Chama-se «Phebus Moniz.»

Este nome é de per si só uma accusação. É um epigramma quasi.

No meio d’este nosso enthusiasmo _monumental_, d’esta nossa

azafama em não ficarmos a dever nada a ninguem, e de pagarmos as

dividas nacionaes com estatuas e philarmonicas, esqueceramos o nome

honrado do tribuno popular do seculo XVI para nos lembrarmos dos

Quebedos, dos Sá de Menezes e dos Corte Reaes, poetas de cutiladas,

consciencias amphibias,--mais _nossos_ por isso talvez--que

convivem com as glorias patrias e beijam as botas aos invasores e

carrascos do seu paiz.

Isto era natural. Áquelles deviamos não sei quantos milhares de versos

façanhudos e retumbantes,--poesia de canhão e de sangue;--que ninguem

lê, mas que nos enchem um bom espaço das nossas livrarias.

Mas Phebus Moniz! Que fez? Que lhe devemos? Quem é?

É simplesmente um dos vultos mais respeitaveis, mais grandiosos, mais

sympathicos da historia do povo portuguez.

É simplesmente o ultimo lampejo que a nossa velha sociedade despede,

ao atufar-se por sessenta annos no charco podrissimo de uma fidalguia

corrupta, d’uma burguezia cobarde, de um clero traidor; ao cahir

polluida de vermes nos braços ensanguentados da politica cynica e

fanatica a um tempo, sinistra e grutesca da Castella Filippica.

Em volta do tribuno veem agrupar-se as tradições patrioticas, os manes

dos que morreram pela liberdade da sua terra e dos que lhe inscreveram

o nome em letras de immorredoura luz nos fastos das civilisações.

Phebus Moniz é um gigante.

É um homem de bem no reinado do cardeal-rei! A sua palavra vigorosa,

ungida de patriotismo e bom senso, inspirada pela historia severa e

incorruptivel, desce como azorrague luminoso sobre aquella immensa

orgia de canalha fidalga e de burguezia immoral.

Na borda do precipicio, Phebus estende a mão por sobre aquelle a Pinto

Ribeiro.

O sol mergulha no occidente, mas no seio das trevas prendem-se os elos

da historia patria.

Pinto Ribeiro é mais feliz do que Phebus. É mais pequeno tambem. Elle

e a sua gente lançam um velho pelas janellas, encareceram uma mulher,

desarmam um punhado de mercenarios, e carregam um João IV, com a corôa

de um João I.

Valem bem uma estatua, valem. Mas Phebus? Vale um livro. Meditem bem na

differença. É profunda.

Phantasiar um _heroe_, trajal-o a capricho de galas ou farrapos,

fazer-lhe irradiar, ou pôr-lhe a volitar em roda uma multidão cahotica

e immensa de peripecias extravagantes, de anecdotas engenhosas, de

scenas lugubres, de inverosimeis _intrigas_: é fazer do romance um

espectaculo de prestidigitação, ou da faculdade imaginativa um acrobata

mais ou menos perito.

Mas arrancar das paginas da historia um vulto ou um grupo, um nome ou

uma época, fazer d’aquelle um pretexto para a historiographia d’esta,

converter o romance em lição da intelligencia, exemplo para o coração,

advertencia para a vida actual, guia para os caminhos do futuro,

collocar a imaginação ao serviço da historia e não esta á vontade

d’aquella, pol-a ás ordens de uma propaganda justa, positivista,

harmonica com o pensar e sentir da moderna humanidade, abolir o

romance pelo romance,--disparidade identica á arte pela arte,--para

fazer do romance pela facilidade da evangelisação, pelo magnetismo da

faculdade imaginativa, pela amenidade da aprendizagem e do ensino: uma

these; realisar n’elle uma manifestação da proficuidade da historia,

isto é, um fim directo e praticamente utilitario: é que é missão

mal comprehendida por muitos, deturpada por não poucos, acceita por

alguns apenas, satisfeita por pouquissimos ainda; dos penultimos, é

certissimamente,--dos ultimos mesmo, creio eu que é tambem,--o author

do «Phebus Moniz,» romance que abre esplendidamente com um estudo

synthetico,--despretencioso e profundo,--das causas remotas e proximas

do desabamento da nossa autonomia e fecha com uma nota eloquente sobre

o estado presente da Europa, que é como que o complemento doutrinario

do livro e a explicação natural do seu apparecimento.

Registre-se já um facto.

Traz a introducção a data:--Maio de 1866.

Finda a nota em outubro de 1867.

A critica não devo desprezar isto.

Que de trabalhos e progressos n’um anno!

Que de ideias novas que surgem do estudo, que de novas doutrinas que se

desenrolam no espirito, que de novos focos de luz se fazem na sciencia

e na vida!

Sabem-n’o todos.

Experimentam-n’o muitos.

É por isso que a nota final vem alli a proposito.

