O povo de Deus

Entretanto parece que a piedade se manifesta na formação do povo de

Deus, e em verdade ahi se denota, mas como excepção, privilegio e favor.

Havia no Egypto uma raça de escravos; toma-os Deus pela mão, e atravez

de mil obstaculos os leva ao paiz de Chanaan; dá-lhes leis,

ministros e prophetas; illustra-os, defende-os, castiga-os, restaura-os,

disputando a Satanaz, com successivos milagres, essa nesga de terra onde

quer ser adorado. Não obstante, estas revelaçõens e sobrenatural

assistencia não impedem que os judeus idolatrem, que se prostituam, que

usurem e se precipitem numerosissimos em todas as voragens do mal. Por

aqui se avalie a desgraça dos povos que occupavam o resto da terra e a

quem faltavam taes soccorros. Pezava n'elles sem contrapezo o peccado

original. Os que a maior grau de perfeição tinham levado artes e

sciencias estavam tão remotos da verdade como o selvagem mais

embrutecido. Não porque uns ou outros fossem atheus--pelo contrario, em

seus soffrimentos, levantavam olhos ao ceo; mas como procuravam a

divindade nas estrellas, nas altas montanhas, no concavo dos bosques, e

nas mil imagens compostas de materia impura, debalde rogavam, e

inutilmente sacrificavam. Salvante a de Moysés, todas as religiões eram

engodo de Satanaz e conductoras d'almas ao inferno, similhantes ás

lumieiras que as hordas assalteadoras accendem á beira das restingas,

durante as noites tempestuosos, afim de que os navegantes se percam. E

Deus abandonava os gentios á sua ignorancia; detestava-os em tanto

extremo que prohibia o seu povo de os tratar, sobretudo de misturar ao

d'elles o seu sangue, excepto nas batalhas. Occasionado o ensejo, era

obra piedosa exterminal-os; mas attrahil-os ao seu coração, era,

em todos os lances, um acto abominavel, por maneira que o leproso

de Jerusalem recearia manchar-se, se recebesse na sua enxerga infecta a

mais pura donzella de Sidon.

Tal é substancialmente o ultimo dogma que nos convém estudar. É certo

que elle nos revela a bondade de Deus; mas á similhança de pallida

restea de luz em espessa treva. O que nos ella esclarece é um ponto

imperceptivel do espaço. Está meio velada no ponto onde brilha, e tanto

ahi, como no restante do mundo, razão e justiça de Deus jazem de todo em

todo escurecidas. Sobre a terra foi Jacob o unico justo? Se houve mais,

porque não fez Deus alliança com elles e seus descendentes? Por que

adoptou sómente os judeus, por que liberalisou a estes luzes que negou

aos outros? Se lhe aprazia dar á humanidade cabida e obcecada pelo

peccado meios de salvação, porque abençoou o sangue e a carne de um só

homem, amaldiçoando o sangue e a carne dos mais homens? Se isto é

verdade, força nos é exclamar com os theologos:--Razão impenetravel!

Impenetravel justiça!--Sendo que tudo isto essencialmente diverge das

idêas que podemos formar da pura razão e da verdadeira justiça.

A lei do genero humano, em toda esta historia, é a lei ditada pela

colera, e, ainda quando a bondade ahi reluz, dá ares de um capricho.

Os primeiros christãos, judeus de origem, não adoptaram menos estas

idêas por mais avessas que fundamentalmente sejam, não só á

revelação interior, ás luzes da consciencia, mas tambem a tudo que mais

luminoso do ensino de seu divino mestre nos transmittiram. A Egreja,

dilatando-se fóra de Jerusalem, conservou o sinete da sua educação

rabbinica[1], permanecendo meio judaica. Não mudou um til aos dogmas

sombrios e crueis da synagoga, mas transformou o dogma do povo de Deus;

ampliou-o espiritualisando-o, sem tirar ainda assim á clemencia divina,

como logo veremos, aquella mystica e excepcional indole que tinha entre

os judeus. Admittiu os gentios ao beneficio das graças de que Moysés os

excluira, e tornou judeus, mediante o baptismo, os que de sangue o não

eram. Ao mesmo tempo, repulsou do seu gremio os que só por sangue eram

judeus, e o não eram por baptismo, formando, com tal exclusão, outro

povo de Deus, e ficando o antigo a representar a figura carnal do

novo. Em summa, a Egreja moldurou quanto em si coube, o espirito

christão nas fôrmas antigas, que ella sempre venerava e considerava

expressamente feitas para o receber. Consoante a parabola, envasilhou o

vinho novo no tonel velho, onde ferve até estalar as aduelas; cuidado,

porém, que a velha vasilha póde fender-se; o vinho contheudo é o sangue

de Christo; e o genero humano, em prol de quem tal sangue ha manado, não

deixará que uma gotta se perca.

Ha pouco disse eu que a egreja, adoptando as crenças da Judéa, não havia

modificado a indole estranha e excepcional que taes crenças argúem á

bondade de Deus. Por egual razão deixou ella condensarem-se as mesmas

trevas sobre a sua justiça. É facil demonstral-o.

[1] No concilio feito pelos apostolos em Jerusalem, questionou-se

sobre se se devia circumcidar os judeus. Muitos pensaram que esta

operação fosse indispensavel á salvação, por isso que Moysés a

ordenára; Paulo e Bernabé não foram d'esta opinião; a duvida, porém,

era tamanha que sahiram deputados para Jerusalem, afim de combinarem

com os apostolos e os padres. O concilio discutiu longo tempo. Pedro

fallou de harmonia com Paulo; mas as duvidas subsistiram. Thiago

fallou por sua vez, não invocando a palavra de Christo, mas

repetindo algumas palavras dos antigos prophetas; o que fechou a

pendencia. Decidiram que a circumcisão era desnecessaria á salvação.

Todavia, logo adiante, Paulo, que contribuira para este accordo,

circumcidou Timotheo, «em razão de estarem judeus n'aquelle logar, e

saberem que seu pae era gentio.» Vid. _Actos dos Ap._, cap. XV e

XVI.

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