--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor,

fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem

que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero

provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para

satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no

theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido

duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor

está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a

fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito

com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a

pouco exporei, renuncio ao theatro.

--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.

Ella continuou:

--Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me

conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o

nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do

conde de Marcia. A Linda desapparecerá.

--O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu

repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha

querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo

affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do

sacrificio?

--Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha

pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio

firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os

tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o

meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da

mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus

successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou

d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel

necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda

que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora.

Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de

gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte ao que era

no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono

apenas pelo muito amor que lhe tenho.

--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de

satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto,

fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.

--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu

caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel

que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se

eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a

opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente,

Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?

Elle reflectiu alguns instantes.

Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:

«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura

Marcia, minha mulher, e...»

Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:

--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando

quizer, que a porta está aberta.

--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.

E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor.

Concluamos o nosso romance.

A conclusão foi a seguinte:

Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.

Trataram do casamento com todo o segredo.

Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.

Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente

restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação

do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no

consulado de França.

Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.

Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.

Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.

Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a

felicidade diminuisse.

Trespassaram a casa da rua de Bolonha.

Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os

restantes vendidos.

Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann,

residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.

Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da

sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.

Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia

estipulada no contracto para a rescisão d'elle.

--Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao

emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da

virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor

o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.

Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem

informado_:

«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um

contracto fabuloso que assignou para uma _tournée_ nos Estados-Unidos.»

Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_:

«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que

esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante

a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo,

prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»

XIII

Regresso a França

Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de

Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor

de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de

regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.

O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e

aspecto veneravel e terno.

A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.

Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto

das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta

estirpe.

O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia

tornar a vêr depois de prolongada ausencia.

Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára

durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.

A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo

finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e

ternos, de que o rodeava.

Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.

A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições

menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.

O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que

estivera escripturada em diversos theatros.

Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de

Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não

estar em contacto com uma _comediante_.

Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a

desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um

conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.

Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro

amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção

de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto

da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o

amor, o amor profano, que vencera.

Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava,

insultara a memoria de sua mãe.

O vapor de Jersey não tardou a chegar.

Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente

deu um abraço na irmã.

O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e

apresentou as duas senhoras uma á outra.

Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma

identica áquella por que fosse tratada.

Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:

--Senhora viscondessa!...

--Minha senhora...

As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.

Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se

n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas

casas.

O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio,

fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.

As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de

communicação em todos os andares.

Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.

O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos

navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a

cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a

vista do mar.

Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.

Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois

almirantes francezes.

O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida

simultaneamente separada e commum.

Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.

De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas

uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa

ás pessoas mais intimas.

Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a

Saint-Pol-de-Léon.

Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse

ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.

Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a

filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e

encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na

hypothese d'uma revelação sempre possivel.

Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista

que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se

immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e

mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e

hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de

dever ser, no fundo, um pouco monotona.

Laura, porém, não dava por essa monotonia.

Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da

acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.

O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.

A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.

Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o

melhor da vida.

Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil,

visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas

paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.

Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.

Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada

para servir no quadro do seu amor.

Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar

por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.

O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre

aquelle perpetuo colloquio.

Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.

Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante

mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou

nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.

Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do

homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.

--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a

voz.

--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...

E teria ella saudades, effectivamente?

O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por

isso, sem prejuizo d'outros predicados.

Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que,

excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e

mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.

Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo

publico.

Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles

annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham

tambem o seu encanto.

E como estavam d'accordo, regressaram a França.

XIV

A vida no castello

O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de

legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em

que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das

colinas.

Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava

cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito

retirada.

No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.

Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e

encontros.

Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé, as immediações do

castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens,

recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e

ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a

nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.

A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.

A solteirona dizia por vezes comsigo:

--Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a

recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.

Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.

O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a

Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase

brilhante, que lhe occultavam.

Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra

pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.

--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á

mesa com uma _toilette_ que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que

estamos no campo!

--Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.

--Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja

agradar? A meu pae?

--E porque não?

--Agradecido! disse o conde sorrindo.

--A seu marido?

--Certamente...

--Um marido não é um amante, minha querida!

--Para mim é.

E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.

Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto

ironico e altivo.

Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer

Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de

sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.

Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista

religioso.

Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era

crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.

Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens

seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.

Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro

ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.

As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia

em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar

nas vesperas dos dias santificados.

Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma

impia, votada ás chammas eternas!

De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia

da sua convivencia.

Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.

E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos

mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de

sua cunhada.

O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se

verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava

qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.

Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com

indulgencia.

Se, porém, a palavra _amor_ fosse uma só vez pronunciada, levantava-se

cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.

Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema

musical frequentemente usado pelos compositores.

Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.

Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes

parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de

theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.

O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!

Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!

Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo

occupado d'ella!

Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo

percebia que Paris lhe faltava.

Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á

inauguração!

Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no

coração o amor que tinha por Antonino.

É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas

elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao

casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.

O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros

tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.

E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella

manhã de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando

ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam

sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco

as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se

direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto

Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que

Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.

Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso,

ou descia até á praia.

Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle

segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias,

que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas

de liberdade.

Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que

subia.

E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as

saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia

o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.

Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.

Acharam um ninho de melros.

Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.

Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que

os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.

Eram cinco.

No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com

voracidade.

Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.

--Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.

No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.

A mãe estava no ninho.

Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando

depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os

filhos á mercê de seres humanos.

Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos

passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de

bolo, que previamente amolecia entre os labios.

Ao outro dia foram tambem ver o ninho.

Estava vasio.

O pae e a mãe tinham levado os passaritos.

Laura ficou triste, sem saber porque.

Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura

respondeu:

--É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!

Depois d'um momento de silencio, perguntou:

--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?

--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.

--Como as aves são felizes!

Antonino comprehendeu.

Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e

esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.

Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o

bretão é marinheiro.

Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.

Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.

O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga

facha vermelha, e tinha meia coberta.

Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval,

cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.

Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as

provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente

espaço para dormir ao abrigo do vento.

O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma

vela grande e d'uma bergantina.

Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se

inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle

unico panno.

Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a

chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente

á canna do leme.

Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura

toda a manobra das velas.

Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a

embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.

Muitas vezes embarcavam de manhã.

Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.

Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo,

armava a vela.

Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na

camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.

Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:

--Larga!

O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.

O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o

croque, e puchava a canna do leme para bombordo.

A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes

como indecisa, e por fim vogava.

Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.

Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e

mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.

Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com

grande inquietação do conde.

O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia

parar.

O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.

Laura sentia-se bem a bordo.

O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que

faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.

A caça divertia-a muito menos.

Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á

tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.

Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe

offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.

As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe

mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.

Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel

dignidade, que a propria Estephania se admirava.

Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para

Laura, verdadeira importancia.

Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.

Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal,

emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de

Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo

XV, no gosto de Folgoet.

A obra terminara emfim.

Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.

O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria

proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.

Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os

castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar

que só ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.

Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o

conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello,

esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra

tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.

Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por

subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o

arcebispo era presidente.

Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio

principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para

material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.

Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o

arcebispo desejava fallar com o conde.

Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção

de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle

desempenhava.

O Romance d'uma cantora · 第 6 / 14 段