No segundo e terceiro capitulos do _Genesis_, refere Moysés a creação e
queda do homem. Esta breve passagem foi diffusamente glossada por
hebreus e padres da Egreja, e raro haverá quem a não haja ouvido
explicar do pulpito, como eu brevissimamente a vou explicar,
acrescentando-lhe reflexões minhas.
Adão e sua companheira tinham recebido no Eden uma lei moral simplissima
e muito clara: era-lhes licito saborear todos os fructos d'aquella
mansão de delicias, tirante o fructo d'uma só arvore: feito isto, a sua
felicidade seria perfeita. Conta-se que elles estavam alli mais
innocentes que os recemnascidos e ao mesmo tempo mais instruidos que os
anciãos d'hoje em dia. Obedecia-lhes a natureza e elles
comprehendiam-lhe a voz. Cuidados nenhuns, nenhumas lagrimas, primavera
eterna, e a mocidade immorredoira em todo o seu ser. Deus folgava
descer-se do ceo para n'elles contemplar a sua viva imagem; e então lhes
mostrava seu rosto e lhes fallava.
Entretanto Satanaz foi esperal-os debaixo da arvore da Sciencia, cujo
fructo lhes fez comer. Não se corromperam per si mesmos como Satanaz;
mas eram livres e o tentador estava alli. Quem tinha seduzido os anjos
como deixaria de seduzil-os a elles? Que considerações o reteriam?
Não receia Deus por que Deus lhe não póde aggravar o supplicio, pois que
esse supplicio é eterno, e o inexprimivel horror de tal castigo consiste
na eternidade d'elle. Pelo que respeita á piedade, é sentimento que
Satanaz não conhece, pois que Deus lh'a não mostrou a elle, o primeiro
de todos os seres que a necessitára. Á semelhança das outras creaturas,
tem sómente aquillo que recebe; e o que brilha em si não é o amor
divino, é a divina colera que o conserva devorando-o.
Quaes foram as consequencias da queda?