Sur des pensers nouveaux, faisons des vers antiques

_está tambem errado. Não só mudaram as idéas inspiradoras da poesia,

como tambem os moldes em que ella se encerra. Encaixar na rigidez de

um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridiculo.

Descrever com palavras laboriosamente extrahidas dos classicos

portuguezes e desentranhadas dos velhos diccionarios, o pluralismo

cinematico de nossa epoca, é um anachronismo chocante, como se

encontrassemos num Ford um tricornio sobre uma cabeça empoada, ou num

torpedo a alta gravata de um dandy do tempo de Brummel. Outros tempos,

outros poetas, outros versos. Como Nietzsche, todos exigimos que nos

cantem um canto novo._

_A poesia «pau-brasil» é, entre nós, o primeiro esforço organisado

para a libertação do verso brasileiro. Na mocidade culta e ardente de

nossos dias, já outros iniciaram, com escandalo e successo, a campanha

de liberdade e de arte pura e viva, que é a condição indispensavel para

a existencia de uma litteratura nacional. Um periodo de construcção

creadora succede agora ás lutas da epoca de destruição revolucionaria,

das «palavras em liberdade». Nessa evolução e com os caracteristicos de

suas individualidades, destacam-se os nomes já consagrados de Ronald

de Carvalho, Mario de Andrade e Guilherme de Almeida, não falando nos

rapazes do grupo paulista, modesto e heroico._

_O manifesto de Oswald, porém, dizendo ao publico o que muitos aqui

sabem e praticam, tem o merito de dar uma disciplina ás tentativas

esparsas e hesitantes. Poesia «pau-brasil». Designação pitoresca,

incisiva e caricatural, como foi a do confettismo e fauvismo para

os néo-impressionistas da pintura, ou a do cubismo n’estes ultimos

quinze annos. É um epitheto que nasce com todas as promessas de

viabilidade._

_A mais bella inspiração e a mais fecunda encontra a poesia

«pau-brasil» na affirmação desse nacionalismo que deve romper os

laços que nos amarram desde o nascimento á velha Europa, decadente

e exgotada. Em nossa historia já uma vez surgio esse sentimento

aggressivo, nos tempos turbados da revolução de 93, quando «pau-brasil»

era o jacobinismo dos Tiradentes de Floriano. Sejamos agora de novo,

no cumprimento de uma missão ethnica e protectora, jacobinamente

brasileiros. Libertemo-nos das influencias nefastas das velhas

civilisações em decadencia. Do novo movimento deve surgir, fixada, a

nova lingua brasileira, que será como esse «Amerenglish» que citava

o_ Times _referindo-se aos Estados-Unidos. Será a rehabilitação

do nosso falar quotidiano_, sermo plebeius _que o pedantismo dos

grammaticos tem querido eliminar da lingua escripta_.

_Esperemos tambem que a poesia «pau-brasil» extermine de vez um

dos grandes males da raça--o mal da eloquencia balofa e roçagante.

Nesta epoca apressada de rapidas realisações a tendencia é toda para

a expressão rude e núa da sensação e do sentimento, numa sinceridade

total e synthetica._

«Le poète japonais

Essuie son couteau:

Cette fois l’éloquence est morte».

_diz a haïkaï japonez, na sua concisão lapidar. Grande dia esse para

as lettras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia.

Interromper o balanço das bellas phrases sonoras e ôcas, melopea que

nos approxima, na sua primitividade, do canto erotico dos passaros

e dos insectos. Fugir tambem do dynamismo retumbante das modos em

atrazo que aqui aportam, como o futurismo italiano, doze annos depois

do seu apparecimento, decrepitas e tresandando a naphtalina. Nada

mais nocivo para a livre expansão do pensamento meramente nacional

do que a importação, como novidade, dessas formulas exoticas, que

envelhecem e murcham num abrir e fechar de olhos, nos cafés literarios

e nos cabarets de Pariz, Roma ou Berlim. Deus nos livre desse

snobismo rastacuerico, de todos os «ismos» parasitas das ideas novas,

e sobretudo das duas inimigas do verdadeiro sentimento poetico--a

Litteratura e a Philosophia. A nova poesia não será nem pintura, nem

esculptura, nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do

solo natal, inconscientemente. Como uma planta._

_O manifesto que Oswald de Andrade publica encontrará nos

que lêm (essa infima minoria) escarneo, indignação e mais que

tudo--incomprehensão. Nada mais natural e mais razoavel: está certo. O

grupo que se oppõe a qualquer idéa nova, a qualquer mudança no ramerrão

das opiniões correntes é sempre o mesmo: é o que vaiou o_ Hernani

_de Victor Hugo, o que condemnou nos tribunaes Flaubert e Baudelaire,

é o que pateou Wagner, escarneceu de Mallarmé e injuriou Rimbaud. Foi

esse espirito retrogrado que fechou o_ Salon _official aos quadros

de Cézanne, para o qual Millerand pede hoje as honras do Panthéon; foi

inspirado por elle que se recusou uma praça de Pariz para o Balzac

de Rodin. É o grupo dos novos-ricos da Arte, dos empregados publicos

da literatura, Academicos de fardão, Genios das provincias, Poetas

do «Diário Official». Esses defendem as suas posições, pertencem à

maçonaria da Camaradagem, mais fechada que a da politica; agarram-se ás

taboas desconjuntadas das suas reputações: são os bonzos dos templos

consagrados, os santos das capellinhas litterarias. Outros, são a massa

gregaria dos que não comprehendem, na innocencia da sua curteza, ou

no afastamento forçado das coisas do espirito. Destes falava Rémy de

Gourmont quando se referia a «ceux qui ne comprennent pas». Deixemol-os

em paz, no seu contentamento obtuso de pedra bruta, ou de muro de

taipa, inabalavel e empoeirado._

_Para o glú-glú desses perús de roda, só ha duas respostas: ou a

alegre combatividade dos moços, a verve dos enthusiasmos triumphantes,

ou para o scepticimo e o aquoibonismo dos já descrentes a cançados o

refugio de que falava o mesmo Gourmont, no Silencio das Torres (das

Torres de marfim, como se dizia)._

_Maio, 1924._

_Paulo PRADO._

[Illustration]

A Blaise Cendrars por occasião da descoberta

do Brasil

Pau brasil · 第 3 / 28 题