Antes de fallar d’um livro que vive nas regiões luminosas da critica,
vou fallar d’um homem que morreu na triste solidão dos mares.
Um livro é a vida, a acção, o trabalho, a lucta, a força, a
_ideia_: a grande luz e a força grande. _Debet esse_.
Um livro é um facho. É uma alavanca. É um mundo.
O oleo que alimenta este facho, a mão que dirige esta alavanca, a
_lei_ que governa este mundo, chama-se: a _ideia_.
Quem fabrica este oleo, quem move esta mão, quem gera esta lei?
A _vida_. A vida é a alma de tudo, de tudo mãe: _alma mater,
alma parens_.
Quereis vel-a, estudal-a, palpal-a, dissecal-a?
Não ha telescopio que a devasse na immensidade do espaço; não ha livro
que a insule na immensidade do tempo; não ha balança que a pese na
immensidade da materia; não ha bistori que a disseque na immensidade de
si propria.
E comtudo sente-se, sentimol-a em tudo. Em toda a parte está.
Chama-se _movimento_ ... é tudo; chama-se _combustão_ ... é
tudo; chama-se _força_ ... é tudo; chama-se _actividade_ ...
é tudo; chama-se _materia_....
Não é tudo, dizem.
É tudo o que sentimos.
Materia e vida não serão termos correlativos d’organismo e funcção?
Mas ha uma cousa que chamam _morte_.
O que é? Quem a definiu? Quem a viu, como a define?
Podia talvez definir-se; uma solução de continuidade no organismo e na
funcção.
Um homem morreu; isto é, um organismo transforma-se, um modo de ser
funccional cessa.
Mas o homem pensa. Eis o infinito.
O homem cria.
Eis a immortalidade.
Relatividade fatal e suprema: o _homem_, isto é o organismo,
isto é a funcção, isto é o _meio_, isto é a vida individual, a
concreção da vida.
Não faço uma biographia.
Não escrevo um necrologio.
Estimava e respeitava um homem, que como eu, trabalhava, amava e
soffria; anceava por saber, lidava por honrar-se, e envelhecia
prematuramente no estudo.
Estimava e respeitava um homem, que como eu, suspirára muitas vezes
em plaga longiqua pela sonhada luz, pelo illusorio calor da vida
febril dos grandes focos de civilisação; passára horas angustiadas
no isolamento, na pobreza, no trabalhar sem esperanças, no desalento
sem consolações, nas injustiças sem conforto, na obscuridade odienta
e fria, com o coração a pular-lhe cheio de vida, com a intelligencia
a revoltar-se cheia de força, e a sphinx sombria da realidade actual
a pousar-lhe mão esmagadora sobre o coração vigoroso, sobre o cerebro
enfebrecido.
Oh vós que não sabeis o que taes horas são, o que taes horas valem aos
vinte annos, passae risonhos e orgulhosos, envoltos na primavera da
vossa felicidade, mas procurai conserval-a bem e não insulteis os que
padecem fome e sede de justiça e verdade, de luz e calor; terriveis
fomes e sedes terriveis!
Oh vós, os que sentis desde o berço banhar-vos a fronte roseada a
ventura; cuja vida desliza alegremente á superficie de bonançoso mar,
sabei que ha frontes amarellecidas que guardam agonias tremendas e que
tremendas tempestades aureolam desde o berço.
Não vêdes essas tempestades, não conheceis essas agonias, oh gentes
venturosas!
Não pensaes até que em mar de leite e em balsamicos laranjaes,--que
para tantos é isso a vida,--se estorçam Tantalos em desespêro horrivel.
Não comprehendeis Promotheu algemado, felizes que sois!
O homem de quem fallo luctou e soffreu muito. Chegou ao cabo da lucta
com a morte enroscada no corpo.
Venceu ... e morreu.
Fincou no chão marco que lhe recordasse o nome e foi-se....
Recebeu-lhe o corpo apodrecido o sombrio mar.
Immenso tumulo!
Deixem, pois, que um homem que lucta e na lucta morrerá, saude o que
luctou e morreu.
Não faltam saudações aos vivos.
Saúdo um morto.
Á luz de Indra abriu pela primeira vez os olhos Francisco Luiz Gomes.
Na India nasceu, n’aquella velha India, na immensa, na esplendida,
na lendaria, na historica, na fecunda terra dos _Vedas_ e do
_Ramayana_, florescencia magnifica, e do _Mahabarat_,
magnifica elegia e magnifica epopeia d’uma decadencia; terra
mysteriosa, berço e altar do pantheismo, _vagina gentiarum, alma
mater_ da civilisação moderna.
Mas a India d’hoje, a India moderna, outra é.
Já o arya não convida em espontaneos hymnos o luminoso _Maghavet_
á refeição sobre a relva.
_Sita_, a _Çri_, a «abundante» não desce já á planicie.
As «brilhantes» _Devis_, as _devaptnis_ dos deuses não
misturam o leite e o mel esperando a chegada dos esposos, e a
_Saramá_ não ullula na immensidade do espaço, nem _Ahi_
cobreja na immensidade do céu.