Teremos occasião de o notar ligeiramente.

Á leitura detida fica o pôr bem em relevo aquelle facto.

É por vezes, uma desculpa, outras uma elucidação.

Quem póde dizer-me onde acaba a meia edade, e onde a renascença começa?

Quem póde fazer-me a generalisação dos factos que esta abraça, e a

synthese natural das ideias e sentimentos que ella representa, para que

eu possa consideral-a uma quadra distincta, harmonica, collectiva do

espirito humano na historia das civilisações?

Quantas vezes a palavra, que devêra ser sempre a traducção fiel da

ideia e o espelho leal dos factos, deturpa escandalosamente aquella e

desfigura estes!

Creio eu que, com a palavra _renascença_, cousa egual acontece.

Toda a explosão do sentimento e pensar autóchthono,--da

_originalidade_, emfim,--de uma raça ou de um povo, amarrotada

ou opprimida por influencias estranhas, ou anormalidades historicas, é

_renascença_.

O reapparecimento de uma civilisação desthronada, moldando-se aos meios

e circumstancias actuaes, é _renascença_.

Renascença é a tradição feita carne.

Renascença é a tradição feita progresso.

Theodorico e Cassiodoro e Boccio e Abélard e Bacon, _renascenças_.

Pedro de Montereau em França, a cathedral de Koln (Cologne), Ervin de

Steinbach, em Straburgo: _renascenças_.

Renascenças, emfim: Meister Wilhelm e os Van Eyck e Wohlgemuth, o

Shakspeare da arte, e Kranach, o Raphael de Luthero, e Guido, e Giotto

e Nicolau de Pisa, e Miguel Angelo.

_Renascença_ no seculo XV, no seculo XIV, no seculo XIII, no

seculo XII, _renascenças_ successivas, revoluções parciaes,

progressos isolados, mas constantes, durante toda a meia-edade, época

de laboração e trevas, genesis, ou se querem, cadinho enorme, onde

revolvem as ruinas das velhas civilisações, as ideias e sentimentos das

sociedades esphaceladas, os instinctos e tendencias, o aspirar e sentir

de uma humanidade nova.

É d’alli que jorram, ou antes que são impellidos os elementos

embryonarios da nova éra. Moldando-se á indole moral de cada povo,

affeiçoando-se ás condições physiologicas de cada grupo, morrem uns

depois de terem dado tudo quanto traziam de necessario e util, vigoram

e crescem outros depois de terem despido tudo o que os afeiava e

corrompia.

Alguns ha, porém, que cousa alguma de utilidade nos legam, que cousa

alguma de necessario realisam: elementos de desordem e desmoralisação;

instituições em paroxismos crueis, doutrinas nos delirios do

passamento, ideias debilitadas e dissolventes, que veem interpôr-se e

obstar, por vezes, ao connubio de dois elementos vivos de progresso.

Mas fazer uma quadra completa e distincta na historia da Europa,

do movimento, de ha tanto annunciado, na arte italiana, por uma

modificação natural da arte florentina; fazer derivar d’elle todos

os progressos e revoluções que se reflectem na historia dos seculos

XV e XVI, e cuja corrente se estende atravez toda a meia-edade,

referir á mesma causa--secundaria, e contingente--factos de primaria

importancia e logica fatalidade que se gladiam na consciencia, na

razão, e na historia:--Carlos V e Luthero, o livre exame e a fogueira,

o protestantismo austero e simples e o catholicismo luxuoso, pagão,

por exemplo, é, creio eu, erro, que por muito vulgar e correntio,

vemos convencionalmente acceito como verdade incontroversa, obstando á

investigação desapaixonada das causas e origens.

Cáe infelizmente tambem o author do «Phebus Moniz» n’este preconceito,

quando, fazendo da «_renascença_» uma quadra unitaria, na

apparição pelo menos, denominando-a interrupção na marcha do progresso

humano, filia n’ella como elementos da propria indole, a intolerancia

religiosa, e a monarchia pura,--a primeira, elemento de todas as

épocas, necessidade e lei de todas as religiões; a segunda, conclusão

logica da meia-edade; e ambas elementos de desordem e desmoralisação,

que esta nos lega não sei eu se como um sarcasmo, se como um incentivo

ao progresso.

Abstráia Oliveira Martins do movimento ou da revolução que chama

_renascença_, embora lhe dê a generalisação e unidade de feição

que lhe dá, e veja-se o _throno_ e o _altar_, o throno

despotico e o altar intolerante, lhe não ficam de pé, como consequencia

natural e unica do estado dos espiritos e da successão dos factos da

meia-edade.

O throno e o feudalismo, ou, entre nós, o throno e a alta nobreza

secular ou clerical, luctam encarniçadamente.

O terceiro estado[61], a communa, o municipio ou o concelho--como

quizerem--não hesita, não póde hesitar entre ambos.

Está do lado do throno. É apoiado n’elle que este destroe aquelle.

