Dolce color d’oriental affiro.[46]

que escondia a India.

O mundo moderno sahia da incubação enorme.

A Europa acordava. Derrubava a cella estreita, as grossas paredes do

castello feudal, e aspirava soffregamente as auras da liberdade.

A voz possante do frade de Manfeld troava ainda por sobre a terra e

o mar, como fluctuava o espirito do deus judaico por sobre o cahos

inicial.

Guttemberg construíra o pharol immenso, de cujos reflectidores o

pensamento humano reverberava a immensa luz.

A arte secularisa-se. Os pobres pescadores galileos haviam descido das

cupulas das basilicas para receber de Veroneso a purpura dos doges

e irem no «paraizo sensual»[47] de Tintoreto banquetear-se como os

_immortaes_ do Olympo.

Nos labios das _virgens_ de Raphael brincava o sorriso da

Fornarina, e Roma, a prostituta papal, apeára na igreja de Santa Maria

del Populo o quadro da _madona_ para o substituir pelo seu na

figura de Venozza.

Os _fundos-d’ouro_ haviam desapparecido com as figuras asceticas

da arte medival. O panorama surgira na tela, alargára-se, expandia-se

ao impulso do pantheismo nascente.

A sciencia secularisa-se tambem. Como o Virgilio, transfigurado pelo

pensamento da meia-edade, acompanhára Dante na peregrinação tenebrosa,

até ás portas do céo christão, o Aristoteles assimilhado pela

escholastica, falseado pelo mysticismo, abandonava o homem ao assomar

para este a luz da _vita nuova_ ou da nova ideia.

Para que tudo confirmasse a transição, Juste Lipse, o _ecletismo_,

a philosophia da dissolução social, tergiversava, sophismava,

compillava, procurava conciliar tudo e não creava nada.

Erguiam-se sobre o cahos vultos gigantes como os de Galileo, de Kepler,

de Bacon, de Montaigne.

Tremenda era a lucta.

O demonio que alta noute torturava Luthero:--_multas noctes mihi

satis amarulentas et acerbas reddere ille novit_,--fazia verter

ainda a muitas frontes aquelle suor de sangue que o véo nupcial de

Catharina de Bora não conseguira talvez enxugar na face do frade

revolucionario.

Outro, porém, era o pensamento que vibrava no cerebro possante do

seculo XVI: outra a ideia que agitava as vigilias dos campeões do

futuro.

«Il Pensieroso», de Miguel Angelo, não se extorce aterrorisado ante as

visões pavorosas do Dante:--o homem medival.

Revolve-se-lhe lá dentro um mundo novo, e os collossos de pedra, que o

cercam, parecem esperar que o pensador acorde da longa meditação e lhes

sopre a vida com o enthusiastico _Eureka!_

O pensamento humano não descia já com o santo irlandez (Patrick),

nem com o poeta italiano ás regiões temerosas e pestilentas, aos

_lugentes campi_ (Virgilio), á _cittá dolente_ (Dante),

onde ha o eterno ranger de dentes, o trabalho e o _tristor_ dos

precitos.

Volvia olhos agradecidos para a natureza, saudava a Ceres fecunda e

eterna, a grande mãe, e bradava com o padre Lourenço do _Romeo and

Juliet_:

The earth, that’s nature’s mother, is her tomb

What is her burying grave, that is her womb; etc.

--«Da terra nasce tudo, e tudo volve a ella. É berço e tumulo. Immenso

é o dom que tem as plantas, as pedras e as suas verdadeiras qualidades.

Tudo o que na terra existe tem uma razão de ser.»

Ou estremecia ante o vago, o _ignoto_, o immenso, e murmurava com

Hamlet, o _Pensieroso_ do norte:

To be or not to be, that is the question.

Um homem dizia:

«Esta batalha recorda a hora indecisa da manhã em que a treva moribunda

lucta com a luz nascente ... e que não sendo já noite não é dia ainda.

Semelha um vasto mar, que agitado pelo fluxo, ora lucta violentamente

contra o vento, ora recua ante a violencia do adversario. N’um momento

é a vaga que vence, n’outro é o vento que triumpha. Combatem corpo

a corpo, a vêr quem vencerá e não ha vencedor nem vencido ... Vou

sentar-me n’este outeiro...»

Segundo livro de crítica · 第 80 / 103 题