Salve India vedica, mysteriosa India, mysteriosa mãe!
Muitos seculos e muitas revoluções passaram por alli, revolvendo o solo
e as gerações e a historia e a sociedade e o pensamento humano.
A velha sociedade indiana morreu.
O que a India d’hoje é, repugnaria dizel-o, a quem superficialmente a
visse, a quem fanatisado pelo passado, não comprehendesse o presente, a
quem obsecado pela tradição, rejeitasse a civilisação.
É um tumulo profanado pela brutalidade idiota e esgravatado pelas
compridas unhas do industrialismo.
E que outra cousa podéra ser?
Se isolada se tivesse conservado, como a China, seria talvez como ella
«um frasco de fætus», na expressão de Hugo.
Os inglezes teem-n’a explorado e vexado muito, é certo, mas teem-lhe
injectado o sangue sempre novo do progresso; chamado ao gremio da
civilisação a moderna, a velha India.
O que nós fizemos alli ... demais anda rememorado. E com a memoração
de suppostas e verdadeiras glorias, é natural andar o lamento por
muitas e grandes desgraças. Na historia portugueza a India affirma-se
n’uma grande gloria e n’um cataclysmo grande. É um triumpho e uma
decadencia. É uma ovação e um epitaphio. É uma epopeia que abre com o
vulto cavalleiroso de Vasco da Gama saudando os horisontes purpureados
onde se esconde o velocino dos novos argonautas e fecha com uma infamia
enlodando o vulto venerando de João de Mascarenhas.
A India! Esta palavra é metade da nossa historia. Palavra escripta em
lettras de ouro tantas vezes, e tantas em lettras de sangue, e tantas
ainda em lettras de fogo accêso e acirrado por um monstro infamissimo
chamado «santo officio».
A India! Epopeia que é epilogo de outra epopeia: os
_descobrimentos_.
Nome d’uma grande terra, que é hymno apotheosico d’um grande nome:
Affonso d’Albuquerque.
Este homem vale um imperio.
Funda um que morre com elle.
Hoje temos n’aquellas longiquas paragens uma parte de nós mesmo, de que
cuidamos tanto como de nós e todas as nossas coisas cuidamos.
Miseria inaudita! Somos já agora o galho mais apodrecido e inutilisado
da grande e caduca arvore latina. Punge dizer isto.
No meio d’esta quadra vertiginosa de progresso social, ficamo-nos
a rememorar glorias que ainda bem não podem voltar; quedamo-nos a
scismar grandezas, que felizmente passaram á historia, e a remirar em
contemplação idiota, os farrapos lantejoulados que nos deixaram as
revoluções dos tempos e das idéas.
Demais nos temos alongado, porém.
Nasceu pois na India portugueza, em Goa, freguezia de Novelim, em 31 de
maio de 1829, Francisco Luiz Gomes, filho do cirurgião-medico Francisco
Salvador Gomes e de sua esposa D. Adeolata Furtado.
Gente muito considerada entre os seus patricios pela sua illustração
e posição social era esta, e até em conta de leal e intelligente
conselheiro era tido o medico, pelos homens da governança d’aquellas
terras. Em subido conceito o tiveram especialmente os governadores
Lopes de Lima, conde das Antas e Ferreira Pestana, e os arcebispos
Gualdino e Torres.
Não teve, pois, Francisco Luiz Gomes que luctar, como tantos outros
ao desabrochar da vida, com os estupidos preconceitos e prosapias das
hierarchias sociaes, perante as quaes mais vale o acaso do nascimento,
o nome e a situação paterna, do que o merecimento, o caracter e o
trabalho proprio.
Deixo a outros o narrarem o desenvolvimento do notavel engenho do moço
indiano nos labores academicos; o fixarem-lhe a chronologia dos seus
progressos escolares. Não faço uma biographia, já o disse.
Estudou com afinco, e seguiu com valentia a vereda seguida já por
seu pae. Cirurgião militar, mostrou quanto valia, principalmente na
campanha de Sataris.
Quando os Fonddus Saunts, revoltados contra os inglezes, se refugiaram
em Goa, Francisco Luiz Gomes foi escolhido para interprete na questão
suscitada por este facto.
Devidamente apreciado pelos seus patricios, escolheram-n’o elles para
procurador á junta geral do districto. Não satisfaziam, porém, estas
distincções a nobre ambição de Luiz Gomes. Sentia-se algemado alli.
Era-lhe escasso o solo que pisava, pesados e atrophiadores os ares que
bebia. Almejava por immergir-se n’esses horisontes longiquos d’onde
lhe vinham canticos de mysteriosas sereias, clarões de irresistivel
fascinação, acenos de veladas formosuras! Fugia-lhe para aquem a
imaginação; impellia-o para a Europa, para este foco esplendido de
civilisação, a vontade intelligente e possante. Diz um seu parente e
amigo:
«Mas em quanto o paiz e o governo, apreciando devidamente os seus
serviços, se compraziam em vêl-os continuar, elle olhava tudo isso com
um certo ar de indifferença! Não lhe podia embriagar a melhor posição,
em que aqui estivesse collocado. O seu desejo, a sua ambição toda era
ir á Europa. Desde menino era este o seu unico e maior desideratum.
