A revolução religiosa banira do theatro os _mysterios_.
O mysticismo medival--abandonava aquella tribuna.
A época arrancára o manto ascetico á arte, e esta apparencia trajada
_a la moda_ por mãos habeis, transfigurada na concepção
shakspeariana: a duvida, a ambição scientifica para desvendar o
_ignoto_, para fixar o vago, para conhecer o _immenso_, o
fatalismo funccional da natureza, a laboração sensorial intercortada
pelo antagonismo dos estimulos, a lucta psychologica da tradição
com os novos elementos sociaes, lucta que ora produz nas vontades e
nas intelligencias a indecisão,--doudice _contemplativa_,--a
neutralisação, se póde dizer-se assim, das vibrações cerebraes, eguaes
e contrarias, ora a allucinação, a paixão, a concentração da ideia, a
perda da _harmonia nervosa_ (Broussais), o predominio absoluto,
n’um momento dado d’uma cellula, que vibrou violentamente á voz d’uma
violenta excitação peripherica, ou d’um violento _estimulus_
interior.
Entre todas as obras,--collossaes todas,--de Shakspeare, avulta,
destaca-se uma figura sombria; tragica para uns, heroica e graciosa
para outros,--e a maioria dos commentadores allemães está d’este
lado,--impertinente, absurda quasi, para alguns, enigmatica para todos,
immensa como o dramaturgo inglez.
Proteotica creação!
Quando não é um corpo, é uma visão; quando não é uma visão, é uma
reminiscencia, uma ameaça, um lamento, um suspiro, um _flatus
vocis_, um vaporsinho, como a _aura_ com que a velha
physiologia explicava a acção nervosa.
Quando se não vê, ouve-se; quando se não ouve apalpa-se; quando não se
apalpa, aspira-se, adivinha-se até:
_Hamlet!_
Nos enleios de Julieta, nos desesperos de Romeo, na tormenta inaudita
do coração de Othello, no cynismo do _honest’ Yago_, na gargalhada
de Falstaf, no «Macbet», na «Comedy of Errors», nos «Henry IV», «Henry
V» e «Henry VI», no «King Lear», no «Midsummer night’s dream», na
«Tempest», por toda a parte, emfim, sempre _Hamlet_!
Hamlet apparece-nos uma vez, completo, grande, distincto.