Abro n’esta revista um parenthesis de mágoa.[58]

Antes de fallar d’um livro que vive nas regiões luminosas da critica,

vou fallar d’um homem que morreu na triste solidão dos mares.

Um livro é a vida, a acção, o trabalho, a lucta, a força, a

_ideia_: a grande luz e a força grande. _Debet esse_.

Um livro é um facho. É uma alavanca. É um mundo.

O oleo que alimenta este facho, a mão que dirige esta alavanca, a

_lei_ que governa este mundo, chama-se: a _ideia_.

Quem fabrica este oleo, quem move esta mão, quem gera esta lei?

A _vida_. A vida é a alma de tudo, de tudo mãe: _alma mater,

alma parens_.

Quereis vel-a, estudal-a, palpal-a, dissecal-a?

Não ha telescopio que a devasse na immensidade do espaço; não ha livro

que a insule na immensidade do tempo; não ha balança que a pese na

immensidade da materia; não ha bistori que a disseque na immensidade de

si propria.

E comtudo sente-se, sentimol-a em tudo. Em toda a parte está.

Chama-se _movimento_ ... é tudo; chama-se _combustão_ ... é

tudo; chama-se _força_ ... é tudo; chama-se _actividade_ ...

é tudo; chama-se _materia_....

Não é tudo, dizem.

É tudo o que sentimos.

Materia e vida não serão termos correlativos d’organismo e funcção?

Mas ha uma cousa que chamam _morte_.

O que é? Quem a definiu? Quem a viu, como a define?

Podia talvez definir-se; uma solução de continuidade no organismo e na

funcção.

Um homem morreu; isto é, um organismo transforma-se, um modo de ser

funccional cessa.

Mas o homem pensa. Eis o infinito.

O homem cria.

Eis a immortalidade.

Relatividade fatal e suprema: o _homem_, isto é o organismo,

isto é a funcção, isto é o _meio_, isto é a vida individual, a

concreção da vida.

Não faço uma biographia.

Não escrevo um necrologio.

Estimava e respeitava um homem, que como eu, trabalhava, amava e

soffria; anceava por saber, lidava por honrar-se, e envelhecia

prematuramente no estudo.

Estimava e respeitava um homem, que como eu, suspirára muitas vezes

em plaga longiqua pela sonhada luz, pelo illusorio calor da vida

febril dos grandes focos de civilisação; passára horas angustiadas

no isolamento, na pobreza, no trabalhar sem esperanças, no desalento

sem consolações, nas injustiças sem conforto, na obscuridade odienta

e fria, com o coração a pular-lhe cheio de vida, com a intelligencia

a revoltar-se cheia de força, e a sphinx sombria da realidade actual

a pousar-lhe mão esmagadora sobre o coração vigoroso, sobre o cerebro

enfebrecido.

Oh vós que não sabeis o que taes horas são, o que taes horas valem aos

vinte annos, passae risonhos e orgulhosos, envoltos na primavera da

vossa felicidade, mas procurai conserval-a bem e não insulteis os que

padecem fome e sede de justiça e verdade, de luz e calor; terriveis

fomes e sedes terriveis!

Oh vós, os que sentis desde o berço banhar-vos a fronte roseada a

ventura; cuja vida desliza alegremente á superficie de bonançoso mar,

sabei que ha frontes amarellecidas que guardam agonias tremendas e que

tremendas tempestades aureolam desde o berço.

Não vêdes essas tempestades, não conheceis essas agonias, oh gentes

venturosas!

Não pensaes até que em mar de leite e em balsamicos laranjaes,--que

para tantos é isso a vida,--se estorçam Tantalos em desespêro horrivel.

Não comprehendeis Promotheu algemado, felizes que sois!

O homem de quem fallo luctou e soffreu muito. Chegou ao cabo da lucta

com a morte enroscada no corpo.

Venceu ... e morreu.

Fincou no chão marco que lhe recordasse o nome e foi-se....

Recebeu-lhe o corpo apodrecido o sombrio mar.

Immenso tumulo!

Deixem, pois, que um homem que lucta e na lucta morrerá, saude o que

luctou e morreu.

Não faltam saudações aos vivos.

Saúdo um morto.

Á luz de Indra abriu pela primeira vez os olhos Francisco Luiz Gomes.

Na India nasceu, n’aquella velha India, na immensa, na esplendida,

na lendaria, na historica, na fecunda terra dos _Vedas_ e do

_Ramayana_, florescencia magnifica, e do _Mahabarat_,

magnifica elegia e magnifica epopeia d’uma decadencia; terra

mysteriosa, berço e altar do pantheismo, _vagina gentiarum, alma

mater_ da civilisação moderna.

Mas a India d’hoje, a India moderna, outra é.

Já o arya não convida em espontaneos hymnos o luminoso _Maghavet_

á refeição sobre a relva.

_Sita_, a _Çri_, a «abundante» não desce já á planicie.

