que escondia a India.
O mundo moderno sahia da incubação enorme.
A Europa acordava. Derrubava a cella estreita, as grossas paredes do
castello feudal, e aspirava soffregamente as auras da liberdade.
A voz possante do frade de Manfeld troava ainda por sobre a terra e
o mar, como fluctuava o espirito do deus judaico por sobre o cahos
inicial.
Guttemberg construíra o pharol immenso, de cujos reflectidores o
pensamento humano reverberava a immensa luz.
A arte secularisa-se. Os pobres pescadores galileos haviam descido das
cupulas das basilicas para receber de Veroneso a purpura dos doges
e irem no «paraizo sensual»[47] de Tintoreto banquetear-se como os
_immortaes_ do Olympo.
Nos labios das _virgens_ de Raphael brincava o sorriso da
Fornarina, e Roma, a prostituta papal, apeára na igreja de Santa Maria
del Populo o quadro da _madona_ para o substituir pelo seu na
figura de Venozza.
Os _fundos-d’ouro_ haviam desapparecido com as figuras asceticas
da arte medival. O panorama surgira na tela, alargára-se, expandia-se
ao impulso do pantheismo nascente.
A sciencia secularisa-se tambem. Como o Virgilio, transfigurado pelo
pensamento da meia-edade, acompanhára Dante na peregrinação tenebrosa,
até ás portas do céo christão, o Aristoteles assimilhado pela
escholastica, falseado pelo mysticismo, abandonava o homem ao assomar
para este a luz da _vita nuova_ ou da nova ideia.
Para que tudo confirmasse a transição, Juste Lipse, o _ecletismo_,
a philosophia da dissolução social, tergiversava, sophismava,
compillava, procurava conciliar tudo e não creava nada.
Erguiam-se sobre o cahos vultos gigantes como os de Galileo, de Kepler,
de Bacon, de Montaigne.
Tremenda era a lucta.
O demonio que alta noute torturava Luthero:--_multas noctes mihi
satis amarulentas et acerbas reddere ille novit_,--fazia verter
ainda a muitas frontes aquelle suor de sangue que o véo nupcial de
Catharina de Bora não conseguira talvez enxugar na face do frade
revolucionario.
Outro, porém, era o pensamento que vibrava no cerebro possante do
seculo XVI: outra a ideia que agitava as vigilias dos campeões do
futuro.
«Il Pensieroso», de Miguel Angelo, não se extorce aterrorisado ante as
visões pavorosas do Dante:--o homem medival.
Revolve-se-lhe lá dentro um mundo novo, e os collossos de pedra, que o
cercam, parecem esperar que o pensador acorde da longa meditação e lhes
sopre a vida com o enthusiastico _Eureka!_
O pensamento humano não descia já com o santo irlandez (Patrick),
nem com o poeta italiano ás regiões temerosas e pestilentas, aos
_lugentes campi_ (Virgilio), á _cittá dolente_ (Dante),
onde ha o eterno ranger de dentes, o trabalho e o _tristor_ dos
precitos.
Volvia olhos agradecidos para a natureza, saudava a Ceres fecunda e
eterna, a grande mãe, e bradava com o padre Lourenço do _Romeo and
Juliet_:
The earth, that’s nature’s mother, is her tomb
What is her burying grave, that is her womb; etc.
--«Da terra nasce tudo, e tudo volve a ella. É berço e tumulo. Immenso
é o dom que tem as plantas, as pedras e as suas verdadeiras qualidades.
Tudo o que na terra existe tem uma razão de ser.»
Ou estremecia ante o vago, o _ignoto_, o immenso, e murmurava com
Hamlet, o _Pensieroso_ do norte:
To be or not to be, that is the question.
Um homem dizia:
«Esta batalha recorda a hora indecisa da manhã em que a treva moribunda
lucta com a luz nascente ... e que não sendo já noite não é dia ainda.
Semelha um vasto mar, que agitado pelo fluxo, ora lucta violentamente
contra o vento, ora recua ante a violencia do adversario. N’um momento
é a vaga que vence, n’outro é o vento que triumpha. Combatem corpo
a corpo, a vêr quem vencerá e não ha vencedor nem vencido ... Vou
sentar-me n’este outeiro...»