Elle lia, escrevia, fallava, andava, dormia, sonhando sempre Lisboa.
Bem sabia elle que lá o esperava um futuro brilhante--um vasto
horisonte para os seus vôos gigantescos. E não se enganava, E não se
enganou.»[59]
Era a febre do _ignoto_, a fascinação do _desconhecido_ que
o atormentava. A patria era-lhe alguma cousa parecida com um exilio.
Filho da India, a Europa devia ser-lhe madrasta odienta. Pois não.
Era amante fascinadora, era visão esplendida em ancear dolente, em
amargo scismar.
Ha saudades do que nunca se viu. São saudades de um sonho. É o almejar
pela realisação d’elle.
Quem as não tem sentido! Quem em plaga solitaria, não se quedou um
dia, a scismar, com os olhos esbugalhados nos horisontes, e um livro,
algum d’estes livros que nos cáem nas mãos ao desabrochar da vida, que
se consubstanceiam comnosco, que são nossos confidentes, e nós mesmos
na mocidade, e que depois ingratamente esquecemos ou escarnecemos,
aberto sobre o joelho, recebendo as lagrimas ardentes--oh, lagrimas
abençoadas!--que nos deslisam pelas faces ... nem a gente sabe porquê!
Oh dias das minhas amarguras de creança ambiciosa! horas do meu
desespêro solitario e do meu solitario ancear por outros céus e por
outro solo, como eu me recordo de vós, hoje que vos desejára tanto,
hoje que não tenho um colo amigo onde encoste a fronte enfebrecida, um
rosto d’anjo,--oh minha santa e boa mãe!--que me enxugue, encostando-se
ao meu, as lagrimas de sangue que se choram na vida.
Creança taciturna que eu era! Chamam-me triste e scismador. Por doido
me tinham uns pobres alarves que me viam sósinho e immovel passar horas
esquecidas com olhos fitos na amplidão dos mares, sempre com um livro
na mão, sempre com os olhos no horisonte! Quadra terrivel aquella.
Estalava-me o peito com dôres, assustava-se a familia com os receios
de terrivel enfermidade, e o medico cobria-me de mostarda o corpo.
Coitados de todos elles que não me comprehendiam! É que me faltava o
ar no meio d’aquelles ares balsamicos; faltava-me a luz no meio da
primavera, escasseava-me o solo e o céu n’aquellas varzeas solitarias
e sob aquelle céu immenso.
Alguma cousa, como uma nostalgia, era aquillo!
Que louco sonhar!
Perdoae esta triste divagação. É que bem tristes saudades me despertou
uma carta que tenho aqui do pobre Luiz Gomes. Uma carta que vale por
muitos livros. Lêde-a e julgae. A Lamartine a escreveu elle:
Lisbonne le 5 janvier 1867.--Monsieur.--Je suis né dans l’Inde
orientale, dans ce pays qui fut le berceau des poesies, des
philosophies et des histoires, et qui en est a present le tombeau.
J’appartiens á cette race qui composa le Mahabarat et inventa les
échecs--deux oeuvres qui portent en elles quelque chose d’eternel et
d’infini. Mais cette nation qui faisait de ses poèmes ses codes et
formulait la politique en un jeu, ne vit plus. Elle survit imprisonnée
dans sa patrie épuisée par sa fécondité et obscurcie au milieu de
l’éclat de sa gloire. En se débattant contre les barreaux de sa cage,
cet oiseau a perdu ses plumes qui le faisaient remonter au-dessus
de l’Hymalaia; en pleurant la liberté qu’on lui a dérobée et la
lumière qui l’a fui, ce rossignol a oublié son chant dont les notes
retentissaient dans le ciel.
Je demande pour l’Inde la liberté et de la lumière! pour moi plus
heureux que mes compatriotes, je suis libre. _Civis sum._
Ces titres, monsieur, étaient assez pour me recommander à vous qui
admirez ma patrie et aimez l’humanité.
Il y en a encore d’autres: j’ai lu vos _Confidences_ et tout ce
que vous avez écrit jusqu’ici. Cette lecture ne m’a pas enivré; elle
a fortifié mon âme en la charmant; elle ne m’a pas ébloui; elle m’a
éclairé. Emouvoir la nature par la nature c’est la tout votre génie.
Les cordes de votre lyre sont des fibres détendues de votre cœur. Dieu,
homme, nature: voilà ce que j’ai senti en vos livres.