As «brilhantes» _Devis_, as _devaptnis_ dos deuses não

misturam o leite e o mel esperando a chegada dos esposos, e a

_Saramá_ não ullula na immensidade do espaço, nem _Ahi_

cobreja na immensidade do céu.

Salve India vedica, mysteriosa India, mysteriosa mãe!

Muitos seculos e muitas revoluções passaram por alli, revolvendo o solo

e as gerações e a historia e a sociedade e o pensamento humano.

A velha sociedade indiana morreu.

O que a India d’hoje é, repugnaria dizel-o, a quem superficialmente a

visse, a quem fanatisado pelo passado, não comprehendesse o presente, a

quem obsecado pela tradição, rejeitasse a civilisação.

É um tumulo profanado pela brutalidade idiota e esgravatado pelas

compridas unhas do industrialismo.

E que outra cousa podéra ser?

Se isolada se tivesse conservado, como a China, seria talvez como ella

«um frasco de fætus», na expressão de Hugo.

Os inglezes teem-n’a explorado e vexado muito, é certo, mas teem-lhe

injectado o sangue sempre novo do progresso; chamado ao gremio da

civilisação a moderna, a velha India.

O que nós fizemos alli ... demais anda rememorado. E com a memoração

de suppostas e verdadeiras glorias, é natural andar o lamento por

muitas e grandes desgraças. Na historia portugueza a India affirma-se

n’uma grande gloria e n’um cataclysmo grande. É um triumpho e uma

decadencia. É uma ovação e um epitaphio. É uma epopeia que abre com o

vulto cavalleiroso de Vasco da Gama saudando os horisontes purpureados

onde se esconde o velocino dos novos argonautas e fecha com uma infamia

enlodando o vulto venerando de João de Mascarenhas.

A India! Esta palavra é metade da nossa historia. Palavra escripta em

lettras de ouro tantas vezes, e tantas em lettras de sangue, e tantas

ainda em lettras de fogo accêso e acirrado por um monstro infamissimo

chamado «santo officio».

A India! Epopeia que é epilogo de outra epopeia: os

_descobrimentos_.

Nome d’uma grande terra, que é hymno apotheosico d’um grande nome:

Affonso d’Albuquerque.

Este homem vale um imperio.

Funda um que morre com elle.

Hoje temos n’aquellas longiquas paragens uma parte de nós mesmo, de que

cuidamos tanto como de nós e todas as nossas coisas cuidamos.

Miseria inaudita! Somos já agora o galho mais apodrecido e inutilisado

da grande e caduca arvore latina. Punge dizer isto.

No meio d’esta quadra vertiginosa de progresso social, ficamo-nos

a rememorar glorias que ainda bem não podem voltar; quedamo-nos a

scismar grandezas, que felizmente passaram á historia, e a remirar em

contemplação idiota, os farrapos lantejoulados que nos deixaram as

revoluções dos tempos e das idéas.

Demais nos temos alongado, porém.

Nasceu pois na India portugueza, em Goa, freguezia de Novelim, em 31 de

maio de 1829, Francisco Luiz Gomes, filho do cirurgião-medico Francisco

Salvador Gomes e de sua esposa D. Adeolata Furtado.

Gente muito considerada entre os seus patricios pela sua illustração

e posição social era esta, e até em conta de leal e intelligente

conselheiro era tido o medico, pelos homens da governança d’aquellas

terras. Em subido conceito o tiveram especialmente os governadores

Lopes de Lima, conde das Antas e Ferreira Pestana, e os arcebispos

Gualdino e Torres.

Não teve, pois, Francisco Luiz Gomes que luctar, como tantos outros

ao desabrochar da vida, com os estupidos preconceitos e prosapias das

hierarchias sociaes, perante as quaes mais vale o acaso do nascimento,

o nome e a situação paterna, do que o merecimento, o caracter e o

trabalho proprio.

Deixo a outros o narrarem o desenvolvimento do notavel engenho do moço

indiano nos labores academicos; o fixarem-lhe a chronologia dos seus

progressos escolares. Não faço uma biographia, já o disse.

Estudou com afinco, e seguiu com valentia a vereda seguida já por

seu pae. Cirurgião militar, mostrou quanto valia, principalmente na

campanha de Sataris.

Quando os Fonddus Saunts, revoltados contra os inglezes, se refugiaram

em Goa, Francisco Luiz Gomes foi escolhido para interprete na questão

suscitada por este facto.

Devidamente apreciado pelos seus patricios, escolheram-n’o elles para

procurador á junta geral do districto. Não satisfaziam, porém, estas

distincções a nobre ambição de Luiz Gomes. Sentia-se algemado alli.

Era-lhe escasso o solo que pisava, pesados e atrophiadores os ares que

bebia. Almejava por immergir-se n’esses horisontes longiquos d’onde

lhe vinham canticos de mysteriosas sereias, clarões de irresistivel

fascinação, acenos de veladas formosuras! Fugia-lhe para aquem a

imaginação; impellia-o para a Europa, para este foco esplendido de

civilisação, a vontade intelligente e possante. Diz um seu parente e

amigo:

«Mas em quanto o paiz e o governo, apreciando devidamente os seus

serviços, se compraziam em vêl-os continuar, elle olhava tudo isso com

um certo ar de indifferença! Não lhe podia embriagar a melhor posição,

em que aqui estivesse collocado. O seu desejo, a sua ambição toda era

ir á Europa. Desde menino era este o seu unico e maior desideratum.