Depois o «municipio» «homem feito», talvez, como diz o snr. Martins,

mas certissimamente homem ignorante e desasisado, acceita quasi sem

lucta umas vezes, outras pedindo até, como por exemplo em França[62],

a tutela do seu alliado por conveniencia, do seu inimigo por natureza,

tutela que breve se converte em jugo pesadissimo, mesmo em Portugal,

onde, diz o author do «Phebus»--o governo de todos, na mão de um só,

encontra em D. Manoel um são e patriarchal caracter.

O exercito, a milicia permanente, a cavallaria da meia-edade com libré

e salario--D. Quixote feito Sancho Pansa, ordeiro umas vezes, outras

buliçoso por conta do throno e do altar, eis um elemento mais, em que a

monarchia se apoia, e que o municipio lhe fornece.

Depois, a intolerancia religiosa, manifestando-se em perseguições,

carnificinas e _quemaderos_ não annunciará simplesmente os

paroxismos e delirios derradeiros do catholicismo, que enroscando-se na

monarchia temporal--sua desejada amante--se inebria na volupia do crime

e morre na impenitencia da doidice?

O Vaticano, no dizer do snr. Martins, symbolisa uma nova soberania de

Roma.

O Vaticano!

Os velhos despotas do Egypto construiam montanhas enormes de pedra,

onde julgavam que as suas mumias, ao abrigo do tempo e dos homens,

chegariam illesas ao termo final da peregrinação _celeste_.

A conservação da carne era-lhes a garantia da bemaventurança do

espirito[63].

Pois o Vaticano é a pyramide funeraria do catholicismo--ou para nos

servirmos d’uma subtileza vulgar--do papado.

Miguel Angelo e Raphael julgam fazer uma apotheose, e escrevem um

epitaphio.

Mysticismo e naturalismo! Contradicção fatal. Lucta demorada em que a

natureza ha de vencer.

E venceu.

Pelas gotteiras da cathedral germanica o espirito humano foge do

carcere em que o catholicismo o ia matando á fome, e desvairando á sêde.

Porque o mysticismo é isto.

Fome da intelligencia.

Sêde do coração.

Vae passado o cahos diluviano. A pomba abandona a arca, afugentada

pelos gemidos dolorosos que sáem dos esquifes mortuarios, e pelo

tripudio dos embriagados pilotos.

Mergulha-se no espaço, despenha-se de rocha em rocha, atravessa os

mares, fita e saúda o sol esplenduroso que surge.

Fez-se aguia.

Perseguem-na, encarceram-na, algemam-na a um pelourinho d’oiro, que

chamam throno, lançam-lhe em cima um manto cesareo,--trapo que á custa

de muitas infamias e abberrações e trevas,--conquistou um logar na

historia?

Cuidado! A aguia ha de espedaçar as algemas, alluir o carcere, e surgir.

Será por momentos abutre.

Á Reforma succederá a Revolução.

O poder absoluto, a intolerancia religiosa, a occupação militar

permanente das Indias, isto é: a desmoralisação da consciencia publica,

a atrophia da vida politica, o relaxamento do espirito patriotico, a

zizania na familia nacional, a lucta estrondosa das consciencias, a

expulsão da terra patria d’um grupo poderoso, trabalhador e rico, os

braços a fugirem ao commercio, á industria, á agricultura, para irem de

espada em punho roubar as alheias riquezas e liberdades, o cerceamento

constante da população activa pela guerra ou pelas perseguições do

fanatismo, a degradação do trabalho, a corrupção nos espiritos e na

acção, e por cima de tudo isto a ambição monarchica e secular de

Castella a espreitar o momento de cahir sobre a presa descuidosa, eis

as causas capitaes a que Martins attribue, e crêmos que a boa critica

historica com elle, a quéda da nossa autonomia.

O cardeal-rei, homem timorato e pequeno, verga sob o peso d’uma corôa

que não fôra talhada para tão misera cabeça.

Com os pés na sepultura, oscilla entre a influencia e ameaças de

Castella e uns restos de pundonor nacional.

O ouro e as promessas de Filippe vão comprando as consciencias e

arredando as difficuldades.

Pollulam os sophistas de pergaminhos e genealogias reaes, os trapeiros

de imaginarios direitos, os pregoeiros de deslumbrantes futuros.

Rigorosamente, esta cafila de comediantes e charlatães, é um luxo

obrigado n’estas empalmações politicas.

Mas a questão aqui não é de convencimentos nem discussões. É de compra

e venda apenas. Nem todos, porém, concorrem ao mercado vilissimo.

Consciencias ha que o ouro dos sicarios castelhanos, capitaneados ou

protegidos por um rei demente ou traidor, não póde comprar.

Ergue-se ás vezes rochedo inaccessivel onde se julga encontrar sahida

facil para a desejada planicie.

Abre-se aos pés enorme barranco, quando parecia que a estrada era plana

e suave.

