I
A tradição universal é a prova do inferno?
Quando nos querem fazer comprehender a necessidade da revelação christã,
esforçam-se em requintar phrases aviltantes, para bem caracterisar o
estado do mundo sob os reinados de Augusto e Tiberio.
Não peço que se suavisem as pinturas. Todavia, se se tracta de nos
incutir algum antigo dogma hebraico tenebrosissimo, repellentissimo, tal
como o peccado original, a malicia dos diabos, o eternal inferno, então
é vêr como esse genero humano tão vilescido se transfigura subitamente
em oraculo. Claro é que a moral se lhe varrêra de todo; mas a theologia
ficou. Eil-os a cavar no lodaçal das superstições orientaes, as mais
putridas de quantas ahi houve, e querem entrever n'ellas uns certos
vestigios de lá se haver conhecido Adão e Noé. Se se trata
simplesmente do inferno, isso então acha-se em toda a parte. Um paria
vagabundo, um pagão abjecto, um negro, um hottentote tremente em face
d'um fetiche, eis as testemunhas, os consultados, os doutores. É mais
que certo que taes miseraveis haviam perdido as noções todas do bem;
dormiam com as servas e até com as irmãs; vendiam na feira as filhas e
ás vezes as mães; profanavam os hospedes; eram ladrões, eram
antropophagos; adoravam pedras, serpentes, sapos, e, peor que tudo,
homens, facinoras ensanguentados; mas criam no inferno. Clarão de
consciencia não lampejava n'elles só um; não estremavam raia entre
virtude e vicio; e, posto que taes distincções lhes houvessem sido
reveladas, tinham-nas esquecido. Vêde, porém, o prodigio: quanto ahi
havia incomprehensivel para nós e ainda mais para elles; tudo que
transcende a alçada da experiencia; tudo quanto a simples razão não póde
revelar--tudo, em fim, que, pelo conseguinte, mais facilmente se desluz
da memoria, oh! tudo isso lhes ficou na lembrança!
Que argumento a pró do inferno!
Quem ousa impugnar verdade tão de fundamento provada? Cafres, Papus,
Saabs, Bushmans creram no inferno! Patagões, Muskogis, Algonquinos,
Chipperrais, Sioux creram no inferno! Hunos, Alanos, Ostrogodos,
Gepidas, Vandalos creram no inferno! Tambem creram n'isso Cananeos,
Philisteos, Ninivitas e Babylonios! Sodoma e Gomorra tambem!
Sardanapalo, Balthazar, Herodiada, Cleopatra, Nero, Attila,
Gengiskhão, Tamerlão creram tambem no inferno! Querem prova mais
concludente?
Eu não sei se semelhante demonstração do inferno é bem feita para
edificar uma assemblêa de fieis; receio muito que os incredulos se riam.
Quer-me parecer que, se tentassem insinuar-nos reverencia a tal dogma,
deveriam contentar-se com dizer-nos que aquellas raças degeneradas,
aquellas nações estupidas, aquellas hordas faccinoras, aquelles
sacerdotes embaidores, aquelles reis devassos, em fim, todos esses
selvagens e monstros, nem criam na eternidade das penas, nem d'isso
tinham vislumbres. Tal argumento, se fundado fosse, figurar-se-hia
melhor que nenhum. Presumir-se-hia que esses homens, se tivessem á mão e
perante os olhos barreira tal, não se infamariam tanto. Mas, da laia que
elles são, darem-no'l-os como crentes no inferno, é mandar-nos descrer.
Horrorisa-nos a immortalidade d'elles. Vão lá trazer taes arbitros para
uma questão de altissimo interesse moral! Dizeis que elles creram no
inferno? Oh Deus meu! é por isso mesmo talvez que elles tão mal
comprehendiam a justiça, e tal vida viveram!