Elle lia, escrevia, fallava, andava, dormia, sonhando sempre Lisboa.

Bem sabia elle que lá o esperava um futuro brilhante--um vasto

horisonte para os seus vôos gigantescos. E não se enganava, E não se

enganou.»[59]

Era a febre do _ignoto_, a fascinação do _desconhecido_ que

o atormentava. A patria era-lhe alguma cousa parecida com um exilio.

Filho da India, a Europa devia ser-lhe madrasta odienta. Pois não.

Era amante fascinadora, era visão esplendida em ancear dolente, em

amargo scismar.

Ha saudades do que nunca se viu. São saudades de um sonho. É o almejar

pela realisação d’elle.

Quem as não tem sentido! Quem em plaga solitaria, não se quedou um

dia, a scismar, com os olhos esbugalhados nos horisontes, e um livro,

algum d’estes livros que nos cáem nas mãos ao desabrochar da vida, que

se consubstanceiam comnosco, que são nossos confidentes, e nós mesmos

na mocidade, e que depois ingratamente esquecemos ou escarnecemos,

aberto sobre o joelho, recebendo as lagrimas ardentes--oh, lagrimas

abençoadas!--que nos deslisam pelas faces ... nem a gente sabe porquê!

Oh dias das minhas amarguras de creança ambiciosa! horas do meu

desespêro solitario e do meu solitario ancear por outros céus e por

outro solo, como eu me recordo de vós, hoje que vos desejára tanto,

hoje que não tenho um colo amigo onde encoste a fronte enfebrecida, um

rosto d’anjo,--oh minha santa e boa mãe!--que me enxugue, encostando-se

ao meu, as lagrimas de sangue que se choram na vida.

Creança taciturna que eu era! Chamam-me triste e scismador. Por doido

me tinham uns pobres alarves que me viam sósinho e immovel passar horas

esquecidas com olhos fitos na amplidão dos mares, sempre com um livro

na mão, sempre com os olhos no horisonte! Quadra terrivel aquella.

Estalava-me o peito com dôres, assustava-se a familia com os receios

de terrivel enfermidade, e o medico cobria-me de mostarda o corpo.

Coitados de todos elles que não me comprehendiam! É que me faltava o

ar no meio d’aquelles ares balsamicos; faltava-me a luz no meio da

primavera, escasseava-me o solo e o céu n’aquellas varzeas solitarias

e sob aquelle céu immenso.

Alguma cousa, como uma nostalgia, era aquillo!

Que louco sonhar!

Perdoae esta triste divagação. É que bem tristes saudades me despertou

uma carta que tenho aqui do pobre Luiz Gomes. Uma carta que vale por

muitos livros. Lêde-a e julgae. A Lamartine a escreveu elle:

Lisbonne le 5 janvier 1867.--Monsieur.--Je suis né dans l’Inde

orientale, dans ce pays qui fut le berceau des poesies, des

philosophies et des histoires, et qui en est a present le tombeau.

J’appartiens á cette race qui composa le Mahabarat et inventa les

échecs--deux oeuvres qui portent en elles quelque chose d’eternel et

d’infini. Mais cette nation qui faisait de ses poèmes ses codes et

formulait la politique en un jeu, ne vit plus. Elle survit imprisonnée

dans sa patrie épuisée par sa fécondité et obscurcie au milieu de

l’éclat de sa gloire. En se débattant contre les barreaux de sa cage,

cet oiseau a perdu ses plumes qui le faisaient remonter au-dessus

de l’Hymalaia; en pleurant la liberté qu’on lui a dérobée et la

lumière qui l’a fui, ce rossignol a oublié son chant dont les notes

retentissaient dans le ciel.

Je demande pour l’Inde la liberté et de la lumière! pour moi plus

heureux que mes compatriotes, je suis libre. _Civis sum._

Ces titres, monsieur, étaient assez pour me recommander à vous qui

admirez ma patrie et aimez l’humanité.

Il y en a encore d’autres: j’ai lu vos _Confidences_ et tout ce

que vous avez écrit jusqu’ici. Cette lecture ne m’a pas enivré; elle

a fortifié mon âme en la charmant; elle ne m’a pas ébloui; elle m’a

éclairé. Emouvoir la nature par la nature c’est la tout votre génie.

Les cordes de votre lyre sont des fibres détendues de votre cœur. Dieu,

homme, nature: voilà ce que j’ai senti en vos livres.