Nuvemsinha que dissereis trazer no seio a bonança, despede medonho

temporal. Phebus Moniz é isso.

Chamado ás côrtes pelo phantasma coroado, como se a voz lhe tivesse de

sahir d’uns labios venaes e traidores, o honrado tribuno apparece na

tela da historia como um protesto vivo contra a corrupção geral, contra

a venda da patria pela realeza e pela aristocracia transfuga, e contra

as pretenções mentirosas d’um estrangeiro á terra portugueza.

Quereis conhecer a montanha que surge repentinamente na estrada?

«Eu, senhor, não sahi do meu buraco, para fazer o que não devo á

liberdade do reino, em que nasci, e que de mim a confiou; não sou eu

homem que se haja de dobrar por ameaças nem medos, porque mais póde em

mim o receio de faltar um ponto á minha obrigação, do que tudo quanto

no mundo ha; e assim, senhor, não sei para que me fizeste cá vir, se

quereis dar o reino a Castella», etc.

Quereis sondar o barranco? Lembrai-vos que estamos no seculo XVII, e

ouvi:

«E vossa alteza poderá fazer d’este corpo o que quizer, que em seu

poder está, mas na alma não tem jurisdicção; nem ella virá nunca a dar

tal consentimento.»

Quereis vêr como da nuvemzinha jorra o temporal?

«Que falta é esta de amigos, que pobreza de vassallos leaes? porque

não tenho por amigos do vosso serviço, nem por creados leaes, quem tal

vos aconselha. Porquê, quereis que vos estale o reino nas mãos? Não

vê Vossa Alteza a nodoa que põe em seu nome? Aonde se dirá com honra

que se entregou este reino a Castella por temor de se defender do seu

poder?».[64] .......................................................

_Que exemplos a futuros escriptores!_ diria o poeta.

Que lição aos tribunos presentes! direi eu.

Começa, pois, aqui o romance de Oliveira Martins.

Não lhe acompanharemos a acção, desde o ponto de partida:--convocação

das côrtes em Almeirim, e explosão estrondosa do bom senso, audacia e

patriotismo de Phebus, até ao desfecho tragico:--a morte do honrado

tribuno e o esmagamento da independencia portugueza sob as patas do

cavallo do duque d’Alba.

Corre o enredo romanesco em boa e santa paz com a historia,--cousa

pouco vulgar--e sem que o senso commum tenha de lhe pedir contas

das costumadas demazias e aberrações,--cousa menos vulgar ainda.

Manifesta-se, porém, aqui ou alli--n’uma ou n’outra scena, n’este ou

n’aquelle fio do engenhoso tecido, certa inexperiencia e hesitação do

artista, certa precipitação do fabrico.

No estylo, revela-se principalmente este facto. Falta-lhe por vezes a

unidade na fluencia, a naturalidade na dicção, a facilidade e exactidão

na tropologia.

Não ha ainda alli um estylo já feito, caracteristico, harmonico. Tal

defeito, porém, desapparece já nos ultimos capitulos, e em a nota

final. Procurou-se corrigil-o na introducção e quasi se conseguiu.

A descripção do desastre de Alcantara e da morte de Phebus, são

verdadeiramente eloquentes. A palavra não falsêa a inspiração, e a

personalidade moral do auctor imprime n’esta o cunho sympathico da

grandiosidade, justiça e pureza dos principios democraticos. Sigismundo

Krasinski, o inspirado poeta dos «Psalmos do Futuro», honrar-se-hia

com a paternidade d’aquelle magestoso capitulo em que Phebus-Moniz,

ao ultimo lampejar da vida, vê atravez os destroços e tenebrocidades

de uma orgia do despotismo e da intolerancia, atravez os crepes da

liberdade, as lagrimas de sangue das consciencias, os desvarios

e atrocidades do throno e do altar, surgir esplendurosa aurora,

tingir-se o espaço com as côres do arco-iris, fulgir a imagem ideal do

futuro, brotar do cahos medonho á luz benefica da verdade um mundo de

liberdade, egualdade e fraternidade.

Mas este livro tem um merecimento supremo.

Tem uma utilidade. Tem um fim. É uma these. É um evangelho quasi. Os

protagonistas apparecem alli como os vicios e as virtudes appareciam

nos velhos _autos_, personificados nos actores.

Não ha, porém, o fanatismo de uma crença a impôr e extremar o assumpto,

nem este a tyrannisar a naturalidade da acção, nem esta ultima a

nullificar os heroes.

N’isto está uma immensa difficuldade vencida, e uma grande victoria

ganha.

De Phebus já fallamos. Descrevendo-o, o romance fez-se historia. Fez-se

philosophia até. Aquelle vulto que se ergue nos visos do abysmo não é

simplesmente uma lição a vindouros. É a demonstração de que só ha uma

cousa eterna e incorruptivel nas nações: a _nacionalidade_, como

só ha uma cousa indestructivel nos povos, a familia; como só ha um

facto supremo na historia: a sociedade.

Corrompe-se uma geração, opprime-se um povo, destroe-se um estado,

algema-se uma nação; mas o sentimento nacional, ampliação senão

consequencia, do sentimento de familia e ambos do sentimento de

sociabilidade que porventura a physica e a chimica terão um dia a

velleidade de querer explicar á historia, fica arreigado ao solo

devastado, ou ao mutilado grupo, para sarar e robustecer este,

para fecundar de novo aquelle e surgir á luz do dia triumphante e

incontestavel.

Por isso dissemos já. Prendem-se os élos da nossa historia nas trevas

da dominação castelhana. Melhor disseramos: não se quebram.

Phebus dá a mão a Pinto Ribeiro. Manoel de Souza Coutinho, recebendo

com as labarédas do incendio os mandões traidores, illumina a fachada

do palacio dos Almadas, no dia da resurreição da patria.

Voltemos ao romance.

Conhecemos Phebus na historia. É o mesmo na biographia. Na tribuna como

em casa.

Vulto venerando sempre!

Nem o romancista podia deixar de o apresentar assim. Fôra mentir ao

bom senso da arte. Em casa, perfuma-lhe e alegra-lhe a vida o amor das

filhas.

Anna e Maria são dous typos eternos.

Anna é um d’esses specimens desgraçadissimos de uma moral balôfa e

contradictoria, que mais é myopia social do que facho e guia seguro.

Procurou o auctor alliviar aquella pobre realidade de todos os tempos,

da sua vulgaridade vergonhosa.

Anna é uma d’estas mulheres de intelligencia curta, e coração depravado

ou frio, que só dão o amor a quem lh’o pagar com luxurias e ostentações.

O amor!

Deixae passar a blasphemia.

Anna ama o luxo, a riqueza, o esplendor ficticio das fidalgarias, dos

pergaminhos e das _burras_; mas é afinal de contas uma pobre

creança, que não faz dos olhares armadilha, nem da virtude mercancia.

Perde-se. Alonso Domingues fascina-a. É esbelto, audacioso, espadachim,

traja com gosto, ostenta dourada fidalguia.

Rapta Anna. Depois, a pobre menina abandonada e com um filho de sua

desgraça nos braços, arrasta-se até ao «paterno ninho», com a vergonha

que não perdêra, com o amor, que não esfriára, com o desespêro d’este e

d’aquella no coração, e a vida a fugir-lhe dos pulmões em golfadas de

sangue.

Anna póde bem symbolisar um certo _iberismo_ ignorante e

inconsciente, que o esplendor do poder o fascina e endoudece.

O vulto da filha mais velha de Phebus não se destaca porventura bem

distincta e harmonicamente na tela do romance, talvez pela complacencia

desculpavel do auctor.

Ha, porém, n’ella feições admiravelmente desenhadas, e que nos

despertam por vezes sympathia, sem que esta seja simplesmente filha

da compaixão. Na concepção do vulto de Maria esmerou-se o sentimento

esthetico do romancista.

Deu-nos um composto de graça e candura, de amor e resignação admiravel.

Quasi se adivinha que houve um modêlo vivo para aquella pintura, e que

o auctor, não podendo devassar os segredos de uma organisação desfeita

ha tanto tempo, procurou em roda de si e achou a inspiração para a sua

obra.

O desenho não sahiu infelizmente irreprehensivel.

Maria apresenta-nos por vezes uma certa perspicacia pretenciosa que lhe

vai mal. Exemplo: quando explica pelas riquezas da India a decadencia

da patria.

Maria ama Fernão da Silva.

Aqui fraqueja tambem o enredo. Perde-se ás vezes e por muito tempo a

lembrança d’aquelles pobres amores.

Fernão e Alonso são outros dous vultos typicos.

Alonso é a politica castelhana d’então em pessoa. Tigre com unhas

de chacal. Soldado com roupeta de jesuita. Carrasco com ademanes de

cavalleiro. Espadachim de taberna com fallas de sala e requebros da

côrte.

Sinistro e grutesco a um tempo. Terrivel e ridiculo. Fernão é o

Portugal d’aquellas eras, com a consciencia da propria fraqueza, com a

hesitação do presente, com todos os receios e medos do futuro, mas com

todos os impetos tambem do sangue que lhe referve ainda nas veias.

Impetos que redundam aqui n’uma desgraça, além n’uma covardia

derradeira, apoz uma derradeira gloria.

Fallece-nos o tempo e o espaço para fallar do cardeal-rei, do prior

do Crato, e do duque de Bragança, o primeiro, um velho tonto, fraco

e medroso; estes dous ambiciosos contaminados da corrupção do tempo;

um dos quaes se rehabilita perante a historia pela valentia com que

se bate em Alcantara, e pela persistencia com que lucta contra o

infortunio.

Todos estes vultos foram cuidadosamente estudados, magistralmente

desempenhado, e julgados com imparcial justiça e criterio por Oliveira

Martins.

Outro tanto podemos dizer dos vultos secundarios que no romance se

agitam, movidos pela imaginação do auctor, e pela mão da historia.

Está-me a _nota final_ do romance de Oliveira Martins reclamando a

attenção e a penna.

Força-me, porém, a ser breve a escassez do tempo e a prolixidade d’este

escripto.

A fusão dos povos que Martins denomina--iberos--e que habitam esta

pseudo-peninsula--Luso-hispanica, sob uma fórma democratica e

federativa, é pelo auctor do _Phebus_ considerado um facto fatal

n’um futuro remoto ainda.

Para elle,--fraternidade,--e federação,--dos povos são um principio e

um facto correlativos. Este consequencia d’aquelle.

É vulgar tal erro. Os que creem na unidade da familia humana, podem

vêr na fraternidade dos povos, como principio, a traducção de um facto

natural, a sancção moral d’elle, sem que por isso vejam na federação a

sua consequencia.

Na familia existem os laços naturaes, bom é que exista tambem a

harmonia moral, sem que seja necessario que a autonomia de um membro se

perca na vontade de todos.

Podia até quebrar-se essa harmonia ou converter-se na que a tyrannia

realiza ás vezes. Harmonia na apparencia. Desordem no fundo.

Contradicção que encerra um mundo de injustiças, atrocidades e odios.

Contradicção d’onde nascem as revoluções.

Não vão agora julgar-me inimigo mortal de todo o systema federativo.

Erravam. Ha dous argumentos gravissimos ainda contra a prégada fuzão.

O desnecessario d’ella. A fraternidade prescinde da federação. A

impossibilidade d’ella se realisar, a não ser parcialmente. Este

adverbio encerra mais de um argumento ainda. Não nos demoremos, porém,

n’este ponto.

No que Martins é principalmente eloquente e exacto, é na descripção que

nos faz do estado cahotico e anómalo da Europa moderna, na averiguação

das origens e da deducção de algumas das consequencias d’elle.

Camillo Castello Branco--MYSTERIOS DE FAFE; romance

social--Lisboa--Livraria de Campos Junior, editor (impr. de Sousa

Neves) 1 vol. 8.^o, 250 pag.

A grande tamanho me deitára esta revista, longo tempo me exigira ella

e não me eximira eu facilmente ao sacrificio das dimensões e indole

que lhe planeei, se a fallar d’um livro de Camillo Castello Branco,

abandonasse a obra pelo auctor, ou fazendo d’aquella pretexto e d’este

ponto de partida, me deitasse a criticar os tantos livros do romancista

portuense.

Deixo isso para outro logar que me não obrigue a penna a restricções e

acanhamentos, e para outra occasião que espero não se demore muito.

É Camillo Castello Branco uma das mais fecundas e originaes

intelligencias da nossa litteratura contemporanea, onde a originalidade

é já agora cousa que mal se enxerga,--_rara avis_ n’este mercado

de traducções e plagiatos, e a fecundidade não é de certo o mais

saliente caracter.

E não aquilato esta simplesmente pelo numero crescido de livros que tem

produzido Camillo, que uns podiam ser apenas paraphrases e reproducções

de outros, e dá-se isso com alguns, mas principalmente pela variedade

de concepções, pela mobilidade de esthesia e ideia, pela diversidade de

machinismo, etc. etc.

Vá-se notando sempre que eu fallo de Camillo, romancista.

Não costuma elle, e bem haja por isso, transplantar para o romance

nacional costumes e vida d’uma sociedade estrangeira, nem grudar-lhe

personagens exoticos, recortados nos figurinos de Pariz.

Se a sua galeria de typos e aventuras romanescas é pequena, se os

typos se nos apresentam estafados e serodias as aventuras, é que

tambem a sociedade portugueza, ou antes a sociedade portuense, que

Castello Branco principalmente explora, pequena e amortecida, não

offerece vasto terreno para cultivo, nem variada vegetação para

estudo. _Mar-morto_ onde vivem tranquillas Sodomas e Gomorras

quintessenciadas, com grande despêgo do que por lá fóra póde ir, e

com profundo desprezo do que por esses seculos adiante póde resmungar

a historia, a nossa sociedadesinha nacional não é sacudida por

vendavaes de ideias, nem revolucionada pelo estremeção de vulcões,

que por esses mundos além rugem ameaçadores ou bufam incandescencias

que cauterisam muitas chagas do corpo social. Tambem o movimento, a

agitação d’interesses, de aspirações, de sentimentos não é grande por

cá, a vida escorrega enxabidamente por entre meia duzia de escandalos,

regularmente os mesmos, de habitos estupidamente inalteraveis, de

ideias e sentimentos monotonamente eguaes, tradicionalmente conservados

e acatados.

Com isto, e com muito mais que haveria a dizer, justifica-se um dos

grandes defeitos de Camillo.

Difficil será encontrar livro d’elle onde não appareça o

pseudo-brazileiro ricasso, labrego, cynico e commendador, o janota

devasso, pretencioso, ridiculo e poetastro, a mulher hypocrita,

immoral,--meretriz das salas, convenientemente acobertada das

prescripções legaes, por um contracto de casamento ou um titulo de

nobreza,--o morgado provinciano, boçal como o commendador brazileiro,

devasso como o poetastro portuense, typo valentão que por acaso tem

umas ideias de moral adquiridas com as courellas paternas, e que

geralmente ao cabo de certas acrobatices nas salas da cidade invicta,

desapparece da scena, para transpôr as fronteiras ou voltar com os

pulmões apodrecidos para o meio da sua criadagem arcabuzeira e barbuda.

Isto tudo polvilhado d’umas ideias methaphisicas de moral e entremeado

d’uns pobres personagens que tem certas ideias de gloria, honra,

dever e amor, havidas da tradição e acceitas em guisa de correntios

dogmas, pobres personagens que vão successivamente cahindo como

certos batalhões de cartas, que fazem os rapazes, n’uma realidade

desconsoladora: eis o que constitue geralmente a galeria romanesca de

Camillo.

A imaginação possante d’elle, salva-o da monotonia, mas não afasta por

vezes a impertinencia da redundancia. A concepção varia, altera-se

o machinismo, mas as peças d’este quasi são sempre as mesmas. É um

defeito que bem se póde perdoar pela virtude de não ir o romancista

recrutar em terras estranhas typos e acção que podiam alimentar a

variedade, mas disparateriam com as condições, indole e verdade da

sociedade e do viver nacional.

O romance _Mysterios de Fafe_ não é de certo dos de menor valia na

bibliographia de Camillo, antes por um dos melhores architectados, mais

verdadeiros e mais originaes, permittam a phrase--o tenho eu.

«Esta novella contém adulterios, homicidios, missionarios e outros

scirros sociaes,» diz o auctor no seu humoristico _Aviso ás pessoas

incautas_. De feito a acção do romance redemoinha n’um vertice de

immoralidades e crimes, que deve apavorar os paes sisudos que apenas

consentem em tirar as filhas das redomas de pudicicia em que as trazem

mettidas, para as levar a vêr e ouvir as obscenidades descaradas ou

as reticencias mais obscenas que estas, de Offembach e companhia, que

pelos modos o snr. Mendes Leal anda tratando de «rehabilitar», ou para

lhes prégarem prudentes conselhos, frechando á doutrina de que devem

vêr no casamento uma venda, em que mais lucram, se o comprador tiver

uma _burra_ recheada, do que se fôr um pobre homem intelligente,

honesto e trabalhador. Pois apesar de tudo, o livro _Mysterios de

Fafe_ é esplendida lição, posto não mire a dal-a, creio, o auctor,

que com _humour_ por ventura azedado de mais e descambando

amiudamente para o cynismo, nos vae narrando escandalos, e miserias da

vida provinciana, mal deixando apparecer a propria personalidade que

não seja para atirar com um sarcasmo á esthesia methaphysica com que

deitamos a perder as mulheres e nos perdemos a nós.

Eu disse que o _humour_ de Camillo Castello Branco descambava por

vezes para o cynismo e creio ter dito uma verdade já conhecida por

todos. Aquillo tambem não é vicio d’elle sómente, é degenerescença de

planta transportada para clima diverso d’aquelle em que se gerou e vive.

O _humour_ é inglez como o _esprit_ é de França. Ponto é este

que fica para discutir. O certo é que ha em Camillo uma persistencia

de ironia, deixem-me dizer assim, uma universalidade de sarcasmo, que

deleitando a principio, cansa, incommoda pela continuidade, como diz

Chaignet, se bem me lembro, que acontece com certos bebados vomitando,

dos quadros de Teniers, ou como acontecerá a toda a gente fitando por

muito tempo a monice sarcastica de certas figuras ajoujadas sob as

cantarias das cathedraes gothicas.

Voltando, porém, ao livro _Mysterios de Fafe_, direi que a acção

corre, tecida por mãos de mestre, regular e natural, e os typos são

geralmente modelados com primor e zelo, sem que possa deixar-se de

notar n’um ou n’outro certo refinamento de colorido, ou demasiada

rapidez de evolução. Rigorosamente «_Mysterios de Fafe_» não é um

quadro, mas uma serie d’elles. Ha alli assumpto para mais de um romance

e typos que se disputam a primasia, mas que o auctor soube enlaçar

n’uma acção em que a unidade artistica não desapparece. D. Grabriella

e as filhas, Francisco Roixo, a esposa e o sogro, Caetano d’Athaide

e Silverio e Pedro das Eiras, Domingas e o missionario, personagens

excellentemente esboçados, e alguns excellentemente _acabados_,

prendem-se, explicam-se, completam-se facil e claramente sem obrigarem

a longos rodeios ou a triviaes inverosimilhanças.

