antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a
nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem.
--_Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!_
disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de
Chateaubriand.
E accrescentou n'outro tom:
--Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.
Antonino dissera a verdade.
O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens
ameaçadoras.
--Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que
o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a
tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor,
Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu
lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a
nossa socegada viagem.
--Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir
por alguns momentos.
--Quero.
--Que a tua vontade seja feita.
E embarcaram.
Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.
Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se ao largo. Durante as
duas primeiras horas correu bem a viagem.
A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.
O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem
novidade.
Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e
as ondas encapelaram-se.
A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda,
cuja espuma chegava ao cimo do mastro.
O mar embravecia de minuto para minuto.
O vento refrescava cada vez mais.
A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao
nivel das ondas.
Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar
descanço ás vagas.
Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.
Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.
As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento
contrario, elevaram-se a enorme altura.
Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.
Houve um minuto de indiscriptivel cahos.
O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido
ensurdecedor.
A chalupa corria rapida como um vôo.
Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento,
encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão.
Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava
perdida.
Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.
Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da
destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças
naturaes.
O ceu assombreava-se cada vez mais.
Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas
extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a
Antonino:
--Corremos grande perigo, não é verdade?
--O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.
--Para onde diriges a chalupa?
--Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois
kilometros. E agora, minha querida, silencio!
Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre
todos, feliz por se saber protegida por elle.
Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?
Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por
aquelles dois entes cheios de vida.
Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.
Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um
ligeiro calafrio.
Mas, depois, socegou por completo.
Pensava apenas:
--Se nós fossemos separados por alguma vaga?
E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas
forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima
do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço
d'Antonino. Depois disse:
--Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!
A tempestade attingia o paroxismo.
As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.
O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.
As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.
A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso
das ondas.
Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer
pouco depois, continuando na carreira rapida.
A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a
espuma franjava phantasticamente.
Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia
encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.
Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que
corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos
temerosos.
N'essa occasião a vela rasgou-se.
Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.
A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.
A chalupa esteve prestes a submergir-se.
A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.
O porão encheu-se d'agua.
Felizmente chegavam.
A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...
Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma
enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa
afundava-se na areia.
Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.
Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra, que o visconde atou
solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.
Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos
braços.
Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.
Estavam salvos!
XVIII
O encontro
Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto
ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.
Na praia estava amarrado um barco.
Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.
A casa estava aberta e vazia.
Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.
Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de
pescadores.
Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim,
n'uma anfractuosidade dos rochedos.
A porta apenas estava fechada na tranqueta.
Abriram-a e entraram.
Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.
A custo conseguiram saber que o velho--marido sem duvida--tinha partido
de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.
Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além
de _cidra_, toucinho, peixe sêcco e pão.
Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um
pouco mais os ouvidos e a intelligencia.
A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.
Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.
Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.
Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:
--E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque,
antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que
a velha nos póde dar.
E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:
--Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei.
A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.
Laura conservou-se á chaminé, pensativa.
Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:
--Adeus, Linda, bom dia!
Levantou-se sobresaltada e olhou.
Tinha em frente Lauretto Mina.
--Como vaes tu, carissima?
Laura respondeu altivamente:
--Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!
--Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em
Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia
officialmente á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em
Inglaterra, não é verdade? Ninguem desconhece essa especie de
casamentos... enlaces pouco duraveis, tão faceis de fazer como de
desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o
casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.
--Mas affianço-lhe... replicou Laura.
Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:
--Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me indifferente!
--Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a
viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me
impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as
attenções e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que
reconquiste as suas boas graças.
Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:
--É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de
passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que
não deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...
Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:
--E se assim fosse!
--Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no concerto...
--Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.
--Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma
desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.
--Obrigada.
--E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me
dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer
aqui, porque vim exclusivamente por sua causa.
--Por minha causa? repetiu Laura como um echo.
--Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos
conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã
propozeram-me um passeio até á ilha, que me affiançaram ser
extraordinariamente pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais
tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua
causa, repito.
Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:
--O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a
inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que
tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura
nas condições que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e
por serie de representações.
Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.
Por fim disse:
--É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.
--Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A
sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não
deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o
nome dos nobres avós d'um fidalgo da provincia, mas, _per Bacco!_ não
lhe merecerá mais consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu
nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo
seu talento previlegiado? Não posso deixar de lhe lembrar que seu pae
tambem era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos
lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho
que a filha proceda de fórma contraria, deixando offuscar o seu glorioso
nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza!
O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras
correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.
A viscondessa não respondeu.
Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.
O tenor perguntou:
--Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, não
é verdade?
Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:
--Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!
--Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde
confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria,
á arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe
esse conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a
engana o coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está
farta da vida que leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem,
pertence a todos! Eu nem um instante duvidei que a Linda voltaria
para o theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!
Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:
--Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?
--Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido.
Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido
para a America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao
certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da
Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube
pelo barytono Gressier, que elle fôra convidado para cantar n'um
espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo
era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os
jornaes da provincia, e n'um, o _Correio d'Ille-et-Vilaine_, vi que o
conde de Bizeux era o vice-presidente da commissão que promovia o
espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da
baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente «o
director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar,
estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda!
Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me
desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou
reconhecidamente o meu valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte,
munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo,
onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu
sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que
considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da
sr.ª baroneza de Pontual--uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse
o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não
corresponda á belleza com que Deus a dotou!
--Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura
inquieta. Disse-lhe quem eu era?
--Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza
fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que
a sr.ª viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e
não trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa
hypothese e resolvido não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.
--Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação
com Lauretto.
D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da
primeira.
--Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o
maximo desejo em que veja em mim apenas um amigo. Escute-me, Laura:
ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar em si. A
sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de felicidade
que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a
relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe diga,
o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!
A viscondessa endireitou o corpo, irritada.
Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:
--Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e
respeito?
Lauretto não poude responder.
Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.
Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:
--Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.
Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um
cabaz.
Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.
A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.
--Lauretto Mina! disse elle apenas.
--Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, e
assim é, que o mundo é enorme. Pois apesar d'isso os amigos
encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de
ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para
cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta
ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus
charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?
--Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um
gesto de recusa.
O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.
Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:
--O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada
me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os
por mais tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a
honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a
homenagem do meu mais profundo respeito!
Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.
Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.
--Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.
--Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!
O visconde interrogou a velha.
--Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha para _ver a
vista_. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava
deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.
--O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou
as explicações.
--Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me
offerecer escriptura, tambem.
--E que lhe respondeste?
--Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.
--É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas
palavras offensivas?
Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?
Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.
Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:
--Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em
Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim,
promettendo-me até fingir que não me conhecia.
--Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino
ironicamente.
--O que tens? perguntou Laura com meiguice. Não admira que te
contrariasse o encontro com esse homem, mas isso não é rasão para me
tratares com modos bruscos!
--Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem
irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela
impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que
pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias!
--Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir
forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.
Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.
Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.
O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.
Mal provaram os alimentos.
Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.
Pensavam.
Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da
fadiga physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae
victorioso, estava agora triste e inquieto.
Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que
sentia pela esposa, fazia com que o visconde visse para além das
apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.
Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que,
no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma
sombra que lhe fugia e lhe era contraria.
Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras
perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino
nem pronunciára uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de
novo fazia regeitando as propostas do director da Opera.
Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando
ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias
palavras que então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.
Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe
testemunhava uma especie de desconfiança amargurada?
Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como
mulher honesta, ella repellira?
Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um
perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle,
enlaçados n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,
procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram.
No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.
E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer,
uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.
A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas
necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.
Prepararam-se para partir.
Antonino continuava pensativo.
Laura perguntou-lhe porque estava triste.
Elle desculpou-se com a fadiga.
A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.
O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.
Laura insistiu com sollicitude.
--Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?
Antonino hesitou, mas por ultimo disse:
--Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso!
Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o
obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo
companheiro no theatro, e, principalmente, a certeza de que elle,
como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse
supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não
consentiria que tu cantasses tambem.
--Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e
a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te
que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque
talvez assim tu fiques completamente socegado.
--Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque
desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só
por essa fórma conseguirei libertar-me.
--Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como
tu.
Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas.
Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.
Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de
Pontual.
O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas
as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha
para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior
enthusiasmo.
Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.
O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua
mulher fosse riscado do programma do espectaculo.
Mas o conde declarou:
--É completamente impossivel! É tarde para isso!
E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião
sobre o caso.
Não comprehendia os escrupulos do filho.
Vira e fallára com Lauretto Mina.
O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.
Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á
sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com
a viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.
O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam
ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de
Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois
disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar
pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do
espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a
Saint-Malo para ouvir a viscondessa.
Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.
Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.
Portanto Antonino disse:
--Pois bem, Laura cantará!
XIX
O escandalo
Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um
somno febril, cortado de sonhos sinistros.
Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham
causado as scenas d'aquelle dia.
De manhã teve nova emoção.
Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o
nome de Remissy.
O que significava aquelle caso?
Porque não a tinham prevenido?
Estaria Remissy em Saint-Malo?
Na vespera não o vira e nada lhe constára!
Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a
viscondessa a si propria fez.
O tenor dizia o seguinte: