Que monta recorrer a revelações miraculosas? É facilima coisa explicar
naturalmente as tradições pagãs ácerca do inferno.
Este social estado que conhecemos, no qual o direito de cada um é
definido por lei, e protegido por força publica, não é o primitivo
estado do genero humano. No principio, a unica sociedade foi a familia,
e, por extensão, a tribu. Cada homem se protegia a si, e sahia em
desaffronta propria; parentes e servos bandeavam-se na pendencia, e a
menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue.
N'esses remotos tempos, vingança e justiça eram uma só cousa.
Ora, é verdade que a vingança procede do sentimento de justiça, mas
ultrapassa a justiça sempre, porque é egoista, cega, orgulhosa,
colerica, não mede, não se compadece, dá mal por mal, e usurariamente o
dá. A mais antiga das leis judaicas, a lei cruel de talião, foi lei
misericordiosa; abalisou as retaliações; cabeça por cabeça, olho por
olho, dente por dente, e mais nada. A vingança queria mais: arrancava os
dois olhos, e não se saciava. Na Thracia, em Grecia e Roma, nas Gallias,
na Germania, em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos
eram sacrificados aos deoses, e estrangulados pelos sacerdotes do
altar. Os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixão:
condemnavam-os á escravidão com a sua posteridade--ao trabalhar sem
proveito, e á miseria infinita. Entre as familias, tribus e raças ardiam
odios hereditarios; pagava o innocente pelo culpado, porque era commum
dever o assassinal-o.
E tudo isto se figurava justo, e hoje ainda entre as nações christãs,
aqui e alli, subsistem vestigios d'estes antigos costumes.
Se insistem em que os pagãos conheciam o peccado original, a maldição do
genero humano e as penas eternas, força é confessar que elles, segundo
procediam, procuravam incitar a justiça divina. Que melhor modelo lhes
sahiria a ponto?
Para lhes condemnar o procedimento é mister conceder que elles de Deus e
da sua justiça apenas tinham falsa idêa. Phantasiavam Deus á sua
similhança, vingativo, descaroado. D'ahi, a idêa das raças malditas, dos
crimes e castigos hereditarios. D'ahi os pavorosos sonhos do inferno sem
fim, dos máos abrazados e espedaçados vivos, dos algozes enfurecidos
sobre as suas prêas immortaes, o chorar incessante, o suspirar sem echo,
e os engenhosos supplicios todos do Naraka, indostamio inferno que ainda
flammeja, e do Amenthi, egypcio, e do Tartaro grego, antigos infernos já
agora apagados e que ha tantos seculos não mettem medo a ninguem.