Il y a dix huit ans que j’ai lu l’épisode de Graziella. C’était un
beau jour de mai. Assis sur un roc, je tenais ouvert sur mes genoux le
volume des _Confidences_; un figuier d’Inde, aux feuilles larges
et rondes me voilait de ses ombres; un petit ruisseau bordé de saules
m’envoyait ses murmures plaintifs, de grosses larmes tombaient des mes
yeux sur les pages du livre, en même temps que le figuier, effleuré
par un soufle de la brise y versait le baume des ses fleurs. C’est
qu’en feulletant ce livre, j’avais souslevé un linceul. Il y avait une
morte devant moi. Je voyais le visage blanc et adoré de Graziella et
ses lèvres demicloses qui semblaient avoir prononcé à moitié:--_Je
l’aime, je l’aime, je l’aime_. En répandant sur elle en fleurs
humectées de la rosée des larmes, moi et le figuier, nous lui rendions
les derniers devoirs.
Qui aurait pu dire à cette pauvre fille d’un vendeur de poisson, que
les larmes brulantes dont elle tachait votre volume de _Paul et
Virginie_ lui seraient rendues vingt ans après par des hommes et des
pays aux quels elle n’avait jamais songé? Votre douleur s’est repandus
dans l’orbe comme un nuage. Elle se fond en pluie de larmes sur le
tombeau de Graziella.
Vous n’avez pas écrit cet épisode, vous l’avez découvert. Un cœur de
femme de seize ans le portait; vous frappâtes le cœur et l’épisode en
jaillit tout éclatant de beauté de sa simplicité et de sa naiveté.
Depuis ce jour lá vous faites partie de cette famille idealle avec
laquelle je vis et que j’aime. Vous n’etiez pas seul ici-bas monsieur
de Lamartine, vous avez des frères, des enfants, des parents qui n’ont
pas votre sangue mais qui ont votre âme. Ils ne vous parlent pas, ils
ne vous veront peut être jamais; ils parlent de vous á Dieu, ils prient
pour vous, ils vous donnent les larmes, ce sincère suffrage du cœur.
Avoir des admirateurs c’est un droit du génie; mais pour être cheri de
tant de cœurs, il fallait leur avoir donné le sien tout entier.
Les livres que j’ai l’honneur de vous envoyer sont un témoignage de ma
reconnaissance. Ils ne son bons qu’à cela. Je vous ai écrit moimême de
longues lettres. Vous ne les avez pas reçues, car elles n’étaient pas
destinées à vous être envoyées. C’étaient des extases pleins de pudeur
et de sincerité.
Encore une grâce. J’espère aller à Paris. Ce serait pour moi un des
jours les plus heureux de ma vie celui au j’aurais le plaisir de
voir l’écrivan qui a touché le plus les fibres de mon cœur et de
dire--_Virgilium vidi tantum!_--De l’amour aux personnes et aux
choses, au desir de les voir il n’y a qu’un pas. Votre voyage en orient
en est la preuve.
Un des mes compatriotes, mr. Avila, que a bien voulu être auprès de
vous l’interprete des mes sentiments de respect et de reconnaissance
m’a remis le buste que vous avez en la complaisance de m’offrir. Je ne
saurais trop vous remercier de tant de bonté! Le souvenir de tout ce
que vous avez écrit anime pour moi ce visage immobile et sculpté en
pierre, et répand sur ses traits un jour sans ombre.
J’ai l’honneur d’être, monsieur--Votre très humble serviteur et sincère
admirateur--_Francisco Luiz Gomes_.
Esta carta foi entregue a Lamartine por um compatriota e dedicado amigo
do escriptor portuguez, o engenheiro architecto Avila. A elle devo
tambem uma cópia. Profundamente commovido findou o poeta a leitura
d’ella com os olhos rasos de lagrimas e exclamando:
«Très jolie!... très jolie!... très jolie!... charmante!...
charmante!... charmante!...
Votre ami est un vrais talent. Quel âge a-t-il? Je desire bien lui
voir.»
Francisco Luiz Gomes conseguira vêr realisado o seu ardente desejo
de vir á Europa. Eleito deputado ás côrtes em 1859, tomou assento no
parlamento no anno seguinte, e não ficou, como tantos outros, immergido
na obscuridade, mal estremecida pelas palestras e pedidos de campanario
antes da ordem do dia.
N’aquelle logar para onde a desmoralisação e ignorancia publica, e
o feudalismo dinheiroso da burguezia atira em cada eleição tantos
alarves que melhor andariam á rabiça do arado do que ás cangas dos
governos e das facções; n’aquelle logar, onde a intelligencia, o
estudo comprovado, e a honestidade firme deviam ser unicos titulos
de admissão, e onde mais avultam pelo contrario os do pedantismo, da
velhacaria e da ignorancia lorpa, Francisco Luiz Gomes começou de
certo a sentir as amarguras e nojos da vida politica em Portugal,
mas soube afastar-se das mediocridades mudas e das mediocridades
verbosas, e conquistar breve e brilhantemente um nome entre os homens
verdadeiramente illustres pelos seus talentos, estudos e trabalhos no
parlamento, que todos lhe estenderam, sem distincções partidarias,
cordealmente a mão. Revelou-se orador fluente, consciencioso e elevado,
tratando as questões á altura dos principios e procurando emancipar-se
da _pelotica_ de nomes que é quasi toda a politica portugueza.
