada passo, e movem á compaixão, se os compararmos

a Deus. Dado que elles ainda durassem e crescessem em saber, ao mesmo

passo que envelhecessem, nem por isso deixariam de estar como em

perpetua infancia confrontados com Aquelle que tudo sabe, porque é

infinito em sabedoria, em poder e bondade. Mas, d'outra fórma, a

criancinha hontem nascida podeis já affoitamente comparal-a áquelles

graves doutores; é um doutor que se aleita e entra em dentição: alguns

dias mais, e vêl-a-heis defender these e supplantar os professores.

Comprehendeis, pois, que, se o velho doutor em theologia fosse pae,

mettesse o filho em um carcere cheio de serpentes e ahi o deixasse para

sempre? Qualquer que houvesse sido a culpa do menino, julgareis justo e

discreto similhante castigo? Não vos pareceria o mestre mais louco do

que o discipulo, e o pae peior que o filho? O vosso primeiro empenho não

seria pôr o algoz no logar da victima? Não se levantaria toda a

sociedade contra esse sabio sem coração? Nossas leis, nossos tribunaes

consentil-o-hiam? Ah! castigos, sim, mas castigos que corrijam, e o

perdão a final: eis o que é justiça de pae. Não entendemos outra. Ao

chefe de familia não se consente poder arbitrario sobre os seus: a

esposa tem direitos; tem-os o filho, o servo, protegidos pela sociedade,

que para esse fim especialmente se constituiu. Se isto repugna ás

antigas tradições, nem por isso é menos racional, equitativo e

moral.

Ainda assim, por mais que fizesse este doutor atroz, seria menos cruel

que o Deus prégado por elle. Se a morte não viesse rapidamente

arrancar-lhe a victima, o officio de algoz cançal-o-hia. É difficil de

supportar, ainda mesmo a um mau pai, o aspecto das torturas que elle

exercita na pobre creatura que gerou. No coração humano tudo é mudavel,

tanto o amor, como, por feliz compensação, o odio. Um principe

morovingiano, chamado Charmne, revoltou-se contra Clotario; Clotario fez

queimar vivos seu filho, a nora e os netos; mas diz a historia que elle

se arrependêra. Se tal supplicio durasse uma semana sómente, de certo

elle os teria salvado. Que bom pai! Que excellente rei!

Que amavel é este Clotario de par com o Deus que nos pintam! Este Deus

quer que pensemos no inferno, mas não que se morra ahi; á imitação do

algoz das prizões feudaes, deixa viver os pacientes torturando-os e

disvela-se em lhes protrahir a agonia! Manda-os soffrer, ouve-os gemer

durante a eternidade, e procede sua vingança, sem fechar olhos, sem

tapar ouvidos, e por isso mesmo é que n'elle reconhecemos não um homem

variavel, mas o que elle é, um Deus.

Ó Deus dos antigos, Bel, Teutates, Plutão, Eolin, seja qual fôr teu

nome, Deus das batalhas, Deus do gladio, Deus dos fortes, guerreiro

feroz, senhor irascivel, juiz sem entranhas, Deus dos eternos

rancores, tu não és o meu Deus! O Deus que adoro, o unico e

verdadeiro Deus, é o melhor dos Paes; apezar das minhas culpas, não me

trata como inimigo nem como escravo; conhece melhor a minha fraqueza do

que eu a sua força; e, até quando me castiga, não esquece que foi elle

quem me creou e que eu sou seu filho.

O Inferno · 第 41 / 158 题