Em quanto ao estylo ha a dizer uma cousa. Na ultima _maneira_ do

escriptor portuense desappareceram de certo muitas das incorrecções

das anteriores, mas surge aqui ou alli o archaismo a impôr-se com

pretenções de purismo severo. Antes assim, porém. Além d’isso, aquella

persistente ironia não dá largas á idealisação poetica, e fecha por

isso as correspondentes alturas á palavra.

Corre porém esta, pura, natural e fluente quasi sempre n’este livro,

que mais desenvolvida apreciação merece e tivera se não me andassem já

demoradas outras de livros cuja offerta d’aqui agradeço.

Francamente: abri o novo romance de Camillo com pessima prevenção. Não

o lêra no _Jornal do Commercio_, onde foi publicado em folhetins.

Mal corrêra, porém, algumas paginas, alegrei-me por ver que não estava

a contas com _obra de fancaria_, como infelizmente me tem sahido

alguns livros do nosso romancista.

Uma cousa que admiro n’este,--deixem-me declarar,--é a coragem de

escrever um livro de dois em dois mezes aproximadamente, como não deixo

tambem de admirar a coragem do editor ante um publico, que, diga-se a

verdade, não se mostra corajoso ante a lettra redonda.

O Funccionalismo, por A. de Oliveira Pires = Lisboa, typ. Universal,

1869--in-8.^o, 24 pag.

Desmoralisada pela ignorancia, que é enorme, e pela especulação que

não é menor, a consciencia publica tem andado agitada contra a classe

de empregados publicos, que faz responsavel por males em que ella bem

pequena parte tem.

Fôra valente estimulo á hilaridade, se não provocasse antes tedio

e desgosto aos que amam ainda o bom nome da patria, essa cruzada

repugnante de analphabetos e refractarios ao imposto, contra uma classe

que elles consideram ou fingem considerar parasita, que reduziriam se

podessem ás condições dos antigos illotas, e que é a que mais serviços

publicos tem dado para a historia d’esta terra, a que mais illustração

possue, e aquella finalmente onde em grande parte o trabalho é peior

remunerado.

Nem vale a pena discutir isto ou tentar convencer adversarios que

geralmente tem odio mortal á _lettra redonda_ e á logica. Cafila

de agiotas, trapaceiros e ignorantes, que nunca pensaram em estudar

dois dedos de sciencia politica, e que riem boçalmente de tudo o que

lhes cheire a sciencia, pensarão em salvar as _burras_ recheadas,

levantando o antagonismo de classes, e carregando nos alambasados

hombros com o andor d’uma governação imbecil que lhes satisfizesse os

odios e decretasse a expoliação dos que reputam inimigos.

A muitos, se soubessem historia, bastava talvez lembrar-lhes uma data

para lhes mitigar os furores. Essa data é _1848_......

Na causa do _funccionalismo_ em Portugal anda presa a causa do

proletariato. Cuidado!

Se as sommas absorvidas pelo funccionalismo são grandes, se

este é exageradamente numeroso, se a _sinecura_ existe e o

_esbanjamento_ vos apoquenta os bestuntos, procurae, patriotas

_de momento_, estudar o systema, obviar-lhe aos males, planear uma

reformação sensata.

_Sublata causa, tollitur effectus._

«Ergue-se uma voz, ainda que fraca»--diz o snr. Oliveira Pires,--do

seio d’esta grande corporação, chamada os _servidores do estado_,

unicamente para ir chamando ao bom caminho a opinião desvairada e com o

fim de protestar contra a perseguição, não em nome de falsas vaidades

ou de interesses illegitimos, mas em nome d’um principio sagrado nas

sociedades civilisadas, em nome do _direito_.»

Vae o snr. Pires defendendo o empregado publico com notavel clareza

e imparcialidade, expondo as oppressões de que aquelle tem sido

victima, até á desvergonhada expoliação, condecorada com o nome de

_deducções_, pela qual o estado tira ao trabalho d’um proletario,

que lhe rende 500$000 ou 700$000 rs. muito mais do que ao estado paga

um capitalista que faz 50:000$000 ou 100:000$000 de rendimento liquido.

Trata egualmente das _incompatililidades_ prégadas pelos

reformadores tyrannetes e tacanhos, que por pouco não querem tirar aos

empregados publicos a liberdade da palavra e do pensamento. A liberdade

religiosa anda-lhe roubada e a liberdade politica, estão ameaçados de

perdel-a.

O opusculo está escripto em boa linguagem com louvavel serenidade de

espirito e pena é que o auctor não désse maior desenvolvimento ao

assumpto, que bem o merecia elle.

Segundo livro de crítica · 第 95 / 103 题