Em verdade nenhuma similhança temos com os habitantes do paraiso
terreal; não lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho, nem a pureza,
nem a liberdade, que se agitava a bel-prazer em um tão vasto circulo,
tendo um só limite perfeitamente distincto; nem tão pouco lhes herdamos
a tranquilla felicidade. Para nós é tudo trevas, servidão, limite,
trabalho e dôr. Apezar do peccado, outra vantagem nos levavam. Puniu-os
Deus d'uma maneira que nos espanta; mas puniu-os pelo mal que
propriamente fizeram. Comnosco não é assim. Primeiramente, aquelles
actos, que Deus tão severamente castigou n'elles, continuam-se em nós,
que não temos conhecimento d'elles senão por este proseguimento
vingativo; depois, sem attender á nossa infermidade nativa, nos faz elle
expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as nós
tivessemos commettido na liberdade, na sciencia, e nos jubilos do Eden.
Se podeis, comparae agora a sorte do homem n'este mundo maldito á de
Satanaz no ceo; e os peccados d'aquella creatura debil, ignorante,
decahida, envolta em carne e sangue, cercada de precipicios e trevas,
criminosa porque nasceu, e em perigo porque vive;--comparae isto,
se podeis, ao inexplicavel peccado do anjo. Similhança não ha ahi
nenhuma. Entre nós e aquelle espirito bemaventurado vae a differença de
noite a dia, e entre a sua culpa e a nossa a distancia da terra ao ceo.
Sem embargo disso, as penas são iguaes. Espera-nos o mesmo inferno. A
unica desegualdade que se nota n'este logar de soffrimento é que o homem
ahi será a eterna victima, e Satanaz o eterno algoz.
É evidentissimo que é a mesma a pena applicada a seres que prevaricaram
em tão oppostas condições de actividade. Esta pena infinita só tem
relação com o poder infinito do juiz offendido; não tem alguma com as
faculdades diversamente limitadas dos culpados, e augmenta de gravidade
á medida que desce sobre peccadores d'uma natureza mais fragil, de
Satanaz sobre Adão, de Adão sobre a sua posteridade.
Quando procuramos n'isto a justiça, dizem-nos que ella ahi está, mas
escondida. Oh! sim, meu Deus! Bem escondida, e a razão tambem, e a
piedade tambem!