Il y a dix huit ans que j’ai lu l’épisode de Graziella. C’était un

beau jour de mai. Assis sur un roc, je tenais ouvert sur mes genoux le

volume des _Confidences_; un figuier d’Inde, aux feuilles larges

et rondes me voilait de ses ombres; un petit ruisseau bordé de saules

m’envoyait ses murmures plaintifs, de grosses larmes tombaient des mes

yeux sur les pages du livre, en même temps que le figuier, effleuré

par un soufle de la brise y versait le baume des ses fleurs. C’est

qu’en feulletant ce livre, j’avais souslevé un linceul. Il y avait une

morte devant moi. Je voyais le visage blanc et adoré de Graziella et

ses lèvres demicloses qui semblaient avoir prononcé à moitié:--_Je

l’aime, je l’aime, je l’aime_. En répandant sur elle en fleurs

humectées de la rosée des larmes, moi et le figuier, nous lui rendions

les derniers devoirs.

Qui aurait pu dire à cette pauvre fille d’un vendeur de poisson, que

les larmes brulantes dont elle tachait votre volume de _Paul et

Virginie_ lui seraient rendues vingt ans après par des hommes et des

pays aux quels elle n’avait jamais songé? Votre douleur s’est repandus

dans l’orbe comme un nuage. Elle se fond en pluie de larmes sur le

tombeau de Graziella.

Vous n’avez pas écrit cet épisode, vous l’avez découvert. Un cœur de

femme de seize ans le portait; vous frappâtes le cœur et l’épisode en

jaillit tout éclatant de beauté de sa simplicité et de sa naiveté.

Depuis ce jour lá vous faites partie de cette famille idealle avec

laquelle je vis et que j’aime. Vous n’etiez pas seul ici-bas monsieur

de Lamartine, vous avez des frères, des enfants, des parents qui n’ont

pas votre sangue mais qui ont votre âme. Ils ne vous parlent pas, ils

ne vous veront peut être jamais; ils parlent de vous á Dieu, ils prient

pour vous, ils vous donnent les larmes, ce sincère suffrage du cœur.

Avoir des admirateurs c’est un droit du génie; mais pour être cheri de

tant de cœurs, il fallait leur avoir donné le sien tout entier.

Les livres que j’ai l’honneur de vous envoyer sont un témoignage de ma

reconnaissance. Ils ne son bons qu’à cela. Je vous ai écrit moimême de

longues lettres. Vous ne les avez pas reçues, car elles n’étaient pas

destinées à vous être envoyées. C’étaient des extases pleins de pudeur

et de sincerité.

Encore une grâce. J’espère aller à Paris. Ce serait pour moi un des

jours les plus heureux de ma vie celui au j’aurais le plaisir de

voir l’écrivan qui a touché le plus les fibres de mon cœur et de

dire--_Virgilium vidi tantum!_--De l’amour aux personnes et aux

choses, au desir de les voir il n’y a qu’un pas. Votre voyage en orient

en est la preuve.

Un des mes compatriotes, mr. Avila, que a bien voulu être auprès de

vous l’interprete des mes sentiments de respect et de reconnaissance

m’a remis le buste que vous avez en la complaisance de m’offrir. Je ne

saurais trop vous remercier de tant de bonté! Le souvenir de tout ce

que vous avez écrit anime pour moi ce visage immobile et sculpté en

pierre, et répand sur ses traits un jour sans ombre.

J’ai l’honneur d’être, monsieur--Votre très humble serviteur et sincère

admirateur--_Francisco Luiz Gomes_.

Esta carta foi entregue a Lamartine por um compatriota e dedicado amigo

do escriptor portuguez, o engenheiro architecto Avila. A elle devo

tambem uma cópia. Profundamente commovido findou o poeta a leitura

d’ella com os olhos rasos de lagrimas e exclamando:

«Très jolie!... très jolie!... très jolie!... charmante!...

charmante!... charmante!...

Votre ami est un vrais talent. Quel âge a-t-il? Je desire bien lui

voir.»

Francisco Luiz Gomes conseguira vêr realisado o seu ardente desejo

de vir á Europa. Eleito deputado ás côrtes em 1859, tomou assento no

parlamento no anno seguinte, e não ficou, como tantos outros, immergido

na obscuridade, mal estremecida pelas palestras e pedidos de campanario

antes da ordem do dia.

N’aquelle logar para onde a desmoralisação e ignorancia publica, e

o feudalismo dinheiroso da burguezia atira em cada eleição tantos

alarves que melhor andariam á rabiça do arado do que ás cangas dos

governos e das facções; n’aquelle logar, onde a intelligencia, o

estudo comprovado, e a honestidade firme deviam ser unicos titulos

de admissão, e onde mais avultam pelo contrario os do pedantismo, da

velhacaria e da ignorancia lorpa, Francisco Luiz Gomes começou de

certo a sentir as amarguras e nojos da vida politica em Portugal,

mas soube afastar-se das mediocridades mudas e das mediocridades

verbosas, e conquistar breve e brilhantemente um nome entre os homens

verdadeiramente illustres pelos seus talentos, estudos e trabalhos no

parlamento, que todos lhe estenderam, sem distincções partidarias,

cordealmente a mão. Revelou-se orador fluente, consciencioso e elevado,

tratando as questões á altura dos principios e procurando emancipar-se

da _pelotica_ de nomes que é quasi toda a politica portugueza.