Reeleito varias vezes deputado, o seu nome foi mais de uma vez
lembrado em occasião de crise ou formação de ministerios, e não
andava ainda a governação publica rebaixada ás condições rasteirinhas
do officio de cortador _economico_ ou de marçano financeiro
em proveito de qualquer entidade bruta ou pedante. Collaborador na
_Revolução de Setembro_ e redactor da _Gazeta de Portugal_,
a sua posição na imprensa politica não foi menos digna nem menos
brilhante do que na vida parlamentar. Os estudos economicos,--e já é
necessario quando se pronuncia esta palavra, declarar que se falla da
sciencia,--attrahiam-n’o e prendiam-n’o. Nas viagens que fez a Pariz
e a Londres teve occasião de relacionar-se com notaveis economistas e
entre outros com Miguel Chevalier, a quem dedicou o seu _Essai sur la
théorie de l’économie_, etc.
E já que d’este livro fallei, vem a proposito formular aqui a lista das
obras do distincto escriptor portuguez, pela ordem chronologica da sua
publicação:
1.^o _De la question du coton en Anglaterre et dans les possessions
portugaises de l’Afrique occidentale_, etc.--Lisbonne--Impr. de la
societé typ. Franco-Portug. 1861. 8.^o gr.--32 pag.
2.^o _A liberdade da terra e a economia rural da India
portuguesa_, etc.--Lisboa--Typ. Universal--1862. 8.^o peq.--102 pag.
É dedicado ao snr. José da Silva Mendes Leal, então ministro da marinha.
3.^o _Os brigadeiros Henrique Carlos Henriques e Joaquim José Xavier
Henriques.--Esboço historico_, etc.--Lisboa--Typ. Universal--1863.
8.^o peq.--39 pag.
É dedicado á ex.^{ma} snr.^a D. Anna M. d’Almeida Henriques.
4.^o _Os Brahmanes.--Romance_, etc. Lisboa--Typ. da _Gazeta de
Portugal_--1866. 8.^o, peq.--IX--315 pag.
É dedicado ao fundador e redactor da _Gazeta_, o snr. Antonio
Augusto Teixeira de Vasconcellos.
5.^o _Essai sur la théorie de l’économie politique et de ses
rapports avec la morale et le droit_, etc.--Paris (Impr. de E.
Martinet)--1867. 8.^o gr.--XII--232 pag.
É dedicado a M. Michel Chevalier.
6.^o _Le Marquis du Pombal_, de que adiante fallarei e que é de
certo a obra mais importante de Francisco Luiz Gomes. Uma outra inedita
e incompleta deixou elle, dizem-me,--sobre a historia da administração
na India portugueza. Aqui devo registrar o meu agradecimento ao meu
talentoso e bom amigo, e que o era tambem do pobre Luiz Gomes, José
Paulo Diniz, pelos esclarecimentos que obsequiosamente me forneceu.
Atormentado por enfermidade terrivel, a que não puzera termo o
tão apregoado clima da Madeira, o illustre indiano abandonou
a arena politica, e depois de concluir precipitadamente o seu
livro _Le Marquis du Pombal_, pobre e sem collocação social
aqui, que lhe assegurasse a subsistencia,--que tal é geralmente o
futuro de quem em Portugal estuda e se entrega a estes labores da
intelligencia,--resolveu regressar á patria, porventura com bem amargas
decepções dos sonhos com que de lá viera inebriando-se. A ultima
vez que o vi foi no «Gremio Litterario», recostado n’uma poltrona,
emmagrecido e atormentado, como se lhe andassem a tortural-o as agonias
do esfacelamento da morte. E andavam de certo. Pungia profundamente
vêl-o assim. Nomeado commissario dos estudos, creio, para a sua terra
natal, escrevia-me elle dias depois a sua primeira carta.
Ausentára-se por alguns dias da redacção o nosso amigo A. R. de
Sampaio, e dirigia-se-me elle por isso, para me pedir que fizesse
publicar-lhe a carta, aquella bella e triste carta, que de certo não
esqueceram os leitores da _Revolução_. Era um adeus á beira do
tumulo.
Eu nunca fallei a este homem.
Em fainas diversas andavamos mourejando, que nunca nos appareceu
occasião de nos encontrarmos no trabalho, nem nos sobejou tempo de nos
procurarmos no descanso.
E para que nos haviamos de procurar? Conhecia-mo-nos. Um do outro
sabiamos. Com quanta gente nos correspondemos, n’esta vida do estudo e
do trabalho litterario, sem que nunca se tocassem as mãos? E nem por
isso são menos profundas as affeições.
A India portugueza vestiu-se de lucto, desde Gôa a Dio, ao saber da
morte do seu filho extremoso.
É que aquelles povos lhe deviam muito. Advogado leal dos seus
interesses, a sua morte foi profundamente sentida e a dôr que ella
produziu manifestou-se eloquentemente.