Reeleito varias vezes deputado, o seu nome foi mais de uma vez

lembrado em occasião de crise ou formação de ministerios, e não

andava ainda a governação publica rebaixada ás condições rasteirinhas

do officio de cortador _economico_ ou de marçano financeiro

em proveito de qualquer entidade bruta ou pedante. Collaborador na

_Revolução de Setembro_ e redactor da _Gazeta de Portugal_,

a sua posição na imprensa politica não foi menos digna nem menos

brilhante do que na vida parlamentar. Os estudos economicos,--e já é

necessario quando se pronuncia esta palavra, declarar que se falla da

sciencia,--attrahiam-n’o e prendiam-n’o. Nas viagens que fez a Pariz

e a Londres teve occasião de relacionar-se com notaveis economistas e

entre outros com Miguel Chevalier, a quem dedicou o seu _Essai sur la

théorie de l’économie_, etc.

E já que d’este livro fallei, vem a proposito formular aqui a lista das

obras do distincto escriptor portuguez, pela ordem chronologica da sua

publicação:

1.^o _De la question du coton en Anglaterre et dans les possessions

portugaises de l’Afrique occidentale_, etc.--Lisbonne--Impr. de la

societé typ. Franco-Portug. 1861. 8.^o gr.--32 pag.

2.^o _A liberdade da terra e a economia rural da India

portuguesa_, etc.--Lisboa--Typ. Universal--1862. 8.^o peq.--102 pag.

É dedicado ao snr. José da Silva Mendes Leal, então ministro da marinha.

3.^o _Os brigadeiros Henrique Carlos Henriques e Joaquim José Xavier

Henriques.--Esboço historico_, etc.--Lisboa--Typ. Universal--1863.

8.^o peq.--39 pag.

É dedicado á ex.^{ma} snr.^a D. Anna M. d’Almeida Henriques.

4.^o _Os Brahmanes.--Romance_, etc. Lisboa--Typ. da _Gazeta de

Portugal_--1866. 8.^o, peq.--IX--315 pag.

É dedicado ao fundador e redactor da _Gazeta_, o snr. Antonio

Augusto Teixeira de Vasconcellos.

5.^o _Essai sur la théorie de l’économie politique et de ses

rapports avec la morale et le droit_, etc.--Paris (Impr. de E.

Martinet)--1867. 8.^o gr.--XII--232 pag.

É dedicado a M. Michel Chevalier.

6.^o _Le Marquis du Pombal_, de que adiante fallarei e que é de

certo a obra mais importante de Francisco Luiz Gomes. Uma outra inedita

e incompleta deixou elle, dizem-me,--sobre a historia da administração

na India portugueza. Aqui devo registrar o meu agradecimento ao meu

talentoso e bom amigo, e que o era tambem do pobre Luiz Gomes, José

Paulo Diniz, pelos esclarecimentos que obsequiosamente me forneceu.

Atormentado por enfermidade terrivel, a que não puzera termo o

tão apregoado clima da Madeira, o illustre indiano abandonou

a arena politica, e depois de concluir precipitadamente o seu

livro _Le Marquis du Pombal_, pobre e sem collocação social

aqui, que lhe assegurasse a subsistencia,--que tal é geralmente o

futuro de quem em Portugal estuda e se entrega a estes labores da

intelligencia,--resolveu regressar á patria, porventura com bem amargas

decepções dos sonhos com que de lá viera inebriando-se. A ultima

vez que o vi foi no «Gremio Litterario», recostado n’uma poltrona,

emmagrecido e atormentado, como se lhe andassem a tortural-o as agonias

do esfacelamento da morte. E andavam de certo. Pungia profundamente

vêl-o assim. Nomeado commissario dos estudos, creio, para a sua terra

natal, escrevia-me elle dias depois a sua primeira carta.

Ausentára-se por alguns dias da redacção o nosso amigo A. R. de

Sampaio, e dirigia-se-me elle por isso, para me pedir que fizesse

publicar-lhe a carta, aquella bella e triste carta, que de certo não

esqueceram os leitores da _Revolução_. Era um adeus á beira do

tumulo.

Eu nunca fallei a este homem.

Em fainas diversas andavamos mourejando, que nunca nos appareceu

occasião de nos encontrarmos no trabalho, nem nos sobejou tempo de nos

procurarmos no descanso.

E para que nos haviamos de procurar? Conhecia-mo-nos. Um do outro

sabiamos. Com quanta gente nos correspondemos, n’esta vida do estudo e

do trabalho litterario, sem que nunca se tocassem as mãos? E nem por

isso são menos profundas as affeições.

A India portugueza vestiu-se de lucto, desde Gôa a Dio, ao saber da

morte do seu filho extremoso.

É que aquelles povos lhe deviam muito. Advogado leal dos seus

interesses, a sua morte foi profundamente sentida e a dôr que ella

produziu manifestou-se eloquentemente.

Se não me escasseasse o espaço registrava aqui as innumerosas

manifestações de pesar de que nos dão noticia os jornaes indianos.

A mocidade estudiosa, a briosa população das aulas, não ficou

indifferente á perda do seu illustre professor. Entre outras

manifestações dignissimas eu colloco acima de todas uma de que apenas

ligeira noticia tenho: a da fundação d’um premio escholar, intitulado

premio «Luiz Gomes».

Era Francisco Luiz Gomes membro do _Bombay branch of the asiatic

society_, associado estrangeiro da _Société d’économie

politique_, e proposto havia sido recentemente para socio da

academia das sciencias de Lisboa, d’esta curiosissima academia que

escancara triumphalmente as portas a qualquer fazedor de versinho

piegas e as conserva calafetadas contra muitos dos homens mais

talentosos ou mais estudiosos do paiz, como Sampaio, Theophilo Braga,

João de Deus, e tantos outros.

Ao menos lembrára-se um homem, o snr. conde d’Avila, do nome

respeitavel de Francisco Luiz Gomes.

LE MARQUIS DE POMBAL--ESQUISE DE SA VIE PUBLIQUE--_par

Francisco Luiz Gomes, etc. Lisbonne, imprimerie Franco-Portugaise,

1869--In 8.^o gr.--377._

Saudei um morto. Vou fallar rapidamente de um livro que foi a sua

despedida e é o seu monumento. Volvo a este modesto cantinho onde tenho

affirmado uma causa que julgo grande e util. Affirmação bem modesta

tambem, que me tem angariado por ahi certos amuos e odiosinhos de

varias excellentes pessoas que, a par do guindado dos seus respectivos

renomes, da official respeitosidade dos seus letreiros litterarios, da

grandiosidade dos seus bestuntos e infusa sciencia, e das mais partes

de que resam as decretaes do elogio mutuo e da ignorancia geral, teem

realmente bem singulares pequenices d’animo, bem tristes atarracamentos

de consciencia.

Quizilam-se por exemplo devéras, e desnorteam ás vezes, com o dizer-lhe

simplesmente um pobre homem, humildemente apoiado nos livros, o

que pensa, sente e sabe de tantas grandezas e prosapias. E peior é

que alguns d’estes grandes sujeitos, se encolhem e agacham até se

confundirem com certos vermesinhos repugnantes, e gastam o tempo e as

portentosas sapiencias em intrigar a occultas como qualquer simples

mortal, e a morder á traição como qualquer canito velhaco. Aguias

imponentes a quem o sol incommóda, que estonteam guindadas ás alturas

onde deviam viver, que se confundem umas vezes com empavesados perus, e

outras com enraivecidas gallinhas.

Ridiculos e maus!

Gente perdida pela vaidade desbragada, e que não comprehende que a

honra a critica, embora a corrija e castigue; que póde respeital-a e

estimal-a o critico, sem que tenha de infamar a sua missão, e mentir

á dignidade da sciencia e da consciencia, fazendo d’esta ventoinha á

mercê das conveniencias e relações pessoaes, e d’aquella thuribulo de

fetiches pêcos.

Ridiculos e maus!

Gente desleal e obsecada, que não sabe respeitar nem quer comprehender

a independencia de caracter, a franqueza de opinião, o amor do estudo

e do trabalho, o culto desassombrado da verdade critica, e que,

hypocritas, se pregoam apostolos e exemplares de tudo isso. Sabem elles

sequer, o que tudo isso é?

Ridiculos e maus!

Mas longa vai a digressão. Francisco Luiz Gomes não era de certo

d’esses vaidosos obsecados, e vivo que elle fosse, podéra eu fallar

desassombradamente da sua obra, que não tinha elle aprendido nem

lhe soffreria o animo que aprendesse, com certos escrevinhadores

empavesados, a proclamar a inviolabilidade das suas obras e opiniões á

custa da inviolavel liberdade do pensamento e da palavra dos outros.

Ha um monumento a levantar a um grande vulto portuguez. Monumento que

seria lição e exemplo, como devem ser hoje os monumentos erguidos

á memoria d’um homem. A _estatua_ não, que é anachronica, e

irracional perante o espirito moderno. A estatua comprehendia-se na

Grecia anthropomorphica, como disparatava na meia-edade mystica.

O monumento de que fallo seria um livro ou antes muitos livros. A

historia imparcial, exacta, _documentada_, da administração de

Sebastião José de Carvalho emfim. A publicação official e franca e

completa dos documentos d’essa administração singular, que é a um

tempo affirmação cathegorica e firme da monarchia burguesa e absoluta

já em meio quasi da tempestade crescente da Revolução, e quadra de

emancipação, reformação e de preparação d’um futuro positivo: seria um

grande serviço á historia e uma proveitosa lição a todos.