Se não me escasseasse o espaço registrava aqui as innumerosas
manifestações de pesar de que nos dão noticia os jornaes indianos.
A mocidade estudiosa, a briosa população das aulas, não ficou
indifferente á perda do seu illustre professor. Entre outras
manifestações dignissimas eu colloco acima de todas uma de que apenas
ligeira noticia tenho: a da fundação d’um premio escholar, intitulado
premio «Luiz Gomes».
Era Francisco Luiz Gomes membro do _Bombay branch of the asiatic
society_, associado estrangeiro da _Société d’économie
politique_, e proposto havia sido recentemente para socio da
academia das sciencias de Lisboa, d’esta curiosissima academia que
escancara triumphalmente as portas a qualquer fazedor de versinho
piegas e as conserva calafetadas contra muitos dos homens mais
talentosos ou mais estudiosos do paiz, como Sampaio, Theophilo Braga,
João de Deus, e tantos outros.
Ao menos lembrára-se um homem, o snr. conde d’Avila, do nome
respeitavel de Francisco Luiz Gomes.
LE MARQUIS DE POMBAL--ESQUISE DE SA VIE PUBLIQUE--_par
Francisco Luiz Gomes, etc. Lisbonne, imprimerie Franco-Portugaise,
1869--In 8.^o gr.--377._
Saudei um morto. Vou fallar rapidamente de um livro que foi a sua
despedida e é o seu monumento. Volvo a este modesto cantinho onde tenho
affirmado uma causa que julgo grande e util. Affirmação bem modesta
tambem, que me tem angariado por ahi certos amuos e odiosinhos de
varias excellentes pessoas que, a par do guindado dos seus respectivos
renomes, da official respeitosidade dos seus letreiros litterarios, da
grandiosidade dos seus bestuntos e infusa sciencia, e das mais partes
de que resam as decretaes do elogio mutuo e da ignorancia geral, teem
realmente bem singulares pequenices d’animo, bem tristes atarracamentos
de consciencia.
Quizilam-se por exemplo devéras, e desnorteam ás vezes, com o dizer-lhe
simplesmente um pobre homem, humildemente apoiado nos livros, o
que pensa, sente e sabe de tantas grandezas e prosapias. E peior é
que alguns d’estes grandes sujeitos, se encolhem e agacham até se
confundirem com certos vermesinhos repugnantes, e gastam o tempo e as
portentosas sapiencias em intrigar a occultas como qualquer simples
mortal, e a morder á traição como qualquer canito velhaco. Aguias
imponentes a quem o sol incommóda, que estonteam guindadas ás alturas
onde deviam viver, que se confundem umas vezes com empavesados perus, e
outras com enraivecidas gallinhas.
Ridiculos e maus!
Gente perdida pela vaidade desbragada, e que não comprehende que a
honra a critica, embora a corrija e castigue; que póde respeital-a e
estimal-a o critico, sem que tenha de infamar a sua missão, e mentir
á dignidade da sciencia e da consciencia, fazendo d’esta ventoinha á
mercê das conveniencias e relações pessoaes, e d’aquella thuribulo de
fetiches pêcos.
Ridiculos e maus!
Gente desleal e obsecada, que não sabe respeitar nem quer comprehender
a independencia de caracter, a franqueza de opinião, o amor do estudo
e do trabalho, o culto desassombrado da verdade critica, e que,
hypocritas, se pregoam apostolos e exemplares de tudo isso. Sabem elles
sequer, o que tudo isso é?
Ridiculos e maus!
Mas longa vai a digressão. Francisco Luiz Gomes não era de certo
d’esses vaidosos obsecados, e vivo que elle fosse, podéra eu fallar
desassombradamente da sua obra, que não tinha elle aprendido nem
lhe soffreria o animo que aprendesse, com certos escrevinhadores
empavesados, a proclamar a inviolabilidade das suas obras e opiniões á
custa da inviolavel liberdade do pensamento e da palavra dos outros.
Ha um monumento a levantar a um grande vulto portuguez. Monumento que
seria lição e exemplo, como devem ser hoje os monumentos erguidos
á memoria d’um homem. A _estatua_ não, que é anachronica, e
irracional perante o espirito moderno. A estatua comprehendia-se na
Grecia anthropomorphica, como disparatava na meia-edade mystica.
O monumento de que fallo seria um livro ou antes muitos livros. A
historia imparcial, exacta, _documentada_, da administração de
Sebastião José de Carvalho emfim. A publicação official e franca e
completa dos documentos d’essa administração singular, que é a um
tempo affirmação cathegorica e firme da monarchia burguesa e absoluta
já em meio quasi da tempestade crescente da Revolução, e quadra de
emancipação, reformação e de preparação d’um futuro positivo: seria um
grande serviço á historia e uma proveitosa lição a todos.
Ennegrecido e escalavrado pela diffamação rancorosa e calumniosa,
exalçado e aureolado pelo fanatismo do _heroworship_ parvo, o
vulto de Sebastião José de Carvalho pertence mais á lenda popular e á
critica parcialissima dos partidos, do que á historia séria, fria,
desapaixonada e philosophica. E grande vulto é de certo: vulto enorme,
que tomando das mãos d’uma realeza imbecil ou fraca, o sceptro de
ferro, traça com elle uma periféria grande e luminosa no tempo e no
espaço. Lá fóra podem estudar-se facilmente as administrações de homens
como Colbert, Sully, Turgot, nas publicações officiaes dos documentos
que elles firmaram com seus nomes.
Aqui deixam-se apodrecer n’uns archivos impossiveis as paginas da nossa
historia politica, que publicadas, esmagariam uns sujeitinhos patriotas
que entre o ferrar alimarias e o governar uma nação não acham distancia
sensivel ás aspirações velhacas das suas lorpissimas pessoas.
A obra de Francisco Luiz Gomes é um nobre e grande esforço. Andou o
pobre escriptor a acabar de estragar os pulmões com o pó e a humidade
d’esses _archivos_ inauditos, folheando os bolorentos papeis
d’onde se vão obliterando tantas coisas não sabidas e que tanto
conviera saber, perdendo a vista e cansando o espirito na decifração
e reconstrução d’esse drama a um tempo medonho, e ridiculo, enorme,
ensanguentado, risivel, monstruoso, representado em Portugal no seculo
passado: e conseguiu dar-nos a final um livro, que como dissemos, é uma
despedida,--este o seu grande defeito,--com a precipitação do anceio,
as indecisões e hesitações da soffreguidão, o incompleto, emfim, de
quem sente avisinhar-se a hora da partida e tantas coisas tem ainda
para dizer, e teme lhe falte o tempo para o adeus que será o ultimo.
De certo o trabalho de Francisco Luiz Gomes na exposição e na critica
dos factos é o melhor--o mais complexo e exacto se póde dizer-se
assim--de quantos ha sobre a vida publica do marquez de Pombal.
Mas é um esboço--como o proprio auctor reconheceu--, um bello esboço
na verdade, onde se denunciam as hesitações da concepção e do lapis, e
o apressurado da execução, a par de certos traços firmes e de certos
pontos de composição desafogada e original.
Como historia d’um momento gravissimo, não só na vida nacional como na
vida europea, o livro de Luiz Gomes tem muito de biographia, e tambem,
deve dizer-se, esta ultima feição lhe quiz principalmente dar o auctor.
Como biographia mantém-se quasi exclusivamente nas exterioridades da
acção politica, e mal nos revela uma ou outra intimidade da acção
individual.
Não foi assim que Audin escreveu a vida de Luthero. Não esqueceu pelo
reformador, pelo revolucionario, o filho, o esposo, o pae, o amigo.
Assim como a historia d’uma nação n’um dado momento exige o estudo
das anterioridades, que constituem por assim dizer a genese do modo
de ser actual, a historia da acção politica de um homem exige, para
ser completa, exacta, imparcial e instructiva, a averiguação do
_meio_ e da _pessoalidade_ intima, deixem dizer assim. É
cousa importantissima esta.
Ainda tendo em conta de systema philosophico a theoria dos Charlyles
de todos os tempos e paizes; ainda crendo que homens extraordinarios
appareçam ás vezes incumbidos sobrenaturalmente d’uma missão
revolucionaria, e ao impulso da sua intelligencia e da sua vontade
inspirada revolvam a sociedade e marquem á historia horisontes
providenciaes, ha de concordar-se que taes homens, encontrando
uma sociedade feita, isto é, tradições, consciencias, vontades e
intelligencias laborando, hão de assimilhar moralmente elementos
favoraveis, e topar com energicas resistencias, que fatalmente
transparecem na sua supposta acção sobrenatural, explicam esta na
historiographia das civilisações, e a ligam criticamente á anterior
acção da humanidade.
Accrescente-se a isto ainda a propria natureza individual.
Ora exactamente no livro de Luiz Gomes a exterioridade, a acção social,
a acção revolucionaria, revelando-se por vezes, firme e largamente,
não deixa logar ao relevo da _pessoalidade_, e ao panorama do
_meio_, em que tal acção se gera e desenvolve.
Acontece, pois, que temos face a face, quasi sempre, o estadista com a
mascara politica afivelada, em _meio_ mal conhecido, e por isso
sob influencias e com intentos mal indicados.
E um inconveniente mais se revela ainda. Homem enthusiastica e
profundamente liberal, Luiz Gomes encontrou-se muitas vezes em terrivel
antagonismo com as doutrinas e medidas do ministro que fallava em nome
do _poder real_ supremo e absoluto, _directamente recebido de
Deus_, como diz a formula official. É uma das grandes difficuldades
que tem a vencer o historiador, a de calar as suas paixões e crenças
partidarias perante factos que as desmentem e indignam, mas que têem
uma justificação, uma razão de ser legitima e natural no logico
desenvolvimento da acção humana atravez do tempo e do espaço.