Ennegrecido e escalavrado pela diffamação rancorosa e calumniosa,

exalçado e aureolado pelo fanatismo do _heroworship_ parvo, o

vulto de Sebastião José de Carvalho pertence mais á lenda popular e á

critica parcialissima dos partidos, do que á historia séria, fria,

desapaixonada e philosophica. E grande vulto é de certo: vulto enorme,

que tomando das mãos d’uma realeza imbecil ou fraca, o sceptro de

ferro, traça com elle uma periféria grande e luminosa no tempo e no

espaço. Lá fóra podem estudar-se facilmente as administrações de homens

como Colbert, Sully, Turgot, nas publicações officiaes dos documentos

que elles firmaram com seus nomes.

Aqui deixam-se apodrecer n’uns archivos impossiveis as paginas da nossa

historia politica, que publicadas, esmagariam uns sujeitinhos patriotas

que entre o ferrar alimarias e o governar uma nação não acham distancia

sensivel ás aspirações velhacas das suas lorpissimas pessoas.

A obra de Francisco Luiz Gomes é um nobre e grande esforço. Andou o

pobre escriptor a acabar de estragar os pulmões com o pó e a humidade

d’esses _archivos_ inauditos, folheando os bolorentos papeis

d’onde se vão obliterando tantas coisas não sabidas e que tanto

conviera saber, perdendo a vista e cansando o espirito na decifração

e reconstrução d’esse drama a um tempo medonho, e ridiculo, enorme,

ensanguentado, risivel, monstruoso, representado em Portugal no seculo

passado: e conseguiu dar-nos a final um livro, que como dissemos, é uma

despedida,--este o seu grande defeito,--com a precipitação do anceio,

as indecisões e hesitações da soffreguidão, o incompleto, emfim, de

quem sente avisinhar-se a hora da partida e tantas coisas tem ainda

para dizer, e teme lhe falte o tempo para o adeus que será o ultimo.

De certo o trabalho de Francisco Luiz Gomes na exposição e na critica

dos factos é o melhor--o mais complexo e exacto se póde dizer-se

assim--de quantos ha sobre a vida publica do marquez de Pombal.

Mas é um esboço--como o proprio auctor reconheceu--, um bello esboço

na verdade, onde se denunciam as hesitações da concepção e do lapis, e

o apressurado da execução, a par de certos traços firmes e de certos

pontos de composição desafogada e original.

Como historia d’um momento gravissimo, não só na vida nacional como na

vida europea, o livro de Luiz Gomes tem muito de biographia, e tambem,

deve dizer-se, esta ultima feição lhe quiz principalmente dar o auctor.

Como biographia mantém-se quasi exclusivamente nas exterioridades da

acção politica, e mal nos revela uma ou outra intimidade da acção

individual.

Não foi assim que Audin escreveu a vida de Luthero. Não esqueceu pelo

reformador, pelo revolucionario, o filho, o esposo, o pae, o amigo.

Assim como a historia d’uma nação n’um dado momento exige o estudo

das anterioridades, que constituem por assim dizer a genese do modo

de ser actual, a historia da acção politica de um homem exige, para

ser completa, exacta, imparcial e instructiva, a averiguação do

_meio_ e da _pessoalidade_ intima, deixem dizer assim. É

cousa importantissima esta.

Ainda tendo em conta de systema philosophico a theoria dos Charlyles

de todos os tempos e paizes; ainda crendo que homens extraordinarios

appareçam ás vezes incumbidos sobrenaturalmente d’uma missão

revolucionaria, e ao impulso da sua intelligencia e da sua vontade

inspirada revolvam a sociedade e marquem á historia horisontes

providenciaes, ha de concordar-se que taes homens, encontrando

uma sociedade feita, isto é, tradições, consciencias, vontades e

intelligencias laborando, hão de assimilhar moralmente elementos

favoraveis, e topar com energicas resistencias, que fatalmente

transparecem na sua supposta acção sobrenatural, explicam esta na

historiographia das civilisações, e a ligam criticamente á anterior

acção da humanidade.

Accrescente-se a isto ainda a propria natureza individual.

Ora exactamente no livro de Luiz Gomes a exterioridade, a acção social,

a acção revolucionaria, revelando-se por vezes, firme e largamente,

não deixa logar ao relevo da _pessoalidade_, e ao panorama do

_meio_, em que tal acção se gera e desenvolve.

Acontece, pois, que temos face a face, quasi sempre, o estadista com a

mascara politica afivelada, em _meio_ mal conhecido, e por isso

sob influencias e com intentos mal indicados.

E um inconveniente mais se revela ainda. Homem enthusiastica e

profundamente liberal, Luiz Gomes encontrou-se muitas vezes em terrivel

antagonismo com as doutrinas e medidas do ministro que fallava em nome

do _poder real_ supremo e absoluto, _directamente recebido de

Deus_, como diz a formula official. É uma das grandes difficuldades

que tem a vencer o historiador, a de calar as suas paixões e crenças

partidarias perante factos que as desmentem e indignam, mas que têem

uma justificação, uma razão de ser legitima e natural no logico

desenvolvimento da acção humana atravez do tempo e do espaço.

E como diz Spinosa, a violencia d’aquellas paixões combinadas de mais

com as influencias do _meio_,--social, n’este caso,--é tal,

que não póde dominal-a o homem. «_Vis et incrementum cujus cumque

passionis, ejusque ni existendo, perseverantia definitur potentia

causæ externæ cum nostra camparata adeoque hominis potentiam superare

potest._» (Sp. cit. por Lermenier.)

Se o homem é um historiador, a historia é falseada.

Mas ao lado do mal, o illustre judeu, indica o remedio, remedio

difficil de que muitas vezes não consegue ou não lembra lançar-se mão:

«_Affectus coerceri nec tolli potest nisi per affectum contrarium et

fortiorem affectu coercendo._»

Ao profundo amor da liberdade, opponha o historiador, mais profundo

amor da verdade e da dignidade da historia. Quão poucos fazem isto?

Procurou fazel-o Luiz Gomes, caracter honesto e consciencioso, que,

como elle proprio diz, só affirma aquillo de que está perfeitamente

convencido; que tentou o assumpto com os sentimentos mais calmos, e

procurando evitar qualquer impulso estranho ou hostil; que finalmente

procurou com ardor a verdade. E conseguiu-o muitas vezes. No conflicto

das suas doutrinas economicas com as aberrações monopolistas e

proteccionistas de Sebastião José de Carvalho, tremeu-lhe mais de uma

vez a penna, e não pôde deixar de escrever eloquente condemnação, que

infelizmente nem sempre é justa, se attendermos ao espirito da época e

ao modo de ser economico da sociedade portugueza do seculo passado. E

não nos devemos deixar fascinar pelas brilhantes theorias da economia

politica, sciencia ou antes esplendido ramo da sciencia social, que

não está completo ainda, porque esta não se acha ainda solida e

positivamente constituida.

É sobretudo louvavel o desassombro com que Luiz Gomes desmente certas

lendas patrioticas de que se tem aureolado o vulto de Carvalho, e

com que apea este das altitudes de semi-deus, onde os hão guindado

preconceitos e fanatismos absurdos. O _Marquez de Pombal_, de Luiz

Gomes, é simplesmente um homem, um grande homem, uma intelligencia

robusta, e tenaz, sujeita como todas a deploraveis erros; uma vontade

possante, energica, como todas sujeita a hesitações e fraquezas. O

longo drama da expulsão dos jesuitas é cuidadosa e largamente esboçado,

e na horrivel tragedia dos Tavoras, vê-se o coração generoso de Luiz

Gomes estremecer de indignação, mas dominado pela consciencia austera

do historiador.

Precavendo-se, porém, contra o vulgar exagero do panegyrico,

com relação a Carvalho, Luiz Gomes, parece-me ter-se aproximado

involuntariamente do defeito contrario; ter olvidado muitas legitimas

glorias d’aquelle homem e da administração d’elle, ou ter passado

por ellas com rapidez demasiada, ao passo que é minucioso,--e devia

sel-o,--na exposição das faltas, das contradicções e até dos

crimes de Sebastião José de Carvalho. E finda a leitura do livro,

fica-nos vacillante e incommodada a consciencia, como se não lograsse

attingir a synthese d’aquelle quadro. E não attinge de certo. É que

aquillo,--repetimos,--é simplesmente um esboço, com o incompleto de tal

trabalho.

A parte critica principalmente é frouxa e superficial, talvez por não

assentar em estudo anterior, desenvolvido e profundo da sociedade

politica e da pessoalidade intima.

Escripto com a natural elegancia e fluencia de estylo de Luiz Gomes, o

livro póde apresentar numerosos defeitos na lingua em que é escripto,

que não me pertence averiguar agora. Sei simplesmente que ha alli

paginas escriptas com uma eloquencia espontanea e commovedora.

Falta a esta obra uma cousa importantissima. É a _notação_.

Curiosissimos documentos teve nas mãos Luiz Gomes, que muito era

para desejar vêr em parte, pelo menos copiados alli, e além d’isso

a comprovação, ou pelo menos a indicação documental tem numerosas

vantagens e dá a obras d’esta natureza maior auctoridade. Ainda n’isto

se denuncia a precipitação com que foi feito este trabalho. Sei eu, e

não posso lealmente calar, que o pobre Francisco Luiz Gomes reconhecia

estas imperfeições da sua obra, e muito hesitou em dar-lhe publicidade,

visto que o deteriorado estado da sua saude não permittia que fizesse

as correcções e désse á obra uma derradeira demão.

A administração de Sebastião José de Carvalho ha de ainda servir de

thema para muitos livros.

Ainda ha pouco sahiu dos prélos de Coimbra um opusculo de Emygdio

Garcia, de que terei occasião de fallar sobre aquelle assumpto que de

certo é um dos mais importantes da nossa tão esquecida historia moderna.

O livro de Luiz Gomes será, creio, por muito tempo, o melhor trabalho

analytico sobre o grande reformador portuguez, e de excellente guia

póde servir a quem queira estudar aquelle vulto extraordinario fóra da

lenda popular, e do panegyrico ou da verrina facciosa.

Segundo livro de crítica · 第 93 / 103 题