E como diz Spinosa, a violencia d’aquellas paixões combinadas de mais
com as influencias do _meio_,--social, n’este caso,--é tal,
que não póde dominal-a o homem. «_Vis et incrementum cujus cumque
passionis, ejusque ni existendo, perseverantia definitur potentia
causæ externæ cum nostra camparata adeoque hominis potentiam superare
potest._» (Sp. cit. por Lermenier.)
Se o homem é um historiador, a historia é falseada.
Mas ao lado do mal, o illustre judeu, indica o remedio, remedio
difficil de que muitas vezes não consegue ou não lembra lançar-se mão:
«_Affectus coerceri nec tolli potest nisi per affectum contrarium et
fortiorem affectu coercendo._»
Ao profundo amor da liberdade, opponha o historiador, mais profundo
amor da verdade e da dignidade da historia. Quão poucos fazem isto?
Procurou fazel-o Luiz Gomes, caracter honesto e consciencioso, que,
como elle proprio diz, só affirma aquillo de que está perfeitamente
convencido; que tentou o assumpto com os sentimentos mais calmos, e
procurando evitar qualquer impulso estranho ou hostil; que finalmente
procurou com ardor a verdade. E conseguiu-o muitas vezes. No conflicto
das suas doutrinas economicas com as aberrações monopolistas e
proteccionistas de Sebastião José de Carvalho, tremeu-lhe mais de uma
vez a penna, e não pôde deixar de escrever eloquente condemnação, que
infelizmente nem sempre é justa, se attendermos ao espirito da época e
ao modo de ser economico da sociedade portugueza do seculo passado. E
não nos devemos deixar fascinar pelas brilhantes theorias da economia
politica, sciencia ou antes esplendido ramo da sciencia social, que
não está completo ainda, porque esta não se acha ainda solida e
positivamente constituida.
É sobretudo louvavel o desassombro com que Luiz Gomes desmente certas
lendas patrioticas de que se tem aureolado o vulto de Carvalho, e
com que apea este das altitudes de semi-deus, onde os hão guindado
preconceitos e fanatismos absurdos. O _Marquez de Pombal_, de Luiz
Gomes, é simplesmente um homem, um grande homem, uma intelligencia
robusta, e tenaz, sujeita como todas a deploraveis erros; uma vontade
possante, energica, como todas sujeita a hesitações e fraquezas. O
longo drama da expulsão dos jesuitas é cuidadosa e largamente esboçado,
e na horrivel tragedia dos Tavoras, vê-se o coração generoso de Luiz
Gomes estremecer de indignação, mas dominado pela consciencia austera
do historiador.
Precavendo-se, porém, contra o vulgar exagero do panegyrico,
com relação a Carvalho, Luiz Gomes, parece-me ter-se aproximado
involuntariamente do defeito contrario; ter olvidado muitas legitimas
glorias d’aquelle homem e da administração d’elle, ou ter passado
por ellas com rapidez demasiada, ao passo que é minucioso,--e devia
sel-o,--na exposição das faltas, das contradicções e até dos
crimes de Sebastião José de Carvalho. E finda a leitura do livro,
fica-nos vacillante e incommodada a consciencia, como se não lograsse
attingir a synthese d’aquelle quadro. E não attinge de certo. É que
aquillo,--repetimos,--é simplesmente um esboço, com o incompleto de tal
trabalho.
A parte critica principalmente é frouxa e superficial, talvez por não
assentar em estudo anterior, desenvolvido e profundo da sociedade
politica e da pessoalidade intima.
Escripto com a natural elegancia e fluencia de estylo de Luiz Gomes, o
livro póde apresentar numerosos defeitos na lingua em que é escripto,
que não me pertence averiguar agora. Sei simplesmente que ha alli
paginas escriptas com uma eloquencia espontanea e commovedora.
Falta a esta obra uma cousa importantissima. É a _notação_.
Curiosissimos documentos teve nas mãos Luiz Gomes, que muito era
para desejar vêr em parte, pelo menos copiados alli, e além d’isso
a comprovação, ou pelo menos a indicação documental tem numerosas
vantagens e dá a obras d’esta natureza maior auctoridade. Ainda n’isto
se denuncia a precipitação com que foi feito este trabalho. Sei eu, e
não posso lealmente calar, que o pobre Francisco Luiz Gomes reconhecia
estas imperfeições da sua obra, e muito hesitou em dar-lhe publicidade,
visto que o deteriorado estado da sua saude não permittia que fizesse
as correcções e désse á obra uma derradeira demão.
A administração de Sebastião José de Carvalho ha de ainda servir de
thema para muitos livros.
Ainda ha pouco sahiu dos prélos de Coimbra um opusculo de Emygdio
Garcia, de que terei occasião de fallar sobre aquelle assumpto que de
certo é um dos mais importantes da nossa tão esquecida historia moderna.
O livro de Luiz Gomes será, creio, por muito tempo, o melhor trabalho
analytico sobre o grande reformador portuguez, e de excellente guia
póde servir a quem queira estudar aquelle vulto extraordinario fóra da
lenda popular, e do panegyrico ou da verrina facciosa.